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Full text of "Obras completas de Filinto Elysio"

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Presented to the 

UBRARY ofthe 

UNIVERSITY OF TORONTO 

by 

Professor 
Ralph G. Stanton 







Digitized by the Internet Archive 

in 2009 with funding from 

University of Toronto 



http://www.archive.org/details/obrascompleta3delOelys 



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OBRAS COMPLETAS 



DE 



FIUNTO ELYSIO. 



OBRAS COMPLETAS 



DE 



FILINTO ELYSIO. 



Tomo Xo. 



PARIS. 

Na officina de A. BOBÉE. 



1815;. 



SUCCESSOS 

DE 

MADAMA DE SENNETERRE 

POR ELLA REFERIDOS. 

yo ANívo t>E 1700» 



Tom. A. 



A SENHORA 

». MARIA AIVTOÍÍIETTA MATHEVON DE CURIVIEU. 

ODE. 



Que tão queridos tiuha e tão mimosos. 

Camões. Canto 3o. 



vJle vále á vida enthesonrada cópia 
De cunhado metal ? Oh nól>re dextra , 
A que com sizo o esparge pelos sótãos* 
Da encolhida pobreza! (i) 

Compra a fama com dons o que abre os cóíTres 
Para ajudar talentos desvalidos 
A dar á luz os -uadros da Virtude 
Pela arte aíTormosados. 

Tu delicia do Esposo, de Irmãos glória. 
Do Páe retrato delicado e vivo , 
Aos Filhos que amas com carinho puro 
Da puro e grato ensino. 

■.erm , l„r.,„ elle le. élend pour s„ul„ger le ™alí«„reu,, 

leUre (VEliza à Yotick 



X 



IVesfa Dama tens rasgos engenhosos, 
Em Ti os tens melhores; e uma e outra 
Co exemplo , co'a leitura , s*êde os me'stres 
Dos mimosos Infantes, 

Com teu auspicio acceite em versão Lusa 
A grata Senneterre ir dar transumpto 
Ir dar consolação a nobres peitos, 
Da Gratidão sacrários. 

FiLIKTO ElTSIO, 



(5 1 

SUCCESSOS 

DE 

MADAMA DE SENNETERRE, 

POR ELLA REFERIDOS. 



vi AsciDA na Ilha de S- Domingos , me mandou 
meu Páe a França , onde recebesse a educação , que 
elle com avultados cabedáes não conseguira que 
junto delle me fosse dada. Vivem naquellas terras 
ardentes tão soltamente os homens com suas es- 
cravas , que receou sem duvida meu Páe em mim 
o eíFeito das primeiras aífeições , tão perigosas 
sempre nos poucos annos. Tinhamos parentes em. 
Paris , em cuja casa me apeei cora meu Irmão , 
que me accompanhou na viagem , e tinha então 
de idade 25 annos , quando eu só dez. 

Passados alguns dias de repouso , e despendidas 
algumas semanas em ver quanto em Paris pôde em- 



(6) 
helezar uma menina como eu , me mettérão edu- 
canda n'um convento. Muitas vezes ouvi declamar 
contra a educação que nelles se recebe ; eu porem 
sem razão me queixara , nem me deslembrarei da 
gratidão que devo a sór N. de Sancta Úrsula. Perdi 
quanto me dera a fortuna ; mas toda a minha vida 
conservarei o fructo das lições dessa respeitável 
soror. Quando no convento entrei , nada sabia , 
nem ainda ler : não ignorava comtudo que era lindaj 
nem podia occultar-me que era ricca a prodi- 
galidade que meu Páe comigo usava. Tendo adqui- 
rido hábito de mandar , não me dobrava a obe- 
decer , e de mui occupada de mim só , cabia ser a 
todos mais insnpportavel. 

Apenas passado um mez , ]á todas as minhas 
comj)anlieiras me detestavão j o que pouco me 
abalava j que não sentia ainda eu a carência da 
amizade , e como desde a infância me tinhão adivi- 
nhado os pensamentos , nenhum movimento de 
sensibilidade 5 nem ainda !nesmo acerca de meu 
Páe, tinha eu ainda experimentado.Dava-me mimo, 
e eu não o amava com veras : que assim vai o uso. 
Sobeja condesrendencia para com os filhos produz 
o, mesmo effeito ^jue sobeja severidade. Por neces- 
sária consequência amava , e respeitava eu muito 
a meu IriiiHO , que único até então nunca se quiz; 
submetter a meus caprichos. Veio elle vêr-me. 



C7 ) 
Cr eu lhe pedi que me tirasse do convento que me 

desgostava de morte. Disse-rae ajuizadas razões ; 
puz-me a chorar ; foi-se embora ; fiquei abafando 
de cólera e de despeito. 

Neste estado é que encontrei com Soror de Sancta 
Úrsula , que se compadeceo de mim : e era a vez 
primeira que me senti necessitar de consolação; á 
qual ella condescendeo com tanta brandura , e 
entremeiava com as suas consolações tão ajuizada 
solidez e tão adaptada á alçada da rainha intelli- 
gencia , que reflectir e amar foi caso d'um mo- 
mento. Entregue inteiramente a seus conselhos 
tinha o primeiro castigo , quando tal o merecia f 
no receio de desgostá-la , antes mesmo que ella m'o 
estranhasse. Que vos direi? Em três mezes sós de 
prazo recuperei a amizade das outras educandas , 
mereci os desvelos dos me'stres , que atélli dera 
por venturosos de que os paga&sem para nada me 
ensinarem , e careei a aíTeição da Aia que me 
de'rào, que muita vez se quiz despedir , porque eu 
as mãos lhe punha. Restaurado quasi tinha aos 
doze annosotempoque perdido tinha, eapplaudia 
já meu Irmão os meus progressos , e a mutlança 
de meu ge'nio ; lograva já a Soror de Sancta Úrsula 
o fructo de suas obras •, epara as apeifeiçoar , em- 
penhou seu amor- próprio , inspirando-me mais 
emulação, e mais modéstia. jN' uma palavra, con- 



(8) 
tava eu já \(i amios, quando pela primeira vez me 
fallárão em me despedir do convento : noticia que 
me deo pezar ; porquanto me afíeiçoára ao estudo , 
e mormente ao retiro. Não que a Soror me afíigu- 
rasse a religião como incompativel com o mundo ; 
jacobice que de baixa lhe não entrava na ide'ia ; e 
ella, d' alem sabia que destinada era eu pela minha 
familia a viver na sociedade : pelo que , tão sólida 
quão allumiada era a religiosa piedade que me ins- 
pirou sempre. Sube eu o que erão mágoas, e então 
conheci quanto é superior ás consolações humanas 
a força que no seio da Divindade se grangca. Da 
desgraça nasceria a Religião , se na necessidade da 
gratidão a não tivessem haurido as sensiveis almas. 

Desejara eu prolongar morada no convento ; mas " 
não me foi possivel ; por quanto meu Irmão era 
próximo a casar com uma ricca herdeira da nossa 
mesma Ilha ; e ella tinha já vindo com sua Mãe 
fazer-me uma visita , e rogar-me que acceitasse em 
sua casa um aposento : e para assistir ao noivado 
devia eu , para nunca mais nelles entrar , sahir 
daquelles claustros. A. pezar da tristeza que lhe cau- 
sava a nossa separação , foi a Soror de Sancta 
Úrsula quem me deo os primeiros parabéns da 
occaslão que se me oíTerecia de conhecer o mundo, 
antes de nelle me empenhar : » Querida Menina, 
» ( me disse então ) não é culpa nossa que tão rai o 



(9) 
» se approveltem nossas educandas dos desvelos que 
3) para as instruir tomámos. Quasi que sempre se 
» despe'dem d'estes mansosretiros para serem despo- 
« sadas ; passagem mais que prompta da ignorância 
» do que é a sociedade , a um estado que delia 
» prescre've os mais sagrados deveres ; o que é igual- 
5> mente nocivo ás virtudes que lhes inspiramos , e . 
» ás que lhes convieVa practicar. A Religiosa pie- 
» dade , os talentos , a mode'stia são úteis em todas 
» as situações davidaj ensiná-las é nossa obrigação; 
» mas foi muitas vezes conceito meu ^ que á expe ^ 
5) riencia , e que á reflexão compete fazer que bró- 
» tem , á cerca do mundo , ideias que nos é unpos- 
5) sivel ter ; e , quando as tivéramos , difficil de ex- 
» plicá-las. Pelo que , approveitai-vos de tão favo- 
'> ravel occasião ; fazei ensaio da vossa liberdade 
» antes de a sujeitar ao jugo de hymenêo. Conhecei 
» os prazeres para os saber avaliar , e subordiná-los 
3) aos deveres ; que assim vireis a ser (praza ao Ceo I) 
» tão boa Esposa , tão respeitável Mãe , quão dócil 
» educanda e appreciada fostes. » 

Fui residir com meu Irmão, e lá tive azo de veri- 
ficar a bondade dos conselhos da Soror de Sanefa 
Úrsula. Os primeiros mezes fizerão que olhasse 
aquelles noivos , e o seu estado como o mais ditoso: 
festejos , assemble'as , d'um lado e d'outro finezas e 
desvelos ; não se despedião sem magoa , nem tor- 



C IO ) 

DRvão , sem contentamento a vér-se. Foi pouco n 
pouco en'ibiando o ardor primeiro •, e ião-se per- 
suadindo que já senão amavão,e de insensatos 
tinhão crido , que tào vehementes , e por igual 
tcôr se amarião sempre. 

Tinlia meu Irmão por hábito ceder a todas as 
vontades de sua Esposa , quando outras , das delia 
diíFercntes , elle não tinha ; e assim extraordinário 
e tyrannico pareceo quando quiz admoestar. Ar- 
rufos , e pazes careavão a minha cunhada ac- 
cre's(:iino de autoridade. A-i do homem imprudente 
que começa a viver com sua Esposa como viviria 
com sua Dama 1 que assim arrisca a felicidade da 
sua vida ! Symptômas de prenhez , lançarão meu 
Irmão de novo aos pés de sua mulljéi ; mas a que'da 
que e!la d'um cavallo deo( imprudência inexcusavel 
no seu estado ! ) lhe roubou no mesmo instante a 
saúde , o filho e a amizade de seu marido. 

Nessa époc^ nos noticiarão a morte de meu Páe ; 
e nossa casa já triste pelo desabrimento dos con- 
sortes, se entristeceo ainda mais. Meu Irmão tinha 
evitado descobrir-me o intimo de seu peito , mas 
occupando-nos de huma pena que nos era commum^ 
não poude resistir ; contou-me os seus pezares 
particulares. A cerca do que , não vacillei em lhe 
estranhar o tcôr com que tinha procedido ; por 
quanto mmha Cunhada tinha quaUdudcs essenciáes 



( Tl ) 

e excellente coração. Por sobejo comprazimento 
a deitara a perder , e podia por extrema frieza e 
sequidão desviá-la para sempre. Commovêrão-no as 
minlias refleAÒcs, e tive a satisfação de restaurar em 
dons Es.ôsos que entranhadamente amava , uma 
tranquillidade , que nunca estragou depois o tempo. 
Inteirada d'este meu proceder minha Cunhada, que 
atéllí me chasqueava á cerca da (por ella intitulada) 
austeridade de minhas máximas , fazendo - me 
menores demonstrações de amizade , me amou 
com augmento. 

Repetião-me a miúdo os homens , que a nossa 
sociedade compunhão , que eu era bella , e mui 
bem sabião que eu era orphan , mas ricca ; por 
quanto uma roça de 2000 moedas de renda era um 
dote que careaiia namorados á mais feia e des- 
prendada noiva. Tinha-me porem eu habituado 
tanto a ponderar os deveres de cada estado , que me 
causava um certo pavor o matrimónio. Instavão-me 
que fizesse escolha, e eu sempre suspensa : de modo 
que me criminavào de logrativa , quando, ao muito, 
eu era timorata. 

Meu Irmão tinha por amigo M. de Senneterre , 
pessoa do muito meVito , de grande fidalguia , 
mas de , oucos cabedáes , e ainda esses empenhados 
por dividas que seu P e deixara por sua morte- 
A intimidade que entre eile e meu Irmão lavrava 



C ia ) 
era t il , que o único homem com quem minlia 
Cunliada e eu tratávamos nenhuma ceremonia , 
era M. de Sennetene. Cultivado o ingenho , varonil 
o semblante , aíidalgado o porte , era de si tão 
lhano, que o tínhamos como por parente , de quem 
nada se encobria. Considerai que alem de amar 
elle de longos tempos antes uma senhora mui gentil 
que obrigada de parentes se desposara com um 
velho , e que viúva agora , somente retardava o 
tempo que a decência prescreve , para lhe coroar o 
amor : e que essa senhora era também da nossa 
sociedade ; e não vos admirareis que minha Cu- 
nhada , nem eu fizéssemos hábito de considerar 
como Irmão um dos mais apessoados Cavalheiros 
de Paris. Muita vez insistio comigo que tomasse 
alguma inclinação ; e então fazíamos resenha de 
todos os nossos Cortezãos •, e elle ria das annotações 
que eu punha no caracter de cada um , arguia-me 
de mui difficil, e me prognosticava' fado similhante 
ao da moça de quem o bom La Fontaine fabulou. 
Com a mesma jovialidade lhe zombava eu do seu 
prognóstico, abonando-lhe que então irfe resolveria 
quando acertasse com outro elle, ou que a ser 
imi)ossivel depara lo , aguardaria pela sua viuvez. 

Hoje o digo , em que sem pejo pode'ra convir do 
contrario; não lhe tinha ainda então amor; esti- 
mava-o, por ser impossível faltar-lhe com o que lhe 



C i3 ) 
era devido ; mas a ser elle capaz de deixar nma Se- 
nhora a quem professara tão constante aííelção , 
perdera eu delle a ideia concebida atélli , e dos ho- 
mens com qviem houvera de unir o meu destino , 
seria elle o derradeiro. Antes pelo contrario , quem 
lhe abrio caminho a ser meu Esposo foi a constân- 
cia na sua primeira inclinação : cuja Senhora , por 
desgraça delle , morreo quasi de repente •, e quem 
me penetrou a alma foi a mágoa que elle tão verda- 
deira sentia. Em nossa casa é que vinha buscar as 
únicas consolações : que lhe fallávamos nós com tan- 
to enternecimento da perda que tiveVa ; tão sinceros 
erão os elogios que entrançávamos nesses com que 
elle honrava a memória dessa Dama ainda delle 
amada; e escutávamos com tanta condescendência, 
o que com tanta sensibilidade repetia , que consegui- 
mos,participando-ocomelle,a applacar o seu pezar. 
Que este módp é o único com que admittem alivio 
peitos profundamente aíTeiçoados. Com cedo per- 
cebi que involuntariamente reflectia na ventura que 
aguardava a feliz esposa , que se careasse o 
coração de M. de Senneterre ; não , que meafljgii- 
rasse poder elle amar outra com igual ardor ; mas 
bem sentia que para mim fora mais preciosa a sua 
amizade , que o amor tão incerto de outro esposo. 
Não poderão , não , os cruéis pezares que experi- 
mentei depois , delir ao meu coração as aíTecções 



( i4 ) 

que decidirão do destino da minlia vida. Ancna3 
me convenci do aííecto que me íqs. irara M. de 
Senneterre , comportei - me dallí em diante com 
tanto recato , quanta fora a franqueza que até 
entào maniíèstára ; mudança esta que elle eslra- 
nliou , e cujo motivo quiz adivinhar ; a meu 
Irmão mesmo se queixou dos fados que lhe rou- 
bavão , quasi á uma , o oljjecto do mais constante 
amor, e as con^olaçôes de uma amizade de que 
tão gostoso hábito se fizera. Receoso de me ter 
involuntariamente desagradado, me instava a miúdo 
qne lhe apontasse o em que me aggravára , pro- 
testando-me que nada lhe causaria maior pena que 
o perder a minha estima. Erão tão brandas as 
suas palavras, tão enternecido o seu olhar, que 
o receio de que a minha nimià sensibilidade me 
trahisse , augmentava a frieza das minhas respostas; 
e a ter eu motivos de queixume, não o pode'ra tratar 
diversamente do que eu nesses tempos o fazia. 
VieVào a ser mais raras as suas visitas, e maior a 
minha severidade ; que medrava o meu amor , e o 
receio que elle o não adivinhasse , com o pezar que 
me davão essas ausências. Por nossa ventura, me 
arrancou meu Irmão esse segredo , e o descobrio a 
M. de Senneterre , o único que aditar-me podia j 
e a quem custava a crer, que com tantas vantagens 
que me liberalizara a fortuna e a natureza , fizesse 



( I5) 

eleição delle , quasi concluído a de?pnsar-se com 
outra Senhora , eu , ante quem tinhão rompido sem 
constrangimento seus saudosos prantos. Que não 
suspeitava elle , que o primeiro motivo de meu 
amorfôrão os finos quilates da sua mágoa. E quem 
se não aíFeiçoára a um homem , de provada sensibi- 
lidade , quando cada dia vemos tantas Damas se 
desposarem com homens , que fazem gala da 
quantia de seus tratos amorosos , e á cerca dos 
quáes o casamento vem dar de accre'scimo uma 
conquista de mais, e tão transitória como as outras. 
Se eu não ignorava que M. de Senneterre me pre- 
ferira uma Senhora , cujas saudades conservava 
ainda, persuadida estava ao menos ^ que' me não 
daria uma rival. 

Meu Irmão, que se dava por mui saíisfeiro de 
avincular a si pelos liames do sangue o seu melhor 
amigo, dava pre'ssa as nosso casamento, o qual se 
fez quando volviào os meus 19 annos. De M. de .Sen- 
neterre o que eu somente esperava, era amizade 
e ella bastara a me contentar o coração 5 mas 
acertei com um Esposo desvelado e te'rno , coin 
um sincero amigo , e com i.m guia illustrado , que 
fazendo assaz bom conceito de mim , e crendo que 
os passatempos do mundo nãobastavuo únicos a me 
occuparera, me admittio á ad^ministraçáo de seus 
bens que a dissipação de seu Páe tinha por exUemo 



( iB) 
desvalidos. Fomos do jornada ás snas fazendas, con- 
tentámos boa parte de credores , e feitos com os 
mais certos ajustes , viemos a Paris alfaiar a nossa 
morada conducente a nossas rendas. Sociedade 
estreme , intimidade lhana, e a dita de meu Irmão 
e de sua consorte augmentavão a minha felicidade ; 
e oCéo que atelii nos cumulava de mercc ssuas, 
pôz o remate com me dar um filho , a cuja vista 
me vencia em contentamento o meu Esposo. 

Como eu queria criá-lo , parti para uma das nossas 
quintas , apenas pude salva de perigo pôr-me em 
jornada , e ( mercês da vida que allí desfructava ) 
tanto me não desfallecia a criação , que medrei em 
saúde , perdendo grande parte daquella melindrosa 
compleição j que me obrigava a ce'rto regime desa- 
gradável na idade que eu tinha. 
. Dous annos passei arredada de Paris , d'onde só 
me crescião saudades em quanto a meu Irmão e sua 
Kspôsa , que ainda assim tivérão a bondade de vir 
passar comigo o tempo que meu marido militou. 
Minha Cunhada me| invejava a ventura de ter um 
filho ; e ou já por naturaes disposições , ou já eíTeitos 
da quc'da , entrava a perder confiança de ser Mãe. 
Kem com eííeito o foi. Em meu filho se empregavão 
seus afíectos , e também os de meu Irmão ; e era 
pasmo vêr como meu filho se formava. Ditosos 
tempos! nem dessa e'poca volveo um dia que se 



( 17) 
não assinalle na minha alma. Que não se apagão 
nunca na memória duma Mãe similhantes sen- 
sações. 

Transponho dez annos da minha vida , que forão 
como um único instante de felicidade sem mescla. 
M. de Senneterre abençoava de continuo o dia 
em que eu o tinha conhecido ; e meu fdho crescia e 
se criava diante de nossos olhos, dando-me a sua 
educação , á qual seu Páe presidia, a esperança que 
algum dia lhe semelhasse em tudo. O que somente 
nelle receiávamos era certa viveza que igualmente o 
propendia para o ])em como para o mal, mas que po- 
dia ser com cautela dirigida , e uma firmeza de con- 
dição estranha em tão breve idade. Alguma^^vezes me 
arguia meu Esposo o meu muito mimo j e eu a elle 
a muita severidade , e a ambos nós meu Irmão ( que 
já considerava o sobrinho como seu herdeiro ) o 
tormento que lhe dávamos , fazendo-lhe estudar 
sciencias que elle avaliava em mais baixo preço 
que as meiguices d'esse menino : cada um de nós, 
por fim , o amava a seu modo , e elle era o assumpto 
de nossas conversações , de nosso amor , de nossas 
esperanças , e prazeres. 

Dobrava eu já 3o annos , sem ter ainda conhecido 
o mfortunio; e o primeiro desgosto que vivamente 
experimentei foi quando coube separar-me de 

meu L-raão a quem tantas razões me avinculavão/ 
•í om. Xs 



( i8) 
Elle que soube a móvte do regedor geral de nossas 
roças , assentou que para segurança de nosso ca- 
bedal , e regimento dós negócios , requeria achar- se 
elle na Ilha de S. Domingos. Longo tempo havia 
que sua Esposa lidava com saudades da terra em 
que nascera , e de que conservava mui agradáveis 
lem])ranças : e como a occasião era decisiva , par- 
tirão sem fallencia. Esta despedida me magoou 
o coração; achando-se diminuída a minha intima 
sociedade { reduzida unicamente a minha familia ) 
daquelles que lhe davão o mais delicioso preço. 
Involuntário pressentimento me repetia quasi de 
continuo que não os tornaria a ver, tristeza esta 
que somente adoçavão , mas não dissipavão de todo 
a amizade de meu Esposo , e as caricias de meu 
filho, que orçava pelos i3 annos. 

Seis mezes depois delles partidos cahio tão peri- 
gosamente enfermo M. de Senneterre , que a sua 
convalescença foi quasi como uma branda encosta 
por onde foi descendo á sepultura, e que dous 
annos contínuos me entregou ao cruel supphcio de 
cada dia imaginar que esse era o ultimo da sua vida. 
Ficára-lhe molesto o peito , e a olhos vistos ia de- 
niudando ; e as esperanças que os Médicos me da- 
vão , não lhes vinhão do ânimo ; e o meu amado 
Consorte , que se sentia avizinhar da morte , co^ 
Ihia quantas forças tinha para me esconder a sua 



( 19) 
mágoa, e dissimular os padecimentos, que peia 
mmha sensibilidade lhe serião mais insuppoctaveis. 
Todos os dias ate' ao ultimo se pôz de pc , e a pezar 
de admoestações minhas passava longo prazo a escre- 
ver : que , persuadido esse modelo dos maridos, e 
dos bons Paes , de que lançava a morte mão da 
preia, queria sobreviver-se ainda vigilante para 
com sua Esposa , e com seu filho. Deixava-me con- 
solações escriptas, para qua:;do fenecido 5 delinea- 
va-me regras com que eu desse remate á educação 
de seu filho , para quem deixava uma carta , que se 
me entregou aberta , e que á minha prudência en- 
commeudava a época em que eu em segurança 
usasse delia. 

No centro d'esses maviosos desvelos , que tanto 
a])onavão a bondade de sua índole, o colheo a 
morte ; em meus braços espirou. Nunca sube o 
que de mim foi nesse cruel momento j o que só 
recordo é que quando em mim tornei, me senti no 
leito , rodeada de alguns da minha famiha , e da 
de M. de Senneterre , que imperiosamente me 
tolherão o fallar , e que me custou contendas o 
alcançar que ao menos não separassem meu 
fdho de ao pé de mim. Que amável mancebo ! Co- 
ração único então de consonância com o meu ! 
e que sem ter a barbaridade dos que me impedião 
que pronunciasse de continuo o nome de meu 



3 



Esposo , estava ajoelhado a pedir-me que sua Mãe 
lhe conservasse. Ambos repetíamos o saudoso 
nome , am|)os chorávamos ; nossas lágrimas con- 
fundíamos , e nossos beijos ;e se nos augmentavão 
a mágoa estes assomos da sensi];ilidade , persua- 
dida estou que também nos salvarão da desespe- 
ração. 

Logo que suster-me pude , fiz que me levassem 
ao Convento onde educada fora , onde as conso- 
lações de Soror de S.t^ Úrsula , juntas com a li- 
berdade de me prostrar gemendo ante os altares, e 
com as caricias de meu Filho me restaurarão 
ânimo com que vivessse, e me occupasse de seus 
interesses. Noméára-me por seu testamento M. de 
Senneterre tutora de seu filho , e curador um tio 
seu que morava n'uma quinta nossa, e tinha por 
único cabedal provada probidade , aprazivel ve- 
lhice, cicatrizes, e o habito de S.Luiz com 4o 
moedas de tença : disposições testamentárias que 
não agradarão á familia de meu marido, mas que 
me corrol)orava de mais em mais na estima que lhe 
eu devia a elle. Com eífeito o curador do nosso 
Adolpho, era digno de ser Aio d'um Princepe : 
elle foi cpicm educou M. de Senneterre, descuidado 
o Páe de que apprendessem ou não seus filhos •, e 
confiava eu que pelo meu Adolpho elle empren- 
desse o que em seu sobrinho com tanta dita execu- 



( 11 ) 

tara ; sendo outrosim minha intenção de passar al- 
guns annos arredada de Paris , puz o fito na quinta 
em que o bom Velho assistia , capacitada que a af- 
íeiçâo que elle tomasse a Adolpho que já tinha i5 
annos, o resolveria a tudo, quando conviesse que 
apparecêsse no mundo. Pelo que , de novo tomei 
o campo por vivenda, mui agradável então pela 
sua solidão á condição em que meu ânimo se 
achava. 

Teria eu para sempre renunciado assistir em Paris, 
se não avistara de longe ser-me um dia necessário 
voltar alli com meu filho , por cujo amor unica- 
mente achava prazer na vida ; e a quem votei toda 
a minha existência ; bem resoluta a sacriíicar-lhe o 
gosto que o retiro me desse quando este empecesse 
ao seu adiantamento , ou que de Adolpho me sepa- 
rasse. Lá é que eu li, em companhia do Tio de 
M. de SenneteiTC , as mstrucções que meu Esposo 
delineara nas ultimas da sua vida, para a educação 
de seu filho; cujas máximas conformes com as do 
Curador, me parecerão de tanta luz, que ral)a' 
Ihando segundo a norma déUas , tive'mos ambos o 
contentamento de ver tornar a Adolpho o hábito 
das virtudes nessa idade em que as paixões vem 
muita vez pelejar com as mais felices disposições. 

Então é que pela primeira vez li a Carta que seu 
Páe moribundo lhe endereçava , dada em depósito 



( 22 ) 

a mim, que lavando-a era lagrimas minhas a li, 
formando já o projecto de nunca lha remetter. 

Na quinta poucos me visitavào , mas esses poucos 
erào sufficientes para que meu filho , em casa , e 
nos redores encontrasse sociedade tal , que o afas- 
tasse da taciturna timidez , que um mancebo des- 
tinado a viver no mundo, contrahe ás vezes, se 
deíle vive longo tempo separado. Assim passavào 
pacíficos os meus dias entie os meus deveres, mi- 
nhas lembranças , ameigados com algumas acções 
liberáes , que únicas me pejavão o coração, para 
O distrahirem (por instantes) da sua tristeza. Disposta 
de continuo a dar , sem distincção , alivio aos meus 
aldeões , com preferencia porem ás viúvas , que de 
mim salna que mais que os outros o precisavão. 
Perder marido, e receiar pobreza para os filhos, 
era situação que eu imaginava acima das forças da 
humanidade. 

Chegou otempo em que meu filho entrou militar, 
e teve seu tio a bondade de accompanhá-lo ; que es- 
tava ( como eu tinha antevisto ; tão prendado de 
meu filho esse bom Velho , que pleiteava , á cerca 
delle , finezas comigo. Promettêra-me Adolpho de 
me escrever muito, e com a maior individuação •- 
por quanto me comprazia eu de ser sua confidente , 
e a nossa ultima conversação lhe abonou bem , que 
se eu , como Mãe , era ciosa dos bons costumes de 



Cíi3 ) 
meu filho, como amiga hãosería mais severa, deque 
coiTiào os .do meu se'culo. Amor do prazer , tão na- 
tural a gente moça só então é de estranhar, quando 
a arre'da de seus deveres , ou quando a empenha a 
dar passos contrários a seus interesses. Nem meu 
filho falseou as minhas esperanças. Deo-se a amar 
dos camaradas, entrava em todos seus divertimen- 
tos , nunca nas devassidões , teve alguns namoros , 
que (como elle me escrevia ) nem o prendião, nem 
lhe enchião o vão do peito. Todas as suas cartas , 
em que sem constrangimento dava retrato de si, me 
convencerão, que nunca lhe seria passatempo o 
amor, mas sim paixão ; devorava-o uma sensibili- 
dade , que anhelava exercer-se. Era a de Adolpho 
a alma amante de seu Páe , em idade porém que 
não pondeVa a razão os discrimes d'um empenho ; 
o que era para mim de estremecer. Tinha meu filho 
seguros dos cabedáes de Pae' e Mãe alem de i6 : ooo 
cjuzados de renda 5 e meu Irmão, que não tinha 
filhos , lhe dava a perspectiva de augmentados ren^ 
diraentos , que á sombra de seu appellido , lhe 
abiião a porta a toda e qualqueVpertençào: e eu que 
em quanto a mim nunca conheci a ambição, con- 
fesso que a conheci em quanto a meu filho. Ficou 
no seu regimento Adolpho 18 mezes, e delle vol- 
tou, entrado o anno de i-jSg, quando já orçava 
pelos seus 20 annos. Gomo tão curta ausência obrou 



( 24 ) 

nelle tão pasmosa mudançarDisferidas com formosa 
ventagem as proporções de seu corpo , davão parti- 
cular garbo a cada movimento e no semblante certa 
altivez (qiie nada desfalcou da brandura , que sem- 
pre nelle reparei ) inspirava respeito e me obrigava 
a considerar úm homem , em quem vira atélli que- 
rido infante. Nào que fosse elle comigo menos mei- 
go, menos desvelado em quanto fosse do meu agra- 
do ; mas o trato da gente o informou do que elle 
valia : em tudo via eu nelle um amigo , de que se 
ufanava a minha razão j mas eu involuntariamente 
achava de menos as ingénuas caricias de meu fdho. 
Estas contradicçòes que em nós opera a passagem 
da adolescência , tão rápida entre os Francezes , só 
as pôde explicar um coração de Mãe; e se nós ama- 
mos, e quasi que adoramos nossos íilhos , sem dú- 
vida vem de recordarmos a mocidade pate'rna , e 
que c'o mimo de suas caricias vem de companhia a 
saudade dessas de que depois nos sentimos pri- 
vadas. 

Já vos disse a caridade que eu usava com os 
aldeões de minhas fazendas. Quem põe a mira 
em ser complectamente venturoso, cuida em derra- 
mar á roda de si a dita ; privilegio que dão os cabe- 
dáes ! E d'esse lograva eu. Não que fosse minha 
vontade que algum d'esses homens sahisse do seu 
estado j. que me neguei sempre ás cubicas dos que 



( 25 ) 
queria o dar a seus filhos occupações na Cidade , 
querendo eu somente abastados cultivadores que 
amassem o trabalho , e não mirassem a mais alto 
posto , que esse em que os sorteou a fortuna. Sube, 
quando cheguei, que uma moça (pela moite de 
seus Paes) ficando ao desamparo , abrigada fora 
por aldeãos pobres , e carregados de familia ; ac- 
ção que merecia 4^ecompensa ! Delles me encarre- 
guei , e me encarreguei também da moça , que ti- 
nha então II annos , e Suzanna se chamava. Ten- 
tada estive, quando a vi, de desmentir das regras 
de prudência que me delineara , e de a tomar a 
mim : porquanto nunca a natureza compoz cousa 
mais linda, nem á lindeza se juntou nunca en- 
canto igualmente irresistivel , como o que se 
experimentava em olhar Suzanna. A reflexão foi 
soquem me defendeo contra a aífeição, que ella 
me inspirava. Pveceiosa de mim mesma , e olhando 
para o prazo em que eu tinha de voltar a Paris, Ci^ 
dade onde ella seria exposta a todo o género de 
embaimentos, me resolvi a encommendá-la ao 
meu Cazeiro ,com ordem, que lhe desse educação 
competente ao seu estado , nas escholas daquella 
aldêa. Suzanna, que ventura maior não cubicava, 
foi dócil e agradecida, e applaudir-me é dado do 
cuidado que delia tomei : sempre modesta , sempre 
laboriosa, foi crescendo, e foi careando as vou- 



(26 ) 

tadescTos que sobre ella vigiavão. Asseada no traje 
aldeão, arguida fora de namorada, se a singeleza 
de seus costumes a não amparara contra toda e 
qii;lque'r suspeita. Como ella assomava já aos seus 
16 nnnos , e trazia eu na ideia dar-lhe marido com- 
petente ao dote que lhe eu preparara , chegou meu 
filho do seu regimento. 

Este lúgo se aíTeiçoou com tal vehemencia de 
Suzanna , que é diíTicil concebê-lo na ideia; sem 
que eu de'sse tino de tal amor , quando toda a gente 
o sa!;ia já ; que nem seu Tio cuidava em me avisar, 
dando essa aííeiçào por namoro de passagem. Bem 
r parava eu que Adolpho , ou muito alegre , ou 
muito mclanchólico , ora me instava que voltás- 
semos a Paris , ora desejava prolongar a vivenda na 
quinta ; que bem arredada estava eu de suspeitar 
que um volver de olhos , mais ou menos requebra- 
do de Suzanna lhe volteava o fito da alma ; antes 
attribuia esse génio mudável, á inconstância d' xi- 
ma imaginação que ainda não achara onde as- 
sentar. 

]Não fui em mim , quando o Cazeiro , a quem 
confiei Suzanna , pedindo-me que lhe fatiasse em 
particular , me pedio que o des-commettesse da- 
quella moça , ou que lhe deparasse meios de impe- 
dir M. de Senneterre de o visitar tanto a miúdo ; fiz- 
lhe perguntas, e fôra-me impossível duvidai' do 



(^7 ) 
amor de meu filho. » Mas Snzanna ( lhe disse eu) 
ama-o ella ? — Ah ! Senhora ( me respondeo o 
Cazeh^o ) que difiicil íôra o não amar a quem 
tão amável é como o Senhor Conde ; e qualquer 
moça que tenha livre o coração , não se poderá 
atalhar de lhe corresponder : se porém Snzanna 
lhe quer bem , ella o encobre bem de si , e dos 
outros ; e até de vosso filho ; que não dá motivo a 
a repréhendermo-la ; porquanto rejeita receber 
prezentes dos Senhor Conde ; e como elle se diverte 
a distribuir cada domingo atavios a todas as mu • 
Ihéres desta casa, e sempre com o fito de obrigar 
Suzanna a que se enfeite com prendas delle; e se 
agasta com ella quando não se compõe com as 
que lhe elle dá ; e accusando-a de sol)erba e de 
ingratidão , tanto se enfada contra ella , que muitas 
vezes a vemos entrar chorando ; e logo apóz ella 
entra o Senhor Conde pallido e tremendo, que 
lhe falia com brandura , e a pobre Suzanna o des- 
pede , consolando-o com promelter-lhe que se não 
passará dia, em que se não enfeite com dádiva sua. 
Nem já se atreve a sahir com receios de encontrar 
com elle, que quando passou o dia sem a ver, 
certos estamos que o sói posto no-lo trará a casa- 
Benévolo nos falia de minha mulher, e de meus 
filhos, nos enche de favores seus , mas sempre os 
os olhos postos em Suzanna j e se ella se não vai , 



( 28) 
tanto faz que se avizinha a olla , e em baixa V('z 
lhe diz muita cousa, a que ella só responde cora 
sim , on não ; se ella sálie , vai-lhe elle logo em 
seguimento , e nunca , sem que as cores se lhe abra- 
zem , entra Suzanna , e scni que se lastime de ser 
muito desgraçada ; impedindo-nos comtudo de dar 
parte á Senhora Condessa ; por que esta a não des- 
peça , e seja mais infeliz ainda sem o seu amparo. — 

Fallaria esse homem ainda mais tempo , que o 
não interromperia eu , tão agitada, eu estava de mi- 
nhas reflexões então. Despedi-o porem , agrade- 
cendolhe o zelo , e recommendando-lhe mais que 
tudo de não dar senhas de me ter avisado. Quando 
me vi só , em vão quiz delinear como procederia 
neste caso , não sabendo em que assentar, nem a 
quem podia consultar. O Tio nada cria em amores, 
e mui pouco na honra de mulheres ; de meus sus- 
tos se poria a vir, e teria por conforme, que um 
mancebo tratasse de se divertir na quinta, como o 
fizera n'uma guarnição. Tinha esse único defeito; e 
íòra inútil pertender mudar as ide'ias d'um celi- 
batário idoso , que se não consolava da força que 
lhe fazião os annos para não ser dissoluto , senão ci- 
tando a cada passo infindas occasiões em que o 
tinha sido. 

Que cabia então fazer? Conservar Sazanna em 
casa era cxpò-la ao embaimento; perder esperan- 



( 20 ) 

ças cie cazá-la ; e autorisar o que me não era 
licito consentir. Pó-la fura? Peiór ; por quanto des- 
prendida de toda a gratidão, entregue a ella mesma, 
e des-soccorida , necessário lhe era amparar-se de 
meu filho , e de seus perigosos donativos. Pô-la de 
mmha mão em alguma parte , não podendo fazer 
sem que nieu fdho aventasse a partida , e sem que 
me fiasse em alguém , no caso que elle deparasse 
CO retiro delia, e que o seu amor de'sse brado em 
público, era expor Adolpho a um ludibrio que 
os nossos usos tratão mais severamente que ao 
VICIO ; e que muita vez decide da reputação de ura 
mancebo. Arbitrei leva - lo da generosidade , 
e á noite com muitas apparencias de ale'gre o 
convidei a almorçar sós a sós comigo na manhan 
seguinte no meu quarto. Este convite, a que 
dei todo o ar jovial, para lhe arredar suspeitas, 
o deixou perplexo : queria-me encobrir o seu en- 
leio; mas como d'antemão me aprestei a me dai" 
por desentendida , sem mais explicação nos sepa- 
rámos. Sem dúvida que não passou a noite com 
mais socêgo que eu; porque demostrava no gesto, 
quando pela manhan veio, cansaço e desahnho. 
Tanto então semelhava a seu Páe ao vivo , nesse 
primeiro dia em que depois da morte da pessoa que 
tanto amava , o vi , ([ue se me sobresaltou o coração 
á prima vista que a elle volvL 



( 3o ) 

Concluído o almorço, sem algum de nós quebrar 
o silencio, o fiz sentar junto de mim-, e c'um tom 
de vóz ( quanto pude ) seve'ro , lhe disse : » Ignoráes, 
» meu filho , os pezares que me dáes? « Se é ( me 
» respondeo ) que atino com o motivo delles,esse 
» mesmo motivo , por teor diíTerente , me perturba 
« o meu socêgo. » E dando um suspiro , disse : 
» E eu também não sou feliz ». Vi que tanto não 
negava o amor que Suzanna lhe inspirava, que 
antes se descuidaria de que fallava com sua Mãe ' 
pelo que forcejei por deslembrar-me d'esse titulo, e 
da minha severidade. 

« Não sois feliz, Adolpho? E que falta para a 
a vossa felicidade em tudo o que pode pertender 
« um homem dessa idade; e d'esse appellido ? » — 
» Ser amado; ou ter forças que venção um amor que 
» a minha razão condemna, e qu,e mao grado meu , 
» compõe hoje parte de minha existência. Ah não me 
» crimineis ; lastiraai-me minha querida Mãe. Nem 
» quanto queiráes dizer-me igualará o que já mil ve- 
» zes me tenho ditto. As mais seveVas reflexões porem 
» sendo relativas ao meu amor , o aíFormoseavão de 
» modo, que mais e mais me enfeitiçavão; e querer 
)) contender com o pendor que para elle me levava, 
» era dar-me por occupaçào Suzanna. Nem o pejo de 
» o confessar a minha Mãe vence o pi azer que me re- 
» sulta de fallar nella; eesta é a primeira vez que de 



(3i ) 
» parei com essa occasiào; que eu desejava evitar 5 
» que em fim, ate' este momento só o nome de Su- 
« zanna me escapou dos lábios na solidão. » 

« D'esse vosso ti^asvío , Adolpho , e da condes- 
« cendericia com que vos eu escuto , envergonhada 
V estou ; mas como vos dáes por desgraçado , serão 
p sempre as desgiaças de Adolpho para mim sagra- 
« das ; ainda quando tão fraco o veja , que se ex- 
« ponha a inspirar antes lástima , que compassiva 
« ternura. » Pelas cores que ao rosto se lhe asssomá- 
rão,eo lume que se lhe accendeo nos olhos co- 
nheci, que picado desta minha phrase , me queria 
responder, o que súbito atalhei , dizendo : » Que 
f esperáes vós dessa insensata aífeição , que não 
i» confiareis declarar a ninguém , que não fosse 
» Mãe tão indulgente como eu? Suzanna, educada 
« por cuidados meus , defendida pela minha pro- 
» tecção , vos deve ser respeitável, e me lanço a 
» crer, que ainda a paixão vos não descaminhou 
» de modo , que imagineis , sem estremecerdes , 
» corromper sua innocencia , e quebrantar sem 
» vergonha o respeito devido a esta minlia casa. 
» Meu Filho^ eu nunca puz reparo nos devei es quaá 
» cerca da vós me incnmbiào; .{ue fáceis nVos toma- 
'» vaa minha ternura, e porque erão para mim con- 
» tinua serie de delicias-, encanvgando-me poiêm 
» de Suzanna, contrahi com Deos obrigação de vi- 



( 3.2 )■ 
» giar seus costumes, e assegurar sua ventura. Per- 
» seguir esla innocente , é contenderes com vossa 
» Mãe ; que não Suzanna , mas a mim mesma ten- 
5) des de encontrar na opposiçào aos projectos vos- 
» sos ; e se tão ruim sois que a dobreis á vossa des- 
" ordenada aíTeição , quem tem de responder 
» por ella á Divindade é vossa Mãe. Não vos quei- 
-» xeis da severidade de minhas máximas ; que são 
» as máximas cliristans quem , meu filho , me 
)) conservarão esta vida; e a minha resignação na 
» vontade celeste me deo a força com que sobre- 
» vivi á morte de vosso Páe. Adolpho , Adolpho | 
» quereis que essa vossa paixão seja a causa que 
» me eu arrependa , da força que então tive ? ? 

— Pieprehensãoniui forte, que improvisa me es- 

— capou ! — 

3) IndulgeíTte comigo vos promettestes , Senhora 
» (me respondeo meu fdho, derramando lagrimas de 
>' despeito) e me tratáes como um monstro merece- 
» dor que lhe tirem a vida. Quando eu por ddatar 
» os dias seus com o que os meus durassem , de'ra 
" todo o meu sangue, me accusa minha Mãe... 
» Ah ! Senhora , que se.pode'sseis registrar o âma- 
» go de meu peilo , conheceríeis que esse amor 
M invencivel motivo da minha desesperação pre- 
» sente , se não fora o respeito que vos tenho , 
» seria á manlian a ventura da minha vida. Con- 



(33) 
» tra mim mesmo amo Suzanna; e a ponto a amo, 
» que me seria mais branda a mórle , que a icle'ia 
» de separar-me d'ella. Enganá-la, nunca foi do 
w araor que lhe tenho , do amor que ainda de- 
» testado me alimenta ; e a não receiar que se af- 
» fligisse mmha Mãe, quem me tolhera de esposar 
» Suzanna ? ■^ 

Já o interrompia eu^ quando elle acudio : » O- 
» Ihái, Senhora, quanto vai cada dia perdendo con- 
» sideração a fidalguia (pelos fins de 1789); Su- 
» zanna tudo recebeo da natureza ; e nella a in- 
>» telligencia poderá supprir onde não abrangeo 
» a educação. Se em França fosse estranhado este 
>) cazamento , lá está a Ilha de S. Domingos me- 
>» nos sujeita a similhantes preconceitos. Não vos 
>) assombreis , Senhora, d'uma ide'ia que não passa 
» a ser projecto. Projectos! Não me é possivel formá= 
» los ; combattido pelo amor, pela ide'ia terrivel 
» de perder vossa amizade somente posso pade- 
» cer ; e mui feliz ainda ^ se me vie'r a morte des- 
» prender d'uma situação superior ás minhas for- 
)) ças, e provar que vos não é ingrato Adolpho, 
» nem que devera sua Mãe suspeitá-lo de ser uma 
» fera. » 

» Findemos (lhe disse então) findemos uma 
» pratica , que para ambos é penosa. Creio to- 
» davia que não requerereis de mim, que comvosco 



(34) 
>' me desculpe d'uma palavra que o meu cora- 
» ção desmentia no instante que a bocca a profe- 
» ria. Tudo o que vos peço é que não vejáes Suzan- 
» na, antes que eu vos escreva; que bem sinto quão 
» inútil fora renovar esta conferencia , e quão 
» necessário nos é tornarmo-nos reciproco o so- 
» cego. » Ergui-me, e meu filho também , que se 
despedia sem voltar a mim os olhos. 

» Adolpho (lhe bradei) já perdestes o amor a 
vossa Mãe ? » Então me pegou na mão , que coa- 
lhou de beijos^ e um e outro chorando nos sepa- 
rámos- Ao jantar me mandou pedir licença para 
não vir á mesa , de que me não desagradei , vista a 
disposição de ânimo , em que ambos nos achá- 
vamos. Depois me retirei ao m-eu camarim, onde 
lhe escrevi a seguinte carta. 

JMADAMA DE SE?sNETERRE A ADOLPHO. 

Vós, meu filho, fugis de mim; e eu me vejo 
obrigada a confessar que receio ver - vos : eu , que 
tanto padeço quando me falta a vossa vista. En- 
Iranhavel lástima de vós tenho; mas, querido filho, 
quando a sociedade nos põe em biilhante plana, 
nos impõe deveres que e [uilibrão as vantagens que 
delia recebemos ; cobardia o trahi-los fora, c delia 
incapaz sois.Incumbe-vos renunciares a Suzanna;.ou 



( 35 ) 
C mas não o direi eu ) á minha amizade : da honra 
que professáes espero um sacrifício, que a eHa só 
dever pretendo : eu me encarrego de dar-lhe estado 
tal que tenháes a satisfação de teres contribuido á 
sua fehcidade; prazer esse que vos adoçará a mágoa 
quando vier esse dia em que deis a vossa Mãe os 
agradecimentos da presente severidade. Não me 
atrevo a requerer de vós essa condescendência; re- 
ceiosa de que um acto de autoridade me roube 
nm só instante o vosso aífécto. Lede a Carta in- 
clusa , que vosso Páe quando morreo me encom- 
mendou vos remettesse ; vosso Páe vos falia, Adol- 
pho , e são ultimas vontades de vosso Páe essas que 
ledes. Vossa Mãe vos lança a benção e vos ama ; 
ella não vo-la ordena , mas sim espera pela vossa 
resposta. 

M. DE SENNETERRE A ADOLPHO. 

Meu fdho , se na hórã de se apartar da vida , um 
Páe que todos os instantes delia consagrou á vossa 
fehcidade, conserva aind^ sobre vós a autori- 
dade que Deos , e as Leis lhe concederão ; se vos 
são sagrados o respeito e agradecimento que á mi- 
nha memoria é por vós devido , obedecer a vossa 
Mãe vos mando em tudo o qué, na entrega desta 
carta , de vós requeira ; são as ultimas regras que 
a mão de vosso Pãe lançou ; assim , sob pena de 

3 * 



(36) 
minha maldição vo-lo ordeno. Adolpho , se tem 
rastreei a vossa índole , estimáveis virtudes , e 
perigosas paixões tereis. Por vós, por vossa Mãe 
tremo , e chegado ao meu jazigo faço por velar 
ainda sol)re vós ambos , por quem sós levo sau- 
dades da vida. Meu filho, satisfazei esta divida mi- 
nha á cerca d'uma Esposa adorada , a quem devi 
mais dita do que é dado que um humano espere. 
Ainda pela ultima vez vo-lo repito, ( que me desfal- 
lecem já as forças ) : Filho meu , obedecei a vossa 
Mãe , para não incorrerdes na maldição d'um Páe, 
que sempre vos amou. Adeos , meu filho. 

No outro dia, quando accordei, recebi o seguinte 
bilhêtte. 

ADOLPHO A MADAMA DE SENÍsETERRE. 

Dar-se - há meu Páe por satisfeito , e vós contí- 
' nuareis , Senhora , a lastimar-me por longo tem- 
po. Como não quero que sejáes testimuwha da 
minha mágoa , receioso de não poder resistir, se 
ain«ia vejo aque'lla de quem devo fugir, certo de 
mini que não terei valor de a ver sacrificada a um 
consorte indigno delia , tomei a resolução de 
sahir desta quinta, esta mesma noite, e tolher a 
quem quer que fosse de avisar-vos. Vou a Paris ; e 
porque conheço quanta é vossa bondade , vos nã<ií 



(37] 
i-ecommendo Suzanna ; se porem me e permíttido 
algum desejo, quizeia que ella ficasse solteira; mas, 
sendo diversa a vossa determinação , posso , minha 
Mãe, esperar que quando lhe entregueis este anne'1, 
lhe ordeneis que sempre o traga como penhor da vos- 
sa protecção? Esse é o único presente que fazer-lhe 
quero j á vossa generosidade commetto o mais. 

Este bilhêtte que me abonava quanto Adolpho 
por obedientepadecia , me fez ainda mais penosa a 
sua partida. Dei parte ao tio , e parte complétta , 
que este ancião accolheo , sustendo-me que meu fi- 
lho era um louco em amar assim uma aldean ; to- 
davia sentia tanto como eu os pezares de meu fdho: 
e como eu me inclinasse a diferir o cazamento de 
Suzanna , ate' ao prazo em que soubesse que não 
corria algum perigo a saúde do nosso fugitivo , elle 
insistio que este instante era decisivo , e que cum- 
pria cortar-lhe toda a esperança , ou vé-la ( sem esse 
corte) esposa do seu amante ; conselho a que logo 
me rendi ; e nessa mesma tarde escrevi a meu filho, - 
e lhe enviei a minha assignatura em branco para 
que cobrasse do meu Pi-ocurador a quantia que lhe 
pai-ecesse necessária para os seus divertimentos: 
também pouco lhe faUava na resolução que tomara, 
e nada em Suzanna , a quem , e na manhan do dia 
seguinte mandei dizer que me viesse fallar. 



(38) 
' Logo que a vi , lhe perguntei •• « Que tendes, Su- 
zanna ? que vos vejo pallida , e com olhos de quem 
chorou ? — Sim , Senhora — » Tào moça sentis já 
penas? — Sim, Senhora. — » Não vos dáes bem 
nesta casa? — Sim me dou , Senhora. — » Suzanna, 
quero completar o que por vós tenho feito , dando- 
vos um consorte que vos faça feliz : e como vi 
que ella suspirava, accrescentei : » Repugnaríeis 
vós ao cazamento ? — Senhora ... — » Fallai com 
franqueza. Algum d'estes moços da aldeia vos de- 
mostrou amizade , e lhe tendes vós inclinação ? — 
Eu não, Senhora, oh meu Deos, não! — » Assim 
sendo não vos desgostareis de acceitar um esposo 
de minha eleição? — O Senhor Conde .... Senho- 
ra — )) E que temos ? O Senhor Conde. . . .me 

prohibio cazar eu sem permissão sua. — Prohibio- 
vo-lo meu filho? — Sim , Senhora j e muitas ve- 
zes. — » Que lhe respondíeis vós, Suzanna? —Que 
elle podia mandar-me. — » E se de consentimento 
com meu filho tratasse eu de vos dar estado, que 
dirieis vós ? » Pôz-se a chorar , e da mágoa que nella 
vi me capacitei que não era a triste moça insensivel 
á aíFeição de Adolpho ; e pela sua repugnância me 
lastimava ainda mais. Pelo que, depuz á cerca delia 
o tom de Ama , e a consolei , e lhe fallei em termos 
de razão ; nem Suzanna me interrompe© senão com 
soluços, ou convindo em que mil vezes se repetira 



c 39 ) 

a SI mesma o que eu agora lhe dizia; nunca se cies- 
cuidara do que devia á sua bemfeitora ; e que não 
era culpa sua se continuava o Senhor Conde em 
demostrar-lhe tanta bondade, de que ella se achava 
enternecida ate' ao âmago da alma , sem que nunca 
lh'o de'sse a perceber. Então lhe persuadi que o 
cuidado da sua reputação , e quiçá que a gratidão 
também requerião delia que acceitasse um esposo; 
e perguntando-lhe eu qual era o que llie melhor 
quadrava , me respondeo que nunca amaria mais 
este que aquelle ; que acceitaria porem esse que 
a Mãe do Senhor Conde lhe ordenasse. Despedi-a, 
ficando eu tão enternecida quasi como ella, e 
lhe dei como abono do contentamento que me 
dera a sua submissão-, o anne'l de que meu filho 
me fize'ra depositaria. Não que interiormente me 
achasse mui satisfeita d' esse acto de condescen- 
cia, mas o valor que nessa moça vi, a lem- 
brança de meu filho, que esse único preço po- 
zera ao sacrificio cujo quilate assaz se . me fez 
manifesto pela sua mágoa, sobre-pujúrão a minha 
reflexão. As vontades .duma alma retalhada por 
paixões agudas são sagi^adas para sensitivos pei- 
tos , ainda mesmo , quando a razão as condemna. 

Queiráes dar cazamento a uma moça , e deixeis 
rever vosso desejo, e não haverá mulher em toda 
a casa que não leve de brio contribuir com algum 



'( 4o )' 
meio. Foi a minha Aia , quem primeira me fallou 
cl'um fulano Chenu, abegão d'uma fazendinha 
tiTs léguas arredada da minha quinta , o que á sua 
abegoaria juntava ce'rto tráfico de bestas cavallares, 
que lhe dava ares de abastado . Esse Chenu co- 
nhecia Suzanna , e varias vezes tinha dittoque de 
bom grado se cazaria com ella , pela razão de que 
ella sabia escrever, addição mui conveniente para 
o seu commercio ; pois que se via obrigado a se 
fiar na sua memoria , que a miúdo o enganava. 
Logo dei ordem ao Cazeiro que fallasse com esse 
homem , c que o inteirasse dar minhas disposições 
empenhando-o a que viesse ter comigo no caso que 
conservasse ainda a mesma intenção^ 

Psão tardei em receber a visita de Chenu ,' 
que se me aíTigurou homem de 3o annos , em cuja 
gesto nada havia que vos careasse , nada que 
lhe desse repudio. Appresentou-se com certa se- 
guridade que me deo bom annuncio tle sua índole : 
todavia quiz pô-lo a prova. » Em que posso eu 
preslar a M. Chenu! (lhe disse eu em quanto me 
elle cumprimentava ) fallai-me sem sujeição. — Dis- 
sérão-me , Madama ^ que querieis dar estado a 
Alademoisella Suzanna 'y no caso que a minha pro- 
posta vos agrade , venho-vos i>edir a preferen- 
cia. — » Araáes Suzanna. — A dizer a verdade ella 
não me descontenta , e todos fallào do mui dócil 



( 4i ) 
que ella ê. — » Dizem-me bem medrado o vosso 
commercio , e Suzanna nada tem de seu. — As 
mercês de Madama não tem de lhe faltar. — » O 
que vós chamais mercês minhas , M. Chenu , per- 
tencem de juro aos desgraçados , e Suzanna ca- 
zando com vosco não necessitará delias. Encarre- 
gar-me-hei do enxoval , que é quanto posso fa- 
zer. — Não m'o tinhào ditto assim ; se porem vossa 
ultima vontade é essa , será forçoso , Madama , 
conformar-se com ella ; porque em fim de tudo , 
se me cazo com outra que tenha algum dinheiro, 
não acertarei c'uma Mademoisella Suzanna e com 
a ventajem de mulheV que me saiba escrever , que 
é quanto eu lhe desejo. Nada menos, uma quan- 
tiazinha me vinha a pedir de bôcca , e me daria 
azos de augmentar um commercio , em que ha 
seus lucros, quando vai o dinheiro na diantei- 
ra. — » Pois bem , M. Chenu , dizei-me franca- 
mente , que dote imaginae's vós que eu desse a. 
Suzanna ? — Madama , não são cousas essas que 
me caiba a mim dizer. — » E porque não? Se eu 
tenho vontade de o saber ? Minha intenção con- 
siste em assegurar a felicidade desta donzella , 
que a todas as luzes a merece ; e se as vossas per- 
tenções não sobrào alem das minhas posses, fa- 
ria com gosto, por ella como por vós, alguma cou- 
sa j porque a fareis ditosa : não é assim, M. Che- 



( 4'M 

nu? — »Bofc, Madama , que não é liem difilcll 
isso : que metade do tempo em jornadas se me 
vai ; que não ha feira que eu não corra , destas de'z 
léguas de arredores : e qur.ndo venho de volta bera 
cansado e que Suzanna tenha escripto as minhas 
contas , mais preciso de socégo , que não de in- 
quietar o repouso de ninguém. Dizem (jue sou am- 
bicioso ; mas sempre reparei que um homem 
bem occupado em seu negocio 7 não era rabujento 
marido. Suzanna tem sua intelligencia , e benefi- 
ciará a nossa abegoaria , que ainda que não seja 
de grandes productos , ha cuidado que lhe dar. A 
serem boas as feiras , bem assentado está , que não 
sahirei delias, sem lhe trazer alguma prenda ; 
que ella é gentil, e as mulheVes , bem o sei , 
gostão de se enfeitar ; alem de que as mercês de 
Madama a tem accostumado ; e isso é natural. 
Deixe-a comigo , que , se vão bem as compras , 
não se ha-de ella queixar, nem eu tampouco.- « Es- 
sas disposições me agradào , M. Chenw ; mastor- 
nêmos ao nosso primeiro ponto. Em que estimação 
tínheis o dote de Suzanna? — A fé, Madama, 
pois que assim o quereis , vos digo , que a fora o 
enxoval , que eu confio inioiramente á bizarria de 
Madama , tenho computado que 20 moedas de 
dinheiro em punho , me porião em termos de 
deparar com bons mercados : que são sempre 



(43 ) 
difficultosas as primeiras entradas , mas com um 
pouco de dinheiro á vista , e um pouco sobre pa- 
lavra , toma o negocio geito. — » Vamos , vamos , 
M. Chenu , como 20 moedas vos parecem neces- 
sárias , e que sem essa quantia vos receberíeis com 
Suzanna , muito me contenta poder recompensar 
o vosso desinteresse. — Mercês que me faz Ma- 
dauia. — » A manlian fallarei com Suzanna, e se 
ella , como eu creio, consentir, podeis desde hoje 
estar certo de 40 moe'das de dote. » 

Mais póde'ra eu certamente avuhar o dote ; mas 
íiél ás minhas máximas de não dar meios de sa- 
hir de seu estado os que aventurão , com deixá-lo, 
a sua dita , me encostava a outro motivo , que 
era de não expor com as minhas larguezas , a re- 
putação de Suzanna , por quem fizérão ce'rto ruí- 
do os amores de meu filho. A.lem de que, esta moça 
queria eu sempre tê-la de olho, bem confiada 
em dar algum dia a seu marido mais grossa 
abegoaria ; confiança que aniquilarão os aconteci- 
mentos : os quaes também ílrérão que nesses que 
então considerava protegidos meus , encontrasse 
depois meus bemfeitores. 

Não duvidava eu da resignação de Suzanna ; 
mas quizéra que menos ( quanto possível ) lhe cus- 
tasse. Dei-lhe parte do que á cerca delia tinha dis- 
posto , aílormoseando , quauto coube na minha 



(44) 
eloquência o seu futuro destino , para que lhe foS" 

sem menos agros os presentes pezares. — » Muita 
bondade vossa » — era a sua única respos- 
ta. — '> Tudo o que depender de mim farei para 
ser ditosa ; e se o não for . consolar-me hei com 
dizer que me julgastes vós^ Senhora , digna de se- 
lo. — Um só dia não passer, sem qne a visse, até 
o dia do cazamento , que prestes se concluio , pre- 
sidindo ao contracto o Maioral de minhas fazen- 
das , e servindo-lhe eu de Madrinha no sacra- 
mento. 

Confiára-se nas nossas conversações Suzanna a 
perguntar-me ás vezes novas de meu filho , se eu 
acaso as tivesse recebido ; nem duvidava eu que 
ella sabia bem o motivo da sua súbita partida , 
nem que a certeza de ser delle sempre amada a 
consolava em parte do sacrifício que ella fazia á 
tranquilUdade de todos. Adolpho não me escrevia, 
mas delle e de seu proceder tinha eu informações 
indirectas. Sabia que pouco nas sociedades appare- 
cia ; que muita vez sahia só , quasi sempre a ca- 
vallo , e que sua mui declarada melancholia dava 
aíTlição a seus amigos , sem com tudo os des-soce- 
gar em quanto á sua saúde j que era quanto eu 
desejava. 

Desempedida de cuidados á cerca de Suzanna, 
dispunha-me a voltar com o Tio a Paris , não po- 



i0) 

dendo nem eu nem elle viver separados de meu fi- 
lho , quando me dão esta Carta. 

ADOLPHO A MADAMA DE SENNETER1\É. 

Fugindo de vós , minha Mãe e Senhora , para 
mais cumpridamente vos obedecer , vos de'ra a en- 
tender quáes erão meus desejos de que ficasse Su- 
zanna solteira (ao menos ), mas ao contrario forão 
ordens voásas •, por pessoa segura , que lá deixei , 
fui informado d'um cazamento , que tolhendo-me 
toda a esperança , me roubou as forças , com que 
supportasse o meu horrendo pezadume : de que 
nem criminar-vos me atievo , impufando-osómen- 
to ao meu fatal destino. Também , como eu , vos 
obedeceo Suzanna , que a resolveo a tanto o exem- 
plo meu. Oxalá , quo se não arrependa essa infeliz l 
Sei eu, Senhora, que vindes a Paris ^ e se sou 
eu quem a essa vinda vos convida , ah I forrai a 
inútil jornada. Que pois o que eu devo ao meu ap- 
pelUdo me atalhou de ser ditoso, quero comple- 
tar o sacrifício ; esta noute parto , para onde a deses- 
peração me leva. Que não possa eu pôr um mun- 
do inteiro entre mim e as minhas lembranças 1 
entre a minha mágoa , e o meu amor! Tão desgra- 
cado sou , que imagino , oh minha Mãe , que assim 
Yos sirvo quando arredo de vossos olhos o specta- 



(46) 
culo d-um filho consumido de pezares. Se a meus 
rogos inclina o Ceo ouvidos , elle me roconduzirá 
digno de appreciar o que vós julgastes devido fa- 
zer a bem da minha felicidade, e de que, sem mur- 
murar , me esíá gemendo o coração. Se escutasse 
o Ce'o meus votos... Ah! continuai, oh Mãe, a 
lastimar este filho vosso. 

Esta Carta me lançou n um aniquilamento total : 
vinte vezes a li , sem me poder capacitar do con- 
teú io delia. Meu filho fugitivo! meu filho afastandc- 
se de mim , entregue á mais escura desesperação ! 
Que terrivel golpe no peito d'uma Mãé , que em 
vez d'esse golpe aguardava agradecimentos ! To- 
davia , os Céos obtésto , no meu primeiro ímpeto 
accussei de sobeja a minha severidade ; e se na 
minha mão fosse refrahir o passado , se alli fora 
presente o meu Adolpho. . . . preconceitos, am- 
bição , minhas máximas mesmas , tudo , tudo tive- 
ra cedido ao desejo de o conservar ao pede mim. 
Imprudente mocidade ! quão caros nos vendeis 
os prazeres, cujos gomos nos plantou no peito a 
natureza ! E que dominio em nós não tendes , que 
fazeis com que muita vez prefiramos duvidar da 
nossa razão , á cruel mágoa de não poder duvidar 
que sois ingrata ! 

D'esse modo esse des-considerado mancebo que 
só computava com a sua aíTeição, quando menos 



( 47 ) 
prezava a nobreza que punha atalho ao cumpri- 
mento de seus desejos ; a tomava agora por guia , 
quando ella seus desígnios apadrinhava ; sacrifican- 
do unicamente ao amor em uma e em outra cir- 
cumstancia. Esta fuhninante nova trespassou o 
Tio , assustando-o á cerca do eífeito que ella podia 
produzir em mim : incapaz porém de parar em 
consolações vagas , me repôz socégo no ânimo 
com prometter-me que á primeira Carta que eu 
de meu filho recebesse , partia logo a ver se o re- 
solvia a voltar : e quando não , levava intenção de 
lhe servir de guia e de se appraveitar da occasião 
para lhe fazer emprender peregrinações que pozes- 
sem o último remate á sua educação : projecto 
bem digno da paternal amizade d'esse bom ancião ; 
mas que foi o derradeiro sinal do seu auiòrlpor 
quanto o colheo a morte no momento de exe- 
cutá-lo. 

Fiquei pois desamparada e só , no meio d'uma 
revolução, na qual não fallarei , senão nos pontos 
que tem relação comigo. Recebia algumas Cartas 
de Adolpho ; que de continuo me dava a esperar 
que voltaría •, mas que de contínuo se demorava : 
e na última me denotava o seu intento de passar 
állha de S. Domingos, a vêr-se com meu Irmão, 
e de lá voltar para não mais deixar- me. 

Antes porém que elle podesse cumprir com o que 



(46) 
promettia , tive a desconsolação de ver que levantâo 
as leis eterna barreira entre mim e meu filho. 
Mísera! que encetava aqui um encadeamento de 
infortúnios que tinhão de desdohrar-se com pas- 
mosa rapidez. 

Com cedo sube os desastres acontecidos na Ilha 
de S. Domingos •, e quando perdia todo o meu ca- 
bedal ainda me restava tremer á cerca das vidas de 
meu Fdho , e meu Irmão , que por tantos títulos 
prezar devia. Calamidades somente annunciavão 
as novas que chegavão a França , a iniqua fama 
nem consentia que duvidássemos do bando de in- 
fortúnios, que assollavão essa miserável Colónia; 
em quanto porem a individuação delles deixava 
assoberbadoras incertezas. Implorei o Céo que acu- 
disse á minha família ; mas cada intervallo de 
Correio , era para mim um anno de padecimentos. 
Em fim, de Philadelphia recebi uma Carta de meu 
fdho. 

ADOLPHO A MADAMA SENNETERRE. 

Quem me pozéra junto de vós , Senhora ! que 
recebessse as vossas consolações , e com minha 
coragem vos alentasse ! Nestes horrendos instantes 
é que eu sinto quanto o amor me des-caminhou , 
ao vêr-me tão affastado de minha Mãe j tomai âni- 



(4!)) 
IHO e vivei para vossso filho , que hoje em dia &6 
por vós suspira ; e que não daria por custo grande 
a vida que desse por entremeiar com as vossas as 
suas lágrimas. Que narrativa e' a que eu tenho de 
escrever ! Géos ! e pode-la hei fazer I tremem-me 
as mãos , e o coração se me estreita. 

Lembrança tendes dos acontecimentos da Ilha 
de S. Domingos que já vos escrevi; mas talvez que 
não saibáes ainda os successos da nossa familia e 
nossas desventuradas roças. Não pude tomar porto 
nessas terras onde a guerra civil e seus furores or- 
dinários tem uma actividade tão ardente como o cli- 
ma; e em Philadelphia e que sul>e que meuTio e sua 
Esposa» . . . perecerão entre tormentos que se es- 
panta a imaginação de somente recordá-los. Não, 
nunca , nunca cobrarei valor com que traga á me- 
moria esses espantosos morticinios que dão tremo- 
res a toda a humanidade. Praza a Deos que nunca 
circumstanciados os saibáes. 

Não se duvida aqui, que o machavelismo d'um 
certo governo , cujo orgulho sé achava humilhado 
pela prosperidade da Ilha de S. Domingos, não 
preparasse de longe similbante devastação. De so- 
bejo se cumprirão seus projectos ! E quando todas 
as facções reciprocas se accusão , accusa todas as 
facções esta Colónia , ha poucos dias tão brilhante. 

Minha Mãe não ha ahi fazer-nos illusão : des- 



( 5o ) 
truidas , an^azadas são nossas roças c engenlio^ , 
queimadas as oflicinas , aniquilada a resulta d'uni 
século de trabalhos , de prosperidade e economia. 
Faria lastima a sevis próprios inimigos a miséria 
em que se vêm os Colonos refugiados em Philadel- 
pliia j tanto mais para compadecidos , quanto foi 
tão rápida como o relâmpago a passagem da opu- 
lência á necessidade. Consola-me o saber que farão 
os bens que de meu Páe vos ficarão , com que não 
conheçáes esse extremo de infortúnio : esses bens 
de juro vos pertencem , pois que (digâmo-lo assim) 
vós os comprastes ; e vos pertencera , (pois que de 
Vosso filho são ) por outro titulo mais sagrado ain- 
da. Assim vo-los desfructeis , oh minha Mãe , por 
longos annos , assim podcssemos nós , bem cedo 
unidos , chorar ambos nossas desgraças / e am])os 
nos deslembrar dos pezares e das paixões insepa- 
veis desta vida 1 . . . 

O desfortunoso Adolplio não antevia ás calami- 
dades que dentro em pouco tinhão de cahir em 
peso sobre sua Mãe, Eu vi pôr o sequestro na 
minha morada ; sube que o pozeVãó nos meus 
paços de Paris , e outras mais propriedades de meu 
marido ; e apenas pude haver alguns de meu , 
particulares bens , com a permissão de conservar 
um apposento na mesma quinta em que então 
morava. 



(Si ) 

IVivada de cabedáes , despojada do antigo spíen» 
dor conheci o que ella era essa humanidade 
tão aíTormoseada ante meus olhos ate' esse mo* 
mento. Esses que quando ante mim vinhão só cui- 
davão em me comprazer , cessarão de constranger- 
se quando virão que não havia que esperar de 
mim ; e o insultuoso compadicimento de uns me 
estomagava mais que a ingratidão dos outros. Os 
aldeãos que eu de benefícios meus accumulára , 
somente computavão o que poderião grangear de 
meus destroços; cortavão arvores , retalliavào teVras 
que depois de se'cuios pertencerão sempre á familia 
de Senneterre ; palliando-se a si mesmos que essas 
terras erão baldios . 

Hoje os desculpo*, mas então uma ingratidão 
similhanle augmentava a minha angustia ; e para 
dar costas a um spectaculo que me quebrava 
o coração , me resolvi a vohar a Paris. Cus- 
tou-me a separação de meus criados , cuja maior 
porção me votava constante lealdade ; mas o estado 
de meus negócios requeria esse^sacrificio , por mim 
de longos dias retardado ; conservando só comigo 
a minha Aia , que .resolutamente me quiz accom- 
panhar ; e se não fora o domicilio que seu marido 
em Paris nos oííereceo , obrigada me veria a alojar- 
me em Camará guarnecida^ 

Pepois dos desastres da Uha de S. Domingos, 

4 * 



( 5'i ) 
tinhão-se (por econoniisar) refugiado nas Provinci- 
as os meus Parentes •, e parte da família Senneterre 
emigrara, parte se retirara aos seus solares; um 
único primo-com-irmão de meu Esposo conservava 
domicilio na Capital ; mas vendo que o testamento 
lhe não dava acção á tutela de meu filho , me des- 
amparava. Na revolução tomou partido, de primei- 
ro, que lhe adquirio muita popularidade, mas que 
por fim deo com elle no cadafalso. Far-lhe-hei com- 
tudo justiça , que , se teve ambição , nunca foi trai- 
dor áquelles cuja facção abraçara. Alem de que, no 
estado em que me eu achava, não tratava de o ver ; 
que antepunha eu a um resquicio de lustre sem in- 
dependência, um profundo retiro , onde livremente 
me podésse occupar de meu filho , e de meus peza- 
res. Mas nem esse retiro me deixárãoj que não pude, 
nem tratei de me esquivar ao decreto que encar- 
cerava todos os parentes de emigrados: nem eu já 
me prendia á vida , senão por um vinculo de reli- 
giosa resignação : e vendo-me privada da consola- 
ção de receber novas do meu Adolpho, angustiada 
com os fados que o aguardavão , houvera agrade- 
cido aos verdugos a vida que me tirassem. Nesses 
instantes horrorosos mais ânimo era necessário para 
pedir vida , que para dispòr-se á morte. 

Treze mezes passei na cadeia , e maiormente os 
seis últunos, sem mais soccorro, que esse que o receio 
de nos vêr morrer de fome arrancava aos nossos 



( 53 ) 
carcereiros : alvo de todas as humlliaçÕea ; esque- 
cendo as nossas desventuras pela narrativa das de 
nossas companheiras ; sem nos atrevermos a ceder 
ao impulso de amar, por nos forrar á magoa de eter- 
na separação, magoa que todavia expriraentávamos, 
sem termos desfructado as doçuras da amizade : 
ora accusávamos de tardia a morte *, ora involuntá- 
ria nos estremecia a ideia da destruição de nossa 
existenêia ; nem de fora nos vinhào noticias senão 
as de um diário carregado da estirada lista das vic- 
timas que na véspera tinhão perecido , entre as 
quáes com igual anciã que pavor buscávamos os 
nomes de nossos parentes , e amigos , e dessas des- 
ditosas que no dia de hontem apertadas tínhamos 
nos braços . . . Não ha peito que a supportar valha 
a lembrança de similhante situação. Di-lo-hei com- 
tudo , e até o meu último suspiro o tenho de repe- 
th', (que cabe ser a verdade conhecida) nessas pri- 
sões , onde encerradas éramos como ovelhas u'um 
redil , deparadas para o mattadouro , e mais seve- 
ramente tratadas , que horrendos facinorosos , a 
ousarem os nossos tyrannos ficar com nosco, admi- 
rar-se-hiào de quão fácil nos era alli o exercicio de 
todas as virtudes ; recuariào pezarosos diante da 
fatalidade, qwe os empuxava a trucidar esse sera- 
numero de francezes, que erão pela mór parle o 
adorno d'este século, e cujo exemplo dado á socie- 



(H) 
dade a tivera talvez salva da depravação, que (pode 
ser ) ás leis mais sábias muito custa a atalhar. 

Cessou em fim essa carnificina, e abiirão-se as 
prisões ; e dou graças á actividade da minha Aia , 
a boa Agostinha,c|ueera então a minha amiga única, 
que me trouxe a ordem de soltura ; e a instantânea 
alegria que alli me veio , cedeo logo o posto a pro- 
fundas reflexões a amplidão de futura calamidade. 
Porquanto nada tinha já de meu , senão os retratos 
de meu esposo e de meu filho, com que estava 
resoluta a enterrar-me ; e nem eu queria ser pesada 
a essa respeitável mulhe'r , a quem as desgraçadas 
circumstancias obrigarão a se pôr de novo a servir; 
6 por mais que ella fazia por me encobrir o muito 
que por mim sacrificava , bem o pressentia em meu 
ânimo ; nem o agradecimento desfalcava do suppli- 
cio que me dava o viver á cusí:a de suas privações. 
Entendia - me eu em tudo o que a uma mulheV 
cabe saber , excepto no que era viver do trabalho de 
minhas mãos j sobre me terem os pezares consu- 
mido a saúde por modo que me tirarão as posses 
de aturado lavor. 

Pôr-me a servir era o único refugio que me fica- 
va ; e a primeira vez que puz nelle os olhos , me es- 
corria delles sangue em lágrimas. A altivez, que 
'muita vez nos salva de vicios , que bem é modera- 
la, mas nunca suíTocála, se espinhou comviolen- 



(55) 
cia tal, que é iinpossivel calcular-lhe a força. Eu , 
que nasci entre immensos cabedáes , eu rodeada de 
escravos quando infante , de protegidos todo o mais 
tempo , eu , illustrada com um appellido respeitável 
pelos heróicos feitos , que a historia tem de testiíi- 
car á mais remota posteridade. ... eu servir! Deos 
meu , vós ainda então viestes em meu soccorro , 
e vós abaixaste a minha soberba diante das má- 
Skimas de vosso Evangelho ! 

Tanto nellas considerei , que pouco a pouco me 
fui familiarisando com essa ideia , e por fim to- 
mei azo de a communicar a Agostinha , sem lhe 
descobrir a minha repugnância, mais subjugada 
que destruida. Quiz ella contrastá-la , mas eu fiquei 
inflexivel , e lhe roguei que poze'sse diligencia em 
me deparar uma casa , onde eu (como o desejava ) 
presidisse com meu cuidado á educação de algumas 
meninas , único emprego para que me sentia com 
verdadeira propensão. Inútil era recommendar- 
Ihe , que esse cómmodo me soUicitasse , com dií- 
ferente appellido , qual o de uma desgraçada que 
pela revolução tudo perdera. 

Com os olhos arrazados de lágrimas e o peito suf- 
focado , me veio algumas semanas depois dar-me 
Agostinha parte de que por me obedecer , alcan- 
çara uma Carta para uma Dama ainda moça , e 
muito ricca , que desejava ao pé de si uma Dama 



instriiida e de l)ons costumes , com quem promettia 
ter os maiores resguardos. Peguei na Carla, aper- 
tando a Agostinha a mão por único agradecimento. 
Tratarei com mais larga escriptura essa época tão 
notável da minha vida. 

Tinha na mão a Carta que me havia de servir de 
r> commendação , e os olhos pregados no sobres- 
onpto , e não o via ; que absorta na immensidade 
de pensamentos que se empuxavão uns a outros , 
nem meditar podia. Creio que se então me cahisse 
um raio , não me daria abalo. Mas forão-se- 
me acclarando insensivelmente as ide'ias ;e comecei 
a me perguntar : » E que lhe hei de eu dizer? » Que 
resposta me de'sse a mim mesma , não a sabia. Por 
fim examinei o nome da pessoa â quem tinha de 
servir; e vi que se chamava Depréval , appellido 
sobre o qual machinalmente estive a reflectir, como^ 
seelle me rastreasse alguma cousa do futura que eu 
tanto receiava •, do sorte que cansada por extremo 
de me fixar em nada, me fui recolher; mas nem 
um só instante dormi. Uma fidalga que ha-de ap- 
presentar-se na Corte , não se vê na ve'spera mais 
desvelada em seus atavios , do que eu nesse dia 
me vi. Receiava inspirar commiseração , e ainda 
mais receiava não poder acanhar esses gestos de 
dignidade , que a natureza , e hábito de mandar 
verterão em toda a minha pessoa ; e o que eu mais 



(5t ) 
que tudo temia , era o não poder supportar com 
resignação as perguntas que me aguardavão. 
Colheo-me o dia , sem eu ter tomado resolução. 
Desejara airedar o fatal momento •, receiava , (dif- 
ferindo-o ) perder a occasião de cessar de ser pesa- 
da á pobre Agostinha. Os que ao nascer não co- 
nhecerão luxo nem opulência, custosamente forma- 
rão ideia do que padece quem vai ser humi- 
lhada : ura dia basta para pagar ( e muito caro ! ) 
gozos que todavia não derão verdadeiro prazer , 
pois que sempre tiverão a monotonia hal)itual , a 
que se avaliào só quando perdidos. 

Achava-me prompta ás dez horas, e eu vacillava 
ainda. O pensamento de que indo muito cedo, seria 
obrigada a esperar na ante-câmara , e encontrar-me 
nella , (por primeira prova ) talvez com algum dos 
meus lacaios que forão ; o pensamento mais horro- 
roso ainda de me mandarem embora , depois de 
aturar insolente interrogatório , erão pensamentos 
que involuntária me perseguião. Armei-me final- 
mente de coragem, desço com rapidez a escada; 
e eis-riíe na rua com precipitados passos , tremendo 
que me adivinhassem no semblante o que se pas- 
sava no intimo de minha alma. Preto levava o trajo, 
e sem olhar para ninguém, me cobri com um 
véo bem tapado que me amparava do olhar alheio. 
Chego á porta de minha Ama futura , pergunto se 



■( 5B ■) 
está ainda em casa , dizem-me que sim ; peVco o 
receio de ter vindo tarde , mas sinto um ce'rto pe- 
zar. Subo , e os joelhos me veVgão ; porgunto ao 
primeiro criado que encontro se posso fallar a sua 
Ama, este me diz que espeVe , em quanto vai dar 
parte a uma das Aias ; assento-me e espero. Vai 
passando meia lióia , e um tropel que entra e que 
sabe dos (jue procuravão o Dono da Gasa , me 
tólbem que considere em mais que no receio do 
que alli me nonheção. Vem uma criada que me 
pergunta quem eu sou , e o que de sua Ama recjuei- 
ro : » Qiiizera-lbe fallar. — Da parte de 
quem ? — » Da minlia. — Como se chama ? » Só 
a ella o posso dizer. — INIinlia Ama recolheo-se 
tarde ,e ainda nào toccou a campainha. — » Pois 
eu esperarei. Nesse instante toccou a Ama , e logo 
n'outro instante me vierão dizer que entrasse ; e 
apóz a minha introductora íui atravessando sallas, 
cnjo adereço, por elegante e ricco , me pasmava , a 
mim ({ue me tinha logrado de quanto outrora dava 
admiração. Entrámos na alcova, pouco clara, 
como ao apontar da aurora , e a Senhora estava 
ainda na cama ; appresentei-lhe com tremoi» a 
Carla , e ella me disse que me assentasse, pedindo- 
me licença de se vestir diante de mim, desculpando- 
se com querer antes que eu entrasse logo, do que 
deixar-me n outra câmara por onde passava tanta 



(59) 
gente ; a amenidade de suas falias me confortou 
um tanto, mãs ainda não ousava erguer os óilios, 
e vê-la : reparei somente , em quanto lhe appresen- 
tavão umas roupas guarnecidas de renda , cpie era 
de admirável talhe , e de gracioso natural. Acabada 
de compôr-se, disse ás criadas que se fossem , e 
nos deixassem sós ; em quanto rorai)eo a obréa , 
e passou os olhos pela Carta , deitei eu para traz 
o ve'o , e nesse instante ouço um grito agudo , e 
cahir a meus pés essa Dama, repetindo : - Madama 
de Senneterre ! Oh Céos ! Madama de Senne- 

terre ! — Olho para élla Era Suzanna ! 

Cahira sem sentidos , e eu tomei-a em braços 
até a pôr no leito ; toquei a campainha, acudirão , 
dérào-lhe soccôrro , — de cujo tinha eu tanta 
necessidade como ella , por quanto cahi n'uma 
cadeira de braços , sem movimento e sem falia. 
Seu marido , e quantos com elle erão , e toda 
a gente de Casa tinháo accorrido , e inquietos aguar- 
davão que ella recobrasse os espíritos. Eis que ella 
abre os olhos , e me procura ; e como a muita 
gente me encobria, chama por mim , e me avizinho 
d' ella. — Oh Madama ! Oh minha Bemfeitora ! 
(exclamou ella). Ponho-lhe a mão na bocca , para 
que me não declare. — » E impo.ssivel ! ( bradou 
mais alto ainda) É impossível ! Esconder eu a minha 
alegria! Envergonhar-me eu da minha gratidão: 



( fío ) 
E vós, Senhora, envergonhar-vos de vossos infor- 
túnios ! Vós , cnja vida foi uni acto continuo de 
virtudes , e de fazer bem a todos ! — Senhor (disse 
ella então a seu Marido ) não a conheceis? Como 
e\\i\ está demudada ! não conheceis Madama de 
Senneterre ? — 

Seu Marido chegou então pe'rto de mim com 
tanta anciã como enleio , e me fez um cumprimento, 
que me demostrou o que verificamos cada dia ; 
que a sensibihdade , e o gosto supprem nas mulhe- 
res a falta de educação ; em tanto que um homem 
que teve a desgraça de não a ter recebido , nunca 
está em peior situação, que quando os olhos se 
filão nelle. 

Pedio Snzanna que nõs deixassem sós, e advertio 
seu marido com tom de aíTiígo, de que não ia jantar 
fói a , e que mandasse por desculpa faltas de saúde ! 
Logo que nos vimos ambas sós ella me fez tanta 
caricia com tão amável e respeitoso gesto , que 
fez com que • vertessem na minha alma quantos 
abalos agitavão a sua. 

« Já agora , Senhora , não tendes de me deixar. 
?íào é assim ? Aqui tereis apposento , e criados 
como minha Mãe que fosseis. E não o sois vós ? 
Mandai , disponde de toda esta Casa ; que nem eu 
mesma sem ordem vossa, aqui entrarei. E Agos- 
tiiiha que é feito ? Também ella vos desamparou ? «. 



(Gt ) 

Niâo , Madajna , (lhe respondi um pouco aca- 
nhada)— Chamaes-me Madama? (acodio ella pe- 
zarosa). Se eu para vós não sou já Suzanna, para 
quem o serei já ? Olhai , olhai para este anne'l , que 
me recommendastes de nunca o largar. Ei-lo : sem- 
pre no dedo , que me recorda Aqui se atalhou 

vertendo cores no semblante. jNIas logo com os 
olhos humedecidos me pedio: » Chamai me Su- 
zanna , que esse nome me alivia o peito. » 

Pois bem , minha Suzanna , bem , minha filha 
(lhe disse eu , dando-lhe um abraço"5 Agostinha 
não me desamparou ; mas não é aíTortunada ; que 
lhe embolsíírão em pape'is o fructo de suas econo- 
mias , posto a rendoso juro : e como se vio neces- 
sitada a se pôr a servir de novo , eu fui quem ihe 
não quiz por mais tempo ser pesada, 

» E precisso que ella venha ( me interrompeo ) 
porque ninguém , SenhorS pôde como eu e ella 
ter comvosco as attençòes que se vos devem. Ah 
que se eu tive'ra sabido as vossas desventuras I Mas 
dous temores me reprezavão os passos; um de 
humilhar a minha Bemfeitora com a minha opu- 
lência ; outro de vos dar suspeitas que vosso fi- 
lho Muito para lastimado deve elle estar 

Senhora ! » 

Esta reflexão de Suzanna me fez derramar 
lágrimas; o que ella vendo, não quiz pôr heio ií> 



( 6i ) 
suns. Tornadas nm pouco em nós , comêCei aS* 
sim : » Quando eu , amiga minha, tomei cuidado 
da vossa infância, preenchi um de meus deveres ; 
o que depois á vossa conta fiz , dívida era que eu 
pagava ao vosso generoso procedimento. Muito 
me consola essa vossa gratidão , e de mim mesma 
me envergonhara , se experimentasse a menor repu- 
gnancia a d'ella me «pproveitar. Mas , Suzanna 
minha , os eíFeitos delia convém que os limiteis ; 
que resignada estou já co'a minha sorte ; e mais 
carência tenho de socego que de opulências. Alem 
de que , deveis ponderar que sois em poder de 
marido , e que por mais abundantes que vossas 
riquezas sejão , menos a vós que a elle lhe perten- 
cem. Deixemos Agostinha 

« Perdoai-me , Senhora , o interromper-vos : mas 
é que ainda não conheceis nem a minha situação , 
nem o men ânimo. M. Chenu, ou Depre'val (como 
queirae's chamá-lo ) outra vontade não tem senão 
a minha , e o que sempre anciou foi fazer-me ven- 
turosa. Desde o meu cazamento o paimeiro ins- 
tante que experimentei feliz e'esse em que vi a pos- 
sibilidade de ser útil á minha Bemfeitora ; quanto 
mais a vosso respeito faça , quanto mais veja que 
vos são agradáveis meus cuidados , mais me avizi- 
nharei da felicidade que permittido me 6 que espere» 
Com quanto veja meu Marido esparzido o conten- 



(63 ) 
tómento em meu semblante , que elle applandirá 
quanto eu íizér ; e Agostinha de mais, ou de menos 
nesta casa , não daria elle fé , se eu lhe não fizesse 
attentar nella para a galardoar do bem que com 
vosco se portou. Pondo porém de parte o inestimá- 
vel pre'mio que o meu coração encontra em reparar 
(quanto em mim cabe; as injustiças da fortuna a 
respeito vosso, concordareis, Senhora, quando 
saibáes a minha vida, que sendo sempre os Ijeneíi-r 
cios de vosso lado , do meu calje que o sfja a grati- 
dão. De mim não faltará tempo em que fallêmos ; 
de vós somente agora importa que me occupe. » 

Apenas installada eu fui dos apposentos que me 
erão destinados , que ella escreveo a Agostinha 
e não se fechou a noite, que eu a não visse ao pé 
de mim. Parecia que a sua actividade lhe dupli- 
cava o ser , quando me prevenia as vontades ; nem 
eu , sem aííligi-la , me podia oppôr ao que ella a 
meu respeito obrava. Ko dia seguinte , um único 
instante a vi , e o mesmo no dia depois ; e dado 
que em cada um delles deparasse c'o meu toucador 
carregado de mais estôílbs que competia a meu 
estado , para i-esarcir o que o tempo e os infortúnios 
me tinhão levado, nada menos me penalisava esi-e 
seu proceder , e vêr-me humilhada com niercés 
suas : nem sabia conciliar tão extraordinário dcs- 
Vêgo com Unia sensibilidade que nella experimentei. 



( e4) 

Educada por mim, e tal qual eu a conlieci , quândô 
o acaso me guiou a sua casa , Suzanna era uma 
amiga de quem sem me envergonhar eu bem podia 
tudo receber; mas Madama Depréval, entregue 
á dissipação , nem jus, nem posses tinha com que 
eu a menor cousa lhe acceitasse. Eu tremia que 
a opulência a não houvesse corrompido , e desde 
então me era impossivel ficar em sua casa sem 
emprego, sem distinção, e de encostar o meu 
appcilido ao de uma mulher moça , formosa, ricca, 
e inteiramente avasallada aos seus divertimentos. 
É a pol)reza mais fácil de supportar do que a ver- 
gonha. Custava-me com tudo sentencia la-tão seve- 
ra, e com msoffrimento aguardava o instante de me 
explicar com ella , conservando sempre o que ás 
minhas máximas era devido, e os resguardos que 
requerião o estado servil em que me via , e a inde" 
pendência em que se achava Madama Depréval. 

Mandou-me esta , no terceu'0 dia pedir licença de 
vir almorçar comigo no meu quarto, onde entrou 
fazendo-me aíTagos mil: « Não sei (me disse) que 
conceito tereis feito de mim ; mas tinha dado pala- 
vra que não me era possivel quebrantar, sem affligir 
meu marido , alem de querer-me ver inteiramente 
livre , a hm de vos manifestar o meu coração. Não 
sou feliz : que gosto da vida solitária , e sou con- 
strangida a me entregará sociedade; gosto da sin» 



(65^ 
geleza, e o luxo e a prodigalidade meladeião. Ouvi- 
me , Senhora , e depois julgai-me. Suzanna neces- 
sita de conselhos vossos ; e como lhe servireis vós 
de guia , se não conheceis por inteiro a sua situa- 
ção ? A minha vida , narrada ella , é para assim 
dizer , o transumpto dos usos d'este século, que 
muito temo seja de bem pouca attencão vossa. 

Essa franqueza de Suzanna me restituio a boa 
opinião , que eu delia tinha concebido , e lhe af- 
firmei que disposta estava , e indulgente a ouviria ; 
e que arremessada n'um mundo que se me asseme- 
lhava estranho , tomaria a l)em que se não forrasse 
a individuação alguma. Assim , nos sentámos 
uma junto d' outra j e ella começou nesta subs- 
tancia : 

» Em vão vos encobríra , e em vão a mim mesma 
me dissimulara, que amava eu vosso filho a ponto, 
que sacriíicar-lhe eu a vida para lhe evitar um átomo 
de pezares , um suspiro só me não custara. Mercê 
foi de vosso desvelo , e do exemplo que dáveis a 
toda a Casa , o ser-me tão prezada a virtude , como 
o amor: podia eu padecer, mas não faltar aos 
meus deveres. Vós me resignastes com a minha 
sorte , e com ella me resignei ainda depois do 
cazamento : e se impossivel me era esquivar-me 
lembranças , lembranças escondia no segredo da 
alma. 

Tom. X 5 



( 06 ) 

Não me tinha amor M. Chenu ; aíFecto que estia* 
nho creio que sempre lhe será ; mas respeitava-me 
como ente que lhe era superior. O bom termo que 
eu dava a tudo , os avisos que lhe eu suggeria escre- 
vendo-lhe as suas compras , me grangeárão de sua 
parte a mais alta estima. Não ha homem que não 
tenha sua paixão, a d'elle era adquirir , e tudo lhe 
prosperava depois que se cazou. Portanto não dava 
por couça extraordinária o que outrem que elle 
arguiria numa mulher de sua qualidade ; que era 
gostar na leitura todo o momento vago ; e quando 
M. Chenu me instava que lhe dissesse o que dese- 
java que de tal Cidade me trouxesse , sempre livros 
erão o que lhe eu pedia- Como elle um só nunca 
abrira em sua vida , e que a vulto medrava em 
cabedal, capacitou-se que da minha leitura vinha 
o bom maneio que eu dava ao seu commercio j 
erro que lhe entretive pela docilidade com que o 
inclinava ao que era de meu gosto ; que desde a 
tenra meninice me senti com insuperável desejo 
de sal)er , e a vosso filho devi os primeiros livros , 
e táes m'os dava , que nem vós , Senhora , vos affu - 
mo , m'os houvéreis tolhido ; novelias erão , mas 
novéllas em que erão os bons costumes e o bom 
senso respeitados. 

Quanto mais se estendia o commercio de M. 
Chenu , mais necessária lhe era eu. Largou a 



I 



C 67 ) 
abegoaria que tínhamos arrendada, comprou na 
entrada do subúrbio da próxima Cidade , umas 
casas notáveis pela amplidão dos edifícios, e que 
apenas suppria á quantidade de animáes , que allí 
momentâneos recolhia , e traspassava cou pasmosa 
promptidão. Não podia elle comprehender como 
tinha sempre tão exactos os registros de todas as 
suas operações , que não calasse em suas contas o 
menor erro ; venerava-me como o instrumento da 
sua fortuna, e quiz , pela primeira vez, que eu fosse 
vestida e servida como Dama ,- tal era o seu dizer. 
Que mais dii-ei? Fez-se Assentista , metteo-se em 
arrematações e companhias de Contractos , tomou 
Caixeiros , consenando todavia o uso de que tra- 
balhassem á minha vista como outrora elle fazia. 
A tal ponto enriqueceo , que não se conhecia de 
ricco. Sempre lhano , sempre laborioso , não sabia 
gastar, e assentava que nada podia accrescer a 
ventura que elle desfructava. Ah ! que se elle sem- 
pre assim pensasse ! Novos contractos o trouxerão 
a Paris , onde reinavão os passatempos , e quiz elle 
que eu o accompanhasse , confiando em que essa 
iormada apiazivel me seria , e mais convencido 
aindaemnãoeraprender cousa avantajada que antes 
não fosse eu consultada. Apeámos-nos numa lo- 
canda, onde tomámos uns quartos cómmodos e 
modestos. No dia seguinte me disse M. Chenu que 

5 * 



{ (58 ) 
iríamos jantar a casa d'um dos sócios , e pela pH- 
meira vêz me fallou em ser preciso pôr-me de festa ; 
e de continuo me fallava da Casa de seu Sócio, 
das Carruagens , dos Lacaios, e tornava ao meu 
toucador a recommendar-me que não mepoupasse 

a gastos. 

Accostumada a nunca o contrariar , e sem ter 
ideia alguma do que era Paris , nem da Sociedade 
em que ia apparecer , me enfeitei com as minhas 
mais riccaslouçaí nhãs, capacitando-me que ajoujada 
com os diches de ouro , que M. Chenu me trouxera 
de mimo das suas feiras , tinha posto o ultimo 
remate de luxo ao meu ornato : bem vos posso 
dizer que erão diches pesados, pois que elle os 
comprava a peso. Partimos ás 4 lióras da locanda ; 
e éramos enU^ados no hynvérno. Um fiacre nos 
estava esperando á porta , e no caminho se tra- 
vou com outra carruagem , quebrou-se ,. mas por 
ventura nossa sahimos illésos : somente o susto 
fez que toda estremecida foi forçoso que enU^asse 
n'uma lóge onde a mercadora teve a condescen- 
dência de me dar os soccorros necessários, e mandar 
buscar outra carruagem. M. Chenu estava mais occn- 
pado do meu enfeite que da minha saúde-, e tanto 
disse do enfeite , que a mercadora assentou que le- 
varia elle em gôsto , que ella desse uma de mão ao 
que a queda desmentira em meus atavios j e com 



( Co ) 
eíFeitò esta sua attenção o contentou de modo , que 
logo alli lhe prometteo dar-llie a sua freguezia ape- 
nas alfaiasse casa ; palavras que me não cabirão em 
vão. Em fim a carruagem chega , embarcamos , e 
ás 5 e um quarto somos na Calçada de Antin , 
onde morava o Sócio de meu marido. 

Abre-se a grande porta ; e enfia o fiácre um longo 
passadiço guarnecido d' árvores pelos dous lados , 
e allumiado por dous faróes abraçados pela cauda 
por duas státuas de bronze. Parámos n'um soberbo 
páteo , onde dispostos os reve'rberos era propor- 
cionados lanços , me descobrirão dez ou doze Car- 
ruagens magnificas, cujos urcos apenas domados, 
battião insoífridos a calçada , e se empinavão entre 
os jaezes de reluzente custo. Não sei que movimento 
em mim senti ; mas ao apear-me , tremião-me os 
joelhos de modo, que custosamente me sustinha. 
Entrámos n um vestíbulo ardonado de colummas 
de mármore , e tendo atravessado diííerentes quar- 
tos , que me impedia de distinguir uma nuvem 
que pelos olhos se me espalhou , um criado que 
nos vio chegar empuxa as bipatentes portas , bra- 
dando : — 31.' e xM."^" Chenu — Então , sem saber 
como , me acho em populoso circulo , onde me 
me acolhem á uma as risadas , e as mesuras. 

Toda a gente ficando em pé , por inódo me 
subia o sangue ao cérebro , que mais de dez vezes 



do) 

imaginei que me dava o vagados ; ate que por fim 
a Dona da Casa , fazendo quanto poude por tomar 
ó seu sério , que involuntariamente trahião os 
torci meutos que dava aos beiços , veio ter comigo , 
me beijou , o me fez sentar junto delia. A pezar 
do ge'stocliasqueador, muito de vontade eu a beijara 
por me ter tirado da postura em que cu me via. 
Sentada apenas , começarão a voltar por de traz de 
mim aquelles mancebos , e a quebrarem o silen- 
cio com dizer : » E donosa , e' admirável, não ha 
dinheiro que a pague. » E logo as risadas de volta 
com os motejos. O homens dinheirosos , entre os 
quáes se achava M. Chcnu se tinhão retirado num 
canto da salla , onde sem duvida fallavão de negó- 
cios. Outo mulheres, e eu na conta , fazião meia 
lua á chcmine', as quáes , sem as querer ver , por 
mais que voltasse os olhos , me erão representadas 
pelos espelhos com a vista cravada em mim , e logo 
seus tregeitos , e os lanços de olhos que serviào de 
reciprocos inlérpretes a Damas e a Cavalheiros. 
Bem sentia eu que me achavão ridícula , e o muito 
que m'o davão a conhecer bem me humilhava ;e 
com eíTeito quando eu comparava o meu enfeite 
( em (pie tanto se embelezara M. Chenu), os diches 
que me ajoujavào , o desmarcado bairêtte que me 
encovava o rosto, e que eu com muito desvelo 
trouxe'rada minha terra ; quando (digo) me compa- 



f 7^ ) 
tava com suas roupas tão finas , e tão riccamentes 

bordadas , c os diamantes , que únicos lhes cobriào 
o seio inteiramente nu , e lhes adornavão os braços 
arremangados até aos hombros , c os cabellos com 
muita arte edificados , que todavia desmentião 
extraordinariamente com as sobrancelhas ; porque 
umas os tinhão louros com sobrancelhas pretas ; 
outras as tinhão louras , e os cabellos pretos : e 
por ce'rto que bonitas as não achava ; mas um 
instincto secreto me dizia , que a achar-se uma 
dessas mulhe'res num rancho da minha Província, 
parecera tão extravagante lá , quanto o parecia 
eu então naquélla roda de sécias. Reflexão esta 
assaz sufficiente para me pôr a tormento ; e me refi- 
ro ao bom entender de quanta mulher ha , e que 
digão se eu padecia alli , ou não. Mas não era 
ainda o fim. 

» Sem dúvida que esta noite vai Madama ao 
Concerto do theatro Feydeau? ( me disse ceceiando 
uma mulher para cuja cara olhei então, e cujo 
seio volumoso, e roliços vermelhos braços, seu 
traje á Grega , seu rúbido semblante me affigura- 
vão involuntariamente uma Bacchante que era 
admirada na galaria dos Paços de Senneterre. ) 
Era forçoso responder a essa pergunta , e eia grande 
enleio para mim , que ainda não abrira a bòcca ^ 
t receiava soltar alguma necedade , não sabendo 



o que era o Concerto da rua Feydeau ; e no íntimo 
da minha alma , dera eu tudo quanto possuía por 
me ver em minha casa , ou na minha Província ; 
mas não havia meio de sahir; era forçoso responder, 
eeu calava. Sem dúvida, que virá comnosco ( res- 
pondeo a Dona da Casa) que bem é que ella co- 
nheça o que ha de mais mimo em Paris. — 

— Se M. Chenu o quer assim , será meu gosto 
obedecer-lhe. — Cinco minutos me zunío pelos 
ouvidos o nome de M. Chenu, da bôcca daquelles 
moços que me rodeavão; até que um delles se 
chegou a mim , dizendo : » Madama , o Senhor 
Chenu nada faz ao nosso caso ; e a permitti-lo vós , 
tomaremos todos a nosso cargo doutrínar-vos nos 
usos de Paris , que em vós ha de que talhar uma 
linda Dama , e vos affirmo que horrenda cousa íôra 
que M. Chenu conservasse o menor império em 
vosso alvedno. M. Chenu veio ao mundo para ga- 
nhar dinheiro , e vós para gastá-lo. M. Chenu veio 
a Paris para seus negócios , vós para desfructar 
prazeres , e em quanto elle trabalha , calcula , e 
faz quanto de've fazer um M. Chenu , seremos nós 
ás vossas determinações. Vireis a Feydeau , e eu 
me encargo de ser vosso escudeiro. Afé que fareis 
lá sensação. )> 

— Como que sim (clamarão todos á uma) que 
Madama ha-de lá fazer e'poca. — Esse barrêtte fê- 



(73) 
lo Le Roy, ou M.^e Despeaux ? (acudio um d'esses 
velhos peti-metres , que mais impudentes que os 
juôços , carecem jda graça , ou de azoamenlo que 
os desculpa ). Achava-me picada , e cahío nelle o 
meu máo génio. — Como pela pergunta que me 
fazeis, posso, meu Senhor, julgar, sem vos fazer 
injuria , que tendes muito de ocioso , vos encarrego 
de informar-vos se vem de Le Roy , ou da Des- 
peaux o meu barrêtte ; nem vós negareis esse vosso 
préstimo a uma mulher de provincia; que, ao 
que estes Senhores dizem , tem de que se talhe 
lima linda Dama. — E donósa , tem ingenho ! bello 
epigramma ! tem preço ! Dou minha palavra de 
honra. — E donósa — ( murmurarão ainda uniso- 
nos os Peraltas que me rodeavão ). Madama , 
( me diz a Racchante , concentrando a chólera ) 
o senhor , na pergunla que vos fez nada disse 
que vos injuriasse. « Nem eu, Madama, lhe res- 
pondi fora de propósito. O mais curioso, esse se 
instrua; e por certo que o Senhor o é mais que eu». 
A tal Bacchante resvalou pelo meu traje desde- 
nhosos olhos , e virada para um espelho , compoz 
ou descompoz as negras torcidas que lhe serpe- 
avão pela testa. Mas o tiro encartou n'o alvo -, já 
os Peraltas erão de meu bordo , e as mulheres me 
olhavão com mais ciúmes que desdém : paixão 
aque'lla que mais nos lisongeia , do que esta nos 



(74) 
humílíia. — M. Chenu , M. Chenii ( giltou um 
d esses mocos que se oíTerecêra para meu escudeiro, 
deixai lá os negócios , e chegai-vos para nós. Sabeis 
vós que vossa mulher vale um thesouro ? e tem 
juizo como um Anjo? Queriamos rir, e dou-vos 
palavra de honra que ella é quem de nós zomba. 
Para quem começa , é cousa de pasmar. Gosto de 
mulheres de juizo ; e d'este instante, M. Chenu , 
me anne'xo a vós como ao meu melhor amigo. 

— Muita honra me faz (respondeo meu marido ) 
verdade é que minha mulher tem mais juizo n'um 
dedo seu , que cu não tenho no corpo todo : e mais 
não sou magro. — Eu estava a tormento , de ver 
que ainda a Bacchante triumphava esla vez e que 
o velho peti-métre se vingava em meu Marido. — E 
como que sim, (continuou o tal) que pesa âs suas 
cinco arrobas ! — Oh que não ! (replicou com sim- 
pkza M. Chenu ). — Muito bem ( acudio um Moço 
de 18 annos cuma carinha d'um Cupido), sup* 
ponhamos que M. Chenu não pesa mais que 4 
arrobas e meia , e que em todo o seu corpo con- 
têm uma outava de juizo ; ora computando o que 
vai do dedo de Madama á corpulência de M, 
Chenu , tirariamos ao justo 

Eis que o interrompe uma alta e magra mulheV , 
cujo nariz , barba , e cotovêllos erão pontudos 
alem de razão , e que chegando-se a elle , lhe impin- 



(75) 
gio uma leve bofetada ( cuja mão foi súbito beijada) 
e o repreliendeo de se approveitar da educação que 
lhe ella dera ; e eu achando opportuna a occasiào , 
para mudar de assumpto , lhe perguntei a ella se 
aquelle senhor era seu fdho. Esta pergunta que me 
parecia tão natural , fez abalar de riso a todos , 
menos a Dama magra ea alta , que lhe não achou 
graça. Foi ventura que viessem advertir que era 
prompto o jantar. Deveis de estar aggravada de 
mim (me disse ao ouvido a Dona da Casa, quando 
me conduzia á salla de jantar); mas estou disposta 
a tudo para desaggravar-vos , e adquirir a vossa 
amizade ; porque sois muito de meu agrado. Esta 
sua. franqueza muito me contentou, e restituio 
liberdade enteira ao meu spirito. Deo-me lugar á 
mesa , entre ella , e esse jóven computador do juizo 
de M. Chenu , que tinha a meu respeito as maiores 
attenções , e que olhando para mim , sorria cada 
vez que a mulhe'r alta e magra lhe enderessava a 
falia. Bem distinguia eu que a tal queria que elle 
só d' ella se occupasse , e igualmente via que o 
jóven , por malicia , de mim somente se occupava. 
Pxegaláva-me , bem o confesso, o supplicio dessa 
mulher, que junto com a Bacchante fora a mais 
indecente na aíTmação que experimentei. 

Em quanto os primeiros pratos se não tirarão 
ninguém fallou j ■— devoravão. Eu que via essas 



Damas comer a carne ás mãos cheias (não lhe acho 
termo mais comesinho) não me pude têr^ que não 
imiiginasse que a moda das roupas des-cinturadas 
vinha de accôrdo com a glotonice das bizarras 
d'agóra. Dei parte da minha reflexão ao jóven 
meu vizinho , e com elki lhe avivei a esperteza, de 
sorte que rompeo em bons dittos , e rimos ambos 
tão folgado , que todas as mulheres , e mormente 
a que eu tivera por sua Mãe , quizérão saber o 
assumpto do nosso riso. O que elle esquivou, 
picando-lhes ainda mais o desejo je começando a 
ser geral a conversação e a ser ruidosa , tornei eu 
ás minhas observações : e na verdade que essas 
bizaiTas Damas , que de primeiro me tinhão des- 
lumljrado , já me apiedava d'ellas. Uma só phrase 
não proíerião , que lhes não de'sse nella a JLin- 
gLia franceza 5 ou G quináos machuchos ; vinhão 
em feixe os termos triviáes, e as expressões exqui- 
sitas , desmentindo da verdadeira significação ; 
e o que dava ao quadro a derradeira pincelláda 
era qua todas as táes tão sábias que cliasquea- 
vão umas das outras , erão todas chasqueadas 
por todos esses Moços. Em quanto aos Maridos 
convindo estava , que se podião exprimir como 
quizéssem : como o seu desvelo punha o fito em 
ganharem dinheiro , seu lhano teor , e os excelleu- 
tes vinhos os amparavào da critica. 



(77) 
Então me chegou a vez de me divertir, zomban- ■ 
do dasque de mim zombarão ; e nesse diverlimento 
tinha por ajudantes de primor o jóven meu vizi- 
nho , e a Dona da Casa , a quem não faltava inge- 
nho nem trato , e que era ])onita e moça. Já havia 
uma hora que estávamos á mesa quando de novo 
•se fallou no concerto de Theatro Feydeau. O velho 
peti-métre perguntou a M, Chenu , se me permittia 
que eu lá fosse , e M. Chenu lhe respondeo , quê 
tudo o que me podésse divertir lhe convinha muito 
bem : e logo todos esses mancebos a uma vóz lhe 
declarão., qne elle era a pe'rola dos Maridos. To- 
mando elle o tal elogio pelo sério, ia já desenro- 
lando a minha apologia; mas eu o interrompi e Iheaf- 
firmei que a minha intenção era ir já dallt para casa. 
Que não queria eu expôr-me a uma scena em pu- 
blico, nem contribuir ao triumpho complecto des- 
sas Damas, cujos olhos lhe reluzião já do gosto de 
me porem em público ludibrio. Piodeárão-me ; ins- 
taráo-me, sollicitaráó-me-, mas eu porfiadamente 
resisti. ^. Dona da Casa se me oíFereceo que me 
mandaiia pôr em casa ; o que eu logo acceitei : 
M. Chenu partio com a sociedade para o Concerto ,- 
e eu apenas entrei e me puz a considerar nos meus 
enfeites, de vontade chorara, pela scena a qre 
elles me 'exposérão : por quanto pela primeira viz 
pa vida se vio picado , e bem no vivo , o meu aunr 



( 78) 
próprio ; e tanto mais penosa me era a minha 
mágoa , quanto eu menos me podia disfarçar quão 
fútil ella era ; e com tudo, me deixava vencer d'uma 
fraqueza , de que hoje me envergonlio. Arremessei 
ao fogo o barrétte que com tanto desvelo trouxe'ra 
da Província ; e boa prome'ssa me fiz de conseguir 
de M. Chenu de partirmos no dia seguinte ; e no 
caso do estorvos, de me encerrar no meu appo- 
sento. Tranquillisada um tanto , comecei a reflectir 
nas mulheVes que me tinhão humilhado, debuxei- 
as na minha imaginação com enfeites táes, como 
os com que eu lhes apparecêra , e na minha iédia 
me compuz com tiaje igual ao que néllas vira; e 
então persuadida que toda a vantajem que me 
levarão consistia nos atavios, com satisfação mi- 
nha me perguntei por que motivo me não sujeitaria 
eu ao império da moda , e ao desejo tão natural 
na idade que eu tinha , de alardear os attractivos 
com que a natureza me prendara ? Que vos direi ? 
Quanto ha hi que arrastrar possa uma mulhe'r 
moça e sem experiência , se tinha dado as mãos 
para stimular a minha vaidade. 

M. Chenu, que devera sor o meu guia, esse 

voltou do Concerto mais confirmado que nunca 

nos novos projectos que lhe inspirara o luxo do 

seu sócio : tudo quanto fallava erão palácios , 

lacaios , caiTuagens , nrcos , e não dava ouvidos 



( 79 ) 
a observação alguma. — Sou ricco (repetia de 
continuo ) e porque me não hei-de lograr como elle» 
da riqueza? Imaginais vós que eu não percebi 
ao claro que elles zombarão de vós e de mim? 
Também que'ro á volta minha zombar eu dellesc 
quero que tenháes vós só tantos diamantes , tantos 
bordados , e diches como essas mulhe'res todas 
juntas. Madama Darson (era a esposa do seu sócio) 
virá ámanhan a vêr-vos5 que pelo que elia me diz, 
muito vos ama , e vos pe'ço que , se não quereis 
desagradar-me , tomeis os seus conselhos. — Se- 
gundo a disposição em que o meio ânimo se via , 
mui fácil era obedecer a M. Ghenu ; que logo no 
outro dia madrugou para alugar o mais apparatoso 
apposento da locanda onde nos apeáramos , alu- 
gou as cavalhariças e cocheiras , instando-me que 
logo e já me passasse ao novo domicilio, porque 
não viesse Madama Darson e me achasse ainda 
num quarto que de singelo o envergonhava. Sahio 
a comprar cavallos e carruagem , e me pôz de 
aviso que em todo aquelle dia não esj)erasse 
por elle. 

Cumprio Madama Darson com a promettida 
visita j e logo que entrou me disse , dando-me um 
beijo : » Venho-vos pedir a vossa amizade, a qual 
vos que'ro merecer : e desde já convenho que dous 
aggravos tendes contra mim ; o de não ser cu a pri- 



( 8o ) 
meira que vos viesse convidar, e também o de coii* 
correr para a scena indecente que hontem aconte- 
ceo em minha casa. Mas , minha querida , era 
impossivel não ser assim : merecíeis retratada. » 
E não se poude ter de riso. « Mas por onde começa- 
remos nós (foi continuando a fallar ) truxe - vos 
imia Aia, que vos tem de contentar; que é uma jóia. 
Ella lá está , que nos espe'ra na carruagem : vinde, 
e vamos ás compras; nem leveis bolsa, porque eu 
prometti a M. Chenu de ser a sua thesoureira e 
mesmo apenas precisaremos de dinheiro , a não ser 
para algum capricho. Que vamos a lóges onde 
somos n éguêzcs , e que nos mandarão os róes. » 

Embarcadas na carruagem, me disse: » Sabeis 
vós qae resolutamente íicáes de morada em Paris ? 
E que assim ficou hontem assentado entre M. Che- 
nu , e M. Darson? Não gosto do vosso appellido; 
que é muito trivial , e que excitaria risadas, quando 
ao sahir do Theatro , bradassem pela carruagem de 
Madaraa Chenu. Vós tendes, que eu sei, um pré- 
dio ditto Depre'val; é preciso ajuntar esse appellido 
ao vosso, e d'esse só vos servireis : quanto a vosso 
marido , esse nos actos públicos se assinará Chenu 
Depréval. Apeámo-nos no Palácio Egalité, onde 
fizemos quantiosas compras , e dela fomos ás lóges 
de Le Roy , e dessa demoisella Despeaux em quem 
na véspera me fallárão j e de lóge em lóge, e sem- 



(81 ) 
pre comprando , empregámos quatro horas boas. 
Não , que eu me de'sse por mui satisíeita em meu 
interior do que me inclinavão ã fazer; mas não me 
sentia com força , nem com vontade bem declarada 
<le repugnar. Tornou comigo a casa Madama Dar- 
son , e comido passou o dia inteiro : e como a Aia 
apenara iógo os oijreiros, vinhão uns apóz outros; e 
íité ás dez da noite, não tiniia a nossa conversação 
mudado de assumpto um só instante.» 

Aqui parou Suzanna um pouco para reparar em 
mim um tanto inquieta , e depois me disse : " Que 
julgáes de mim Senhora? Mas coiiio vos prometti 
sinceridade, mais me envergonhara de vos enco- 
brir os meus defeitos , que da falta de experiência 
que me causou o commetté-los». — «Se outrem que 
não vós ( lhe respondi eu ) essas cousas, me indivi- 
duasse, rejeitaria de as escutar; mas i(uanJo Su- 
zanna a si mesma se accusa , esperanças me ergue 
de que destruida essa sua illusào , recupera a razão 
o império que tinha ».^Entào beijando-me Suzanna 
a mão, foi por diante, narrando assim : — «Se eu 
tinha por tão novo teor empregado o dia, não tinha 
malogrado o seu M. Chenu ou Depréval, que mal 
entrou me disse mui contente, que na manhan se- 
guinte teria carruagem ás minhas ordeiis, e dous 
criados ; e é o que J)asta ( me foi dizendo ; por ora , 

cm quanto estamos nesta locanda ^ o que não será 
Tom, X ti 



^ ( 82 ) 

por muito tempo : que me fallárão já n'umas Casas 
primorosas, a alfaiadas já em grande parte, as quáes 
iremos aml)os ver. Um louco as fez , que consultou 
mais a sua vaidade que as suas posses, e aposto 
que as venderá baratas. 

» Esta sua reflexão cahia nellc tanto a plumo, que 
lhe repeti os sustos que me dava este seu novo teor 
de vida a que nos íamos entregar; mas elle me pedio 
que descansasse , como quem não* sabia todos os 
regi-essos que lhe davào os negócios em que en- 
trava , e porque nelles ganhava muito , muito queria 
dispender. Comprou com eíTeito as Casas, e podeis. 
Senhora, julgar quanto ellas lhe custarão, e os im- 
mensos gastos das alfaias tão sumptuosas com que 
conveio orná-las. Antes porém ({ue ellas estivessem 
em estado de as habitarmos, tinha eu de provar os 
desagrados que traz comsigo o luxo, para me cor- 
rigir de prazer que elle careia. 

>)M. Chenu tomado de vaidade perdia os sentidos: 
e como a vaidade não exclue a anciã de ajuntar 
dinheiro , só dessa eu tinha á cerca delle verda- 
deiros sustos •, dado também que eu não era mais 
modesta em certos pontos, nem menos deslum- 
brada em quanto a vestidos e toucados. Por quanto, 
estava senhora de quanto uma mulher pôde dese- 
jar para humilhar as outras, e só esperava insof- 
frida o instante de apparecer ccin todo o splendor. 



f 83 ) 
Fallava-se em segundo Concerto ; e Madama Dar- 
son para quem o contribuir para uma malicia era 
summo regalo , requerera de mim que ate' então 
não sahisse a parte alguma , porque convidara para 
esse dia a mesma sociedade do jantar passado , e 
fazia grande gosto que eu nelle me vingasse. Con- 
fesso que o mesmo gosto tinha eu. 

>» Chegou esse dia em fim : mas não vos direi , 
Senhora ;, o que senti em mim quando me vi ata- 
viada com tanta riqueza e primor : paguei ao impe'- 
rio da moda bem since'ro tributo. M. Chenu ficava 
extático em me vendo , e mil vezes dizia n um 
quarto de hora, que eu era a mais formosa mulher 
que elle nunca vira; e meu amante o suspeitara 
então , se as suas expressões me não tivessem ad- 
vertido que me considerava com o mesmo intuito 
que os soberbos móveis destinados a alardeai' a 
sua opulência. 

» Na primeira vez que eu fora jantar a casa de 
Madama Darson , por um acaso cheguei tarde , e 
nesta de propósito calculei as horas : entrei, quando 
já era junta a sociedade, o quando de maldosa 
tinha a Dona da Casa encetado a conversação 
sobre o desestrado amanho de Madama Chenu , 
sem dizer qi.-^ a esperava com o appellido de Mada- 
ma Depréval ; o. que , quando me annunciárão 
t-hegada ,rião bem á minha custa. 

6 * 



» Logo se eii;uei ão todos, e profundas mesuras se 
dirigirão a Madama Depréval qr.e as recebeo com 
uma leve inclinação. Pieiteavão os homens a 
quem me oíTereceria uma cadeira ; olhavão-me , 
admiravão-me. Abre-se a conversação, a qual 
para dar mais vulto ao espanto snstive com suili- 
ciente viveza. Cuidavão que se enganavão as mu- 
lheres , que á memoria trazião as minhas feições j 
e a não denunciar por todos os seus gestos a alegria 
que experimentava M. Chenu que ficara de pé de 
traz da rainha cadeira , tivérào preferido essas 
mulheres o vêr era mim nova pessoa , á vergonha do 
que delias se vingasse tão complettamente aquella 
mesma a quem ellas humilhado tinhào. Que amais 
rija vingança que uma mulher consegue é quando 
leva o vencimento das que delia desdenharão. 

« Madama Darson incapaz de parar em tão bella 
estrada , lhes dava a entender , que eu delias todas 
zom])ára no primeiro convite com os meus enfeites 
aldeãos; e como os oráculos daquella sociedade 
tinhão preferido que eu não era de todo lerda , e 
como eu tinha rido com a Dona da Casa , e aquelle 
mancebo que no janlar ficara próximo de mim , 
pendião as táes Damas a crer que eu me quizeVa 
divertir- O que porem mais as confirmou nesse 
conceito foi ISI. Chenu , que não consava de repe- 
lira » K minha MulheV , não é bem formosa ? Res- 



jpondei, Senhoras. Não vos parece ella a mulher 
mais formosa do mundo ? — E quanto menos essas 
Damas demostravão boa vontade de lhe responder, 
mais elle poríiava em as tomar por arbitras : ellas 
que não se aífíguravão que elle de boa fe' tão desa- 
certadas perguntas lhes fizesse , se capacitarão , que 
era vingar-se no accolhimento que ellas me tinhão 
feito. 

» Com disposições táes nos pozémos á mesa , na 
qual me poderá -eu dar pela Divindade daquella 
Casa , vistos os resguardos tão assinalados , e as 
melindrosas preferencias que comigo tinhão ; era 
a quem mais teria a dita de me servir, a quem 
fjxaria a minha attenção. E quanto mais essas 
Damas demostravão máo génio , tantas mais venta- 
gens me davão a seu respeito. A abundância dos 
vinhos , de que eu também assentei ser moda no 
nosso sexo usar com largueza, lhes restaurou a 
alegria , ou ao menos as posses de entrar em con- 
versação , que daUi em diante foi geral até ao mo- 
mento , em que partimos para o Concerto. 

»0s Mancebos que me assoberbarão de sem-sabo- 
rias pleitearão a honra de me dar o braço; que não 
havia um só que se não ufanasse de ostentar-se no 
spectáculo comigo. O que imaginava ter mais jus 
á minha benevolência ere esse moço ( chamado 
Affonso ) de quem vos fallei já ; mas com impeVio 



( 86 ) 
se tinha essa alta e magra apoderado delle ; pelo 
que agradecendo todos os mais , fui dar o braço ao 
velho peti-me'tre que me tinhaf chasqueado, mas que 
de vergonhoso não se avizinhara ate'lli de mim; 
e creio , que a ousá-lo , me houvera recusado. 

M Chegámos ao Theátro , que todo estava cheio , 
menos os camarotes alugados para a nossa socieda- 
de. Despertava a pública attenção , e requeria o 
mais socegado silencio uma Symphonia : mas julgai 
qual foi então o meu espanto , quando vi o gáudio 
com que essas Damas deixavão cahir as tablilhas 
dos camarotes com desmesurado arruido; e a pl:\- 
téia a gritar — silencio, — e toda a gente com a vista 
pregada em nós : e eu sem saber modo de escondei"- 
me : ellas a dar extensas risadas , e a de])ruçarem- 
se , como para verem d'onde esse strepitoso scân- 
dalo procedia , mas bem lisonjeadas que a ellas o 
podéssem .attribuir. Cessou o estrondo em íim , e 
descansada em que não reparavão já em mim ou- 
sei considerar num spectáculo tão novo para os 
meus olhos. 

» Estava deslumbrada. Postas com arte de distan- 
cia em distancia as luzes , davão ás mulheVes luzi- 
ento raro ; e ellas com traje a-larpar eleg^ante , e ex- 
quisito , sem que dous só se assemelhassem, tinhão 
todavia sua relação entre si. Nas conversações que 
lavravão pelos camarotes , e no desvelo que cada 



( «7 ) 
mulher punha em tomar postura que mais realce 
lhe desse , percebi eu bem prestes que o desejo de 
dai^-se a ver era o único merecimento do Concerto , 
e que o spectáculo principal consistia , mais que no 
Theátro , nos Camarotes. Meu quinhão tomei tam* 
bem na curiosidade pública. 

» No intervallo que deo a música, se erguerão to- 
dos*, sahírão dos camarotes os homens , discorrerão 
pelos corredores , e o empenho com que ião saudar 
mulhe'res , que apenas conhecião , tanto mais era 
bem accplhido , quanto mais motivos plausiveis 
achavão essas Damas nelles para voltar de lado, 
e disferir em público todo o garbo de seu talhe , ou 
riqueza de seus adornos. Eu ficara mansamente 
em meu lugar bera venturosa em que ninguém se 
occupasse de mim ; recolhendo em meu silencio as 
diversas sensações que experimentava , sem poder 
uma somente delias definir ; numa palavra assom- 
bros me cansavão- » 

» — Vos divertiz, Senhora? ( me perguntou A-íFonso 
que traz mim sentar-se veio ) — Não muito ( lhe res- 
pondi). Pois que tive a ventura ( continuou Affonso ) 
de escapar a minha avó , em quanto eila recebia 
adorações que ni^nguem lhe pôde negar , visto que 
ella as requer, venho íazer-vos companhia. Quereis 
que conversemos. — Sobre que ? — » Sobre que eu 
vos adoro ; sobre que vosso marido nào e' o único. 



(83) 
que tem para si que vós sois a mais bélla Senhora 
do universo: eu por mim assento que me será (l'o- 
ra em diante impossivel viver sem vós. » Estas 
livianas falias, a que eu não estava habituada, nem 
me habituarei nunca, me oíTendêião. — Se não 
fôsseis tão menino ( lhe respondi com frieza ) vosso 
fallar me aggravaría ; perdôo-vo-lo aos vossos pou- 
cos annos , mas péço-vos que ponháes fim a simi- 
Ihante conversação ». — Ridículo ê o que assim me 
dizeis : e se á minha idade o perdoáes, eu á vossa 
in-experiencia o excuso ; com o que ficâmes quites; 
mos sempre amigos. Kão é assim , Madama ? — 

» INem pela resposta aguardou ; que não tinha al- 
guma que lhe dar. Ergueo-se , e sem sahir do ca- 
marote , derramou os olhos por toda a parte , e não 
ficou mulher ( creio eu ) a quem não saudasse. 
— Bem vedes ( me diz ainda, assentando-se nova» 
mente , e surrindo-se maldoso ) que essa minha me* 
ninice me desculpa com bastantes formosuras. Que 
se não perdoa a um menino como eu? Perguntai-o 
para mais certeza a minha avó. — 

« A sua fatuidade me tinha posto séria , mas esta 
sua última phrase tanto mais me deo que rir, 
quanto mais tinha eu notado nas suas muitas sau- 
dações , que sua avó Ibas accompanhava com des^ 
socegados olhos , e que Untos tregeitos fazia , quan* 
tas elle cortezias. » 



\ 



( ^9 ) 

» — Como gostáes de rir ( acudio elle ) esqueça se 
por um mstante o affécto que me inspiráes, e divií- 
tâmo-nos á custa do público, tanto mais que care- 
ceis vós de quem vos instrua. Um Concerto é como 
uma exposição de painéis, em que vê só caras e 
cores quem não leva comsigo o catálogo, e a crí- 
tica. — E sem attentar se eu o approvava , ou não , 
foi continuando assim : 

« Essa mulher tão chafalheira ;, que esta nesse ca- 
marote fronteiro , tem um appellido dos mais anti- 
gos em França; na desgraça que padeceo n uma pri- 
são d'um anno , e com o pezar de perder Páe , INláe, 
Esposo assentarão muitos que de desesperação mor- 
resse , mas a Philosophia a salvou, e hoje a encon- 
tráes por todos esses bailes , e passeios , e theátros. 
Querem dizer que novamente se casa; e será pena : 
que ella é o contentamento e encanto da sociedade. 
A seu lado está uma mulher de muito juizo , mas 
de insupportavel altivez, viúva d' um homem de 
grande appellido , e que como tantos mais morreo ; 
mulher ambiciosa, que segue sempre o partido que 
domina; que vai aos lugares públicos, não para dar- 
se a ver, mas para se encontrar com todos. Um tolo 
empoleirado lhe parece um bom conhecimento; e a 
anciã que ella tem de ostentar valimento , junta em 
sua casa ás vezes extraordinária companhia ; jan- 
tando nella forçadamente lado a lado pessoas , que 



(90 ) 
em qualquer outra parte recíprocos se devorarão 5 
e que ella sem cuidar em congraçá-los , tem artes 
de fazer com que alli vivão juntos. 

Vedes vós no camarote que fica á direita essas 
duas mulheres tão bellas , tão custosamente orna- 
das, e a quem fazem tão numeroso cortejo? Casadas 
erào com riccos e muito estimados Burguezes ; 
pouco ha que delles divorciarão para inteiramente 
se entregarem ao prazer : uma delias tinha já dous 
filhos, e a outra pouco ha que pario. Nascerão sem 
cabedáes , e a formosura lhes sérvio de dote ; hoje 
não se sabe de que vivem ; porque ainda a serem 
emljolsadas dos dóles, nãò bastarião estes para o 
gasto de um só dia; e todavia vivem a la grande, 
tem carruagens etc. etc. , e no seu género assaz 
valem. — 

» Dei então um suspiro , e entre mim disse : E a 
que mulheres terão de assemelhar-me? a mulheres 
que andão nos olhos de todos? » — Continuava 
AíTonso... quando eis que , avançando o rosto para 
me designar alguém, o avistou uma mulher que 
estava no camarote chegado ao nosso , e chamado 
por ella me deixou. — Com quem estáveis lá, Af- 
fonso? (lhe perguntou ella com vóz tão"'alta que a 
ouvi eu , sem o pertender ) e elle no mesmo tom 
lhe respondeo ) — Cuma de'ssas bisonhas , cujo ma- 
rido medrou co'a Hevolucào , gente que se levan- 



(9^) 
tou do pó da terra. Ella é bastantemente bonita , e 

apostarei , que ainda a pezar de seu aíTectado re- 
cato, não tardará muito que dos prejuizos se não 
descarte. Contar-vos-hei a sua histona que vos fará 
morrer de riso.» — Eu estava abafando de cbólera 
e de vergonha; mais humilhada d'esses adornos ele- 
gantes, que me expunhão a similhantes reparos, que 
o não fora eu da singeleza que aos chascos me ex- 
poséra : que nada tinha então de que me arguir ». 

— Bonita lhe chamáes vós? ( disse a tal mulher 
deitando a cabeça mais fora , para me examinar , a 
mim que não ousava erguer os olhos para a vôr ) 
formosa me parece, e em seu gesto mui decente: 
veio só? — )) Qual só! veio c'um grande rancho. 
Olhai para essa gordalhuda que tanto faz porque 
seja vista , e que fora melhor que se escondesse ( fal- 
lavá da Bacchaiite), viérão juntas : e voto que minca 
se quererão bem •, que quanto uma tem de muito 
linda , tem outra de muilo feia. — Não sabeis como 
se chama a gorda? — » Quem ha hi que eu melhor 
conheça que ella ? eu que tenho a honra de ser dos 
admittidos a fazer-lhe corte. — Os parabéns vos 
dou. — » Que quereis que lhe faça? Essa gente lic 
quem hoje tem casa de estado; e quem não quer 
morrer de enfadamento , forçado lhe é que os veja. 
Ella chama-se Dutiló ; era costureira e seu marido 
toucava damas; o tal marido tanto manoseou os 



Assígnaãos , as mercadorias, as casas , c as quintas i 
que depois de ter comprado c revendido meia 
F'.ança , gtmrdou uma porção delia para si. É uni 
lino velhaco. » — E conheceis vós tamisem essa 
jnuli^V , que está ao pé delia ? — Quem ha que não 
c )iiheça Madaina Darson? Inconstante em amor, 
pe'ríida em amizade , íalsa com apparencias da 
maior lizura, dispondo de seu marido como d'uni 
bal)e'ca , zomba das íeias , e desacredita as que lhe 
fazem sombra ; tem juizo como um demónio. » 
•— Que novo motivo para as minhas reflexões? — 

«Appareceo no Theatro um homem com um ves- 
tido exquisito ; e em quanto, com uma máo na al- 
gibeira e outra posta na gravata, se chegava para a 
Lôcca do theatro , cada um se appressurava a to- 
mar o seu assento. O silencio que súbito se den'a- 
mau, fez com qne eu imaginasse j que elle. linha 
algum prodigioso talento, ou que era o ouvi-lo 
fidalga còrtezanía. Em quanto durava o ritorne'llo 
da Ária que elle cantava, a mulher do camarote 
junto ao meu, lhe ouvi dÍ7;er a quem. eu ver não 
podia : — Este AíFonso vai perdido. Quem imagi- 
nara que o fdho de tão i^speitavel familia , e que 
tantas desgraças experimentou , se de'sse a tão más 
companhias para contentar a sua inclinação aos 
divertimentos. Vede essa velha junto de quem se 
foi assentar , e que parece que o está arguindo : foi 



( 93 ) 
«ma Aia velha de sua Mãe , cujo marido com arre- 
matações de hospitáes de exércitos tirou das cami- 
sas de soldados, e dos medicamentos dos desventu- 
rados doentes os diamantes de sua mulher : que 
velha como ella étemo frenezi de inspirar namo- 
ros que lhe custão a peso de ouro. Hoje se arruina 
com o que dá ao Filho da Ama de quem n outro 
t^mpo foi criada. — 

« A que o confsideréis reméfto , quáes cores se me 
accendião de me ver em similhante sociedade, e 
qual era o meu espanto neste ensaio dos costumes 
d'este meu século. A anciã de apparecer que me ins- 
ráraa humiliação da minha entrada no mundo , se 
desvaneceo á vista dos perigos que me rodeavão: 
quizéra-me esconder dos olhos de toda a gente ; e 
ao sahir de Concerto , todos punhão em mimos 
ólhos. Fiquei aniquilada ; e logo que em casa en- 
trei se me appossou do peito ti^isteza escura. 
Fiz quanto pude por dar a entender a M. Chenu 
as razões que fazião com que cu desejasse viver 
por teor mais singelo ; mas elle , nem somente 
me comprehendeo : nem de mais se occupava que 
dos ornatos dos appt)sentos, affirniando-me ao 
mesmo passo , que quando , a mudança feila , me 
eu visse demorada neiles, faria que tanta gente 
,me visitasse, que o enfadamento me fugisse. 

Condemnada me vejo a um luxo , que tantos 



( 94 ) 
invejão , e que a mim so:i ve de supplicio ; condem- 
nada a visitar, aiecel)er, e a accolher uma socie- 
dade f;ue me não quadra em modo algum. Quanto 
mais triste me vê , tanto mais dispende M. Chenu , 
capacitado que a cousa mais estimável no mundo 
é a riqueza , e que luzimento vale ventnra. 

Eu Dona d'uma Casa que regrar é impossivel , 
roubada despiedosamente por criados , atormen- 
tada por meu Marido , que n'umas circumstancias 
arremessa ás mãos cheias o seu dinheiro , e n'ou- 
tras(se nãotóccão na vangloria) torna ao amor 
dos ganhos , que nunca desampara quem como 
elle começou , experimento , por eíTeito totalmente 
opposto, pezares iguáes aos vossos. Vendo-me em tal 
estado > me veio á imaginação a que'da que antiga- 
mente em mim sentia para a leitura , e agora 
minha necessária consolação: logo desejei que se 
me deparasse alguma desventurosa, que me po- 
de'sse servir de guia, e vindo depois a ser amiga mi- 
nha , contribuísse para o meu descanso , e me of- 
fereccsse occasião de lhe enxugar as lagrimas. O 
acaso , ou antes o Ceo me enviou a minha Bem- 
feitora , e agora é que conliíeço o que as riquezas 
valem : Sim , Madama , que sereis vós quem me 
ensine o modo de me regrar numa situação para 
mim tão nova ; e a melhor e a mais proveitosa das 
icões vossas será o vosso exemplo : e no caso que 



vos deslembreis que de vós me vem tudo o que eu 
possuo ; mui depre'ssa alcançareis que em quanto 
aos gastos se achará M. Chenu bem resarcido em 
razão do modo que me ensineis a pôr em ordem 
uma casa mui pesada para minhas poucas 
forças. » 

Assim me patenteou seu peito Madama Depre'- 
vai ; lastimei-a , e mais que d'antes a estimei. Mui- 
tas vezes lhe aconselhei que não desagradasse a 
seu marido , cuja maior felicidade consistia em 
levá-la comsigo , e empenhá-la em todas as fun- 
ções , sem ao menos aguardar pelo seu consenti- 
mento. Ella , ate' o seu comprazimento lhe disfar- 
çava , e somente se fazia rogar quando delle 
queria arrancar cousa de pre'stimo , que sem esse 
repúdio não alcançara delle. Parecia diíEcil conse- 
guir emprego para o marido de Agostinha ; Suzan- 
na consentio em apparecer num festejo , que des- 
prazia pelo motivo a que era feito ; e logo no dia 
seguinte estava accommodado o marido de Agos- 
tinha : o que muito me penhorou a mim , que me 
achava sem azo de remunerar os serviços que tão 
dignas pessoas me tinhão prestado. 

Já começava por fim a lograr algum descanso , 
única bem-aventurança do estado em que eu me 
via. Afastada de meu filho , com Suzanna poderá 
"unicamente failar nelle ;. mas mil razões me n pre- 



(96) 
zavão de o tomar por assumpto de nossas conver- 
sações. Quantas vezes , sem nos dizermos uma 
só palavra, estávamos seguras, que elle nos oc- 
cupava a ambas o pensamento ! Tão habituadas 
eranjos a mudamente nos entendermos , que ape- 
nas me via lágrimas, Suzanna me dizia. » Ten- 
des de ainda o ver , Senhora ; bem certa sou que 
ainda o vereis. » Consolação que me era vedado 
grangear-lhe quando eu a via entristecida. 

Essa Suzanna me careou o animo de maneira, 
e tanto de mim se deo a amar, que euante-po- 
séra , sem a menor dúvida , viver pobre com Su- 
zanna e com meu filho , a essas opulências sem um 
dos dous; nem o meu coração sal)ia fazer entre elles 
diííerença. Que alma tão nobre! Como na sua sorte 
se sabia resignar! Com que amabilidade condes- 
cendia com as vontades de seu Esposo, cujas 
erào sempre contradictorias com as de'lla. Quanto 
mais se lhe ia espraiando o ingenho , mais ella 
se entranhava no desejo da singeleza , que nos 
homens só ca])e em animoa gi undes , c nas mulhe- 
res só nessas que lógrão delicadas sensações. Sendo- 
Ihe forçoso receber visitas, ou assistir a festejos, 
voltava (nias com que prazer !) á minha solidão. 
Jantar ella a sós comigo , era regalo que ella a tudo 
preferia ; e como tinha disposto que me posesscm 
'Á mesa no meu aposento , lá erão seus amores vif 



( 97 ) 
buscaf - me, vir lá ás nossas leituras e lá receber 
lições de varias prendas, (Jiie quanto antes lhe fôrào 
familiares. Instruir Suzanna outra cousa não era 
mais que ir desabrochando os gomos de todas 
as virtudes que nella havia plantado a Natureza. 

Um anno allí passei sem algum acontecimento 
notável , na continua esperança de receber no- 
vas do meu Àdolplio. Ai mísera de mim ! que eui 
saber se elle inda vivia $e cifravào todas as minlias 
esperanças. Entrou uma noite Suzanna no meu 
quaito.; porque ao voltar d'um baile lhe entregou o 
porteiro o seguinte bilhêtte , que ella quiz logo 
communicar-me , bem ce'rta que lhe não teria 
a mal o somno que ella me quebrava. 

— Madama, de nada me descuidei por me in- 
formar dos successos de M. de Senneterre : com 
quanto elle assistia em Londres , d'onde agora che- 
go , não tive a dita de o ver , por andar elle ausen- 
te , mas sube que estava de saúde. Se á manhan 
me dáes licença , terei o gosto de vos dar mais indi- 
viduáes noticias. — 

A alegria de Suzanna picava em delirio , e a 
minha sobrepujava as forçai de minha alma : 
» Vive. » ( repetia ella a cada instante ) — Se ao 
menos fosse affbrtunado... ( bradava eu ). Reflexão 
foi esta minha que a ambas igualmente nos enter- 
neceo ; e passámos giande paríe da noite a tentar 



( 98 ) 
em vão de adivinliar o que tinha de acclarar~nos a 
manlian seguinte ; e appressurar com os nossos de* 
sejos a hora da visita promeltlda. 

» Quem e'a pessoa que esse bilhélte vos escreveo? 
( perguntei eu a Suzanna )• Nunca em tal me haveis 
faliado. — Senhora , receiava que entrásseis no 
meu desasocêgo. Por quanto tinha sabido que já 
não estava vosso fdho em Philadelphia ; e concor- 
dara comigo M. Chenu em tomar informações, que 
como não surtirão a nosso desejo, vo-las encobri- 
mos. Haverá quasi um mez que me achei numa 
Casa onde alguém disse que se via obrigado a ir a 
Londres , onde eu sabia que todos os Francezes 
estavão registrados; por tanto lhe pedi com anciã 
que se informasse de M. de Senneterre ', que , no 
no caso que o visse , lhe fallasse : e elle me pro- 
metteo pontual cumprimento desta minlia com- 
missão ; perguntando-me logo , da parte de quem 
tomaria essas noticias , « Da vossa parte , Mada- 
ma? (me disse). E súl)ito se me corou o rosto. » Não, 
Senlíor, (lhe respondi) tomá-las-heis da parte da 
mais enternecida Mãe. Deo-me por cousa mais 
segura , o encarregá-lo d'uma carta ; mas eu lhe 
dei a entender quão cruel fora para essa desdi- 
tosa Mãe entregá-la a novas esperanças, cuja cer- 
teza não escorava em algum abono : e com lanta 
actividade lhe affigurei o amor que tendes a esse 



í 99 )^ 
filho único , que me jurou que a nada se pouparia 
por contentar-me. » Amanhan vem : e vós Senhora^ 
(lar-vos-heis a conhecer quando o receberdes. Tenho 
eu de receber só a visita! — Recebé-la-heraos am- 
bas, amiga minha, e darei ordem que a visita 
seja no meu quarto ; aqui seremos mais á nossa 
vontade. 

Exhortando-me a que reparasse o somno que per- 
dera, me beijou Suzanna, a quem aconselhei que 
dormisse bem; mas quando pela manhan nos er- 
guemos , não nos perguntámos como passáramos a 
noite. jNem faltou á visita quem no-la tinha promet- 
tido , e feitos os devidos cumprimentos , me disse, 
— Pezar tenho , Madama , que me não permittis- 
sem os meus negócios demorar-me até que M. de 
Senneterre voltasse a Londres ; porquanto seria 
grande o meu contentamento , se trouxesse a sua 
Mãe as consolações de que ella carece. Jantei em 
casa de M. Birton , negociante de Londres , com 
quem mora vosso filho; o elogio que delle me 
fizerão supera as minhas expressões. Consolai-vos 
Madama ; que em suas desventuras , elle deparou 
com amigos. — » E virá elle a saber que quem vos 
pedio suas noticias fora sua desditosa Mãe ? » — 
Quando eu , Madama , disse vosso appellido, fácil 
me foi entender que não éreis desconhecida na fa- 
mília do M. Birton, — Excellente Mãe ( me disse 



( 100 ) 

M. Birlon ) dVxcellente filho : nada lhe pode ado- 
çar a mágoa de se ver delia separado. Que de con- 
tinuo nella falia , e não ha querer-se perdoar de a 
ler deixado. Na verdade ( accresccntou M. Birton ) 
não concebo que motivos a tal o impellissem; por 
ter esse mancebo juizo sufficiente para conhecer a 
amplidão de seus deveres, de cujos , certo , que não 
era um o desamparar sua Mãe. — Olhei aqui para 
Suzanna pállida e trémula como se nella cahira a 
reprehensão de M. Birton ; com amizade lhe travei 
da mão , e acudi a desculpar meu fdho em razão 
de seus poucos annos e de que , segundo o que de- 
pois de sua partida descobri, pezarosa estava de ter 
contribuido para a sua ausência. Como não tinha 
largado a mão de Suzanna , me apertou ella então 
a minha com todas as demonsti'açòes do mais vivo 
agradecimento. 

>' Quanto mal me não quero hoje de ter sido tão 
prudente ( me disse Suzanna ) ! Por temer sensibili- 
zar-vos não encaiTeguei , Senhora , uma Carta, que 
M.' de boa vontade remetteria a vosso filho, a quem 
privei assim da maior ventura sua. » — Como não 
tinha a honra de conhecer Madama de Senneterre 
( disse elle ) deixei em casa de M. Birton a endereça 
de Madama Depréval , assegurando-lhe que ás car- 
tas que seu filho mandasse lá vos serião fielmente 
eutrégues. M. Birton de sua parte me deo a ende- 



i 



( lOI ) 

reça do seu Correspondente em Hamburgo ; com 
ella ( aqui vo-la dou ) se repara tudo, Dir-vos-hei 
todavia que mui estranho pareceo a esse honrado 
negociante não teres vós recebido hóvas de M. de 
Senneterre , quando elle affirma que não perdera 
occasião alguma em que podesse escrever-vos. >> 

» E onde acertaria comigo? ( exclamei ) são tão 
fáceis de esquecer os desditosos. Pobre Adolpho ! 
que terás tu imaginado do meu silencio ? E mais 
nada sabeis, Senhor , á cerca de meu fdho ? O vosso 
bilhêtte me annunciava viver elle com saúde. » — 
Assim m'o disse'rão , Madama , e me observarão so- 
mente que unicamente empecia á sua saúde uma 
profunda tristeza ; e tem accéssos de melancholia 
de que nada o pôde distrahir. Um Francez que em 
Londres encontrei, e que conhece M. de Senneterre, 
suspeita quenest€ paiz, alem de sua Mãe, tem elle 
saudades de outra pessoa. Ignoro toda a verdade 
d'esse asseVto , e tanto mais de vontade duvidara 
delia, quanto o negociante a quem eu ia recom- 
mendado me certificou que uma das filhas de 
M. Birton , que tem fama de ser requissimo , não se 
desaífeiçoaria de ver esse cazamento concluído, n 

Das mais vivas cores se tingio o semblante de Su- 
zanna , onde era fácil de ver , que esta noticia ino- 
pinada a lançava num enleio que cila queria em 
vão a si mesmo dissimular : pelo que logo acudio 



( I-^-. ) 

dizendo : que por certo esse cazamento seria feste- 
jado pelos amigos de M. de Senneterre se delle lhe 
podesse proceder a sua dita... ( Impossível lhe foi 
concluir o que mais dizer quizera ). 

« Pode ser ( disse elle então ) que em tudo o que 
me disse não haja um ponto de verdade; disse-vos 
o que ouvi. Porquanto, Senhora, se antes de sahir 
de França, vosso íilho amava, e que esse seu amor 
ainda hoje augmenta a tristeza que experimenta 
aílastaclo de sua Mãe e de sua Pátria , custoso e' de 
crer , que elle cuide em se cazar. Que nunca des- 
ampara os homens a esperança ; maiórmente quan- 
do o coração está vivamente aílèiçoado. » ^ 

« Esperança ! ( exclamou Suzanna ) situações ha 
em que não é dado concebe-la. Ignoro que tal seja 
a em que elle se acha ( disse logo espantada da ex- 
clamação que soltara), mas fora para desejar que elle 
cazasse com M.W» Birton. Vós nos dizeis que é mui 
formosa ? » 

— Sem querer elogiar-vos , podt'ra eu bem dizer, 
que com vosco tem muitas parecenças ( respondeo 
elle ). E Suzanna suíFocou um suspiro. Mas ella 
não tem ( foi elle continuando ) essa sensibilidade 
que se derrama e aviva todas as feições de vosso 
rosto ; o que o élla tem de severo, lhe diminue o 
agradável. Ella é somente formosa. » — Ergueo-se 
aqui Suzanna, e eu também com ella, que me mor^ 



( io3 ) 
tificava o vé-la em tal estado. Demos os mais vivos 
agradecimentos á pessoa , q«e tão cortezmente fa- 
voTieára as intenções de Madama Depréval , e cada 
uma de nós se retirou para o seu quarto. 

Quanto mais multiplicão os homens as suas aífei- 
ções, tanto mais augmentão seus prazeres ou seus 
pezures. Devia eu dar-me por venturosa com saber 
'i(ue meu íilho era estimado e querido n'uma casa 
que era como o seu asylo, devia antecipar o meu 
contentamento na esperança de receber carta sua, 
e de quanto antes lhe mandar as minhas maternáes 
bênçãos j mas ei-a-me penosa a minha mesma ale- 
gria, em que me era preciso encobri-la , coucen- 
trando-a. De mais em mais se me patenteava cada 
dia o coração de Madama Depre'val , no qual eu lia 
ao claro um amorinfortunoso que autorisar eu não 
podia , e que a sua virtude a obrigava a m'o occul- 
tar. Fora em mim barbaridade voltar-lhe os pensa- 
mentos para um assumpto penoso para ella se delle 
se receiava, e imprudência em mim se delle se 
agradava. Andava ella mais triste que de ordinário ; 
e eu que temia profundar-lhe o motivo , nem a fal- 
lar-lhe me atrevia; igualmente que ella se me es- 
quivava ; lástima merecíamos nós ambas. Não podia 
esse estado assim durar. Gomo poi^m saluriamos 
nós dallí? Uma manhan, que entretida em minhas 
reP.cxões dava eu lágiimas ao meu cruel destino. 



( io4 ) 
entra Suzanna. Tudo nélla. annunciava que um 
grande desígnio lhe occupava o entendimento : em 
todos os seus gestos, e na expressão de seu sem- 
blante, liavia um vislumbre de triste e de sublime 
ao mesmo tempo. Sentou-se defronte de mim ; e 
logo tomando me as mãos, e cravando em mim os 
óllios me diz. 

— » Cuidáes acaso em escrever ao vosso Adol- 
pho? — » Em quem , se não nelle posso eu cuidar? 
— » E contentar-se unicamente o vosso coração 
còm escrever-lhe ? — » Que mais poderá eu por 
agora esperar? — » Que não compete, a quem é 
livre, de esperar? E vós livre sois. Senhora. — 
» Que me dáes , oh minha amiga , a entender 
nisso ? — Que vos importa partir. — » Partir. — 
Sim, paitir, (me disse ella então com um valor 
que trahia apenas o seu abalo ). Tudo está ante- 
visto, tudo prestes, tudo, excepto consentimento. 
Vosso fdho padece ausente de sua Mãe ; vossa tris- 
teza malsina, a pezar vosso, os tormentos de vosso 
peito. O passaporte está conseguido, ireis accom- 
panhada pelo marido de zigostinha, o qual despe- 
direis , quando necessário vos não seja ; ou conser- 
vai comvosco em caso que impróvidos aconteci- 
mentos vos empenhem a voltar. As ordens que le'va, 
e as quács elle cumprirá, são consultar-vos a von- 
tade e obedecer-vos. INada que atulhar possa a vossa 



( io5 ) 
fornada, vos occnpe; tudo está previsto. Oh minha 
Bemfeitora , não ouso explicar o mais : porem os 
cabedáes de Suzanna são o producto do seu dote : 
assim totahnente vos pertencem ». 

Tornar a ver o meu A.dolpho , e ao peito apertá- 
lo , oh Deos todo poderoso , tanta dita me teríeis 
reservada ! — Tal foi o meu primeiro pensamento , 
que appressurada reflexão dissipou logo. — Cruel 
amiga 1 ( disse eu a Madama Depréval ) que vos in- 
duz a tentar um coração de Mãe ? Não sois minha 
filha também vós? Unir meu filho , e unir Suzanna 
comigo não cabe em meu poder; e com violência 
experimento que não posso com um viver sem ter 
saudades do outro. Em Paris padeço , e padeceria 
em Londres. Não me falíeis em tal jornada , que 
me mattaría o extremo da desesperação , ou o da 
alegria. O meu filho! A minha Suzanna! Consola- 
ção e mágoa d'esta vida minha ! Oh meu Deos ! Oh 
meu Deos! e curvei logo os joelhos , pedindo-lhe 
que se apiedasse de mim. 

Nessa postura fiquei sustendo fortemente a fronte 
em minhas mãos, receiosa de não poder resistir aos 
abalos de meu peito que parecião quererem des- 
truir o meu composto. Madama Depréval dava 
largos e pensativos passos pela câmara, dizendo-se 
a si mesma differentes phrases , cujos sons mal arti- 
culados me entravão nos ouvidos-, e o que só dis- 



( io6) 
linguia com clareza era a palavra — í>alor — muitas 
vêzcs repelida , e arrancados suspiros que me des- 
pedaçavào o coração. Por íim chegou pc'rto de 
mim, c levando-me dos braços para me sentar 
n'uma cadeira , ficou longo tempo em pé diante de 
mim, inlmovcl com uma státua. 

» Mais conceito fazia da coragem de Madama 
de Senneterre ( ine dizia sem íallar directamente 
comigo ); é mais fraca que Suzanna. Houve na mi- 
nha vida uma época , rm que requererão de mim 
o sacrificio de todo o meu aíTecto ; e a honra, junta 
cora a iNIãe daquelle que eu amava me delinearão 
o meu dever; despedaçou-se-me a alma, mas o 
meu dever cumpri-o ; vinha essa dôr de ter eu de 
ir-me encontrar com seu filho , com aquelle que 
tanto prezava o meu coração , que me cabia renun- 
ciar a esses, ao pé dos quáes se tinha tão branda- 
mente volvido a minha infância! Oh meu Deos , 
que só vós conhecieis o que então se revolvia no 
meu peito ! Choráes, Senhora? Comparai a vossa 
com essa minlia situação. Tudo são para vós ven- 
turas , e tudo para mim desgraças. Aíflige-me o 
passado , accurva-me o presente , e só no por vir 
acho refugio. — Que instante tomáes , Suzanna , 
para censurar o teor com que procedi a respeito 
vosso? — » Censurar-vos eu? Vós mesma tal não 
credes , Senhora. Fizestes o que dcvieis , e em toda 



( ío- ) 
a sua vida vos provará Suzamia que bem fora es- 
teve nunca de accusar a sua Bemfeitora ; quando 
porem vos vejo vacillar.... 

— Argiie-me também , oh filha cruel , o amor 
que te eu tenho ; argúe-me o não poder sobrepujar 
o meu agradecimento , e ceder ao incontrastavel 
encanto que no meu coração te confunde com meu 
filho. Tu foste o único alivio meu na mais amarga 
desventura ; a não seres tu já tivera eu dado fim : 
e como eu sei que e's infeliz, e que outra consolação 
não tens senão os aíTagos , e os conselhos de tua 
Mãe ( que o sou eu tua ) queres tu que eu te desam- 
pare ? Ah Suzanna ! que essa situação tão triste que 
me tu recordas tão cruelmente , tinha o dever d'ura 
lado , e d'outro lado a ventura ou o discre'dito ; 
na minha situação estão de tal sorte dispartidos o de- 
ver, a felicidade , e a desesperação , que o coração 
se me retalha, e resolver-me é impossivel. Porque 
me fallaste em similhante jornada ? 

— )) Porque vós , Senhora , nimca 1'louvéreis 
fallado nella ; e porque a glória de restituir-vos a 
vosso filho ameigava a dor de separar de mim a 
minha Bemfeitora. Pode ser que se eu quizesse 
sondar o mais occulto de meus pensamentos achas- 
se o galardão d'este meu proceder na certeza de 
que virá elle a saber, que a mim c que dJve o 
tornar a ver sua Mãe. Não fui eu quem o privei 



( io8 ) - 
delia? (c isto dizendo se me lançou nos braços). 
Mas nem por isso me quereis mal , que ditto me 
tendes vós que Suzanna era vossa fdha de coração. 
Suzanna, a infeliz Suzanna, fdha de Madama de 
Senneterrc ! e eu laslimar-me da minha sorte ! 
^«unca melhor que hoje senti que não a riqueza 
mas sim a amizade , mas sim a virtude são as que 
encurtão as distancias. 

Ainda eu tinha Suzanna cingida entre meus 
braços , quando M. Depre'val entrou; — » Perdão 
vos peço (nos disse olhando-nos com um ceVto pas- 
mo), mas eu vinha em busca de minha mulheV 
para lhe dar a saber, que se não pôde dispensar 
de ir á manhan ao baile , a que deo palavra. Ainda 
que o não ir ella fosse um descontentamento para 
mim , todavia tinha-lhe feito a vontade ; mas o ve- 
la tão triste de alguns dias para cá , faz com que eu 
estime esta occasião que a obrigue a divertir-se. 
N^o é verdade , Madanaa , que ás mulheres moças 
quadrão bem os passatempos ? (e vendo que Suzan- 
na, com torcer o rosto, dava senhas de lhe não agra- 
dar o baile ). Eu não posso imaginar o que ella tem. 
Falta-lhe cousa alguma ? Se que'r pôr mais á moda 
as jóias que tem , — que as ponha : se quer com- 
prar outras i — que as compre. Que eu folgo muito 
que nenhuma outra possa eclipsar minha mulhe'r,- 
e boííe , <iue reparo eu bem que sempre ella é a 



( lOí) ) 

quem todos admirão , e deveras que disso teníio 
vangloria: quando ha aM dinheiro não cabe bem 
que ella se enfeite? Não falta gente sem cabedáes 
a quem se pode venturosamente mostrar qne não 
somos d'esse lote Mas » segundo creio , vim incom- 
"modar-vos ; que a ambas vos vejo chorar tão de 

vontade É donoso ! eu que nunca em minha 

vida chorei. — E com tudo quando eu era criança, 

e quG ia nos grandes frios mas ha já tanto 

anno que isso foi I Mas agora atino co'a vossa af- 
ílicção : é essa grande Jornada ; não é assun? Con- 
fessai que Madama Depre'val teve lá uma excellente 
ideia , que nunca a mim lembrara ; bem que com 
certas precauções , seja a mais fácil cousa que haja : 
mas minha mulher tem lembranças por mim e 
por ella ; que boa cal)êça que ella tem ! — » E me- 
lhor coração ainda ( lhe disse eu ). Razão tendes de 
vangloriar-vos de tal esposa : o seu menor adorno 
são os diamantes. — » Os diamantes não a desali- 
nhão ; bem que eu convenha que ainda sem elles 
ella é bella. E que nos dizeis vós da jornada \ não 
vos é ella de grão contentamento ? 

Não me deixou Suzanna responder , com dizer 
a seu marido — Imaginas tu que tão boa é 
Madama de Sennelerre que contrapesa em seu 
coração a saudade dè nos deixar o contentamento 
de tornar a ver seu filho? Tanto me enternecerão 



( lio ) 
esses penhores de sua amizade que só com as lá- 
grimas que vertia , quando enlrasle , achei que 
podia exprimir a minha gratidão. — Ella faz muito 
bem em nos amar (disse o Marido ) porque muito 
a amámos nós também. Eu não lh*o digo, porque 
sei que tu lhe explicas isso melhor do que eu , e 
concordarás comigo que te não puz estorvo a quanto 
para ella desejaste ; antes bem pelo contrario. Não 
digo eu bem ? — A resposta que Suzanna dco a seu 
marido foi beijá-lo mui amorosamente. 

— » Eu creio (lhe disse elle, passando a mão 
pelos olhos), está boa ! que também me farás cho-- 

rar : Oh, que as mulheVes são Não digo 

todas. — Mas esta Madama de Senneterre que te 
fez apprender a escrever , que traz esta nossa Casa 
tãobem regrada , desde que nella assiste , que com 
metade da despêza faz que brilhemos mais a la 

grande E sempre me lembrarei do dote ; 

(e com cara de riso me disse). Recordais-vos da- 
quella pergunta : — M. Chenu quanto precisa- 
reis — » que nesse tempo eu me chamava M. 

Chenu. — Madama que me via então bem 

enleiado : e com tudo não tinheis nada de sober- 
ba — Quero qne absolutamente me digáes — Eu 
cá ; Madama uo moe'das para mim Fa- 
zei , M. Chenu, que seja ella venturosa, e fazei 
conta desde já, com 4o moedas. — Dizci-o vós, 



( III ) 

Madama, não acháes que elle seja venturosa? 
Não é assim minha Suzanninha ( aqui entre nós 
bem t'o posso chamar ) não te dás tu por ventu- 
rosa ? — » Sim , meu amigo ( lhe respondeo ella 
forçando-se a sunir. — Ei-la a cousa conchiida 
(disse elle) : daqui a 4 dias parte Madama de Sen- 
neterre , e tu irás ámanhan ao baile ; que absolu- 
tamente que'ro que te divirtas. Negar-mo-hás 
ainda ? 

» — Conforme ( lhe respondeo com visos da 
mais franca alegila a sensibilisante Suzanna ). 
Se tu queVes que eu ámanhan vá ao baile , tens 
de me prometter que iremos accompanhar Madama 
de Senneterre ate' Anvers. E indo elle comnosco 
( me disse ella, pondo em mim os olhos ) não pade- 
ceremos ambas uma mágoa superior ás nossas 
forças. — Mas tu virás ao baile — » Sim , ami- 
go. — Comprarás novos diamantes ? — » Sim 
amigo. — Então está bem. Fica assentado (disse 
elle, esfregando as mãos) , e tanto mais , que muitos 
dos empregados na nossa Companhia andão 
atrazados em bastantes parcellas, e approveitar-me- 
liei da occasiào para dar uma vista de olhos a 
tudo ; e por esse meio pagará a Sociedade em 
grande parte o custo da jornada. — E nisto partia 
contentíssimo de nós. 

a Sois vós , Suzanna, quem venceo (lhe disse 



( iiO 

cii , apenas ficamos sós ) -— N'outro tempo de 
mais socêgo fallarêmos nisso ( me respondeo V 
Que me e agora preciso cuidar nos enfeites para 
o baile; e despedida de mim partio para o seu quar- 
to. E eu que íiqiiei então entregue a mim mesma 
tratei em vão de concentrar as minhas ideias no 
querido fdho a quem ia ver; só considerava em 
Suzanna : que o modo com que ella comigo pro- 
cedia , abalava com força o meu agradecimento , 
e a minha admiração. De continuo me dizia a mim 
mesma os movimentos de seu ânimo a realçavão 
acima dos títulos e das riquezas , e amargamente 
me pezava de a ter sacrificado : que mais que 
muito sentia em mim, que ainda quando ella não 
tivesse conservado terníssimas lembranças de meu 
filho, nem por isso seria com M. Depre'val mais 
assegurada a sua dita : porque quanto mais elle 
forcejava por desmemoriar M. Chenu , mais o re- 
cordava aos outros , e a si mesmo. Pelo contrario , 
sua sensibilizante Esposa , em querer sempre 
parecer Suzanna , realçava acima de si mesma; 
de sorte qnc me persuadi que ella tratava de cortar 
por tudo que a constrangesse , para de continuo 
se occupar do seu amor primeiro ; e o teor nobre 
c animoso com que ella esse dever cumpria , me 
ijnpunha a obrigação de lhe encobrir a saudade 
com que eu a deixava , e o gôbto com que ia abra- 
çar meu filho. 



( ii3) 
& ver quantas vezes me possível fosse nos poucos 
dias , que tínhamos de vivei- j untos ; evitando com. 
a prudência (de que nella tinha o exemplo) todas 
as occasiões de nos acharmos sós por sós , ficava 
contra o meu costume , mais no seu quarto que 
no meu. Fui assistir a esses enfeites promettidos 
ao marido em troco da sua condescendência : e 
quão riccos , e com que nobre elegância coUocados ! 
A mais presumida loureira se vê acanhada em 
seus regréí;sos , onde uma mulhe'r moca, e sensivel 
que lhes dá gala, encontra folgados meios. Arre- 
batava os olhos Madama Depre'val , e outrem que 
eu não fosse, imaginara, que ella desfructava um 
prazer ão natural da sua idade , e maiormente do 
seu sexo. Quando as criadas sahírão , ella travando- 
me da mão, me disse assim : » Olhos são de 
Mãe esses com que me estáes vendo ; mas , ah ! que 
se a inveja que inspirar vou , podésse descifrar as 
lettras de meu peito , que triumpho não ganhara ! 
Que esforço tão penoso ! Ir c'o sorriso na bôcca 
e co'a morte no coração ! Lote quasi oi-dinario 
dessa opulência que carêa quantos inimigos , 
quantas as pessoas que ella humilha , sem contri- 
buir para a fehcidade dos que delia fazem alarde ! 
Ah ! que se eu posso um dia ir empóz da minha 
vontade, na dourada mediania tenho de deparai , 
não com a dita que renunciei, mas sim com o 
2^om. A. S 



( ii4 ) 
wmanso de ânimo , e com o logro de mim mesma ; 
Quantos desvenlurosos , indignos de o serem, vivi- 
rião com o custo d'este luxo, que me quebranta! « 
3N'isio cMitrou M. Clienu , accompanliado com 
doiis mancebos , e nos quebrou a conversação. 

Cliegon o instante da minha partida. Agostinha 
se despedio de mim mui lastimosa , mas a certeza 
de ficar na companhia de Madama Depréval , lhe 
adorava o pezar que em separar-se de mim a sua 
amizade sentia; motivo esse que também a mim 
fez a separação menos penosa. O marido dessa 
excellente criada corria diante da nossa carruagem. 
Depréval sustinha só a conversação , porquanto o 
que sua mulher e mais eu podiamos fazer , era 
olluuiiio-nos, encobrir as lágrimas, e fazer votos 
porque nos consentissem os succéssos tornarmos 
a vivej- unidos. Por fim me embarquei com o mari- 
do de Agostinha. 

Não me rpieVo recordar do que então padeci; 
que situações ha que sobrepujão toda a expressão. 
Felizes os ipie nunca provarão os terriveis lances 
que despedação o coração, quando um baixel, 
impellido dos ventos , nos aílasta com violência dos 
que ;imâu)<)s , no instante eiii que os nossos aíTagos 
se conlundeui com os seus : parece que pela derra- 
deira vez os apertámos os peito, e abraçamos uni- 
camente um vão , uma imagem espantosa do íu- 



( m5 ) 
turo que diante de nós se patentêa. Pobre Suzanna ! 
único objecto que en^ão me tomavas o ânimo ! que 
escripto o tinha o Fado seres tu quem decidisse 
de todas as aíieições da minha ahiia ! Apenas tomei 
posto no navio , me entregou o marido de Agosti- 
nhaum maço kicrado , que Madama Depréval lhe 
encommendára que então m'o de'sse quando o 
mar nos tivesse separado uma da outra. Abri-o , 
e deparei com uma caixa que de mui ricca me 
careára a attencão , se a não captivára o retrato 
dessa minha amiga , não qual eu acabava de a 
vêr , mas sim com esses trajos da aldeia , symbolos 
da singeleza que na opulência conservara •, abe'rta 
a caixa , reconheci dentro uma invenção nova do 
seu agradecimento, e erão vários bilhêttes de banco, 
com estas lettras de seu próprio punho: — Date ^ 
€ coração de Suzajina. — 

Sem o menor accidente cheguei a Londres , 
onde finalemente tornei a ver o tão saudoso Adol- 
pho ; e ao cingi-lo com meus braços , me des-lem- 
brei de todos os infortúnios : Quanto o achei de- 
mudado ! Que nublado de tristezas lhe envolvia 
o rosto , outrora vivo transumpto da alegria e da 
brandura! mas também que energia, que seguridade, 
não tinha adquirido o seu caracter tão felizmente 
disposto pela natureza , e pela educação ! Se e' 
verdade que sejão os Francezes o mais leviano 



(n(5) 
povo qnc se conheça , não é menoí? verdade, 
que também é ellc o povo único em quem nunca 
o infortúnio caia sem que nelle manifeste quali- 
dades , que a seus próprios inimigos violentão a ad- 
mirá-lo. Nos seus 16 annos era já meu filho um 
varão com quem se darião por ufanos , e a quem 
qualquer que o amasse ( ainda não sendo sua 
Mãe ) se vangloriara do seu aíTecto. Pelos sináes 
de amizade que da. familia Birton eu recebi, 
facilmente conceituei quanto era o meu filho 
delia amado. 

Pvctirada ao meu quarto, atalhar-mcnão pude a 
reflexão sobre os perigos que corria a conversação 
com Adolpho á cerca dessa Suzanna que nos pri- 
meiros lanços da sua vida , lhe dera para sempre a 
decisão da sua sorte : sentia porem quão impossível 
era fallar-lhe de mim, sem fallar nessa minha amigaj 
alem da necessidade que vivamente me pungia a 
que exprimisse a minha gratidão. Andava estampada 
em meu peito a imagem de Suzanna , e o seu nome 
me subia a cada instante á bôcca ; fora o calar- 
me esforço de que me eu sentia incapaz , e me de'ra 
por ingrata se escondesse o nome da minha bem- 
feitora. Se a nomeava , então era accusar-me do 
meu antigo proceder a seu respeito. A verdade 
era o meu único partido que fosse compativel com 



o que era justo , e com o que em mim sentia ; e essí 
foi o que elegi. 

Qual previsto por mim fora , veio ao meu des- 
pertar, Adolpho instigado do desejo tão natural 
de saber os Maternáes succéssos. Nada Uie occul- 
tei dos meus desastres ; e na minha bemfeitora, 
só com o nome de Madama Depréval, lhe fallei. 
Com que sensibihdade reclamava o meu filho to- 
das as bênçãos do Ce'o para essa Dama, que á cerca 
de mim substituirá o seu lugar, em tanto que elle 
de longe dava gemidos pelas consequências da sua 
desventurosa affeição 1 — » Ah 1 minha Mãe , que se 
eu chego a ver essa Madama Depréval , de joelhos 
diante delia é que lhe hei-de agradecer o modo com 
que adoçou as desgraças a que vos arrojara o vosso 
filho. E dizeis vós que tanta bondade, tanta gran- 
deza de ânimo andão accompanhadas da mais per- 
feita formosura? Se essa Dama não é ditosa , para 
quem reservou a Divindade a dita? — Folgamos 
( lhe respondi ) de concentrar nossas ide'ias com a 
imagem daquelles que nunca vimos , e de quem 
ouvimos a miúdo fallarj e como fora para mim 
cruel não poder fallar-vos nessa amiga minha , at- 
tentai nesse retrato , e dizei-me lizamente, Adolpho, 
se a minha practica não tem de perturbar a vossa 
tranquillidade ? — E lhe montrei o retrato. 
Elle o examinou , e fitando em mim a \ist<i ^ es- 



(n8) 
treme ci eu da prova que eu nelle tentara : — Infe- 
liz ( exclamou ) tem pois cie te seguir por toda a 
pnrfe a imagem sua! Ah ( continuou a dizer depois 
de longo silencio em qne não dscravára os olhos 
do reli ato ) , e a vós , Senhora , é que cabia rasgar o 
coração de vosso fdho? Sim , que bem que são estas 
as feições dessa infeliz, que de minha Mãe me se- 
parou ; em que confcrom porem com aquella que 
in'a restituio? — » Madama Depreval ( lhe disse eu 
então ) a minha bemfeitora , a que vos separou de 
inim , a que me approximou de vós , e fmalmente 
essa mulher, que me deo a conhecer quanto ha 
mais cruel, quanto ha mais meigo nesta vida, é.... 
Suzanna. Dizei-me , filho meu, poderei neUa fallar 
com vosco ? )) 

« Bem comprendo. Oh minha Mãe , e a vos jurar 
me aiTÓjo , que nunca o meu amor porá silencio á 
vossa gratidão. Oh boa Suzanna, excellente Su- 
zanna , bem te conheceo á prima vista o meu co- 
ração , e o leu proceder ate' os trasvios justifica. Pal- 
iaremos, e muito fallaremos , Senhora, em Su- 
zanna , e fallaremos sempre ; queuenhum mal pode 
causar o contentamento a vosso filho. Suzanna , a 
bemfeitora de minha Mãe , não a considero como 
uma mulher, mas antes como uma Divindade, 
: cujo nome posso ouvir sem perigo mas nunca sem 
prazer. Chega o amor a um certo termo ás vezes , 



( 119) 
que só de si próprio se sustenta , termo a que eu 
imagino ter chegadp. ( E suspirando continuou ) : 
Oh boa Suzanna, que não és tào venturosa quanto 
eu sou , que te vês separada de minha Mãe , e não 
estás em liberdade ! 

Desde esse prazo nunca mais Adolpho me fallou 
em seus amores •, e só me instava a cada hora que 
lhe repetisse algumas das circumstancias do que 
passara em casa de Madama Dcpréval : os menores 
casos que lhe eu especificava, se lhe estampa- 
vào na memoria; e houve lances, em que elle 
mesmo m'os re-contava : e nunca dávamos fim a 
nossas practicas, sem que lhe eu onvisse : — Pobre 
Suzanna , que não és ditosa •, de que tanto me af- 
flijo 1 — Tratei de despedir o marido de Agostlnha 
que já me era escusado; alem de o não querer mais 
tempo arredado de sua mulher, e do emprego que 
M. Depre'val lhe tinha dado. Meu filho llie recom- 
pensou o seu zelo, e eu lhe encarreguei que á 
minha amiga entregasse a seguinte Carta. 

MA.DA.MA. DE SENNETERÍIE A MADAMA 
DEPRÉVAL. 

Cheguei , minha filha , sem mao acontecimento; 
triste na jornada , como bem credes como (juem 
tendes coração em consonância com o meu. So 



( 120 li 

tinha a consolação de que ia ver meu filho; mas 
vós, amiga rainha, achareis o alivio da nossa sepa- 
ração em vosso ânimo sensivel e generoso que vos 
cle'va acima de tudo o que vos e' pessoal, quando 
tendes deveres que preencher, ou benefícios que 
derramar. Remelto-vos o dote de Suzanna, que por 
óra posso escusar , como vós convireis comigo; mas 
toda a minha vida conservarei o vosso retrato e o 
vosso coração. 

Pelo prazer que experimento em contemplá-lo, 
me contenta d'antemão o que minha filha logrará 
quando receber o meu; que é o próprio que a M. de 
Senneterre dei na ve'spera do meu noivado. Se na 
eternidade , em que elle descansa , conhecer pode 
todos os motivos que me inciinão a vo-lo oíFere- 
cer, a affirmar-me atrevo, que applaudirá o dom 
que faço. Os annos e as desgraças tem desmentido 
da similhança; mas nem os annos nem as desgraças 
nem a opulência tolherão que digáes quando o con- 
templardes : —Sempre, sempre minha Mãe, como, 
olhando para o vosso , tenho de repetir até ao úl- 
timo fio da vida : — Sempre , sempre Suzanna. — 

Achei aqui meu filho, e contentar me-hei com 
dizervos que nclle encontrei unido quanto pode jus- 
tlficar o amor próprio de quem falia de seus filhos. 
Logra saúde, e contentamento de me ver, e de 
saber a situação feliz em que se acha a minha bem- 



( 1^1 ) 

feitora : dimlnuio em parle essa melancliolía em 
que me fallárão,e que singularmente me estranhou 
no primeiro dia da minha chegada. 

Sem que remonte á opulincia em que nascera ,' 
e que tão raro inílúe em nossa ventura, goza de 
sufficiente riqueza; que tinha posto meu Irmão tão 
desastrosamente na Ilha de S. Domingos , 2000 
moedas no commercio d' um negociante de Phila- 
delphia , coirespondente de M- Birton, em cuja 
casa assistimos. Esse negociante é quem endereçou 
meu filho a esta respeitável familia , quando elle 
desejou avizinhar-se de França, esperançado em 
que mais facilmente acharia meios de alcançar no- 
ticias dç sua Mãe. Meu filho era ainda menor , além 
de me pertencerem esses cabedáes; mas por nossa 
dita as leis d'este paiz a respeito dos emigrados de 
França , permittem aos que lá residem de as des- 
fructar por antecipação , com tanto que entreguem 
o capital ao primeiro possuidor que se appresen- 
te, e jurem sobre os sanctos Evangelhos que não 
farão com que saia do Reino esse dinheiro. D'esse 
modo vivia Adolpho abrigado contra a necessidade; 
e o principal correndo no comme'rcio pelas mãos 
de M. Birton tinha progressivamente augmentado. 
Aqui vedes , minha querida amiga , que escutou o 
Ce'o as orações que por meu filho lhe fazia : e sem 
dúvida que atteudia aos rogos que por mim meti 



( 122 ) 

filho llie fazia , quando a vossa casa me encami- 
nhou. Piovavel é que Adolpho nunca imaginou 
eui coiilraclar se com Miss Anna Birton , que com 
eíTello é tão formosa < orno no-la pintarão ; por- 
quanto tudoé instar-me que deixemos Londres, cuja 
vivenda não me é de agrado , e que compremos al- 
gum prédiozinho em que eu possa socegndnniente 
viver, e segundo o teor a que era habituada Vc s Su- 
zanna, me destes a prova de que a beniíicencia c a 
mais formosa de todas as virtuiles , e que os bons 
corações encontrão perpetnos motivos de nunca se 
emendarem delia. Bem certa estou que o campo 
me agradará muito ; e dou por abono o prazer de 
que A.dolj)ho se esperança lá gozar , vivendo lá^-o- 
migo : seriamente cuidamos em o pôr por obra. Se 
as circumstancias permittirem algum dia ( e eu as- 
sim o cspeVo ) que Madama Depréval lá nos venha 
visitar, desfructarei então toda a felicidade; que 
até esse prazo , o meu coração se contentará com 
desejá-la. 

Adeos minha amiga verdadeira , não vos descui- 
deis de me dar noticias vossas , em toda a occasião 
possivel- Vossa Mãe vos lança a sua bênção , vos 
beija , e vos recommenda o exercício das virtude.? 
que vos são tão fáceis. 

P. S. — Queria Adolpho accrescentar algi.mas 
legras-u esta minha Carta, mas eu tive por mais 



( ii3 ) 
decente , dirigi-las elle a vosso Esposo *, eu na mi- 
nha fêclio a ciue elle lhe envia. 

ADOLPHO DE SENNETERRE 

A M. DEPRÉVAL. 

Monsieur , dignai-vos de acceitar os agradecimen- 
tos muito sinceros que pelos bons officios que a 
minha Mãe prestastes vos dedico ; faltáo-me expres- 
sões para a gratidão ; mas esta só com a minha vida 
tem de acabar. Peço-vos que para com a vossa 
Esposa sejáes o intérprete d'este meu sentir. O que 
Madama de Senneterre me disse de suas virtudes , 
da sua sensibilidade , me recordou , que desde a 
sua infância eu tinha prognosticado as qualidades de 
que ella seria possuidora em mais crescidos annos. 
Quando tudo em torno de nós padeceo mudanças, 
nos damos por venturosos de em nossa lembrança 
depararmos com ideias que nos transportem á 
nossa antiga existência ; nem ha objecto que melhor 
se me conforme com a situação de meu peito , do 
que a amizade que hoje com minha Mãe enlaça a 
Madama Depréval. Tenho a honra de ser etc. etc. 

Envidou M. Birtón em obrigar-nos tanto zelo, 
que 5 semanas depois de eu ter chegado a Londres , 
se concluio a compra d'uma quinta , qual eu , se- 
gundo o meu estado a podia appetecer, e segundo 



o cabedal que cu nella empregar podia. Ficava a 
20 milhas de Londres , e nella fui logo com meu 
lillio residir , para allí hospedar a íamilia d'ess« 
honrado negociante , que levava em gosto assinalar- 
nos com essa visita , a intenção entranhavel de con- 
tinuar a amizade que entre elle e nós já se travara. 
Apenas elle chegou á quinta me entregou uma 
Carta , que depois da minha partida recebera ; « 
era ella de Suzanna. Valí-me do primeiro instante 
que me vagou, para me retirar, e a ler, querendo 
lograr-me á uma de contentamento de estar com 
os meus novos amigos, e entreter-me um lanço- 
zinlio com a que deixara em França. Mas que foi 
de mim ^ quando me inteirei das seguintes novas ? 

MADAMA DEPRÉVAL 

A MADAMA" DE SENNETERRE. 
1 
Madama , quanto me lastimara eu agora de me 
Ter separada de vós , se não imposeVa silencio ás 
minhas saudades , a dita que estáes gozando ? 
Nunca Suzanna careceo tanto dos vossos conselhos 
e vossas consolações. Feneceo M. Depre'val. Ter- 
rível acontecimento me arrebatou um Esposo que 
me cumpria que amasse , pois que quanto nelle 
era , contribuía para a minha felicidade. Since'ras 



( ias ) 

são as minhas lágrimas , como bem o imagináes ; 
Senhora ; que testimunha fostes de quanto era 
elle bom a meu respeito ; e ainda as acreditareis 
mais quando souberdes por que desastre perdeo 
a vida. 

Apenas tínhamos nós voltado a Paris , que aba- 
lado da tristeza que me consumia , a qual nem eu 
com todos os meus esforços lhe podia occultar , 
assentou que um festejo em applauso meu, daria 
distração a meus pezares. Como me obrigara a 
apparecer era tantos bailes este hynvemo , indis- 
pensável era juntar em nossa casa, todos esses 
onde fôramos convidados. Motivo respeitável para 
quem como eu (bem o sabeis vós) íiz hábito de 
nunca me oppôr ao que era de seu contentamento. 
Os appercebimentos para o festejo fôrão para elle 
deliciosa occupação ; appascentava o seu amor 
próprio em sobrepujar a quanto tinha atélli visto. 
Depois de ter demolido , e reedificado de novo 
uma Salla , qual elle a desejava ; depois de ter as- 
sistido a todo o lavor delia , contemplava a sua 
obra , e nella se deleitava. Tinha chegado o marido 
de Agostinha , e me tinha entregue o maço de que 
o tínheis encarregado dar-me. Oh! e quanto , mi- 
nha Mãe não coalhei de beijos esses sagi-ados ca- 
racte'res ; com que ardor não me prometti de me 
fazer sempre digna d'uma amizade, tão honros:^ 



( 11^ ) 

para a vossa filha scin ventura ! accelcrada cm 
remettcr a INI. Deprcval a Carta de vosso filho , 
corro ao seu gabinete , onde me dizem que elle 
estava no sallão com alguns obreiros ; vou la , e 
a])raç"ndo-o com toda a alegria do meu coração , 
lhe enirego a carta que lhe era destinada ; e em 
quanto a lia, um candieiro de chrj^stal que estavão 
pendurando, cáhe, e derriba a M. Depréval. 
Crava-se-lhe no crâneo uma lasca de chrystal , e 
tão profunda que perdeo logo o accôrdo. Lavado 
em sangue o transportão á cama, onde as dores 
de mui agudas lhe arrancavão gritos que me reta- 
Ihavão a abna. Nem se atreverão os Chirurgiões 
dar-me anles da operação , esperança íilguraa j e na 
mesma operação , entre tormentos inauditos , se 
lhe despedio a vida ao meu Esposo. 

Via-me neste mundo só , e sem parentes , com 
muitos conhecidos , e sem um único amigo , pros- 
trada com essa súbita e violenta morte , dando 
gemidos no meu quarto , quando teve Agoslinha 
o valor de me inteirar de todo o horror de meu 
infortúnio. Desde a nossa assistência em Paris , 
tinha M. Depréval perdido o uso de me confiar os 
seus negócios ; que lhe tinhão os seus sócios per- 
suadido ser cousa ridícula e muito , o fazê-lo 
assim. í^u que vi então ser-me forçoso averiguar 
pape'is , pedir contas a caixeiros , quanto antes 



( 1^7 > 
me convenci que nenhum fundamento sólido tiníia 

esse fasto, essa opulência. — Uma grande circulação 
de cabedáes facilitava as grandes despezas : dévem- 
Ihe muito; mas como elle mais consultava a sua 
vaidade, que outro qualquer intuito quando 
emprestava , de nenhuma valia era a mór parte 
dos bilhêtfes. Elle deve ; mas como o Governo lhe 
atrazou avultadas parce'llas , nada é mais difficul- 
toso que o acabar com similliantes contas , logo que 
faltou M. Depréval que continuasse as mesmas ope- 
rações : ajuntai ainda as pertenções da sua familia, 
muitos membros da qual se apposentárão já em 
minha casa , € me ólhão como a ruina de suas per- 
tenções, ou como estorvo á sua rapacidade, e quasi 
que vos afligurarêis a minha situação. 

Tudo o que era conhecidos des-pareceo ; de que 
nem me espanto , nem me aíílijo : que a ser eu livre 
de minhas acções, fora a primeira que de seu bando 
desertara; a indecencia prende no momento que 
elles tomarão para fugir. Sei eu que para se descul" 
parem de seu baixo proceder para comigo, allégão 
com o meu luxo, e meus adornos. Mas de vós, 
oh minha Mãe tomei a doutrina , de ser o nosso 
legitimo Juiz a Consciência, e a minha não me ac- 
cusa. Ah! que a serdes vós ainda comigo não vacil, 
lára em largar todos os meus direiios a esses her- 
deiros de M. Dcprcval , bem persuadida que anu- 



macias as contos como deve ser, fica ainda cabedal 
sobejo ; e minhas jóias sós bastarião a nos dar com 
que viver nessa mediania por que sempre suspirei. 
Aconselliai-me o que melliór me incumbe. Que será 
de mim , só , no mundo , e com tão poucos an- 
nos ? Certo que lástima vos faz a vossa Suzanna ; 
c que é o único bem que eu appeteço , essa ami- 
zade vossa ; o único que me não pode roubar 
succe'sso algum. 

Nem eu o encobrirei a aquella que está de 
posse de conhecer os meus mais tntimos pensa- 
mentos : muita vez me sinto piompta acederão 
desânimo •, mas quando fito os olhos no vosso 
retrato , e me lembro do que fostes, e da resigna- 
ção com que supportastes os golpes da fortuna , 
recobro um pouco de coragem. Só eu ! vêr-me só ! 
Ide'ia tcnivclesla. Ah! (jue se vosso filho, Senho- 
ra , se tivcia desposado com Miss Anna Birton , 
esperanças se deparavão de que abe'i'tos me estarião 
vossos braços. Mas mais que muito considero , 
què devo arredar de mim esse pensamento. » 

QuaAdo voltei ás visitas que tinha em casa , fiz 
quanto pude por lhes occultar o pezar que me dera 
a Carta de Suzanna ; e maior disfarce empenhei 
ainda a respeito de meu filho , que não ignorando 
que eu tinha recebido novas de França , lhe pulava 
tal curiosidade nos olhos , que me augmentava o 



( i"9 ) 
fenkio. — B Ella tem saúde ( me appressei a dizer* 
!he , apertando-lhe a mão ) vinde esta noite ao meu 
quarto, evos darei mais individuadas noticias.» 
Poucas palavras , que para o socegar sobrarão , e 
podemos entregar-nos inteiramente ásatisfação de 
possuir a familia de M. Birton , que dado não espe- 
rasse de nós ruidosa alegria, era digna dessa branda 
e sensivel amizade que se dá bem com o coração , 
e qual a não excluião as variadas sensações que da 
carta de Suzanna em mim nascião. — » Meu fdho , 
( disse eu a Adolpho apenas nos vimos sem cir- 
cumstantes ) eis as novas que eu recebi ; lêde-as , e 
me direis sem refôliio , que eíTeito ellas em vós pro- 
duzem. Paracarear a vossa confiança, vos ante- 
cipo a minha approvação para todo e qualque'r pro- 
jecto que abraceis : que sei eu bem quanto me 
custou o querer ser mais prudente que vós. Daqui 
em diante me contentarei com vos dar conselhos , 
se m'os pedires, mas nunca decidir que teor de- 
váes seguir. 

Então lhe entreguei a carta de Madama Depre'- 
valje em quanto elle a lia, attenta lhe contem- 
plava o semblante , que tanto se lhe demudava , 
tantas aííecções se lhe debuxavão nelle e muita vez 
accumuladas , que impossivel me era distinguir 
qual nelle dominava. Passou algum tempo em silen- 

Tom. X. o 



( i3o ) 
cio , e logo novamente , mas com mais socêgo leo 
a caria inteira. 

-^ Piomcssa me tendes feito , Senhora , de que 
em nada me encontrareis a vontade. Assim, na 
desgraçada situação em que se ve a vossa fillia, 
um só partido resta ; qvie é o de escrever-lhe vós 
mesma , inslando4he que venha estar com vosco , 
e cncarregar-me de ser eu o portador da Car- 
ta. » Vós , Adolpho ! ( exclamei) — Ella , Senhora , 
desamparada de todos, reque'r que eu ou vós corra- 
mos a soccorrê-la. 

■ — )) E a que riscos vos não pondes , se entráes 
em França? — A não considerar mais que eu , todos 
sem pavor os aíTrontára : mas lembro-me do qtie 
a minha Mãe sou devedor ; e vos abono que fracos 
fòrão os riscos em cojnparação do motivo que a 
corrê-los me abalança. Consultemos , se vos agra- 
da, a M. Birton , que eu a elle me reporto. — Quanto 
queiráes , meu fdho ; e ou Ira vez o digo. Mas ima- 
gináes vós que Snzanna queira vir com vos- 
co? — Pois já me não quer bem Suzanna ? O 
contrario me dérão a suspeitar as vossas falias. — E 
como cu lhe não respondesse ao ({ue elle dizia, 
continuou assim : — No caso que ella disconti- 
nuasse cm amar-me , não ha ahi motivo de que 
eu mude de resolução. Não devo eu toda a minha 
existência á bemfeitora de minha Mãe ? a quem 



( ^3i ) 
m'a conservou ? e quem fez mais , que foi a mim 
torná-la ? EUa vie'ra ( diz a Carta ) lançar-se-vos 
nos braços , se soubera estar eu casado : aqui vos 
juro, Senhora, que se para a sua felicidade e para 
a vossa se requer tal SDcrificio , dai-o por concluí- 
do. » — «Beijai-nie, oh fdho meu, esses movimentos 
de vosso ânimo são a gloria, são a \entura de 
vossa Mãe. Com alegria o confesso , Suzanna para 
vósnasceo, e vós para Suzanna : dotados de igual 
sensil)ilidade , capazes de sacrificar ao vosso dever 
a mais activa paixão de vossa idade , confio que a 
união vossa não encontrará obstáculos. Mas que 
necessário e' ir expôr-vos a novas tempestades? 
Virá Suzanna, ah não a duvideis ; uma carta de 
sua Mãe será sufficiente. 

— E vós que a conheceis, o credes assim? Pode 
a cai ta perder-se ; mas dêmos que tão appressada 
chegue , que impida vossa fdha de fraqtcar a essa 
soledade que a desalenta , não receiáes vós que por 
extremo de pundonor se ella trasvie? Imaginará 
que ás minhas lágrimas de've a vossa approvação ; 
tomarásm brio renunciar á felicidade ; prolongará 
nossa incerteza , e seus tormentos. Por mais desam- 
parada que no mundo se veja uma nudheV tão 
sensível como Suzanna , grande tem de ser o esfor- 
ço que ella faça antes que se resolva a vir ter com 
um noivo, se na carta lhe apontáes tal nome. 



9 * 



( i32 ) 
No seu estado presente tem de altender a mil res- 
guardos , que para corações delicados são outras 
tantas obrigações; e essas, quem, a não ser o 
Amor , vencê-las pôde ? Quem , a não ser eu , ar- 
razoará diante de Suzanna a sua própria causa ? 
Bem que apenas eu faça conta com o amor -, o que 
pôde com eiícito resolvé-Ia , e que pôde unica- 
mente vencer todos os obstáculos , é apparencia do 
perigo a que eu por causa delia me exporei : então 
virá comigo , receiosa de vos privar segunda vez 
de- vosso íillio. — 

— » Adolplio , Adolplio , mais que muito o vejo, 
que só para o amor é que não ha impossiveis. 
Ponde , sem vacillar , no numero dos motivos que 
vos impcllem , o gosto de mais cedo a tornar a ver, 
de vos lograres dos abalos que lhe ha-de inspirar 
o vêr-vos , c gozar em fun folgadamente da dita 
de ser amado. — E criminaríeis vós o vosso fi- 
lho de aspirar a tamanha dita ? — » Não , Adol- 
plio. Consultaremos M. Birton , e vos prcmetto de 
estar pelo que ella diga. Meu filho me beijou , e 
€u , de mui entretida do seu contentamento , de 
suas esperanças , e de meus receios , não pude co- 
lher o soinno. Ku desejava tanto como elle , vêr-me 
de posse de Suzanna; que d'ha muito concebia que 
cm vivermos nessa companhia consistia a nossa 
natural felicidade ; que ella sô podia exercitar , 



( i33 ) 
satisfazer a profunda sensibilidade qite compunha 
o caracter principal de Adolplio. Divisara eu de 
sobejo no coração delia que meu filho era quem 
unicamente a faria venturosa ; nem a minha exis- 
tência fora completta , a faltar-me ou meu filho , 
ou ella. Disposição com tudo, que não me so- 
cegava em quanto á jornada , màs que me tirava 
a força de me oppòr a ella ^ alem de que , entre os 
motivos que o amor tinha suggerido a Adolpho , 
muitos havia que me parecião tão plausivels a 
mim como a elle. Como tinha promettido que me 
reportaria a M. Birton , esperei com desasocego o 
que elle resolveria. 

Na manhan seguinte m'o conduzio meu filho ao 
meu quarto , tendo-lhe já feito confidencia da 
jornada , e não lhe occultando alguma das razões 
que o determinavão a emprendê-la. M. Birton me 
perguntou se tinha eu motivos particulares que 
reforçassem esse projecto : « porquanto ( accres- 
centou elle ) não vejo ate'góra necessidade alguma 
de novamente vos separardes , como eu já a vosso 
filho declarei. Cá a mim quando me consultão , 
assento que é para saber o meu parecer , e assim 
o ciou. Convenho que todas as aííecções do ânimo 
que são o encanto desta vida , e a gratidão sobre 
tudo , vem de accôrdo no desejo que tendes de pos- 
suir com promptidão a Madama Deprcval : o que 



( i34 ) 
nada obstnnle , se pôde bem concluir' por cartas , 
e proiiK Iter-vos posso que nenhuma inquietação 
vos r.que á cerca dos meios de que me hei de servir 
para que seguramente lá lhe cheguem á mão. IVleu 
Amigo ( disse elle a Adolpho) outra vez vos digo, 
que de nenhum ntil sereis nos negócios deMadama 
Dcprcval , antes pelo contrario , os perigos a que 
ella vos veria exposto empéceriào ao socego que se 
lhe lequer para os concluir d'um ou d'outro modo. 
Triste é sem dúvida a soledade em que ella se vê ; 
mas nem por tal confieis que ella de vós faça , de 
primeiro, intima sociedade ; antes áífirmo que a 
esperança , a certeza de que ha-de vir reíugiar-se 
nos Inaços de ?Iadama de Senneterre será por si 
só bastante para lhe apaziguar o ânimo; e vós 
deveis resguardo ao seu decoro , e cuidar na Mãe 
que tendes. Hoje podcrieis. bom o creio, discorrer 
pela França sem perigo -, mas á manhan , outo dias 
depois , quem vos aíTiança o sahir delia ? Esses 
vossos Francezes endiabrados-.... M. Birton, (ex- 
clamou meu filho ) — » Sim Sim ; bem sei que 
não folgáes que digão mal da vossa Pátria , e razão 
tendes. Tratemos por agora de vossa JNJàe ; imagi- 
nai quanto lhe fora cruel , e para mim , e para 
todaa minha familia essa incerteza ; imaginai que 
lenho a osso res;ieito a amizade de verdadeiro 
Pãe : e a ter eu igual autoridade, não consentu^a 



( i55 ) 
em que partísseis ; qae me darião as lembranças do 
passado , vigor para vos resistir. Certo fico que será 
de meu sentir Mad.^ de Senneterre. » 

)) Senhor Birton ( lhe respondi vendo que Adol- 
pho se calava ) na verdade que não me atrevo 
a dizer qual íôra a minha vontade ; que as lem- 
branças do passado, que vós tão ajuizadas allegáes, 
me desalentão o ânimo , e mui vivos fôrão meus 
padecimentos quando me viessem lembradas as 
leis a cuja vingança meu filho estivesse exposto , 
como proscripto por ellas ; mas igualmente conce- 
bo que se elle por culpa minha viesse a falhar a- 
inda uma vez o lance de ser feliz , melançarião na 
cova osseus pezares. » 

)) Pois Madama , convenha Adolpho em dar a 
sua Mãe , dar á prudência , e a seus amigos os pri- 
meiros dias , contentando-se com ir esperar Mada- 
ma Depréval ao porto neutio onde ella vier embar- 
car ; e deixemos a essa Dama , cuja amizade , cujo 
ânimo vos e' claro , o cuidado da maneira com 
que haja de portar-se. » — Não ficava lugar a Adol- 
pho de não acceitar arbitrio tão cordato , e a mim 
me vinha muito a meu gosto : pois que podia aíFou- 
tamente confiar a Suzanna o cuidado da minha 
dita , e a vida de meu filho ; e assim ficámos todos 
do mesmo accôrdo. 



( m ) 

Tinlia ]M. Birton de partir com a sua familla 
para Londres no dia seguinte , e a Adolplio que 
os accompanhava , entiegueieu acarta quese'gue ; 
e no instante da despedida, o inteirarão as lágrimas 
que verti , melhor que o não fizerão minhas pala- 
vras , quão avinculados andavão com os meus os 
seus destinos. 

MADAMA DÊ SENNETERRE 

A MÁDAMA DEPRÉVAL. 

Como pôde a minha querida filha imaginar-se 
desamparada? Por ventura deo já fim a minha 
vida? E para que Suzanna em minha casa ache 
um abrigo , terá meu filho de ser desventuroso ? 
Ah , minha amiga , tanfco tenlio chorado essa op- 
posição que fiz a um cazamento que único pode'm 
com[)letar a dita de duas pessoas em quem repou- 
são todos os meus aíTpctos , que o recusá-lo fôi^ 
de novo castigar-me. E não o fui eu bastante pela 
ausência de Adolpho , pelas lágrimas , que me 
escondíeis, e cujo motivo me era tão fácil adivi»- 
nhar ? 

Minha amiga , inteirada como eu estou do vosso 
coração , nelle ponho agora toda a confiança : que 
não vivestes atéqui senão para preencher sagrados e 



( i3. ) 
bem custosos deveres. Chegou o prazo em que esses ^ 
iguáes deveres farão consonância com a vossa feli- 
cidade. Vinde, amiga minha, receberão pé dos alta- 
res um nome, que vos deo ha muito tempo a minha 
gratidão. Não vo-los requeremos , Suzanna , cabe- 
dáes , nem no-los pe'de a vontade. Daqui avislo 
quanto o estranhará o vosso pundonor , que bem 
sei que a mim é que competia ir-vos ao encontro ; 
mas situações ha ( e a minha é uma dessas ) 
ante as quáes se desvanecem todos os melindres da 
Sociedade. 

Ajoelhada vos roga vossa Mãe , Suzanna , a 
ventura de seu fdho ; e podereis vós negar-lha , 
quando souberdes que nunca esse filho cessou de 
amar-vos ? que em vós adora a que salvou sua Mãe 
de ver-se humilhada, que está resolnto, no caso 
que hesiteis um só instante , a ir elle mesmo recla- 
mar a vossa mão , arriscando a própria vida? Que- 
reis mais? Projecto , que vos fará estremecer veiiceo 
em mim consentimento -, tanto é verdade que a 
mim e a elle , tem preferencia a INlórte , á mágoa 
de viver sem vós. Adeos , amiga. Adolpho é quem 
se incumbe de que se oífereção aos vossos olhos os 
rogos de sua Mãe. 

P. S. — Como pôde a voSsa modéstia attribuir 
unicamente ao amor que a meu fdho tenho , e ao 
meu agradecimento este meu proceder, tenho de 



C i38 ) 
vos dizer , que consultámos M. Birton , para quem, 
depois da vossa viuvez , não lia cousa escondida. 
Esse homem respeitável aíTirma , que ainda a ser 
elle Par de Inglaterra , e a deparar c'um'a Suzanna 
como vós , a anteposera para seu fdho , a toda e 
qualquer noiva. Mas não lia duas Suzannas. — Sãa 
palavras formáes delle. 

ADOLPHO A MADAMA DEPREVAL. 

Madama , a Carta de minha Mãe vos fará certa 
de queella e M. Birton fôrão quem sós me impe- 
dirão aílrontar todos os perigos , para me ir lançar 
á vossos pés. Não sei qual era a esperança que 
me aliLi miava, no instante em que formei esse 
projecto; mas agora que me vou approximando 
dé vossa presença , para saber mais cedo o que de 
jnira volve o destino, se me vai escurecendo essa 
esperança. Gomo imaginarei que se possa confiar 
no meu amor , e queira unir com a minha sorte a 
sua , aquella mesma que eu desamparei , e en- 
treguei ao sacrifício ? Estáes ainda lembrada , 
que nunca vós c'um só mover de olhos, oh Su- 
zanna (desculpai-mc este nome que tão querido 
trago na memoria ) me deixaste adivinhar que vos 
inclináveis ao aílecto do desgraçado Adolpho ? 
Ah, que a ter cu a ventura de enternccer-vos ; a 



I 



( ^39) 
poder o meu ciibiçoso coração conceber a menor 
esperança ; a ter-me atalhado os passos uma téaue 
declaração de Suzanna , jurar-vos posso pelos tor- 
mentos que padeci depois dessa fatal partida, que 
não ha hi no mundo poder , nem consideração 
alguma que rompesse o que Amor tinha assim 
unido. Mas vós não conheceis essa imperiosa attei- 
ção que ateada na alma, senhoreia todos os pen- 
samentos , e que avinculando a nossa vida á vida 
do adorado objecto determina a nossa ventura ou 
desventura. Suzanna , vós nunca amastes ( mil 
vezes depois da nossa separação a mim m'o repetia). 
O Céo (me parece ) vos deo ao mundo para culti- 
var virtudes , tratar amizade , mas não para tomar 
parte no amor que vós iuspiráes. Qual será pois 
o meu destino ? E que será de mim, de minha 
Mãe , se não vindes em soccôrro nosso ? Ah ! que 
não me aíiouto a cravar meu pensamento no 
futuro ! 

E eu , de mim vos fallo , quando só devera oc- 
cupar-me da vossa situação , e vossos infortúnios ! 
Minha Mãe vos oííerece abrigo , que a amizade 
entre vós travada alhanaria quanto estorvo vos 
pozesse dúvida a acceitá-lo , no caso em que ella 

morasse só , ou que eu estivesse Ah 1 que não 

me atrevo , Suzanna , a fechar a phrase que vós 
lançastes na vossa última Carta. Eu cazado ! Eu , 



• ( '4o ) 
que quando os obstáculos me atalhavãp ale a mes- 
ma esperança, tinha feito juramento de nunca 
iinu' com mullieV alguma a minha sorte ? Para a 
dita , ou desdita do lesto de meus dias as minhas 
únicas lembranças me sobravão. Se comtudo , 
Madama , pôde a minha presença pôr mudança 
na felicidade que ao lado de minha Mãe vos pro- 
metteis, fallai ; que com tanto que vós sejáes ditosa 
não ha hi sacrifício que seja superior ás minhas 
forças. Vós , e unicamente vós , Suzanna , sois 
quem me occupa o ânimo , e m'o ha de occupar 
até ao hm da vida. Ah quem pode'ra exprimir- vos 
a pureza da minha aífèição ! ella vos enterneceria ; 
alToutamente o creio. De mim é que , depois da 
nossa separação, me eu lastimava? Sobre a minha 
ventura é que eu estremecia? Oh que não. Cum- 
prida estava a minha sorte. Eu que conhecia o 
pundonor de Suzanna, e aquém arrancava gemi- 
dos o receio de que um cazamento em que lhe não 

consultarão a vontade Lembrança horrenda ! 

Compadecei-vos de mim , Serdiora. Vossas deter- " 
minaçôes aguardo ; com tanto desasocego como 
susto aguardo a sentença que proferirdes. Suzanna, 
Suzanna , vai nella a vida do infeliz Adolpho. 

Como eu não acccitei o oííerecimento de M. 
Birton , que deixava comigo qual de suas filhas 
mais quadrasse para minha companhia , fiquei só 



( i40 
na minha quinta : que situações lia na vida , em 
que dá menos enojo a soledade , que as distracções 
a que por condescendência nos j)restâmos, sem 
que estas nada obstante produzão eíTeito algum 
nos pensamentos que incessante vos occupão. 
Quanto mais a dita se me avizinhava , tanto 
ponderava com pavor os discrimes que podião 
retardá-la , ou talvez para sempre destrui-la. Es- 
crevêra-me Adolpho , dando-me parte de quão 
rápida fora a sua viagem , e eu contava des-soce- 
gada os dias ; quando eis que o vejo de volta , e 
só e sem Suzanna. Por impossivel t^^iho significar 
o eífeito que essa volta fez em mim :^ elle que deo 
tino disso , se deo anciã a aquietar-me com dizer- 
me que nisso obedecera ás disposições de Madama 
Depre'val ; mostrando ao mesmo tempo as seguin- 
tes cartas. 

MADA.MA DEPRÉVÂL 

A MONSIEUR DE SENNETERRE. 

Monsieur, recebi a Carta de vossa Mãe e Se- 
nhora minha , a quem anciosa respondo , e al)erta 
vo-la remetto , porque não me accusêis de passar 
em silencio o conteúdo na vossa. Nem vos esque'- 
cerêis de quão pouco ha que perdi meu Esposo , 
cujo teor bene'volo a meu respeito muita vez me 



C i4^ ) 
consolou dos desagrados inseparáveis desta vida ; 
se eu tantos , quantos dizeis , tenliò em vós pode- 
res, não enjeitareis remetter vós mesmo esta carta 
á minha Bemfeitora , e tende por seguro , Senhor, 
que o vosso projecto de vir a França, me deo 
cruel abalo ; e que eu nunca me consolara de vos te- 
res exposto a um perigo de que ainda a cada instante 
me estremece o coração. 

A TdESIVíA A MADAMA DE SENNETERKE. 

Vós , mirdia Mãe , pedir-me ajoelhada , que cause 
a felicidade de vosso fdho e que vá para sempre , 
sempre viver com a minha Bemfeitora? Eu Su- 
zanna , que me daria por muito aííbrtunada de 
servir jMadama de Senneterre ! eu a quem , para 
a consolar na sua adversidade, uma caricia sua é 
só l)astante 1 E dizeis vós , Senhora, que sois intei- 
rada do meu coração? Mísera de mim ! que delle 
receiava inteirar-me eu mesma , e que agora averi- 
gúo que ha impulsos de ânimo impossiveis de sub- 
jugar , e de os esconder dos olhos da amizade. 
Js'^unca eu me perdoara essa fraqueza , a não ser de 
permeio a bondade com que fdha vossa me cha- 
máes, e o saber que ao menos puz da minha parte 
quanto em mim coube por preencher os meus deve- 
res á cerca de meu Esposo. A approvação de minha 
Mãe , mais valioga que as minhas próprias refle- 



( i43 ) 
xões me estorva o en\ ergonliar-me ' de mim 
mesma. 

Sem dúvida que bem inteirada sois do ânimo 
de Suzanna , quando mais que segura das aíFec- 
çôes que sempre o occupárão , receiastes que ella 
recusasse de ir viver em vossa companhia. Mas 
sem acreditar , Senliora , os elogios que de mui 
boa me liberàlizáes , farei que tudo o que é pes- 
soalmente meu se cale , para assim vos fazer certa 
que uma determinação, um só desejo de minha 
Màe, serão sempre a única regra de meu proceder. 
Irá Suzanna lançar-se a vossos pe's , e dar-vos os 
agradecimentos de vossos benefícios : e se vos não 
parece estranho que cu requeira vosso fdho de 
que me não espere , pedir-vos-hia que viésseis até 
Londres a meu encontro ; porquanto necessito de 
me ver a sós comvosco , ao menos para a visita que 
farei a M. Birton e sua familia. Confio tanto na 
vontade que de çomprazer-me em vós conheço, 
a este respeito , que nem mesmo aguardo a vossa 
resposta ; e como não me atrevo a antever o que 
fará M. de Senneterre, mais resoluta eslou a não 
lhe declarar o porto do meu embarque : além de 
que , elle obraria mui desacertado em vir a Paris 
buscar-me , aonde é certo que me não achasse ; 
pois que eu mesma não sei quando lá tornarei; 
liem ainda tornarei antes da minha partida. 



( i44 ) 

A-deos , minha Mãe , e Bemfeitora minlia ; adeos 
bem curlo , c então a vosso lado para sempre , 
Suzanna , a quem alçastes até vós , aprenderá com 
o exemplo vosso a se dar a amar de quantos avin- 
cularem ao delia o seu destino. Ah ! e quanto , 
Senhora , com esta ideia me dá abalos o coração ! 
E é ce'rlo que cabe em mira cumprir sua ven- 
tura! — 

Sempre Suzanna ( exclamei eu depois de lida a 
Carta ) — Sim , minha Mãe ( me respondeo Adol- 
pho ) sim , que Suzanna é sempre a mesma ; sem 
nada sacrificar ao Amor, sabe todavia obrigar a 
que a idolatre, a que lhe respeite as vontades, a 
que a admire o seu amante nos seus mesmos ri- 
gores. Tal era Suzanna sette annos antes , e tal é 
ainda Suzanna agora. 

Partimos para Londres na semana seguinte ; e 
Adolpho imaginava que appressava o tempo quando 
cedia á sua impaciência. Chegou em fira o ditoso 
dia, em que tivemos a felicidade de nos vermos 
unidos todos. M. Birton e sua Esposa quizérào dar- 
se o contentamento de serem os Padrinhos do noi- 
vado í achando em sua n^odestia, sensibilidade, 
e graças por todo seu sujeito desparzidas , justifica- 
dos os elogios , que delia tínhamos d'antemão 
dado. 

Tinha ella , antes de partir de França , assegu- 



( i4S ) 
rado boas rendas a Agostinha e a seu Marido , a 
feito composição com os herdeiros de M. Depréval. 
Dos bens que lhe ficarão, lhe deixou meu fdho in- 
teira disposição , e fôrão postos em mão do honrado 
negociante seu Padrinho de noivado; e nós voltá- 
mos com ella quanto antes á quinta que comprára- 
mos com as relíquias do nosso cabedal ; e lá entre a 
amizade, e o amor, e o todas as affeiçõesque nos pren- 
dem á vida, desfrutamos Adolpho, Suzanna e eu 
o socêgo que ganháramos com tantas lágrimas ; per- 
dida a saudade, ás riquezas ás fidalguias, tão 
penosas mil vezes pelas obrigações que nos im- 
põem. Suzanna, deslembrada de que nós somos 
quem tanta ventura lhe devemos , dá a parecer que 
^lla é quem toda a obrigação nos de've da ventura 
que logra ;€ em todas as suas acções nos obriga a 
repetir , todos os dias , com renovado prazer que 
ella é sempre Suzanna , sempre a mesma. 



FIM. 



Tom. X. 



( i46) 

HEROICIDADE 

DO AMOR E DA AMIZADE. 



Il^ PARTE. 

X!/wvÔLTA em profundo somno, ( erão sette da mâ*- 
nhan) a Dnqueza d'01mance lhe entra no quarto 
uma Criada , com um lacaio... Ella acorda, co^ 
nliece a libré de sua Mãe , e o coração se lhe turva. 
— A. Senhora Condessa d'Estanges está muito malj 
e deseja ver a Senhora Diiqucza. — Que dizes? Oh 
poderosos Céos ! Qi.e doença é a sua? — Mui peri- 
gosa, Minlia Senhora. 

Entre indizíveis anciãs , trémula , e consternada 
se ergue, manda pôr a carruagem, e em curtos 
momentos , ei-la em casa da Condessa sua Mãe , no 
instante em (jue lhe ião dar o viállco. Esta, que vé 
a Filha, com decadente voz, lhe clama: — Oh 



( i47 ) 
minha querida Angélica (i), quão precioso me é o 
pra/o, em que tu chegas! ( E como chegasse o sa- 
cerdote, para preencher seu augusto ministério): 
— Permitta-me , Senhor, bre've demora , que me 
porá mais digna da mercê , com que o Ente su- 
premo me quer sanctificar... Oh Filha minha, que 
de amarguras te verti no peito!.. Um monstro!.. 
Cabe-me dar-lhe eu tal titulo , no estado em que ea 
me sinto? — Perdoai-lhe, meu Deos , como lhe eu 
perdoo.... Um homem, querida Angélica, ambas 
nos enganou. Indigna te considerei das máximas 
que de mim tinhas. Ingiata Filha te chamei... Des- 
naturada jVIãe me acreditaste... Ai I... por testimu- 
nha tomo esse mesmo Deos , que presente vemos , 
de que em tudo que eu obrei , entendi obrar como 
Mãe , que tem a peito a reputação de sua Filha. 
Perdoar-me-ha Deos esse involuntário error , se 
odiada da minha Ange'Hca, eu entrar na sepul- 
tura? Oh dize, querida Filha, (que assim t'o re- 
que'r instantemente tua moribunda Mãe ) dize : 
Eu wos perdoo. — Perdoo , e mais que muito , oli 
Mãe amada, ( Exclamava a Duqueza estreitando-a 
entre seus braços ) — E duvidais-lo ? Ai tiiste ! que 

(i) Aymardina, que vem no texto, uão me agradou , 
por ter um som , que orça muito por um diminutivo d« 
eousa que nuo cheira bem, 

,0 * 



( i4B) 
a mim e que antes cabe de vos pedir perdão. Vivei » 
querida Mãe , para me amares, e para que a vossa 
Angélica vos adore. E, para súbito perder- vos , eu 
vos tornei a ver? E viria a vossa Filha ver-vos , 
para vos appressar a morte! Deosj Deos,siua que 
nos ouve.... 

As lágrimas, que derramava, e que corrião em 
regos pelo seio da Mãe , lhe atalharão as palavras ; 
e a Condessa d'Estanges absorta na ceremonia dos 
sacramentos, que lhe administravão , deo ares de 
aviventar-se , e o semblante se lhe allumiou com 
puro contentamento. Tomou nas mãos as da sua 
Filha , pôz nella enternecidos olhos, em que algu- 
mas lagrimas bolhavào ; e dos lábios descerrados 
parecião sahir táes vozes : — Ah Filha minha; de 
quão doces agrados nos privámos ! Tanto como ella 
o entendia a Duqueza assim, sem lh'o dizer. 

Lá perto da noite, mandou a Condessa q»ie lhe 
trouxessem certo cóíTre , que entregou á Filha, 
dizendo : — Ahi depararás individuada odiosa, tra- 
ma •, é com ella o meu proceder justificado. Abre- 
o, quando eu morta fôr ; e como eu, perdoa tam- 
bém ao aleivoso , que a ambas nos enganou ; que 
bem castigado jaz, pois que não se logrou por largo 
tempo do fruclo do seu crime. 

Mal que finalizava estas palavras , inclinou a ca- 
beça sobre o seio , tingio-se-lhe o rosto de pallidea 



( i49 ) 
mortal, e expirou. Exclama a Dnqueza; (iobrem-se= 
lhe os olhos com ve'os de morte, peVde senddosj 
nem os recobra, senão quando accompanhada de 
Madama deSe'miane, sua amiga e das criadas cho- 
rosas , se vio na sua cama. Então é que pelo dolo- 
roso silencio que em todos via , se inteirou que illu- 
sào não fora , mas sim realidade cruel , a perda que 
experimentava. 

Dous dias durante, a não desassistio , um só ins- 
tante , sua amiga Sémiane , que nem ir deitar-se 
quiz , contra os rogos , que a Duqueza lhe fazia : 
antes nesta disferia quantas consolações lhe siigge- 
ria a sua ardente amizade : — De que te aífliges , 
por tal modo, minha amada Duqueza? Não te 
apertou nos braços tua Mãe , na ultima respiração 
da vida? Lance de tanto gozo teu ? Que amargo te 
não fora , se morrera , sem que a viras l Essa indif- 
ferença, oh querida Amiga, a pezar dos clamores 
de teu peito , que de nada te crimina , desbotara 
de amargura os dias da tua vida. Assim é que tanto 
nos releva não descaliir do amor dos parentes, 
como da publica estima : e também , quem nada 
tem de que arguir-se á cerca dcUes, fulga mais de 
pòr de seu lado o erro, para assim lograr-se de seu 
coração , nesse prazo derradeiro. INIas tu , querida 
amiga, nada tens de que arguir-te , e folgar deves , 
de que a indifferença de tua Mãe a não accompa- 



( IJO ) 

nhou ate á cova. Assim spargia a cada instante a 
amável Scmiane, o consolativo bálsamo da ami- 
zade na cliaga ainda tão fresca de Madama d'01- 
mancé ; que ainda se não sentia com ânimo de abrir 
o cóíTre, que no ultimo arranco da vida lhe con- 
fiara sua Mãe. Se por caso pousava nesse os olhos , 
clamava no seu interior : — E que necessito cu de 
abri-lo? Antes que expirasse, me vio, e me abra- 
çou, e me deo miuha Mãe , quantos testimunhos 
poude da sua viva e sincera alícição. Quasique me 
fica indiííerente agora a origem do nosso desabri- 
mento. Assaz vingada sou do meu mais cruel ini- 
migo ! Não )az elle já na sepultura? Esqueça-se o 
motivo dos rancores nossos. Que vingança mais 
completta do barbarissimo Spôsomeu, que reno- 
var-se minha Mãe no amor de sua Filha? E quão 
breve o desfructei? Ai mísera; que é mais que 
certo que não nasceo a ventura para mim ?... 

Nos dias conseguintes á morte da Condessa , in- 
capaz de nada se vio a sua Filha ; de tudo se encar- 
regou a caroavel e amabilissima Sémiane : enterro. , 
exéquias , luttos para a Duqueza , para criados -r 
n uma palavra , a tudo deo ordens com accôrdo. 



( i5r ) 

Haveria como i5 mezes que enviuvara a Duquesa 
d'01niancé : em testamento lhe deixara seu marida 
grandíssima porção dos bens que possuirá ; e o 
titulo com o restante a um Primo com-Irmào seu. 
E ora bella , e com sós 22 annos , rendendo quantos 
a vião pela primeira vez , se lhe estendia nada me- 
nos pelo rosto um ressumbro de melancolia , com 
que mais vivanieute careava a si os ânimos. Bem 
se lhe via que nella tmha feito presa algum pezar, 
que ella forcejava occultar a alheios olhos. 

Em casa do Commendador de Selville, que ella 
amava e respeitava , como se seu Pae fora ( elle lli'a 
merecia ) foi passar o anno do lutto. Era o Com-*- 
mendador um homem de 65 annos, respeitável , e 
cuja presença inspirava confiança; a melhor parte 
do anno a passava no seus Paços de Selville , he-^ 
rança de seus maiores, e que desfructa um dos 
melhores e mais agradáveis sitios do Universo ; en- 
carrego u-se de o aíFormosear a Natureza ; nada ahi 
vereis que exquisito seja ; se Luxo alli não vedes , 
vedes todavia a abastança do Sábio : não prazeres 
estrondosos ; mas gozareis lá prazeres puros , c so- 
cegados ; se lá derramais lágrimas serão as da 
doçura. Tudo nesse delicioso solar tem horas de- 
terminadas : fallo da devoção , e dos empregos , da 
comida, e dos divertimentos. Só da regra se excep- 
tua a lieneficencia; porque se capacitou o Com- 



( 132 ) 

mendador que não ha prazo em cpie não seja a gro- 
pósito exercê-la. Totlo o seu ócio dispende em 
fazer justiça a seus \ assallos, arodir de longe a suas 
precisões, conciliá-los, remunerar seu trabalho, 
adoçar-llíe os encargos , verter sobre o pào mo- 
lhado a mindo com suores de suas frontes , o bál- 
samo da benéfica consolação. Mas que amado que 
elle é! Quantas vezes não via Madama d^Olmancé 
prostrados esses Camponezes aos pés de seu Bem- 
feitor, regar-liros com suas lágrimas, e o accumu- 
lar de bênçãos : instantes esses em que a Du- 
queza não via nelle um liomon , via um Anjo. Tal 
era a pousada que essa Senhora deixava para vir a 
Paris proseguir uma demanda que lhe intentara 
o novo Duque dOlmancé, em razão do testamento 
que, em favor delia, seu Spôso fez. 

Rasgava-se-lhe o coração de mágoa , ao despedir- 
se das delicias daquelle solar ; e dos dolorosos adeos 
que Iheforão feitos , c -Ihf o qtianto era allí querida: 
i5o léguas tinha de atra-xssar até Parts, sem que 
nada pelo caminho lhe contentasse nem a vista, 
nem os ouvidos. Um só instante se dissipou com 
gosto , quando se agasalhou em Ciísa do Duque de 
Nanteuil , e onde lhe foi forçoso acceitar ceia de 
opípara ostentação , lecebtT a appresentação de 20 
Damas no maior lustre de ornato, que a contem- 
plavão penosa e. no desalinho d'uma longa jornada. 



( i53 ) 
Melancliólica vinha ; mas nada lhe tolheo de entre 
si dizer : — Que tal para uma guapa, se aqui se 
vira , tão minguada de enfeite! 

Foi ventura sua que a pôz o Duque ao pé de si , 
e que a fio lhe fallou no Commendador : com o que 
se lhe affigurou menos prolixa a noite. Na matthan 
seguinte continuou até Paris, onde chegou a n 
horas da noite quebrantada da jornada ; como po- 
rem tinha avisado d' antemão a Marqueza de Sé- 
miane , açodada a veio essa amiga ver ás 8 horas da 
manhan seguinte , dar-lhe os eml)oras de chegada. 
Queria a Duqueza , assim assoberbada de somno 
como estava , dar sináes de arrufos ; mas não lhe 
foi possivel ; coube consentir em 200 abraços da 
desatinada Sémiane e responder a um milhar de 
perguntas que ella lhe disparou d'um tiro. Que as- 
sim se entregou a Marqueza á sua loquacidade 
usual, que estancou o peito! Gonvidou-a a Duqueza 
a que jantasse com ella , mas só pedio a Marqueza 
auso de ir a diíTerentes sitios ; o que a Duqueza lhe 
permittio e disse : — Ah ! que se te eu pergunto 
aonde vás , que não acertarias com a resposta ; mas 
eu a sei. Aposto , que antes de findar a noite, já em 
toda a Cidade ( tão inconsiderada és tu ) será sa])ido 
que eu cheguei.. - E porque o não ha-de ella saber, 
e participar comigo o prazer que me consola ? — 
Oh qur maligna peça te pregava eu , se le o];rigava 



( '^4 ) 
a ficares comigo ! Vai , querida Se'miane » que antfts 
que'ro largar re'dea a essas tuas visitas , que todo o 
jantar te abafe esse teu segredo. Mais consinto na 
tua inconsideração, que em morreres de al)áfo. 
— Lindamente, hizarrissima d'Olmaiicé! Sempre 
sermões : mas |.or dita minha me regalão os teu^ 
sermões. Mas a propósito , o tal Comraendador 
sabes tu, qwe é um liomem que me encanta ? que 
é adorável, em, que te deixou parlir? que é o primor 
dos homens? Se elle aqui fora, lá do íntimo do 
meu coração , lhe impingia dez beijos , nas suas ve- 
neráveis faces? — Por (|uào dil,oso se não dera o 
Commendador receber dez beijos da bôcca d'uma 
das mais lindas Damas de Paris I — Entras a lison-i 
jear-me ? Pois vou-me. 

Excellente coração era o da gentil, jovial, es* 
pérta, mas sensível Marqueza de Se'miane ; boa e 
sincera amiga , disferia todo o ardor em prestar ás 
pessoas de geu seio. Sem ser de uma formosura 
bem regular, tinha pico , tinha agrados : mediana , 
mas bem proporcionada a estatura , rosto redondo , 
redondas também as faces , que quando ria ( e ria 
a miúdo ) formavão duas covinhas bem appetitosas. 
Azues os olhos , fuzilando engenho , nariz um tanto, 
arrebitado , mas pequeno , medíocre a bôCca , den- 
tes alvos , e lustrosos; lal)ios , que pleíleavão fresr 
cura e cores , com as rosas. Tal era nos dotes 



( i55 ) 
áo animo e de corpo a estimável ajuiga da Du« 
queza. 

Jantarão ambas sós a Duqueza com a sua Amiga 
Sémiaue , que lhe estranhou a tristeza em que a 
via. — E oh que mal que discorres ! De que te 
serve essa melancholia ? Não tens comtigo a tua 
mais fiel amiga ? Não tens , ou (porque melhor o 
diga) não temos nós de brevemente ver o nosso 
amigo Commendador ? Cedo dará fim a tua deman- 
da ; e te não contenderá esse cu])içoso herdeiro de 
teu marido , os bens que te são legados. — Triste 
mevés , por ceVto , mas e suave essa tristeza : e, 
querida Sémiane , eslou para crer , que este meu 
composto foi diversamente organisado. Essa abas- 
tada alegria, que nos outros contemplo, tenho-a 
como um furto , que á alma se faz, — Vivas muitos 
annos ; tu pois, crcs , que a minha alegria põe 
estorvos á minha sensilúlidade ? — Tal injúria te 
não faço , oh minha amada : em geral fallei ; de 
convencida que estou , que os que possuem ou 
que aíTectão essa brilhante alí^gria , se desajuizãQ, 
e não gózão. Tanto desconfio eu da descompas- 
sada alegria , que de chuveiros de lágrimas ; nu- 
mas , e n outras anda alheia a sensibilidade. — So,u 
doteuparecer.— Pouca ide'ia ategóra tive do que 
chamão prazer ; e se elle e tal, qual eu m'o aíligurg, 
tanto se lhe desfalca - quanto s,e dá a essa loucura , 



(i5G) 
que intltulâo alegi'ía. — Inda mais essa pecuí- 
nlia ? É que á força de reflectir nella , que ea 
posso (Icscorliuar toda a amplidão dessa ventura , 
dísíructá-la , e meditar os meios com que , como 
eu y a disfruclem os que eu bem amo. Acredita 
o que te digo; quem profundamente sente, raro é 
que ria. — Guapa moralidade! lá a metto nos 
Lolsiiilios de coração; mas far-me-hás a distinctade 
me accompanhar lioje á comedia. — Tão mal esta- 
mos nós aqui ? Quantos divertimentos alardéa esse 
tea Paris , e a que tu me obrigas a assistir , esses 
bailes, essa vida distrahida , esses spectáculos , 
essas luzidas assembleas , essas ceias finalmente 
que tão encantadoras affig^urão , nada , em tudo 
nada valem a me encher o coração. — Mas enifim 
não tens de viver como uma emparedada ; tens de 
apparecer. — Mais que muito o sei : o meu titulo o 
reque'r ; mas quando em mim faço exame, concebo 
que sacrifico ao uso, que me fica vazia a al- 
ma- — Imita-me, querida amiga , e a mais aíTor- 
tunada serás de todas as mullie'res. — Imitar-te ? 
a ti? que sempre foste a mais ditosa? a adoração 
de tua Mãe ? O pensamento de teu marido , que 
em nada mais que em te aditar se emprega ,.dis- 
fructar a ventura , sem que imagines que outro es- 
tado alii haja , que d'esse teu difira. Vives , como 
em]>nagada no logro da ventura , e com a queda 



( i57 ) 
qne para a alegria te conheço , tudo para que ella 
medre contribue. Se eu não temera proferir uma 
blasphemia , diria que nenhuma ideia tem da sen- 
sibilidade a mais sensivel mulhe'r que existe , e 
essa mulher é Madama de Se'miane. — Partamos; 
que tens a alma exaltada a ponto de tão deses- 
perativa alçada, que assim o qaéro , e assim o 
requeiro. — Consinto : vamos. 

Ei-las que partem para a Come'dia , onde Mada- 
ma d'01mancé vio logo encher-se-lhe d'um bando 
de Cortezãos, o camarote, que lhe avultarão a 
melancholía, com as amáveis semsaborias , que 
lhe encamparão j de modo que ao sahir do spectá- 
culo trazia a cabeça pesada , e a alma assoberbada 
de tristeza. Passarão dias , e por decência se vio 
no lance de ver muitas pessoas , e disso se lasti- 
mava amargamente á sua amiga que ria de todo o 
seu coração de a ver nesse embaraço. — Torna- 
rás , querida d'01mance', tornarás ao halntnal an- 
tigo. — Quanto enfadoso , oh Céos 1 Dês-que voltei 
a París , seis horas desperdiço cada dia , em car- 
ruagem. Andar correndo portões, amostrar-se 
cinco minutos a cada uma de vinte pessoas coiu 
que apenas tenho conhecimento , chegar ás de'z da 
noite á ceia a que estou convidada , sentar-se a 
uma lauta e profusa mesa , em que comer nella é 
indecente , fallar sem raciocinar, jogar sem divcr- 



( K>H ) 

tlr-se, tornar a casa alfim abafando de enojo e 
de cansaço. ... E tal e a vida que achão tão donosa 
e delellavel ! Sabes que fui Domingo passado á 
Corte-, (jue acanhada me vil bem acanhada. Havia 
tanto tempo que alli não entrara , que quasi pareci 
bisonha. A cada instante me vinha ao pensamento , 
e quasi á bngua : » Que alheia morada , oh Com- 
inendador, para vós, e para mim! — E não con- 
seguirei eu nunca de emendár-te? Da-lii me vem 
todo o meu desprazer. A propósito, ouvi dizer, 
que o novo Duque d'01mancé , te propoz composi- 
ção , á cerca da demanda. — Sim ; e que desisla cu 
do testamento , que meu marido fez a meu favor, 
que me segurará Go:ooo fr. de renda. Se consulto 
o meu socego , e o meu modo de ajuizar, estou 
pela composição ; mas tenho as mãos atadas , para 
seguir Q que me diz o coração. 

Bem julgava a Marqueza da Sémiane , que na 
alma da sua amiga lavrava paixão occulta , que 
ella bem quizera rastrear; mas Madama (fOl- 
mancé tinha artes com que eludia todas as pergun- 
tas. A morte ainda fresca de sua Mãe , o cólíre 
que ella antes de morrer, enti'egou á Filha , quasi 
que convencião ^hldama de Sémiane, de que fora, 
e de que era ainda a sua amiga victima de alguns 
infortúnios extraordinários. 

Havendo sós i8 dias ({ue Madama d'Estanges 



( i59 ) 
aiorréra , estorvava a severidade do lutto que su4 

í^illia recebesse visitas : assim o requeria o uso , 
e mais o requeria ainda a situação de seu ânimo. 
Só a donosa Madama de Setniane a vinlia ver, e 
janlar de ordinário com ella : e ora, como a visse 
tão caseira , lhe diz : — Que vida é esta que tu 
passas , querida d'01mancé! Como não morres de 
enojo ? Desraédras a ólhoS vistos : necessitas sahir , 
e tomar ar. — Sahir? fora indecoroso. Por([ue me 
não convidas a ir á Opera? — E porque não ? Que 
impossível ha nisso? — Guapa loucura! Rasgo 
similhante é digno de ti. — Devagar, Duqueza ; 
que eu melhor que tu cuidas , conheço as leis do 
decoro. Perdôo-te a O peia : mas o passeio^ l.. — In- 
da menos. N'um Camarote tão Vista não se- 
rei. — Oh que ideia tão linda me apparece! Vem 
ceiar comigo t creio que te não vedas dos olhos de 
minha Mãe, nem dos de meu Marido. Não temas; 
vem distrahir-te. — Mas tenho criados , que dizem 
quanto se passa Que despropósito ! — Despro- 
pósito me parece o teu í perdoa-me o dizer-to. 
Minha Mãe e meu Marido fôrão hoje passar o dia 
á nossa Quinta de Passy , os criados que lá levarão, 
são criados de confiança : vamos colliê-los de 
súbito , que tal nos não espérào ; e esta saltada te 
fará infinito bera. — Mas S'í vem gente? JNão virá. 
Estaremos sós. E é o que te basta. 



( i6o ) 
• Delermlnou-se a Duqueza a ir com ella , capaci* 
tada que essa saiiida não oíTenderia nem a etiqueta 
dolulto , ncni o que ella se a si devia. Partirão já 
de ncite, que assim o requereo a Duqueza: Ma- 
damo de Se'miane eslava no auge da alegria , e seu 
marido , e sua Mãe Madania de S. Perc's , receberão 
a Duqueza com os braços abe'rlos, e a cumularão de 
e caricias, e ella os contentou quanto lhe permittia 
o seu estado ; passando a mais agradável noite , no 
grémio de seus poucos amigos , único prazer que por 
então lhe competia. Perto das de'z , ao sentar-se á 
mesa, eis que batem á porta, e um lacaio vem dizer 
ao Marquez, e diz á Marqueza : » E o nosso Amigo, 
que vem de Versailles , e aqui á nossa porta , se 
lhe quebrou a carruagem ; pede que o hospedemos* 
a estarmos sós , eu súbito o appresentára ; mas não 
quizéra incorrer na cólera de Madama d'01man- 
cé. )) — Tudo se evita , dando-vos um abraço , 
e partindo na minha carruagem para Paris. — Isso 
não : que não é justo que esse estouvado nos privo 
do prazer de vos possuir. Que é o que eu digo ? é 
muito amável, e bem que moço e de donoso trato , 
é mui prudente : n'uma palavra , é o melhor amigo 
de meu Spôso ; tão segura estáes da sua parle, 
como da nossa. 

Insistia a Duqueza em partir, qtie assim lh*o 
clamava certa vóz interior 3 e se ella ^seguira os 



( 16I ) 

Madama de S. Peres se pòz do partido da Mar- 
queza , forçoso ll>e foi ceder a seus instantes rogos. 
Havido o seu consentimento, foi Monsieur de Se'- 
miane buscar, e introduzir o seu Amigo , e nelle 
vio Madama d'01mance' ura mancebo do mais gentil 
semblante, de vantojosa estatura, entre 24 e 26 an- 
fios , co'a candura afíigurada no rosto , e uns ares 
de bondade por todo elle desparzidos. Capacitou- 
seem seu interior que ninguém com maior nobreza 
se appresentava , nem com mais garbo ; e que em- 
fim na pessoa trazia comsigo apropria recommen- 
dação. Não lhe escapou todavia, que se dema- 
siava na elegância e gala , que os mancebos julgão 
necessária , e que os cordatos tratão de fatui- 
dade. 

Fez a Madama de Semiane o mais agradável 
cumprimento á cerca da aííortunada desgraça , 
que tão oíTiciosa lhe fora , pois que lhe alcançara 
o prazer de tomar conhecimento com a sua amá- 
vel Amiga. Respondeo-lhe em poucas palavras a 
Duqúeza ; e pouco a pouco tomando a conversa- 
ção o tom de confiança , que a vinda do hóspede 
tinha arredado , se sentia Madama d'(>Imance' 
inquieta, sem alcançar a razão, e se admirava 
que lhe não tivesse a Marqueza nomeado quem era, 
quando lhe appresentára aquellc amigo seu : seria 

distracção, seria esque'clmento ? Essa ide'ia a 
Tom. X, j j 



( »62 ) 

aquietou. Vinte vezes pertendeo a Duqueza nessa 
noite, juntar-se com Madama de Sémiane ; e ou 
já fosse 111 alicia , ou fosse acaso, evitou esta 
mui a geito , contentar-lhe esse curioso de- 
sejo. 

Foi mui agradável a ceia , e o hóspede deo tal de- 
monstração de sua pessoa , que conquistou a me- 
lhor opinião de todos. Gomo a Duqueza tinha de 
ainda passar o dia seguinte com os seus amigos , 
para maior distracção delia, convidarão o novo 
hóspede , a que outro tanto faça. Se a confiança 
que ella nelles punha menos cega fora , facilmente 
atinara , que havia alli conluio \ mas , não descon- 
fiando nada , se foi deitar sem saber o nome do hós- 
pede. Pouco dormio ; que a des-socegava esse man- 
cebo ; quizera saber quem elle era; elle a aífectava , 
mas não de sorte que nelle tomasse o coração parte ; 
mais pendia para curiosa que para sensivel. Maior 
rebate lhe dava o romanesco dessa aventura , que a 
presente situação do seu ânimo; tanto mais, que 
bem segura estava que o não podia amar ; e que 
nem quiz nada perguntar ás Criadas da Marqueza 
(fallando de seu natural mui pouco a seus dome's- 
ticos e menos aos dos outros, bem que nunca por 
desprezá-los ). Se o tempo fosse agradável , ter-se- 
hia levantado cedo, mas fazia frio. Nunca houve 
noite que mais longa lhe parecesse. As 8 da raanhan 



( m) 

lhe entra no quarto Madama de Sémiane: — » Então, 
querida Amiga , dar-me-hás tu crédito d'oravante ? 
Nào imaginas quão favorável te foi esta sortida! 
Sempre formosa , mas hoje és formosa e meia. Vem 
tomar chá, que nós vivemos aqui á Ingleza — Ama* 
da Sémiane , tira-me de cuidado. Como se chama 
o teu hóspede ? — Folgo co'essa curiosidade ; dá 
bons sináes. Hontem não o querias ver : hoje , para 
castigo , não lhe hás-de saber o nome. — Oh fecha 
bem o teu segredo. Pelo caso que eu delle fa- 
ço.... — Bom! arrufmhos ? tanto melhor. — Es 
louca, minha querida. — Convêm comigo, ao 
menos , que elle é muito amável. — Convenho j 
mas que tiras dahi? — Que tiro? Não é já tempo 
que tu ames ? — Bella consequência ! Imaginas , 
que porque eu vi uma vez um homem , fiquei logo 
aíTeiçoada? e que por três horas, que com elle 
conversei. ... — D'01mancé , que d'a{íeiçue3 e bem 
duráveis , não vimos nós formadas em menos tem- 
po ? Um súbito olhar foi quem sempre nos encra- 
vou o amor no peito. — E fortuna tua conhe- 
cer-te eu bera , que senão. ... de ti fugia : mas 
quem , como tu , se funda • em máximas tão fir- 
mes , pôde gracejar aífouta. — Vivas muitos an- 
nos, pela lisonja. Louvas-me , porque de mim 
careces. — Careço; porque sempre me será ne- 
cessária a tua amizade ; mas se cuidas , que por 



( i64 ) 
óra me c precisa , bem a podes deixar mui que- 
da. — ÕMuilo estribas na tua formosura. — Cesse 
o gracejo ; f|ue me não sinto com disposição de 
amar , e muito menos esse teu amigo. — Que in- 
diíTerença ! Quão ridícula que eu sou ! Imaginava 
eu , que quem passara 5 annos c\im marido velho , 
cache'tico , gottoso , sobre cioso , e que ob rasgos 
que na sua vida merecem qne os citem são só dous , 
o de testar , e o de morrer ; que quando a -ii annos 
se acha viúva , e formosa como um Anjo , e c'um 
coração sensivel; imaginava ( torno a dizer) que 
tempo de amar era. Mas foi erro em mim. E mi.ito 
mais arrazoado espinliar-se de rigores , viver , ou 
antes ir-se finando eníre perpetuas friezas. — Tu 
consideras pois o amor, como supremo bem? E 
eu estou persuadida que amor é um tormento : e 
terás por bem , que não me ex^wnha a experimentá- 
lo. — E tu terás por bem , que te eu faça desdizer. 
O amável hóspede terá mais poderes que eu. — 
Muito menos : que em ti confiança tenho ; e elle 
não o conheço. — Mas elle é tão bem appessoado , 
de tão rara amabilidade. ... — Para a convivência 
muito bem ; mas para marido I . . . — Quando 
melhor o conheceres ? . . . — ISão é esse o teu pre- 
supposto ; que, a sê-lo, não me encobriras seu 
nome. — Engenhoso é o geito que lhe dás ? 
Vem , que por ti se espera , matreira d'01mancé. 



( i65 ) 

Assim rindo, e gracejando foi conduzindo a 
a Duqueza ante a pequena asserabléa, que junta 
estava já. Continuava o hóspede a dar-se a querer , 
dirigindo • mais particularmente a Madama d'Ol- 
mancé as suas gentilezas ; e de modo se houvérão 
com elle os seus amigos , que ficou só por só com 
ella , que então vio claro , que havia alli conluio. 
Mui destramente se portou esse fidalgo na declara- 
ção que lhe fez do seu aífecto \ e de que não era 
essa a primeira vez , em que a vira •, que o respeito 
lhe imposéra até então silencio , e que a morte 
da Condessa d'Estanges lhe atalhara apprcsentar- 
se ante ella •, que com summo gosto soubera quão 
estreita amizade lavrava eutre ella , e Madama de 
Sémiane , e seu Marido , seus mais íntimos amigos, 
de cuja amizade esperava que lhe servisse de 
ponte para a aífeição que lhe votara. Rindo ouvio 
a Duqueza similhante declaração como se fora 
mera galantaria ; attribuindo-a i>or inteiro , ao tom 
<le galanteio , que todos os homens iisão com as 
Damas , quando se vêm a sós com ellas. Este seu 
ar de riso , que alíligio o adorador da Duqueza , 
fez que ajoelhando-se a seus pés forcejava pro- 
var-lhe quanto a sua declaração íôra sincera. 

Confessemos que Madama d'0]mancé se via 
bem torvada no papel que alli representava ; e que 
foi dita sua , que Madama de Sémiane tendo aà-» 



C lOG ) 
sentado qfie assaz laigo prazo lhes dcVa para que 
seexplicassem , a livrou apparecendo, do mais 
cruel empacho , cm que nunca se vira. O ruído 
que a Marqueza fez quando entiou , deo força ao 
extremoso amante a que se servisse do lenço para 
encobrir a torvação de seu rosto ; mas com o lenço 
que tirou , veio de envolta uma Carta , que lhe 
cahio aos pe's da Duqueza. Affigurai-vos , quanto 
attónita ficou , quando no sobrescripto deo acordo 
de lettra sua ; sem que o de'sse a perceber , se apo- 
derou delia : abrolhos erão quantas ide'ias lhe 
surgião. Como? por que incidente , tem lettras mi- 
nhas um homem que eu não conheço ? Quem é que 
lh'as confiou ? D'onde é que as houve ? Quer ave- 
riguá-lo ; toma leve pretexto para sahir — E oh 
como ficou desacordada , quando acertou á pri- 
meira vista , com a Carta , em que ella respondia 
ao Duque d'01mancé, ao herdeiro de seu Marido , 
com quem ella andava em demanda , ecom quem 
acabava de fallar , Carta (como digo) em que respon- 
dia á composição que esse Duque lhe oíTerecia. 

Um instante bastou para ver com clareza , que 
enganados os hóspedes seus pela apparencia da 
conveniente e recíproca utilidade , entenderão , 
que com um casamento concordavão , e punhão 
termo á enfadonha continuação d'uma ruidosa 
demanda. Bem ajuizava ella que os dotes exteriores 



( i«57 ) 
tia jóven Duque, clesculpavão o feito; mas nada 
menos a indignava de que nesse seu projecto a não 
tivessem ao menos consultado : parecia-lhe que 
bem merecia ella esse cuidado. Dizia mais entre-si : 
no procedimento do Duque o que eu unicamente 
vejo , é que o sórdido interesse o empuxa a querer- 
me por spôsa : odioso caracter é o seu. Não dou 
crédito a esses lumes fulmineos , que repentinos 
abrazão um coração. Assim não me é dado lison- 
jear-me, de que assentei dominio no seu peito; elle 
só na minha herança cravou os olhos , e considero 
como vil baixeza a demonstração que agora fez a 
meus pés ajoelhado. 

A condição singela da Duqueza avaliava com 
desprezo quanto podia dar ares de astúcia para 
conseguir seu presupposto. Ganhar-lhe-hia a esti- 
mação , se puramente lhe dissera : » Sou o Duque 
d'01mancé, concedei-me a mão de Spôsa, e fin- 
dem assim nossas demandas. Mas o caminho ol)li- 
quo, e obscuro que el!e tomou, a indignava: afíli- 
gia-se de que elle imaginasse , um só instante , 
que por gentil e appessoado lhe teria penhorado 
a vontade, e a teria determinado em favor seu. 
Nesse seu proceder unicamente via um amor-proprio 
excessivo , e um menosprezador insulto a ella feito. 

Rebentárão-lhe lágrimas , quando atinou em tal; 
e copiosas lhe vertião quando Madama de Sémian« 



( i68 ) 
inquieta de sna longa aiisencia , a coílieo subita- 
mente em ai estado. Assustada em sua ardente 
amizade , eis que lhe argúe a Duqueza soluçando : 
E e's tu, quem me é assim traidora ! Que poderes 
tens tu no meu coração, para m'o tyrannizares 
assim? O nome d'01mancé e' o meu ódio; bem a 
pezar meu o consinto em mim ; e tu que'res ag- 
gravar-m'o. Graças ao Céo, que com esta leitura , 
me atalhou nas orlas do precipicio ! a um acaso a 
devo , que assim cabe (jue o creis : dá-a a queiu 
ella foi escripta ; que lia-de ser a única , que elle 
de mim receba. Rompo tudo o que for composi- 
ção ; nem a vere'da que elle tomou lhe encurtará 
caminho : nunca mais o hei-de vêr ; a casa vou, de 
cuja me arrancaste contra meu dever ; justo é 
agora que eu soília o castigo da minha imi)ru- 
dencia. 

Fôrão vans quantas lágrimas , quantos rogos , e 
desculpas Madama de Se'miane dispendeo, para 
retê-la ; inílexivel partio ; mas dentro dum quarto 
d'hora jáa Marqueza lhe entrava pelo quarto : « Tu 
me mal-que'res , oh minha querida dOlmancé? 
Não cabe em mim supportar a tua mal-querença. 
Argúe-me quanto queiras ; e a achar me culpada , 
casliga-me , mas ama-me. A tua amizade me 
é tão necessária , que sem ella não tenho vida. 
A tão terno movimento da alma , e com tanta 



( iGç-) ) 
rapidez pronunciado, não poude resistir a Diiqueza; 
arrojou-se-lhe nos braços dizendo-lhc : » Nenhum 
mal te quero, cruel amiga, dado que me hajas 
rasgado o coração. E tens tu por tão livre este cora- 
ção , ai mis era ! que tu possas , a teu gosto , dispor 
delle ? Ah ! Se'miane , que me perdeste! Se ante- 
viras o mal que me fizeste !.... — Perdôa-me, 
amiga minha , oh perdoa r que muito t'o suppli- 
co. — Ai de mim, que s.e vai assoalhar esta aventu- 
ra : e esse teu Duque d'01mancé tem presumpção 
de si : bem se lhe conhece na familiaridade com 
que trata as Damas. Embora se ella não emban- 
deire ramo d'outros vicios. Correrá rumor que 
me oííereceo a mão de spòso , e com ella o fim da 
demanda ; e que a não quiz eu acceitar. O Público, 
que se le'va d'um nome nobre , e mais ainda d'um 
bem appessoado cavalheiro , me accusará de extra- 
vagante , na injustiça apparente que faço a um 
ídolo d'esse mesmo Público. Tem de suppôr 
em mim alguma outra aífeição ; e bem feliz serei 
se lhe não de'r alguma tinta de vileza , considerando 
o segredo , que parece que eu nella guardo. Os 
meus juizes , e os que patrocinão a minha causa se 
resfriarão , e o que hontem lhes parecia direito in- 
contestável, tê-lo-hào á manhan por um requinte 
de interesse , que me induz a fechar comigo, o que 
eu tão nobremente repartiria com esse a quem a 



( 170 ) 
Natureza deo tão legitimo direito. Assim que , nesta 
alternativa , ou careio o público menos-preço , ou 
de mim faço penosíssimo sacrifício. Vé o que fizeste; 
e dá-te do feito os vivas. 

Angustiada ficou Madama de Sémiane, que ima- 
ginara aíTortunar a sua Amiga. Reprcsentava-lhe 03 
úteis d'esse casamento, qued'um só golpe, cortava 
todas as contestações j debuxou-lhe co'as mais lison- 
jeiras cores, as boas qualidades do Duque, a plana 
em que se ostentava na Corte , a geral estimnção 
em que o tinlião, e mais que tudo a boa índole, 
que lhe pi^omeítia dias venturosos. Lágrimas fôrão a 
única resposta da Duqueza-, resposta que Semiane 
mais que muito comprehendeo. — Minha querida 
d'Olmancé , repara que ainda é tempo , faze re- 
flexão, que t'o peço eu. Consente que a razão es- 
clareça o que te melhor convém ; vezes ha em que 
o coração relucta, mas descontado se vê depois dos 
murmures que aíTogou em si. 

Despedida da Duqueza a amável, e inconsequente 
Sémiane, ficou Madama dOlmancé pesando os 
quilates das razões, que lhe oppose'ra a sua Amiga; 
emmudecida, e pezarosa lidava entre padecimentos, 
e agonias : exclamava : » ]\ão por certo ; tal não 
posso... Excede as minlias forras tamanho sacrifi- 
cio; não tenho de o consummar. Não é inda bastante 
tçr devorado por violência 5 annos de amarguras ; 



( I70 
índa me querem roubar o único bem que me ficou ? 
o bem de derramar era Uberdade as minhas lágri- 
mas? Implóro-vos , meu Deos : sede meu Guia ; in- 
dicai-me o que fazer me cumpre ; apiedai-vos d'uma 
infeliz mullie'r. Cruel Se'miane , que abriste as feri- 
das mal-cerradas de meu peito ? 

Poucos dias depois da scena que se passou em 
casa de Madama de Sémiane , chegou a Paris o 
Commendador de Selville , que entrado da tristeza 
profunda em que via a Duqueza d'Ulmancé, não 
lhe foi custoso arrancar-lhe do seio o seu segredo, 
que lh'o confiou essa affligida Senhora , com sup- 
plicas de que com seus conselhos a ajudasse. Revés- 
tio-se o venerável Commendador no seu semljlante 
d' uns ares graves , reflexivos , e apparatosos, chegou 
a sua cadeira junto á da Duqueza; e fitando nella 
os olhos que denunciavão amor paterno , lhe disse : 
» Nos conselhos, que me pedis , serei talvez prolixo; 
mas digno nada menos da confiança, com que me 
honráes. Não imputeis aos meus longos annos a se- 
veridade das minhas máximas : a velhice me gran- 
geou experiência , e fez emmudecer as paixões, que 
tyrannizárão os verdores da mocidade ; a única 
paixão que de todas conservei , foi a da Amizade 
que vos tenho , á qual dão vigor novo , os perigos 
que óra correis. Do respeito , que vos consagro, e do 



( 17^ ) 
muito que prezo as vossas virtudes nascerá a minlia 
inflexil)ilitlac]e. Para a gente ordinária se fez a li- 
sonja ; i)ara quem se proporciona , segundo suas 
forças , o peso dos deveres , que tem de preencher : 
ás almas porem dotadas de energia appresenta-se- 
Ihes o espelho da verdade , sem que nada o em- 
pane. Vale mais que corra o sangue da ferida , que 
accalmar-lhe a dor com palliativos, que a facão 
incurável. 

Convenho que obrou como estouvada INIadama 
de Séiuiane : que não é justo que o zelo de prestar 
a um Amigo transponha os limites da prudência. 
Serviços ha , que se lhe não devem fazer , senão 
quando os autorisa a madura e porfiada reflexão. 
Nem nos estreitemos no gosto de obrigá-lo ; ante- 
vejamos as consequências d'esse préstimo; e quando 
delle haja de seguir se desgraça , rejeitemo-lo. Des- 
culpemos todavia a Amiga vossa ; enganou-a o co- 
ração , não reflectio. O mal está feito , minha que- 
rida Duqueza ; o único remédio é o que óra vos 
direi. Bem antevio a vossa sagacidade que eííeito 
essa aventura faria no Público, eííeito, que não 
falha. Resistis? um punhado de Amigos vos defen- 
derá ', a gente capaz, que vos não conhece , calar-se- 
ha •, e os que se sustém no Mundo arrimados num 
bom ditto , aguçado pela malicia , vos penalizarão. 
SentMo-heis ,, entrar-vos-ha na alma a desespera- 



( 173 ) 
ção ; e por que motivo ? Porque alimentáes no peito 
uma infeliz paixão. 

» A conversação que tive'mos , me malsinou , que 
\ictima sois de amores que vos pezaria descolirir; 
de amoreg ignorados talvez do objecto , que lhes 
deo nascença... — » Commendador! Commenda' 
dor, que duríssima expressão! Pejar-me eu de arti- 
cular o objecto da minha ternura ! Que cruel que 
sois , quando suppondes em mim vergonhosa aííei- 
ção , de que eu me não aíFoutasse a dizé-la ao meu 
Amigo , ao homem que eu mais respeito ! » Quem 
tolhe pois, Madama, que não conheça eu a pessoa 
que soube captivar-vos a vontade, se elle não é 
indigno de vós ? Não me fica a julgar , que em desa- 
bono da vossa formosura , e das virtudes vossas , 
com indiííerenças retribúe amor tamanho! O amor 
é um movimento da alma, em que ella não tem 
dominio ; e bem compreliendéis vós , que quanto 
mais inteirado estou da vossa virtude , menos vos 
desculparia similhante frouxeza? Vós! sacrificares 
a um indifferente a vossa dita , e os clamores da 
Natureza! E quem! Madama d'01mance'? O me- 
deio das do seu sexo ? Ainda é tempo : reslitui-me a 
minha Amiga; a mim a quem só cabe o admirar- 
vos , custosissimo fora ter de vos lastimar. — Oh 
não oííendáes, Commendador, o objecto que o meu 
coração idolatra. A escolha que dclle fez o meu 



( ^74 ) 
amor, é a mais justificada, e a mais nobre. Desde 
o berço o conheci, foi da minha infância o en- 
canto ; nos braços de meu marido me perseguio 
ainda , e não tem de se extinguir, que no jazigo. 
Lm homem unicamente ha em todo o universo 
que similhante chamma , em mim accender possa ; 
chamma , que é o meu supphcio. Digno e' de mim 
pois que delle íiz escolha. Uma palavra que eu 
pronuncie , a evergonhar-vos-heis de o não teres 
adivinhado. » Sempre mysteriosa ! Fallai , que vo- 
lo pe'ço eu. — » Ignora este funesto amor , aquelle 
a quem adoro. Que é o que eu digo? Oh ! que 
o não ignora ; nem ha ahi cousa que escape aos 
olhos d'um Amante. E fácil o trahirmo-nos , 
quando amamos. Sem me fallar , me disse tudo. 
Colhi o seu segredo , como elle poude colher o 
meu ; que pude o amor occultar-se antes os olhos 
indiíferentes , mas nunca aos olhos interessados. 
E que importa que elle o meu segredo saiba ! 
Oh não vos pêze , Gommendador , de que igno- 
reis segredo tal. Que podcrieis fazer , para que 
eu feliz fosse ? Nada. Poupai ao meu semblante 
as cores que o cobririão , se o objecto da minha 
fineza vos eu nomeara. Se alcançásseis esse fatal 
segredo , metterieis toda a força por que , paru 
satisfazer a inclinação de meu peito , commeLtessc 
uma injustiça. » — Duma suspensão me lancács 



( 175 ) 
ii'outra (lhe disse o Commendador). Contemplai 
que nos arremessou ao mundo um capricho do 
acaso. Infeliz daquelle que imagina que nada lhe 
derào a preencher, nada a sacrificar, em proveito 
de seus similhantes. Muito se affasta das inten- 
ções da Natureza, quem cede aos movimentos do 
seu coração, quando estes contrarião a ordem 
instituida. A natureza vos prendou com uma ín- 
dole , com uma formosura, que podem assegurar 
a felicidade d'um homem de bem. Possuis quanto 
contribuir pôde , para servirdes de exemplo , neste 
universo : alto nascimento , e amor de vossos de- 
veres , união que ( por desastre ! ) é rarissima j 
possuis devoção christan , e sociáes virtudes, 
que promettem a melhor Mãe de familia. Dotes 
esses , que só o Céo os dá para que dêm fructo; 
nem vós podeis, sem culpa insigne, sepultar em 
vergonhoso celibato, esses donativos da natureza, 
essas esperanças da sociedade. Renunciar a essa 
fidelidade chymerica, cujo objecto não quereis 
manifestar-nos , nem vos sacieis de lágrimas , que 
ninguém virá enxugá-las , nem vos alimenteis de 
suspiros que não serão ouvidos. Vireis portanto a 
perder tudo ; a perder essa própria amizade, essa 
confidencia , que é o feitiço desta vida , o o ali- 
vio de todos os nossos pezares. 



( 176 ) 
Tinha a Duqueza immóveis e cravados no Com- 
xnendadoros olhos; e elle que percebera o vivo eí- 
feito, que o seu discurso nella produzira , e de'ra 
fé dos combates , que ella soíliia , levado sempre 
da amizade que lhe tinha , foi continuando as- 
sim. )) De que uiíil quererieis vós que vos lastimas- 
sem ? Com que aíTouteza o requererieis v6s ? Ha 
compadecidos peitos para males verdadeiros •, mas 
males imaginados só deparão com tibiezas. Se em- 
bora vos respeitassem a reputação 1 . . . . Longe se 
vai de vós esse alívio : e em quanto se vos resvala- 
rão os dias entre amarguras, ha-de a calúmnia 
porfiar que são de flores tapiçados. Estragareis 
os annos juvenis no tumulto d'uma tempestuosa 
paixão ; apagar-se-ha em vós a vivacidade da alma ; 
assustar-YOS-ha a bonança que lhe vem no se'quito j 
e quando vos lisonjeáes que resurgis n'um Mundo 
novo , já de vós terão fugido os prazeres , a juven- 
tude , os amigos , e ate' o mesmo amorT Virá abra- 
çar-se comvosco o enojo ate' á sepultura ; e a louza 
que era consagrada a significar á posteridade as 
virtudes que exercestes , e na qual viriào vossos 
Netos apprender a imitá-las , ou envergonhar-se de 
ter de vós degenerado; sim, esse mármore, que 
a gratidão vos prepara , seiia o mais severo censor 
vosso. Táes destinos vos aguardão ! Quem ago- 
ra vos falia , ah 1 Duqueza ! e' um Amigo. Temei , 



( *77 ) 
teiíiei encontrar , na vossa Consciência , com lun 
Tyianno. Aqui se vos apparelha uma acção gene- 
rosa ; duvidará ol)rá-la a Duqueza d'Olmancé ? 
Nada mais espereis de mim. Fiz o que devia. Se 
tal que m'o descreveis , é o Herdeiro de vosso 
marido ( e é raro que accompanhe a geral estima a 
quem a não merece ) cumpre que vosso Spôso seja. 
Vossa ventura fora , que vicios o manchassem , que 
nos olhos do Público vos veríeis desculpado. Esse 
Público porêui não requer de vós acção precipi- 
tada. Ahi está o prazo do vosso lutto , está a re- 
flexão devida a um tão importante negocio. Ser» 
vindo-vos de um e de oiiUa , estudai-o , tomai 
conhecimento de seus costumes , suas inclinações , 
e no que elle é habituado •, e sereis admirada na 
prudência ; levar-vo-lo-hão a bem. 

» Como coube á triste Amizade cumprir com 
tão rigoroso dever! A que pró\a tão cruel apon- 
des hoje ! Eu , que resgataria com o meu sangue 
o prazer de vos contenplar ditosa ; eu mísero de 
mim ! sou quem vos despedaça o coração, . . . — Cru- 
elmente nVo despedaçáes , Commendador ! Bem 
que já d'antemão me tinha a minha alma ditlo 
quanto vem de pronunciar-me a vossa bôcca. Que 
fizeste ; oh cruel Amiga ! oh Se'miane ! Oh meu 
Páe ! oh meu Amigo ! Terrível sacrifício ! Terrí- 
vel mas vereis que de vós sou digna Hei-de 

Tom. X. IX 



( i:-^ ) 

consummá-lo. Consuinmá-lo , sim.... Creio quG 
acharei forças em mim. . .Tentá-lo-hei , se mais não 
posso. .".. Dizeis que venturoso fora para mim , que 
vicioso fosse o Duque cVOlmonce'; que me des- 
culparia ante os olhos do Pul)lico ! Ah ! quão 

forte que e' vossa Amizade ! Tão forte que se aba- 
lança a desliizir a inteireza do vosso coração ! Não 
é tamanho o ódio que eu tenho ao Duque , que 
lhe tal deseje ; e que talvez fora ainda uma razão 
mais para dar pressa ao meu sacrifício. Quem 
sabe se eu talha ;a não fui para o reconduzir á 
virtude? E que não seja por essa acção, que eu 
mereça a inestimável recompensa , pendente do 
triumpho , que o Céo ordena , que eu de mim mes- 
ma alcance? 

Nenhuma seguridade me accompanha á cerca 
ílos costumes do Duque •, longe estão de soce- 
gar me as informações que delle tomei. Quantas 
qualidades ha que carêem estimação no Mundo , 
elle as tem ; tem valimento com o Monarcha , e 
nada menos vive sem rancor dos outros Cortezãos -, 
prova manifesta da Hexibilidade ( melhor direi ) 
da hypocrisia do seu caracter. Difficil é que n um 
meneio tão manhoso , não entre liga de baixeza : 
tem valor , e de muitas contendas sahio com bizar- 
ria ; o que , me parece dar antes provas d'orgulliO 
fácil em seinflammar, que de assentada valentia. 



( K9 ) 
K aiagmíico , assitn é ; mas esta endividado. Que 
concluiremos dahi ? Que falha em economia; e 
que ha menos caridade, no bem que faz aos po- 
bres , que ostentação ; e que a dispêndio do que é 
justo, contenta a sua generosidade. É bom para 
com os de casa, humano para com todos os 
criados ; um porem único possúe a sua confiança. 
Ségue-se que alguns tratos encobertos' elle tem , 
que passos dá , que o envergonhariào , se sabidos 
fossem. Boas companhias, e companhias ruins 
o conhecem : sinal certo , que as primeiras cultiva 
por decoro da sua plana , e as segundas por aííecto : 
porquanto ha nellas essa particularidade, que 
umas dissaboreão das outras, e não se pôde amar 
umas e outras ao mesmo tempo. O homem, que 
por gosto , vive na sociedade de gente de bem , 
desgosta-se da união que lij)ei tinos travarão ; e o 
que( por assim dizer) se atolo-i nesta , se conhece 
desaposentado e desconforme na companhia hon- 
rada. Quantos Mancebos d'agora não vi eu , ne- 
cessitados pelo estado que tinhão , a apparecer 
nella , e alU estarem como státuas , ou ( o que peior 
e' ) mostrarem insupportavel descomedimento : ap- 
presentar-se a uma Dama , com o mesmo descôco, 
com que irião a prazo dado ; cumprimentá-la pela 
mesma toada com que catanearião um niulheV 
púl)lica ? querer discretear em tudo , e só desfechar 



C 180 ) 
equívocos , e olirigar as Senhoras a abarxareni a 
vista, em razão do fito olhar desamparado de pejo, 
e em que a impudência tomou o lugar ao comedi- 
mento , com que elles vos encárão. Eis o retrato 
dos três quartos dos nossos Mancebos; e eis tam- 
l)em , ou pouco menos , o retrato ( infelizmente ! ) 
do Duque d'01mancé. 

Não fallo no como elle cumpre com os deveres 
de Christão ; quizera-o fundado nelles ; porquanto 
cedo ou tarde , reconduz o homem a si mesmo , ou 
( porque melhor o diga ) o reconduz ao principal 
fim para que se lhe outorgou a vida. Mas por grão 
desastre de'sta era nossa , tal e' a presente deprava- 
ção , que é esse o único artigo que escapou á snga- 
cidade das pessoas a quem encommendei que lhe 
esquadrinhassem os costumes. Posso-lh'os eu sus- 
peitar puros? Oxalá que cu me engane , e temerário 
seja o juizo que delle formo ! 

Ainda que se calou o Commendador, assaz tinha 
no conhecimento do interior do Duque com que 
dissipar as provençòes da sua digna Amiga, mas 
houve que era prudência aguardar occasião mais 
favorável , para com melhores predicados o desi- 
gnar á Duqueza : tanto que entrarão logo Madama 
de Sémiane, com seu Marido , e Madama de S- 
rere's, que vinlião visitar Madama d'0]mance'; e 



( i8i ) 
como se decidlo que passarião alli o serão, empe- 
nhárào-a a qiie lhes contasse os infortúnios que 
tinha padecido; em que ella consentio, e fallou 
assim. 



Nada que dizcr-vos fica á cévca da origem d'onde 
venho, que de vós é tão sal)ida como de mim 
mesma. X^ltimo garfo d'uma familia illnstre , dissé- 
reis, que se não prolongou na antiguidade a lista de 
meus A.VÓS, que por unicamente accrescer a mágoa 
de seu derradeiro Filho, no qual ao ver-se extinguir 
em mim esse nome, que as l)atalhns, os títulos , as 
honras, e as mais conspicuas dignidades da Coroa 
tinhão largos tempos allumiado com glorioso res- 
plendor ; essa mágoa ( digo ) subio a tão extremo 
auge, que conduzio meu Páe á sepultiuo. Andjos 
victimas fomos da vaidade d'esse nome ; elie que 
não poude sobreviver á extinccão da sua hnhagenije 
eu que me vi privada das caricias, a que me dava 
dueitos a iVatureza. Nem no instante da sua morte 
me vio meu Páe; que fora rasgar lhe mais a chaga 
similhante vista. Minha Mãe , que nunca se levou 
de intenções táes , tomou á cerca de mim diiFerente 
rumo. Oh que feliz eu fora , se me houveia sempre 
durado o tempo da infância! 

Sabeis que ficou minha Mãe viúva de pouca 
idade, formosa, e ricca, e que se negou a novos 



( l82 ) 

desposoiios; que a não poupou a calúmnla, enve- 
nenando o que ella de virtuosa obrava para empre- 
gar unicamente todo o desvelo : e o casamento, que 
depois se me seguio com Monsieur d'01mance, con- 
firmou no JLiizo do Público, o que a malicia dos 
ruins , d'ha muito espalhava com prazer. Parle de 
tudo o que tenho de relatar-vos , m'o deo a saber o 
Cóffre; porque antes melhor noticia não tinha eu do 
que a que o Público tinha. Que bem podia eu hislo- 
riar-vos todos os meus infortúnios, sem poder intei- 
rar-vos de sua verdadeira origem. Mas não anteci- 
pemos a carreira dos acontecimentos. 

Grandissima parte do anno a passava minha Mãe, 
n'uma soberba Quinta, situada em Normandia; e 
só três mezes vinha residir a Paris. Ora como cila 
possuia todos os talentos agradáveis, tomava por 
gosto enfronhar-me nos tirocínios delles ; e em 
quanto residia em Paris, cuidava em me dar mes- 
tres , que apperfeiçoassem o que ella somente des- 
bastara. Ora tínhamos por vizinho a M. d'Olmancé, 
que pouco a pouco, foi quem só compunha a nossa 
sociedade. Era de ânimo soberbo , de condição 
zeloso , e de máximas pérfido ; em casa de'spota , 
em amor tyranno , e na amizade hypóciita. Nunca 
os mais odiosos vicios se envolverão em mais for- 
moso manto. Bem appessoado , e gentil homem , 
bem ornado o juizo, mui agradável na conversacãoj 



i 



( i83 ) 
com todo o apparato da bizarria , da sensibilidade e 
da liziira. Brilhante máscara, que cobrio até á morte 
o mais disforme monstro? Ah , caros Amigos, que 
essa máscara foi quem vo-lo deo a amarj e quem 
meu espanto foi e minlia desesperação l 

Bem persuadidos estáes de quanto a minha Mãe 
essa intiuiidade bem agr idar devia ; e elle quasi 
sempre nos assistia na Quinta, quando nós lá mo- 
rávamos ; com nosco vinha a Paris, como quem 
facilmente se desprendia de seus postos , em razãa 
da Paz : em fim ( porque assim o diga ) era o amigo 
íntimo da nossa casa. Nem deVão estranheza os prin- 
cípios dessa communicação *, e se accreditou que 
minha Mãe, moça ainda, renavaria matrimonio. 
Tinha então 3o annos , e M. d'01mance' 45 , ambos 
de illustre nascimento , ambos amáveis , e que se 
convinhão nada melhor. Minha Mãe ficava izenta 
das reprovas, que se carêa a Mãe viúva , que, com 
filhos vivos , entra em novas núpcias : por quanto a 
mim , pelas deixas de meu Páe assaz ricca ,. me 
não íazia aggravo algum : mas decorrendo os annos, 
sem que tivesse lugar o casamento, começou a pa- 
decer a reputação de minha Mãe , que considerava 
M. d'01mancé , como um Amigo de quem pendia 
o decurso feliz da sua existência ; mas o Pú;)lico 
lh'o dava por Amante. Penalisavào-se de que lhe 
desse tanto predomínio em mim a estreita socie- 



( >H4 ) 
dade que com minha Màe tinlia : murmiiravão do 
máo exemplo, que ella parecia dar a meus tenros 
annos. Essa opinião geral não sabida de minha Màe, 
o era muito de M. d'01mancé; e elle que seguia seu 
presupposto, para entreter essa presumpção no spi- 
rito público , nada punha em descuido : atlençòes 
no exterior , galanteios como fm^tados á vigilância , 
pezada tristeza na ausência , alvoroçada alegria ao 
vê-la , nada lhe esquecia, Logro em que minha Màe 
cahio , e o Público ainda mais. 

Todos , e ainda minha Mãe mesma ignoravão a 
tenção de M. d'01mance' , que insensivelmente me 
tomou entranhavel aífecto , que , com muita arte 
esconder soube. Tinha um Irmão mais ve'lho que 
gozava do titulo de Duque, e como tal possuía 
( por assim dizer ) todos os bens da casa : era sim 
viúvo e sem filhos ; mas podia cazar segunda vez : 
pelo que , era medíocre o haver de M. d'01mance' , 
nem podia naturalmente esperar (jue minha Mãe , 
em despeito da aíleição com que o tratava , se resol- 
vesse a sacrificar as esperanças de sua filha , con- 
trahmdo com elle conveniente alliança em quanto 
á nobreza , mas inQnitameiite desproporcionada , 
em qp.anto aos bens. Verdade é que minha xMàe , 
cuja ambição não ignoráes , punlia mais alto o fito. 
O Conde Federico de W*** dos pequenos soberanos 
de Alemanha , nas yindas de W*"^* a França , algii-, 



( i85 ) 
más vezes me vio , e me distingnio ; e minlia Mae , 
a quem attençòes táes não passarão por alto , con- 
cebeo esperanças , de unir o destino de sua Filha 
eom os d'um Soberano , e vér-se então com altos 
poderes numa Corte , onde findasse a carreira da 
vida no regaço das grandezas , cujo splendor lison- 
jeara sempre a sua presumpção. 

Nem o Marquez d'01mance' que lograva de toda 
a confiança de minha Mãe , ignorava esse designio , 
nem quantos projectos ella traçava á cerca de mim 
lhe erãooccultos, Gonsultava-o, e cada consulta era 
um feixe de serpentes que lhe ella mettia no seio. 
Que lhe não permittia seu ânimo dobre patentear 
os arcanos de seu peito; e o muito que de minha 
Mãe precisava para concluir facilmente o crime , 
que meditava , lhe fazia força a que aíTectasse gran- 
dissinlo interesse na minha futura elevação ; e a (jue 
a lisonjeasse com o fingimento de approvar quantos 
meios ella , para consegui-lo , empregar queria. Não 
tardará , caros Amigos , saberdes quão indigna tra- 
ma urdia esse monstro , nas profundezas de seu 
coração. Nenhuma confidencia, nem uma só pala- 
vra, que accusasse o amor que me tinha, nem um 
único movimento que deixasse ressumbrar os ciú- 
mes que o consumião. Todo candura , todo probi- 
dade , e desinteresse, que como paredes servião de 
aposento ás Fúrias , e que umas á vóUa de outias a 



( i86 ) 
Avareza , o Amor, e o Ciúme se plelteavão. N'uma 
palavra, era o Crime que vinha puUulando, e cujos 
projectos só os conhecia o bárbaro , que tacitamente 
os cultivava. 

Forçoso é finalmente que suba de meu seio á 
bôcca o nome tão prezado , o nome , que eu não 
posso articular sem torvação , sem brotar lágrimas. 
Esse único nome basta para que vejáes ao claro a 
minha alma , e seus segredos. O Cavalheiro de 
S. Porcio (ij... mas... a vóz se me entalia. Perdoai á 
vossa infeliz Amiga os soluços que a suíTocão... 
Mísera de miml Já , em razão d'esse amor, me per- 
seguiào cruamente; e ainda eu, que amava não 
sabia. Já eu era victima do ciúme horrendo de um 
marido , o oppruljrio da prosápia , o flage'llo de 
minha Mãe , quando nem ainda suspeitava em 
mim a affeic ão que tinlia á mais querida pessoa. Já 
me castiga\ão, por um amor de mim não-conhe- 
cido, e cujo intérprete primeiro me foi a barbari- 
dade de meus perseguidores. 



(i) O Original lhe chama Cavalheiro S. Jorge : mas eu 
pelo não confundir com o Homem de ferro ou com o Page 
de S. Jorge que o accompanhão , com os cavalliuhos na 
Procissão do Corpo <le Deos, lhe mudei o nome, como já 
mudara o de Aymardina. 



( iB7 ) 
Foi ( para assim dizê-lo ) criado comigo o Cava- 
lheiro de S. Porcio , e como ambos da mesma 
idade ; contíguas as fazendas paternáes favoneavão 
essa communicação fundada desde as mantilhas, e 
hal)ituados ambos aõs brincos da infância, a ami- 
zade como de Irmãos foi do amor a precursora. A. 
época em que o prestigio das paixões toma o posto 
do socêgo da infância , fez que medrasse a precisão, 
accostumada de nos haver juntos : desfructávamos 
prazeres não aguados de sustos , e já violento amor 
d'ha longo tempo nos animava, sem dar fé do que 
se entende peio nome Amor- Nem o Público, nem 
a minha familia , nem ainda minha Mãe, se inquie- 
tarão da intimidade , que entre nós corria , dês-que 
ao sói se abrirão nossos olhos. D'01mancé foi o 
único que esse aíTecto rastreou em nossos corações : 
que ávido empolga o Crime quanto lhe lisonjéa os 
interesses ; e nesse rastreador amor librou elle o 
bom successo de seus odiosos intuitos ; e a seguri- 
dade em que todos , e ainda nós mesmos estávamos 
em quanto á pureza de nossas aíTeições, teceo o véo 
com que elle encobrio a meditada execução. 

Tinha M. d'01mancé um Lacaio mancebo , em 
statura e annos assemelhado ao Cavalheiro de 
S. Jorge : a autoridade de seu Amo, dinheiros que 
lhe este [)rodigou subjugarão esse moço; que veio 
a ser ministro da mais horrenda trama. Dias havia 



C i88 ) 
já , qiio o Cavalheiro de S. Jorge, releúdo em casa 
por indisposto , não viera vcr-nos ; e eu , na minha 
franqueza demostrei enojar-me dessa ausência , da 
qual minha Mãe igualmente se inquietava, sem al- 
guma desconfiança de mim; tão socegada a tinhão 
meus provados costumes, e austeras máximas ! 
Dous fidalgos provincianos , da amizade da nossa 
família , e os únicos estranhos que então residissem 
na nossa morada , tinhão presenciado a aíTeição 
que eu demostrava ao Cavalheiro de S. Jorge ; e 
bem que soubessem que essa amizade , d'ha muito 
tempo, nos unia, não tirarão dahi consequência 
alguma , que á minha reputação desfavorável fosse. 
DOlmance foi quem sóinenle imaginou valer-se 
dessa circumstancia para me deitar a perder. 

Segundo o uso ordinário instituído em nossa casa, 
ás 1 1 da noite cada um se ia deitar. Logo que eu 
abracei minha Mãe, entrei no meu quarto : as no- 
ticias que tínhamos recebido da saúde do Cava- 
lheiro , que promettião perfeita melhora , tinhão 
apaziguado o meu des-socêgo , e assentado paz no 
meu coração. Despedidas as Criadas , repousava eu 
no grémio de suaves esperanças de ver quanto antes 
o meu Amigo. Que bem arredada estava eu então 
de chamar-lhe meu Amante! A confiança natural , 
que existe , n'uma pousada onde só morão parentes, 
amigos , e servos íie'is , descuida de cautelas ; e 



(.i89) 
tanto, que nunca fechava a porta do meu quarto. 
Tudo estava quedo , tudo em casa dormia. Só ve- 
lava o Marquez occupado no seu detestável pro- 
jecto. As duas da madrugada, vai acordar o lacaio 
( que eu disse ) e o inteira do que lia-de fazer. Era 
o meu quarto ao re'z do jardim ; e como de casa sabia 
os cantos delia ; sahe do seu quarto com o lacaio, 
e sem luz , entrão na ante-câmara onde dOlmancé 
recommenda ao lacaio silencio , ânimo, e acordo ; 
me'tte-o no meu quarto , féclia a porta, tira a chave , 
que arremessa num retrete , porque lhe nào atinem 
com o embuste, e sobe ao seu quarto. 

Só lhe faltava completar o crime. Que espantoso 
abysmo é o coração humano! Vêr-vos-hei amarel- 
lecer do horror os rostos, oh Amigos meus, quando 
ouvirdes que homem vós e a França inteira honra- 
rão com a estima sua. Pe'gao Marquez n uma vela, 
desce , bate na porta da câmara de minha Mãe , 
^segunda com cautela os golpes; acorda Madama 
d'Estanges, diz á Aia que pergunte quem é; e diz- 
lhe que abra quando soube que era M. d'01inance'} 
e com pasmo de o ver a deshóras , lhe pergunta al- 
te'ra que occasiào o traz alli. — A honra da vossa 
casa , que me e mais prezada que a minha ; pelo 
muito que a zelo , calar não posso o que ncila 
passa. — Assustáes-me , Marquez-, acabai. — Uas- 
gar-vos-hei o coração , e mui cruamente : mas 



( IQO ) 

assim rek-va. Terrivel obrigação, em (íue a Honra 
vos põe I Senhora , armai-vos de coragem. — Oh ! 
que me mattáes, Marquez! Dizei o (iiie d — Pois 
bem ; \ ossa Filha... O Cavalheiro de S. Jorge... — 
Estremeço!... Minha Filha !.... Desditosa Mãe , 
ouvi pois , que a moléstia do Cavalheiro de S. Jorge 
foi fingimento. Neste instante se acha na Câmara 
de vossa Filha , e... — Oli Ce'osí eu morro... Des- 
maiou-se a Condessa ; e ajudado das Criadas que 
acodirão aos gritos, lhe deo soccôrro o monstro, e a 
retrahirão á vida : ao deliquio de minha Mãe suc- 
cedeo o furor ; desprende seus braços, vôa ao meu 
quarto... Era o que esperava d'01mancé. Os dous 
fidalgos, que ouvirão o rumor, descerão, e em 
n'uma só phrase lhes deo o Marquez conta dosuc- 
cedido. 

Aíligiuai vos , queridos Amigos, a horrivel 
scena , que se vai representar. Minha Mãe , que 
bate furiosa , a golpes redobrados á porta da minha 
antecâmaia -, eu que acordo sobresalfada , que me 
ergo , sem que me dêm azo a que lance umas rou- 
pas sobre os homl^ros ; que corro , c que abro a 
púrla; abre-se ao mesmo passo a pórla da ante-câ- 
mara , <iue mal resistia , e aos empuchões arroja-se 

minha Mãe a mim O detestável ministro de 

d'Ulmance', que aguardava esse momento, mal 
vio que minha Mãe o percebeo , íiel ás ordens de 



f i9t ) 
seu amo , arremessa-se , pela sacada , aos jardins , 
e foge. Foi l)astante para a convencer. Pintai-vos 

o furor na figura da Condessa. — » Desaforada 

(epitheto, que me inteirou do que ella suspeitou de 
mim). Caio desmaiada no chão ; deixa-me allí 
sem piedade alguma minha Mãe , a quem seguio 
d'01mance', regozijando-se de quão bem lhe sortira 
o crime seu. 

Eis-me assumpto de indignação para quantos 
hubitavão a pousada. Dcsamparão-me. . . . e , cré- 
lo-heis , Amigos ? Forão tão bárbaros , que me 
deixarão cinco horas no deliquio rebolcada no 
meu sangue \ que me feri na cabeça , com a queda 
que dei. Para minha Mãe se volverão empenhados 
os desvelos , e a compaixão, quando a virão em tão 
furiosa cólera ; só um Criado velho , que o fora de 
meu Páe , mais humano que os outros , veio a 
mim depois do prolongadissimo dssraáio, Lançou- 
me no leito, lavou-me , e me atou a ferida, deo-me 
a beber algumas gôttas de elixir. Eu estava como 
stúpida , tinha como sonho o que passava ; nada 
perguntei a esse leal Criado, só as lágrimas me 
corrião a flux. » Que fizestes , Senhora ! ( me disse 
o Criado ) Eu muda; os olhos immóveis, státua 
fria , sem lh'o agradecer , acceitava o seu compa- 
decidor soccòrro. Oh ! tiistes fructos da calúmnia ! 



( io>. ) 
fructos da prevenção ! Delto-me ditosa donzella , 
e acordo desventnradissima crealnra ! 

Nesse entretanto, enganada, e impcUida minha 
INIãe pela ruindade de d'Olmancé ( que a seu grado 
lhe soprava o rancor que na alma lhe lavrava ) 
apparelhava o meu supplicio. Houve deliberação, 
em presença dos dous fidalgos , á cerca do partido, 
que cabia tomar , no desastroso caso. Minha Mãe , 
que só vinganças respirava, pendia para os meios 
mais violentos ; mais prudentes os dous Cavalhei- 
ros acconselhavão brandura , e segredo ; d'(Jl- 
mance' aíTectava incertezas, ( com que a todos en- 
ganava ) mas convinha sempre que eu tinha a hon- 
ra perdida. Em debates se ia coando a manhan , 
som se encostarem a algum conselho ; eis que d'01- 
mance', arrancando um profundo suspiro , e como 
quem se fazia grande fôi ca , pede um instante de 
silencio. — » Quinze annos tem corrido , que 
vossas ])ondades , ^ladama d'Kstanges , accumulács 
sobre mim , outro tanto de vosso Spôso digo : 
chegou hoje o prazo , em que me eu posso desen- 
dividar á cerca de vós , e de sua lembrança. Alto 
me custa ; mas disfarçá-lo não posso ; quanto so- 
brepujar o esforço, tanto se manifestará a fôiça 
da minha amizade , e da minha estimação. >ião 
liaja illusão: este desventuroso successo fará ru- 
mor : Criados não mantém segredo j Mademoi- 



I 



( 193) 
sella d^Estanges fica desacreditada ; scbre vós tem 
de cahir a saa deslionr.i ; não tereis cara para 
apparecer; desvanecêrão-se vossas esperanças; 
vossos prazeres arruinara <í-se ; eis desamparada a 
vossa velhice; numapalaxra, eis empeçonljen- 
tada pelos pezares toda a vossa vida. Um úaico 
sacrifício ha , que reparar possa males tantos ; e 
esse quero eu fazê-lo; que m'o inspira a Honra , 
a Graíidào, e a Amizade; estou ce'rto que ellas 
me sustentarão no empenho. Com uma sj palavra 
vou abafar com impenetrável manto esse escanda- 
loso caso. Puz final, e tomada está a minha reso- 
lução. Solteiro sou ; independente sou ; dou a mi- 
nha mão a Madêmoisella d'Estanges... . que é 
mais que dar-lhe a própria viái» »' 

De espanto , e horror os olhos arredáes , Amigos ? 
Ah ! que é verdade, que para um homem o maior 
dos infortúnios, é que tenhão ideia dos poderes 
da virtude manhosos malfeitores! Com que astúcia 
se não escondia aos olhos de todos , o fio dessa 
al)ominavel urdidura ! Como poderia eu desaju- 
dada , e só^, bajulando o encargo de deshonrosa' 
accusação , conseguir justificar-me ? Mal que ouvio 
minha Mãe essa inopina. ia proposta , lança-se aos 
pés do pérfido d'0]mancé: — » Meu libertador, 
salvador da minha famiha , Deos da humani- 

^^^^ " e as lágrimas da gratidão com que lhe 

Tom. X. ,3 



( 194 ) 
lavava as mãos ; e os dous Cavalheiros c^ue o aper- 
tavão nos braços.... E disfructou o Crime o re- 
gozijo de vêr a virtude prostrada ás suas plantas. 
Menos d'uma hora sufftciente foi para concordar 
nos preliminares do meu hymenêo ; despedio logo 
minha Mãe um postilhão ao Bispo de Bayeux , a 
duas léguas da Quinta , dando-lhe miúda conta da 
horrenda circumstancia cm que se via , e do como 
se devotara generoso o Marquez d'Olmancé ; pedin- 
do-lhe ao mesmo tempo as dispensas necessárias, 
para a subitanea cereraonia, e abrigar o decoro 

de sua Filha. 

Chegou o postilhão ãs duas horas da manhan 
seguinte, com a autorisação do Bispo , e co*as dis- 
pensas •, forão avisa.ro Capellào de casa , e num 
instante se achou tudo prestes para a ceremonia. 
Ninguém até essa hora tinha entrado no meu 
aposento, senão o leal servo que tivera de mim cui- 
dado -, gradualmente se tinha dissipado a stupidea 
em que me tinha cahido o juizo : já me espantava 
o universal desamparo em que me via ; já tendo 
perguntado ao Criado velho algumas cousas , me 
tinha este recusado resposta :-( chorava ). Fallei 
em minha Mãe - ( mudez ). Cubiçosa de deslin- 
dar esse mysterio, quiz erguer-me ; mas, de mui 
fraca, não o pude- Tornei a cahir com desmaio; 
tive de aguardar a pezar meu , que viessem allu-- 



( '95 ) 
íhiâr o escuro de minhas ideias. Escapoa-me(não 
sei como ) o nome do Cavalheiro de S. Jorge. » Oh 
Senhora ( acodio o Criado ) tal nome vos não 
oução •, que vos fora perda totaL E , por evitar ma- 
ii)res clarezas , foi-se. 

Que horrivei noite! Que tratos crue'is me não 
deo a despiedada incerteza em que me via ! Que 
tem pois acontecido? Quem era esse homem , que 
se baqueou pela sacada? D'onde procederão as 
iras , com que minha Mãe , como que me fulmi- 
nava? Por ^iue razão foge de mim a gente toda? 
Via-me innocente , e padecia terrores , e tratamento 

de re'os. Mil tentações me subirão de pedira d'©!- 

* 
mancé , que me viesse fallar. Quanto arredada 

estava eu de o contemplar como verdugo infame , 
que tão impia morte me descarregava ! Erão três da 
manhan quando ouvi accoiTer ao meu quarto 
appressada mente algumas pessoas. Involuntários 
se me arrepiarão os cabellos. Vejo entrar minha 
Mãe , e com ella d'01mancé , e outros dons amigos ; 
logo que a vi perto da cama , abro para ella os bra- 
ços. A-i mísera de mira !.... ainda me escorre sangue 
do coração , quando agora vo-lo conto» Rejeitou- 
m'os. ^- )) Filha indigna de mim , reseVva para 
outrem esses infames carinhos. Nunca mais para 
ti se tem de abrir os braços de tua Mãe. — » Oh 
meu Deos ! e que é o que cu vos fiz? D'Ohnancé , 



C 19^^ ) 
que recriava a maisle've explicação, com vóz baixa 
lhe *lis.se : — » Acabai, Senhora, que se encurta 
o prazo. 

Tomando Minha Màe então mais severidade 
ainda , me diz. — » Este é Mademoisella , o spòso, 
que vos eu dou ; erguei-vos, que as aras vos espc- 
rão. Confessá-lo-hei ? Funesto acórdão que foste 
raio, toste luz de relâmpago, que me esclareceste 
a figura do Amor. Então é que s<^ affigurou na minha 
imaginação, o vulto do Cavalheiro de S. Jorge, 
accompanhado de todas as suas prendas ; então é 
que descortinei a amplidão do Bem que possuia, no 
momento mesmo , em que me despossuião delle. 
No mesmo minuto se avistarão a minha Dita, e o 
meu Su:>plicio! Incrível rapidez das affeiçóes do 
ânimo ! RelicUar-me contra a Natureza , horrori- 
zar-me de (VOlmancé, amar o Cavalheiro de S. 
Jorge , devisar prolongados os meus futuros tormen- 
tos , tudo rebentou d'um golpe dos seios do coi^a- 
ção. Violentissimo o abalo foi , e a cabeça me 
cahio nas extremas do leito desanimada e fraca. 
Oh bái jjaros ! que se approveitúrão da ausência 
que alli me fez a vida , para completarem o seu 
deiicto ! O como me arrastrárão ate' ao Oratório , 
nunca o sube ; mas sei , que a frieza das lages em 
que me tinhão de joelhos me revocou á vida. 
Porém quão tarde 1 que tomado havião por cou- 



1 



( 197 ) 
sentimento meu , o silencio do mortal desmaio ; 
e a minha regelada mão estava na do monstro , 
que me dava mórte ; e já o fatal annél me cingia o 
dedo. Abrirào-se-nie os olhos para vér. . . . meus 
inimigos. 

O religioso silencio que nessa ceremonia dominat- 
va quasi finda , accrescia ainda em mim o lioiror 
que ella me inspirava. Gritei: » Assim é que se 
abusa d'um acto tão sagrado ! E o Ministro do al- 
tar é quem !... E minha Mãe foi a que'.... E quem 
degola a Innocencia são pessoas , que virtude pro- 
fessão ! Na vossa face mesma , oh Deos d'este Uni- 
verso , é que se' quebranta o respeito , que á virtude 
compete ! Esta exclamação tão natural aqui , foi 
olaada como uma nova culpa. — » Detestável 
hypocrisia ! ( bradou minha Mãe ) — Silencio. ( cla- 
mou o sacerdote )• R. isgo de luz foi este instante , 
com que a minha Piazão buscou adivinhar qual 
culpa me achacavão , de mim ignorada atélli ; e 
também rastrear nos semblantes o que motivo 
dava a tão extraordinário tratamento. Cuidado 
inútil ! No sacerdote , medilação profunda no sacra- 
mento mysterioso , que administrara ; no rosto de 
minha Mãe, desesperação, irritado orgulho , ma- 
tizado -de concentrada terimra , em dOlmancé 
ressumbrava pérfido contentamento, sob vcos de 
aíiectado se'no j nos dous Cavalheiros , embaraço , 



( i08 ) 
incerteza, sombxas de compaixão, mas mormente 
lionra , e preconceitos tlella reluclanfes , e assom- 
brados. Quanto a Criados ( as Criadas principal- 
mente ) vislumbrava nelles o aíTectado desdém que 
essa classe arreme'da á cerca da opinião dos Amos ; 
sevandijas promptas sempre a sacrificar aos ídolos 
que servem , e a suas injustiças os mais entranhá- 
veis abalos de seus ânimos. Eis quanto dum re- 
lance de olhos poude descortinar o meu cubiçoso 
dosasocego. 

Não deparei com o Criado velho , que me soc- 
correra : sube depois que barljamente o tinhão 
despedido d'uma Casa, onde servia ha 4o annos ; 
elle que fora o único que se achou com valor de 
conservar boa opinião do quem era sangue de seus 
Amos ; e também sube , que feneceo em pobreza 
seus dias longe de mim , e víctima de desastrosa 
prevenção. O que elle padeceo por minha causa , 
quiz repará-lo eu , em sua filha, queé Luzia, uma 
de minhas Aias, a qual todos conheceis bem. Aca- 
bada a eeremonia, me levarão ao meu aposento , 
onde o Marquez (rOlmancé ficou só comigo; e o 
theatro do crime que me punha cm seu poder , foi 
o Templo de Hymenêo. PeVto esteve de perder 
em breves dias o objecto que tantos delictos lhe 
custara •, porquanto , o estado, em que eu , depois 
de 2.4 horas me via , e a ferida , que na cabeça mo 



íTz , da qual se tinhão descuidado, me chegarão 
com cedo aos redores da sepultura. Temia elle , 
que entrasse luz, na têa de sua al)ominavel astúcia , 
e bem se capacitava que se mais tempo eu residisse 
na morada d'Estanges , o Cavalheiro de S- Jorge , 
informado da cavillação, faria pengoso estrondo; 
assim, a pe-zar do abatimento que eu sentia em 
mim , me metteo o meu algoz n'uma carruagem, e 
me conduzio a uns Paços antigos, que possuía lá 
para osPyreneos. 

Sem que elle por mim tivesse o menor cuidado, 
sem que algum respeito tivesse ao meu deplorável 
estado , corremos todo esse caminho- Desatinavão- 
me as dores que me partião em pedaços a cabeça ; 
óra no delirio * d'uma ardente fe'bre , óra numa 
fraqueza de moribundo , cheguei quasi morta a 
esse solar deshabitado ha mais de cem anno?. 
Lá e que deo d'01mancé sináes que o assustava a 
minha situação; e já fosse ( como eu presumo) 
a avareza nelle mais possante , que a sua mesma 
crueldade , tentou conservar-me a vida. Despedio 
um criado a Bayonna, que veio com o Me'dico mais 
aflamado delia. Vio-me , e não me assegurou vida ; 
6 foi esta a única vez que dei sustos a dOlmancé, 
mas sustos, q^ue prendiào nelle só ; pois que a pe/ar 
das poucas esperanças que dava o iNlécUco , com 
mão larga me assistio com socc^>; ros , que favoreci- 



( 200 ) 

dos (la minha boa compleição, foi pela força delia 
vencido o mal. Ps o undécimo dia da chegada, de- 
liiKia no crescimento da fe'hre , tal punhada me 
dei na te'sta , que rebentou a postêma por nariz , por 
orelhas , e por bôcca , com tal felicidade , que es- 
ta> a o Medico então presente, que ajudando a evasão 
me salvou a vid;. Moderou-se a febre, despedifão- 
se os syniptomas, e cm poucas dias , poude prognos- 
ticar a meu Marido a volta da minha intcha saúde. 

Essa certeza era a que d'01mance aguardava para 
partir , e ir incógnito ver minha Mãe para com ella 
stipolar seus interesses, que no bulício do meu in- 
stante casamento só preliminariuente se acordarão. 
Mísera Condessa d'Estanges ; que odiosamente en- 
ganada, como cu, sacrificana um Império, se o 
possiiira , para o cumular de agradecimentos I Quasi 
que se despojou a si, para enriquecer o algo/, de 
sua filha, esse pérfido, que lhe derramou por toda 
a têa da ida, mortal veneno. Indigna delia me con- 
siderava essa desventurosa Mãe , como eu, ser Mãe 
desnaturada a presumia; de modo que ainda esse 
mesmo amor e ternnra que uma a outra nos tínha- 
mos , servião de muralha que para sempre nos es- 
tremava. 

Entre enojadas lágrimas ia eu volvendo convales- 
centes de'beis dias •, e entregue toda , ( vista a ausên- 
cia de d'Olmancc ■ ás minhas reílcxões : oilerecia^ 



( '101 ) 

^-me aos olhos da imaginação quanto por mim 
passara. Disséreis , que era como um enfiado [>eza- 
roso sonho, dos que se fazem no âmagci da doença; 
e de cujo sahinios, para mais vivas sentir as dores 
delia. Em vão me perguntava a mim mesma , 
d'onde proceder podia acontecimento de que bro- 
tarão para mim tão funestas consequências? Quem 
é que me roubou , d'um lanço , a ternura de quan- 
tas pessoas eu amava ? Por qual prestigio me trans- 
mudarão em INlarqueza d'01mancé, e me arre- 
messarão a 200 léguas alem da minha familia ? 
Bem atinava eu em serem lodos , projectos d'esse 
que me sposou; e que, a calúmnia fora quem os 
reabsara : mas imputá-la a quem ? Fundada na 
minha consciência, sabia eu bem, que não havia 
que arguir ao meu procedimento , nem a mais leve 
imprudência. Minha Mãe , ante cujos olhos sempre 
andei, foi sempre a minha única confidente, única 
amiga. Nestas considerações perdia o tino : e então 
a miúdo se me appresentava ao pensamento o 
Cavalheiro do S- Jorge ; e ah ! quão longe estava 
eu de imaginar que elle tivesse a menor parte em 
meus padecimentos! Com as lembranças suas 
avultavão meus pezares; e então dizia comigo: 
» Tu fôràs o Spôso que o meu coração acceitára ; 
» foras o Amigo, em quem eu assentara todo o 
» meu amor. Que eu para amar nasci. E esse ob- 



( ^02 ) 

'» jecto. . . . (\ue digo ? . . . esse alimento , que único 
» resta á carência de ternura , que experimento em 
j) mim , esse é o cjuc para sempre me é vedado, 
w Cruel d'Olmance'! Deveo-se nunca o triumpho 
j) do Amor a um refalsado relance ? » 

E ceVto que inflúe na alma , o sitio em que resi- 
dimos: lança amargura nas aíFecçôes o alpestre dos 
lugares. Ora eu tinha sempre diante da vista , essa 
immensa montanhosa muralha que a Katureza edi- 
ficou , entre o ardente clima de Hespanha , e os 
aíTortunados campos de França; e ella era para mim 
figura sempre avivada do insuperável obstáculo, 
que entre mim e a Dita tinha estendido a Fortuna. 
Gom taciturno terror se espalhavão meus olhos 
pelas descompassadas cavernas , que essas monta- 
nhas acolhem , em seus vastíssimos seios. A melan- 
cólica escuridão , e o lúgubre silencio que se alojão 
na profundeza d'esscs abjsmos, me diebuxavão em 
quadro mui íidl, o coração de meus inimigos. 
Quando contemplava os topes escarpados d'esses 
serros encanecidos de perduráveis ne'ves, sobran- 
ceiros a mim , quasi que me oíTerecião no fixo da 
verdade, a cólera de meus perseguidores, que in- 
sensíveis a meus pezares , me sentenciavao ao pre- 
sente meu destino. 



J 



( ao3 ) 
Via-me eu na grémio da Natureza , mas daquella 
Natureza, cujos quadros tão caroaveis são aos cora- 
ções puros , e contentes de si. E ella era nesses ins- 
tantes de que vos fallo , madrasta de torvo sobrece- 
nho que aíTastava de mim quantas consolações ella 
com diííerente aspecto oíTcrece em todo o alem , a 
quantos humanos quer : parecia, que de mãos dadas 
com o meu yranno, lidava em me angustiar o ânimo. 
Mal encetávamos o mez de Septembro , e já as 
geadas , e as neves, e os regelos me rodeavão; já os 
ventos boreáes silvavão furiosos contra os inconcus- 
sos cabeços dessas enormes penedias , em quanto 
as trovoadas, que roncavão ao longe pelas quebra- 
'das dessas encostas formidáveis , abonavão o bo- 
chôrno, que se concentrava por esses cavados valles. 
Lá é que o silencio da noite não convida a somno ; 
mais sim a terror ; e o socêgo do Universo, quebrado 
peles gritos da Águia , que está despedaçando a sua 
preza, antes se assemelha ao silencio do remorso, 
que á paz eterna. E óra de dia, oh Amigos, lá é que 
parece- que assentou Deos o theatro de quão nada 
é o homem. Que montão aos olhos do sábio que 
trepa até ao cume dessas penhas; que montão, 
digo, dilatadas Campinas , florescentes Cidades , e 
« Provindas, e Impérios, que dão visos de se desen- 
volverem ante a sua vista ? Um vaporoso horizonte, 
cm que, com as exhalações da terra, se dissipão 



( 20i ) 

lodos os desejos dos homens Lá c' que nos inteirá- 
mos l)pm ([não desprezível é o lioinein, quando elle 
só de si se occnpa. O resplendor do fausto, asillu-» 
soes do luxo , nãn sobem até elle ; e o exército do 
Coni(uistador, que vai atravessando planícies, lhe 
não fere mais nos óllios, que o malfeitor obscuro , 
q;e novos deiicfos imagina : contempla quão min^ 
guarlos que são os projectos dosm )rtáes, porcjuanto 
incapazes são de supportar o aflastamento. Então 
é que o Sábio clama : » Qual será, Deos do Uni- 
verso, o limit3 dessas lai.vões, que agitão esses 
entes , que sobre a terra se móvein. Sê-lo-ha a 
Dit.i ? A. terrível , e eloquente resposta que lhe dará 
a Natureza, será o Garvcdho que ruidoso ao lado 
delle desaba da montanha. Nessa situação passei 
quasi quatro mezes que d'01mancé voltou de 
Paris. 

Essa morada foi quem , mais que as minhas des- 
graças , con ribuio para esta suave melancolia, que 
tão a miúdo me assacáes. Necessidade de prova tal 
minha alma tinha. Quereis vós , Amigos meus , 
antever o destino de qualcpiér Mancebo ? Ou ( por- 
que melhor me explique ) quereis vós capacitar- 
vos , de '{ue gráo de energia virá elle a senhorear- 
se ? Aífastai-o, por certo espaço da sociedade dos ^ 
homens j transpassai-o ao sertão descampado e 



( 205 ) 

agreste; e se "ailí fica muda a alma d'esse Moço, 
lastimai-o ; nunca passará de mesquinho e fraco. 

Todos me conheceis o talento , que para Pintura 
tenho ; igual talento tem o Cavalheiro de S.. Jorge i 
como também tivemos ambos os mesmos Mestres ; 
e nos dias felizes da nossa adolescência , tinha eu 
feito o retrato do meu Amigo , e mettido-o n'uma 
Locetinha , que nunca larguei de mim. Esse retrato 
( que escapou que o visse d'01mancé ) era na minha 
solidão o meu único alivio; com elle falia va , e 
até cria eu que o retrato me respondia- Não m'o 
reprehendáes ; que se infie'1 era eu nisso a meu 
Marido , era infiel , sem o saber ; que ainda o coin- 
mercio com o Mundo , ou Leituras per gosas me 
não tinhão corrompido o coração : os livj os , que 
eu tinha lido erão bons , e virtuosas as pessoas com 
quem vivi ; e os aíTeilos que por então me anima- 
vão erão sós os que a Natureza em nós põe ; 
e dado que o mais ardente amor me devorava , me 
persuadia eu , que somente cedia aos movimentos 
da innocente Amizade. 

Verdade é que essa Amizade , mais ainda que 
os infortúnios por mim padecidos, me dava aboi- 
recimento contra os meus perseguidores ; e sentia, 
eu bem , que se lhes eu perdoava as suas injustiças , 
não lhes perdoava nunca o lerem-me allastado , 
e dividido do único homem que a minha Icrnura 



( 9.00 ) 

bierecía : e por esse mótlo , como não conhecia cm 
que Amor consiste., não dava íc dos diííèrentes , 
e bem assinalados rasgos , que o distinguem da 
simples Amizade. Um dia , que mais limpo o Céo 
dava azo a se lograr dos raios do sói, salii ate um 
terreiro, talhado na rocha, e que orla uma das 
faces do solar , c puz-me a admirar , por alguns 
momentos , os vislumbres com que esse astro fazia 
rutilar todas as cores do prisma,4ias variadas quebras 
dessas enormes còdeas de regelo , que como mantos 
envolvem esses desmesmados penhascos, e que 
como taboleiros e andares de amphitheatro se 
ião abaixando a meus ptís. Deleitavào-se-mc os 
olhos , quando os profundava por essas, férteis e 
aíTortunadas planicies do Languodoc , que se ião 
estendendo, estendendo.... ate' se sumirem no 
ultimo horizonte; » Ob Cavalbeiro de S. Jorge, 
oh Amigo meu ! ( exclamei eu então ) gozar Angé- 
lica, sem ti, de tão majestoso spectáculo! Ao 
menos se aqui é para mim de bronze o Céo , esse 
que cobre e' mais suave; e essa ide'ia me con- 
solo. » 

Ditas estas palavras tiro da algibeira , por um 
movimento involuntário, o retrato dclle ; abro 
a bocetinha ; arrazão-se-me de lágrimas os ólbos , 
imprimo os lábios na imagem tão amada.... Kis 
que quando me me julgava erma e só.... Que 



( 207 ) 

susto foi o meu! apertada me sinto por nervudo 
braço.,.. Dou altos gritos; volto -me de súbito... Oh 
meu Deos ! Qual foi o meu espanto! Vejo d'01man- 
cé, que com vóz aíTogada pelo furor, me diz: » Tre- 
me, Spôsa desleal! verás como castigo o ultraje 
que me fizeste : nem creias que em te castigar a ti 
remato a minha vingança; que só fora vingar-me 
por metade do malfeitor que me deshonra : hei- 
de-llie arrancar o coração. — » M. d'01mancé, 
apazignai as iras ; descarregai em mim todo o peso 
de vossa cólera ; mas , pelo Céo vos peço , não 
to ,uêis no Cavalheiro de S. Jorge , que é inno- 
cente. — » Innocente 1 e sois vós quem m'o asse- 
gura ? Tudo sei. Desleal ! que não satisfeita de vos 
profundar no desdouro , quereis ;ainda com inde* 
cente ruído , cobrir de oppróbrio a minha fronte , 
despegando-vos ( sem respeitar o nó sagrado ) ao 
patrocínio tutelar , que a minha virtude , e a grati- 
dão mais animada me suggerirão. Esse prémio 
reserváveis a quem por vós se quiz sacrificar 
a si ? » 

Fôrão essas palavras como horrível clarão de 
coVisc« , que me esclareceo na alma ; e dado que 
nos vitupérios de d'Olmancé nada comprehendesse, 
vi bein , do primeiro lance de vista , quão -contra- 
rio ao meu dever , era o aíFecto que eu ao Cava- 
lheiro de S. Jorge conservava. Concebi quão justas 



C 208 ) 
crão as suspeitas de meu marido, e quasi que me 
dava por convencida d'um deli;'to , que eu atéllí 
nem suspeitava. As apparencias erão contra mim : 
nem eu deparava com uma palavra que única me 
defendesse. E óra como a trovoada era mui gros- 
sa , assim disparou com teirivel estrondo. 

Creo d'oluiaiiCe', ou o fmgio , que entre mim, 
e o Cavalheiro de S. Jorge versavão occultas 
correspondências , e ate vislas e falias ; e com esse 
pretexto , disftrio em mim toda a violência de seus 
zelos ; e por conseguinte resolveo encerrar-me des- 
piedadamente n'uma masmorra mui funda cavada 
ao picão nas entranhas d' uma rocha , e que era 
somente delle conhecida ; sendo elle o único que 
as lre'vas d'esse horrendo sitio penetrava. Confesso , 
que cada vez que elle ante mim apparecia , e que 
ea punha a vista no sobrecenho de seu rosto , e nos 
olhos que lhe respiravão só furores , assentava já 
ver a morte , que elles me annunciavào. Se a mim 
se avizinhava d'Olmancé , já o susto me congelava •, 
então nem me afloutava a vê-lo, nem a perguntar- 
Ihe pela minima cousa ; só de lhe \êv trazer o meu 
sustento, estremecia eu. Malvado homem ! Como 
examinava avidamente em mim que progre'ssos 
ião fa/cndo os pezai es nos rasgos do meu semblan- 
te! Passados alguns minutos, ei lo que antes pare- 
cia fugir d'esse theatro de Uorrores^ do que arre- 



í 2og ) 
dai-se delle ; e o ruído dos ferrolhos , quô áitida 
ficava longo tempo retinnindo pelo vão das fu- 
néreas abobadas da minha masmorra , avultava 
ainda o espantoso terror , que me causara a sua 
presença. 

De que me valia alli ter nascido de respeitáveis 
Avqs ? de ter sido criada no regaço das Grandezas 
e da Opulência ? Oh quanto eu me inteirava então , 
que -para os desastres não ha asylo ! Que triste ex- 
periência alli tomei! No âmago dos infortúnios é 
que bem se sente a fragilidade das Grandezas hu-* 
manas! Durante as seis semanas, qiie passei na 
minha prisão, nunca d'Oímancé me disse uma 
única palavra-^ e bem assentado tinha eu comigo, 
que não tinha dè mais vêr a claridade do dia , e 
decretada era a fenecer o meu triste infortúnio 
nessa masmorra. As primeiras reflexões dolorosas 
succêderão pouco a pouco, reflexões mais apazi- 
guadas; e se me vinha mostrando a Pxeligiào em 
todo o seu resplendor, a saber, ladead"a de todas 
as consolações , que ella para os míseros reserva ; 
já eu começava a vêr com mansos olhos aquelle 
estado meu; ate' considerava certa brandura em 
o supportar, accostumando-me a olhar para a 
morte , como para o termo de meus padecimentoSi 
Sem sustos a aguardava , como também sem anhé- 
lo ; e sentia a força dessa verdade tão descuidada 
Tom, X. ^ i 



( 210 ) 

hoje no Mundo, que ha um possante Consolador, 
do qual toda ainiquidade dos homens não pude pri- 
var a um desgraçado : tudo roubar-lhe podem , até 
o mesmo ar, que elle respira, mas o Deos que o 
sustém, não. E quem melliór que eu o sabe ? Aos 
olhos dos humanos as entranhas da Terra me es- 
condião , mas não aos olhos Duvinos ; e os últimos 
tempos que passei na cova dos Pyreneos , não 
são os em que sendo a minha vida menos suavi- 
dade. 

Tinha d'01mancé tiazido-me já o meu sustento 
nesse àia, deixára-me ( era uso seu ) sem me dizer 
uma palavra ; nem eu o veria , senão no dia se- 
guinte. . . . Eis , torna a resoar o tinnido dos ferrô- 
liios , ordinários annuncios da sua presença. Es- 
pantci-me da subitanea vlóta : e tive , que enfadado 
de barbaridade tão prolixa, me trazia por cabo a 
morte. Para Deos correrão logo meus pensamentos, 
a pedir-lhe que se apiedasse da pureza de meu 
coração , e me suslivésse o ânimo , nesse difíicil 
passo. Esforcei-me, lancei-me de joelhos, e puz- 
me a esperar o golpe que já sobre mim pendia. 
Abe'rta a porta, entra d'01mancé. Vê-lo, e cahir com 
desmaio foi um só instante. Não sei quanto tempo 
permaneci nesse paroxismo. Sei, que tornando a 
mim , pasmei de vêr-me no meu quarto , e o que 
mais é , nos braços de meu marido. Até cuido que 



I 



( 211 ) 

lhe divisei no rosto uns ares de enternecido. Mas 
que confiança encostar-se pôde nos movimentos 
que transluzem no semblante dos malvados! Qual- 
quer que fosse o aífeito que o animava então , toda' 
via se dignou de ter tal qual cuidado de mim ; e á 
força do sentido , que comigo se teve , me vi , no 
fim de i5 dias em termos de poder erguer-me , e 
supportar os descontos da jornada. O que , apenas 
d'01mancé o percebeo , me disse , quasi , o se- 
guinte. 

» No mediante do rigoroso castigo , que vos acar- 
reara o ultraje, que vós, Senhora, me fizeste, 
tomou diíferente face a minha Fortuna. Pela morte 
de meu Irmão mais velho , me vejo Chefe dos titu- 
los, e brazões da minha familia. Ao decoro da 
minha prosápia , ao meu respeito pessoal, ao amor 
que ao Soberano tenho , e ao splendor da minha 
Casa devo ir apparecer na Corte. Assaz avultado 
sacrifício me custou o meu Hymenêo , para que eu 
delle lucre, que abafeis no peito um amor que me 
deslustra. Confesso-vos , que a interrupção da 
minha vingança a deveis á mudança que na minha 
sorte faz a morte do Duque d^Olmance' : mas quão 
legitimas sejão minhas iras, mais do que a ellas 
devo ainda á minha reputação. Reputação que 
para mitn é tudo : essa em deposito vo-la confio. 
Capacitai-vos que é tal o meu carácter; tomai-o 



( 219. ) 

por nónna : sou cioso; e para o ser, legítimos moti- 
vos tenlío. Cioso por exti'emo , bem o sal)éis vós; 
mas que esse meu ciúme não ressumbre no público, 
Vér-vos-hão ao lado meu, nesse mundo, em que 
vamos apparecer. Assim o re iuér o meu actual 
«stado ; sem que portanto imagineis que dareis 
estorvo ao meus ciúmes j a menor inclinação , as 
mais leves acções terão scverissimo fiscal em mim;, 
nem entreis em dúvida , que acurvada sereis com 
o peso de suspeitas minhas : esse e' o segrado, que 
para mim guardo. Que'ro que nos olhos demostreis 
retratada sempre a Dita , que nelles se engane o 
Público , e veja no laço que nos une , somente fes- 
tões de flores. Estudai modo de passar súl)ito de 
lágrimas á alegria ; a sós comigo , dai-vos a todo o 
vosso pranto : em tal consinto éu ; dai-me com lar- 
gueza os mais odiosos nomes : considerai todavia 
que a menor alteração no rosto, o menor res- 
quício de lágrimas nas faces, o menor queixume 
que soltáes dos lal)ios , é um crime ante meus 
olhos ; e bem sabeis , se eu sei castigar. Eu sou 
assim : vosso tyranno , que'ro que me creia a gente 
o mais amável spôso. Apprendei que o alvo único do 
vosso aíTecto será aquelle de quem nunca arredarei 
os olhos ; nem escoreis na haca invenção de lhe 
fugir da vista , que novo dclicto fora a meu ver , 
e indicara a paixão do meu ciúme , que tanto me 



( ^i3 ) 
interessa encobrir. Estas as minhas ordens; a vós 
toca , Senhora , obedecer a ellas. Preparai-vos, que 
á manlian partimos. » Foi-se ; e eu entreguei-me 
ás mais dolorosas reflexões. 

» E com similhànte monstro me desposarão. 
Desnaturada Màe ! Que mal te fiz ! Porque , oh 
meu Deos , me não cortaste , lá na masmorra , o 
íio á vida ! Não bastava já de prova : cabia-me pois 
ainda mudar de supplicio , para descer á sepultura? 
Então se desatou um jorro de lágrimas, que o 
susto anteparadas tinha, desabafou-se delias o 
coração : alli fiquei por algumas horas , num aba- 
timento , que frisava com a stúpida insensibilidade), 
creio, que sem temores , e sem pezar, ouviria alli a 
sentença da minha morte. Mas veio por cabo ainda 
uma vez a Religião acodir-me , inlimando-me os 
sagrados deveres do matrimonio ; quão sanctos , 
quão extensos seus foros são ; ella é que me deo 
valor para suppoitar o meu destino. Já começarão 
aparecer que minguavào os aggravos de meu mari- 
do, ao ponto que a minha resignação ia em augmen. 
to ; mais digno o cria eu já de compaixão , que de 
opprobrio : e logo voltando a vista ao coração, lá via 
sim a minha innocencia ; mas também lá o funda- 
mento em que estribava meu marido para me ter 
por cubada. Enganei-me á cerca da inclinação que 
eu tinha ao Cavalheiro de S. Jorge , e essa inchna- 



( '^i4 ) 

cão alimentava-a eu , no prazo, em que o dever me 
ordenava de só amar M- d'01mancé. 

Fallava elle do sacrifício que fizera em desposar- 
me. Em que consistia o sacrifício? Não o sabia. Mas 
demos que fosse verdadeiro : certo entào ,que era 
eu um modelo de ingratidão , em apeçonlientar a 
vida a um homem a quem eu devia obrigações que 
elle , por honraria , dissimulava. E desde que 
Spôsa fui, dei eu demostraçôes, que o desviassem 
das noções que á cerca de mim lhe tivessem calado 
na alma ? Por extremo me perseguira , e seria nisso 
mais infeliz que culpado ; visto que examinando- 
me a mim mesma , cm mim descortinava os pri- 
meiros aggravos. Feroz foi a falia que me fez, mas 
descol)ri nella certa franqueza que me contentava. 
Que transluzia nella? Um homem presumpçoso 
de sua reputação, e cubiçoso de a conservar; que 
não podia comtudo vencer certa fraqueza, que 
imperiosamente o avassallava ; assaz generoso toda- 
via para me prevenir á cerca dos pezares que se me 
apparelhavão. Que assim é que uma alma nobre 
imagina nos outros , as aííecções que ella em si 
experimenta. Com uma de tempera tal que a minlia, 
o procedimento que me eu propunha á cerca de 
meu marido, e o esforço que eu meditava, para 
transpassar a elle , quando não fosse o amor, ao 
menos a minha estima , certo era o bom successQ. 



( 2i5) 

Appareceo o Duque , lá pela tarde, a quem eu 
disse:» Talvez me imagináveis indignada contra vós? 
Engano! A. reflexão que fiz á cerca da voss.i índole 
me apaziguou. Não me assustáes , porque fundada 
em minhas máximas, nenhum desejo de enganar^ 
vos tenho. Em mim tendes de achar todo o apego , 
todo o resguardo que tócão á fidelidade d' uma 
Spôsa que tanto como vós preza a vossa reputação. 
O meu procedimento é o único guarda, que eu 
ponho contra os assomos do vosso ciúme ; e quando 
melhor me conhecerdes, esperanças tenho que 
me façáes justiça , qual se me deve : cuidado que 
eu ao Tempo encarre'go ; então descifraréis no 
secreto de meu coração , com que vos evitar , e a 
mim, muitos pezares. » 

Deo sináes de lisonjear^se d'este meu inesperado 
accolhimento. Mas não m'o dissimulo ; não parecia 
o seu contentamento d'um homem de bem ; que 
se teria , com delirio , entregue a todo o extremo 
do amor , em caso tal, um Marido cioso, se virtuo- 
so fosse : ter-me-^hia , naquelle lance , o desatinado 
Ímpeto do seu amor indicado todo o desconcerto 
do seu ciúme j jurado vezes cento não lhe dar mais 
azo algum : então o instante mesmo , em que elle 
se imaginasse mais liberto d'esse ciúme, seria 
quem de mais violento m'o abonasse. Ora , antes 
pelo contrario, nas caricias mesmas de d'01niance\ 



ti^anspirava a desconfiança ; amor nos lábios, o 
nos olhos incertezas ; e a obliqua expressão de 
siia tcnuira , tinha as cures da falsidade completa 
do seu caracter, 

Partimos no dia seguinte , e chegámos a Bordeos, 
onde toda a nossa comitiva nos esperava : por toda 
a estrada lavrou na nossa conversação certo ar de 
confiança que adoçou a dolorosa situação do meu 
spirito. Bem necessitava delia o meu coração I que 
depois de largos tempos só via inimigos rostos. 
Bem suave me havia de parecer , o primeiro mo- 
mento, em que eu achasse n'iíma Sociedade 
aquelle feiticeiro agrado , que a Amizade comsigo 
traz. Bem o sabeis, amigos, se havia mais amável 
sujeito , que M. d'01mancé, quando elle queria, 
Dessse instante me inteirei , quão pouco me 
houvera custado a amá-lo se continuasse para 
comigo esse procedei^ de então , e ([ue m'o 
Tião houveVa promptamente levado a Morte 



Eiii quanto o Duque me presentava na Corte, 
e nas brilhantes assembléas da Caiital, andava 
aprestando o Céo o dcscol)rimento da minha in- 
nocencia , e deslindava o faial tecido , que me tinhít 
roubado o materno coração. Qiiasi sempre morava 



í" 217 ) 

nas suas fazendas , habituado abi depois de largos 
annos o Marquez de S. Jorge •, ora tendo elle ag- 
gregado alguns vizinbos , e também os dous fidal- 
gos M.i"* d'Herceville , ( que assistirão ao meu des- 
posorio ) para celebrarem a festa de S*°. Huberto ; 
como depois de tempos andassem minados de fur- 
tivos caçadores , seus domínios , e elle amasse a 
caça , e desejasse dar com ella regozijo a seus ami- 
gos, para o que tinha recommendado a seus Guardas 
dobrada vigilância ; pois que vários castigos que a 
muitos d'esses furtivos caçadores dera, dado que co- 
lhidos de improviso os desarmara , não refrearão o 
desaforo dos outros; agastado do contrario eífeito da 
sua clemência ordenou o Marquez, que sem commi- 
seração alguma prendessem o primeiro que se lhes 
DÍferecesse , e o commettessem ao rigor das leis : 
ordens que punctualmente executadas fôrão. Para 
o divertimento da caça de S.^° Huberto foi designa- 
do certo sitio , em cujo punhão então os Guardas 
attenção maior. Todos estavão de vigia. Na véspe- 
ra de todos os Sanctos á noite , imaginarão os furti- 
vos caçadores, que podcrião a favor do escuro, 
se apposar d' alguma caça , que abundante abi 
juntada tinhão •, lá se fôrão. Mas os Guardas os 
saltearão ; eis que fogem 5 correm os Guafdas apóz 
elles ; e como os não alcançassem , vindo já arre- 
piando caminho, vêm um homem que se lhes 



( 2l8 ) 

furtava do encontro , 7 rendem-o , e levão-o ao 
solar onde o encerrão vigilantes, até que se êrgua 
o Marquez , para llie darem conta do succedido 
naquella noite, e tomarem conseguintemente as 
suas oídens. 

Quiz o Marquez ver o preso , que então curtia 
violenta fe'bre ; chama-se o Cliirugião , que declara , 
que é mui perigosa a moléstia ; e em tanto pede o 
enfermo que o deixem íallar com o Marquez em 
particular; e quando se virão sós, lhe diz assim; 
» Sinto , Senhor, cm mim , que a doença que tenho 
é mortal ; pelo que , ao menos que'ro approveitar 
o pouco prazo , que da vida me resta , reparando 
o mal que fiz , e evitar o castigo , que Deos para as 
culpas guarda. Bem podeVa eu dizer que innocente 
causa fui do mal que se causou. Desculpa van ! 
Que se os Grandes não deparassem com almas 
servis, que se sujestão ás suas iniquidades, menos 
trivial fora no mundo o crime. Qual me vedes , 
fui eu quem lançou a afíliçào numa família da 
primeira plana ; verti amarguras no íio de seus 
dias ; entregando a Filha da Casa , nas mãos d' um 
hypócrita , e fazendo ao senhor Cavalheiro filho 
vosso a aíTronta mais insigne , que receber pôde um 
homem cheio de virtudes. » 

Emmudeceo attónito o INIarquez, que tal caso 
inopinado ouvio , téque tornado a si da torvaçã» 



( 219 ) 

em que esse homem o lançou , o empenhou com 
piedosa bondade , a que merecesse a sua pro- 
tecção e beneficio , e ate' ainda o seu perdão , no 
caso , que delle carecesse , não lhe dissimulando 
nenhuma circumstancia dos delictos , de que se 
accusava — » Por mui agradecido me confesso 
a tanta bondade , ( disse o doente ) mas , se eu não 
devera aos remorsos , que me despedaçào , a decla- 
ração , que me pedis , não ha hi promessas , que 
m'a arrancassem. Que muito experimentado tenho 
quanto ha que fundar em promessas de grandes 
fidalgos. Tlipsouros vos oíTerecem , quando tem de 
vós alguma dependência ; serviste-os? Ditosos sois ; 
se o mais que delles tendes que temer é ingratidão , 
e esque'cimento 1 A confiança que fundei na pala- 
vra d'um Grande , me despenhou no abysmo do 
crime : mereci o que padeço ; mas adquiri também 
direito de não me íiar em carinhos de homens po- 
derosos. M 

Então contou esse desgraçado quanto aconteceo 
na Quinta d'Estanges , para obrigar minha Mãe 
a me entregar nas mãos do pe'rfido d^Olmancé : e 
tendo tudo ditto, exclamou : » Reconhecei em mim 
o ministro , o vil lacaio , que se encarregou de 
passar pelo Cavalheiro vosso filho, para pôr remate 
á perdição e deshonra da creatura mais virtuosa. » 
Gritou horrorisado o Marquez de S. Jorge j e pôz- 



( 110 ) 

SC a admirar os segredos da Providoncia , que dea- 
liizinJo todos os cálculos humanos, d'uiTi gilpe 
de envolve quanto parecia deposto a ficar sepul- 
tado [ara sempre; c que a miú<lo folga de vislum- 
brar com a Verdade nos óllios do criminoso , nesse 
mesmo instante de liorrorcs, em que elle mais teme 
o seu castigo : e como entendesse cjuanto devia 
interessar-me a declaração d'esse homem , manda 
chamar M'». de Herceville , e o Cura-, e porqiie se 
dé fornia legal á deposição do niori!)undo , faz que 
a escieva a Bailio de sua alta justiça. 

Juntos alli todos , manda ao doente que repita , 
e indiviflúe o que se passara, na turbulenta noite, 
qnc consummou a minha ruína : e logo continuou 
dizendo , » Quando me baqueei da sacada de 
Mademoisella d'Estanges , facij me foi entrar na 
Casa, que mui revolta então andava. Entro no 
quarto de meu Amo : e oh com quanta alegria vio , 
pela minha volta assegurado o seu segredo! Na 
seguinte noite se concluio o matrimonio, e 5o lui- 
zes íôião o primeiro penhor da recompensa pro- 
mettida. 

Os primeiros symptomas da doença que amea- 
çava M''''. dOlmance , ndianttírão a partida de seu 
marido, e foi no dia subsequente ao casamento; 
tendo pass >do ttxla a manlinn da véspera da parti- 
da a escrever Cartas, e a dar as ordens necessárias» 



( a-íi ) 
em similliante circumstancia. Como a Casa toda 
andava ainda em confusão , via-se por muitas vezes 
forçado a sahir do quarto ; e eu levado de certo 
impulso , mui ordinário em Criados, lancei , n'uma 
dessas ausências de meu Amo , os olhos a uma 
Carta acabada de escrever, mas não ainda fecha- 
das... Como pasmei , quando vi que nella pedia 
M. d'01mancé ao Ministro de Ectado, ordem de 
reclusão perpe'tua! e para quem? Para mim! A. pri- 
meira ideia de vingança, que me veio foi a de ir 
tudo patentear a M*^*. d'Estanges : mas considerei 
logo , que concluido uma vez o casamento, me não 
dariào ouvidos; pelo que renunciei ao projecto. Dis- 
simulei. Tornou a entrar M. d'01mancé , fechou as 
Cartas , deo-m'as a deitar no Correio j não dera elle 
tino da minha curiosidade ; e bem imaglnáes qual 
dessas Cartas eu supprimi. 

Foi-me o acaso de valia. Como M. d'01mancé 
queria occultar a todos o sitio em que ia emparedar 
asuaSpósa, partio só com cHm , e toda a criada- 
gem ficou na Quinta; o que me deo azo de evadir- 
me. Da minha fuga recresceo a meu Amo algum 
dcsasocego, quando de volta á Quinta o soube; 
mas teve por prudência, não me dar caca , receioso 
que seu rigoroso proceder me não abrisse a bôcca , 
e vasasse os segredos que tanto lhe importava enco- 
bri-los. Ora ^ em breve espaço foi dispendido o di- 



C ■ri'2 ) 
nlieiío que eu tialia,e vendo-me sem regresso , c 
sem poder sahir desta te'na , lancei-me com esses 
furtivos caçadores ; e ainda por bem , que me não 
lancei com salteadores : um homem que como eu 
não bebera máximas de probidade , podia dar 
n'uns , como nos outros. Compadeceo-se o Céo de 
mim , por que escapasse ao horror de morrer num 
patíbulo. Ai! que não tenha eu por testemunhas da 
minha morte essa mísera classe de homens , que a 
necessidade, ou a perguiça accommoda ao serviço 
dos Grandes! Que lição tomarião em mim! Como 
verião onde os conduz a condescendência , que 
com suas paixões temos ! » 

Mandou M. de S. Jorge tirar auto da deposição 
d'esse homem , que testemunhas assinarão ; e logo 
o remetteo a minha Mãe. Não se enganara o furtivo 
caçador, á cerca da sua sorte, que empeiorou a 
doença , e em poucos dias morreo. Affigurai-vos , 
AmigoSi, que pezares para minha Mãe, quando leo 
tal deposição. Mil vezes esteve súbito a vir lançar- 
se-me nos braços , e deslembrar-se no seio de sua 
filha dos cruéis instantes, que lhe fez passar o meu 
supposto delicto. Mas essa vinda fora então impru- 
dência nclla. Como depois que voltámos a Paris 
me tratava com tanta brandura o Duque, que fazia 
com que eu me esque'cêsse de seus ciúmes, tam- 
bém eu , por lhe comprazer , de tudo lhe fazia sa- 



( 123 ) 

criíicio; e se completamente me não dava por di- 
tosa, ao menos o parecia : e minha Mãe, se ella 
nesse tempo cedesse ao abalo de seu peito, entra- 
ria, sem se poder dispensar disso , em explicações 
comigo; com que faria, que meu marido desca- 
hisse da estima, em que eu o tinha , e por tanto me 
empeçonhentaria os dias da vida. Alem de que , 
como acabaria ella comsigo , supportar a vista d'um 
monstro , que tão indignamente abusara da con- 
fiança , com que ella o honrava , para armar-Se 
a ser seu genro ? Assim que , remetteo a prazo mais 
favorável o reconciliar-se comigo. Ai mísera de 
mim! Bastou-lhe um instante para me dar ao sacrifí- 
cio •, e necessitavão-lhe annos , para me fechar a 
chaga , que me fizera ! Amigos , assim calculào os 
homens os aíTeitos que lhes lavrão na alma. E pois 
verdade que só para a Virtude é que ha estorvos ? 
Minha Mãe , de mal prevenida , travou repentina 
o meu supplicio , que prolongou depois prevenção 
nova. E quem dirá , que foi , nossas duas situações , 
a minha felicidade quem lhe dava a resolução ? 
Assim acontecerá sempre, quando pela nossa 
opinião , quizermos pautar a felicidade alheia. 

Descoberta, havia um mez , a atrocidade de 
d'01mancé , teve elle precisão de ir a Versalhes ; e 
partio ás q da noite. A 200 passos da ponte de 
Sévres, disparão uma pistola, lá da estrada, e o 



( 3^4 ) 

tiro quebra 'o vidro da carruagem , e lhe entra no 
coração, duas pollegadas abaixo do orifício delle. 
Assustão-se os Criados ; e em vez de correr a apa- 
nhar o homicida (quem sabe, se medrosos? ) vol- 
táo re'dèas á dcsíllada para Paris, e me remettem o 
Amo , hivado em sangue. Sabidos são de vós os 
boatos que enlão correrão , e quanto aporfiou o 
Púbhco em crer que d'um duelo viera a ferida. O 
homicidio é nada menos verdadeiro) mas como na 
sentido vulgar due'lo e' mais nobre que homicidio ^ 
discorrem que n^um homem de distincção, ate' a 
luórte ha-de lograr titulos da nobreza. 

Declararão mortal a ferida os Chirurgiões : assim, 
mandou logo o Duque , no dia seguinte chamar o 
seu Tabellião, que recolheo por escripto as suas 
ultimas vontades. Ainda que as eu ignorava, me 
deslemlirei inteiramente dos pezares que elle me 
deo j para somente me lembrar dos deveres de 
Si ôsa , nesses cruéis instantes em que eu o via ir-se 
avizinhando á sepultura. Empenhei ( baldadamente^ 
todos os meus desvelos, que o não arrancarão á 
fouce da morte : que empeiorou de modo no quinto 
dia , e ainda mais ao septimo que decidio a facul- 
dade de Medicina perdidas as esperanças. Sentença 
que elle escuto u comvalor constante. 

No oitavo dia acenoií-me que despedisse quantos 
estavão no quarto , e que chegasse ao pé do leito > 



( 2^x5 ) 
apertou-me a mão; e com vóz fraca, me fallou 
assim : » Senhora , a quem tão ardentemente amei; 
Senhora , adeos , com pezar me aparto para sem- 
pre de vós. Esquécei-vos , pe'ço , dos tormentos que 
padecer vos fiz nos primeiros tempos da união 
nossa. Concurso de horrendas circumstancias me 
constrangeo a ser comvosco injusto; mas logo, que 
conheci a vossa innoccncia , forcejei pelo termo 
de proceder convosco , de carear ( ao menos ) a 
vossa estima , pois que o vosso amor não havia ahi 
pretende-lo. Perdoai aos meus zelos extremosos, os 
ultrajes , que vos fiz : e ficai certa , que em todas as 
circumstancias, sempre era a vossa felicidade quem 
me occupava de continuo. Não duvido que não 
amaldiçoásseis a miúdo, o laço que á minha pessoa 
vos unia ; mas esse laço , roto será daqui a curto 
prazo ; e levo abono certo , que dareis bênçãos á 
minha lembrança ; lançai no esque'cimento o meu 
primeiro proceder , recordai somente o que depois 
continuei. Pensai quanto me custastes vós , porciue 
vos ressintáes do sacrifício , que a Honra me orde- 
nou que fizesse a respeito vosso ». 

Que dissimulação , oh Amigos caros ! Que dissi- 
mulação , nos umbráes mesmos já da morte! Foi 
continuando assim : » Em vosso favor dispuz já de 
todos os meus bens ; e o testamento vai tal , que vos 
dá azo a seguir os movimentos do vosso coração ; 
Toiíu X. i5 ' 



( iiG ) 
sei qnáes vossas máximas são, e quanta reclidâo ha 
nellas. Sede feliz-, que táessão os últimos votos que 
fonua *iuem se deo poi" mui ditoso de ser vosso 
IMarido. » Duas horas depois que assim fallou , 
perdeo a vida. 

A lui vos confesso, Amigos, que essa morte me 
desatou um lio de pranto. Ah! e como ignorava eu 
ain ia então, que ainda alem da sepultura, a poli- 
tica de meu marido daria prestadias mãos ao seu 
ciúme 1 Só conheci a «juanto se estendia , ao ahrir 
do testamento. Bem conhecia o monstro o melindre 
de minhas máximas , e esse foi o motivo de me ins- 
tituir legatária universal ; ^concebeo que nào me 
deixando senão o que por ordinária lei me per- 
tencia , ficava eu desembargada e livre de dispor de 
minha vontade, e essa liberdade é a que elle quiz 
ainda conservar presa. Esse donativo immenso au- 
torisa-o o costume (i) do sido, .onde existem os 
bens de M. d'Olmancé : e ora as clausulas do testa- 
mento são, que no caso que eu torne a casar, os 
dous terços dos bens de M. d'Olmancé pertencerão 
aos iiliios <iue eu tiver dessas segundas núpcias ; e o 
outro terço passaiá aos herdeiros delle. Assim qurz , 



(i) Certaln droit municipal , qul s'étant autorisé par 
Tusage et i)ar la commuue pratique (1'une ville , d'une 
province, ou d'un canton, y tient Ueu , et a force de loi. 



C 2a: ) 
pela riqueza de seus donativos, captivar o Duque 
a pública estiiiiaoão, e pela gratidão , forçar-me ao 
silencio ; ou quando menos desluzir um tanto a 
realidade de minhas queixas contra elle. Por esse 
estrondoso sinal do seu amor, commetteo elle uma 
injustiça, pois que privou seu sohriniio d'uma lie- 
rança , a que elle tinha mui sagrado direito; e com 
inditíerença a comaietteo, porque nella contentava 
o seu ciúme : contentamento que lhe fez mais 
força , que a rectidão ( virtude ç^ue elle nunca co- 
nhecera ) e que a suave satisfação de fazer bem , de 
cuja nunca elle soube avaliar o preço. Amigos não 
lhe exaggerei o retrato ; talvez que o favoreci mais 
do que eu devia ao meu ressentimento. 
• Em que estado me vejo ! Se, Dor desgi-aça minha 
declarào por valioso o testamento^ pão posso ( sem 
que nos olhos do Público me desdoure ) renunciar 
aos bens que me são legados. Dir-se-hia, que esse 
deixamento era um deliriò meu que orsava por 
esses das. Novellas. E posso eu transpassar a mãos 
alheias, bens, aos quaes ella não tem nenh; m 
direito? ]Nào; que infiel eu fora ás intenções de 
jM. dOlmancé, Conserva los-hei então a quem elles 
pertencem , sendo sua depo^ital•ia somente : e esse 
deposito, Amigos, de conservá-lo tenho a quem 
elle toca : por minha morte havé-lo-ha intacto. 
Lográ-lo-ha tardio : e se contra mim se agasta, 



( 228 ) 

Culpe antes o seu Parente, que não a mim. Alem 
de ((lie , não anda tão arredada , como o cuidào,de 
mim a morte. Nas azas dos pezares , voa mui rápida 
a velhice. E eu sou inconlrastavel nas máximas 
que adopto, quando a razão, e prolixas reflexões 
me informarão de sua equidade. O que só te'mo é , 
que me persigão ; o muito que se interessão por uni 
amigo dá seve'ros visos á resolução tomada; já 
combatem contra ella ; já acodem á persuasão , 
quando , pelo respeito que tem á pessoa , a não 
accommettem com motejos. Esses combates são os 
que trato de evitar. E óra , Amigos meus , vós 
sois os únicos a quem esta minha relação confio. 
Que Dama te^w sido mais infeliz do que eu ? Des- 
graçada Spôsa , Yiúva escrava , eis-me condemnada 
a vêr de continuo a honra oppôr os rigores seus ás 
brandas inclinações de meu peito. Hymenêo foi 
causa que aífogasse na alma o amor que eu tinha ; 
a viuvez , que a todas 'as mulhe'res restitue a li- 
berdade , fez para mim laços de ferro , com que 
me prende ás inanimadas cinzas do meu persegui- 
dor; e a única pessoa, que sem tingir de pejo o 
meu semblante , podia quebrar essa hórrida ca- 
deia , com que meu Spôso, ainda lá do seu jazigo 
me tem presa , é o único, a cuja cerca, experimento 
inconquistavel repugnância. 



f 2'20 ) 

O Commendador, M. e M*^*. de Semlane, e INI'*, de 
S. Peres que- ouvirão com a attenção mais fixa o 
que acabava a Duqueza de contar, orvalhárão de 
lágrimas os padecimentos que ella supportára ; sem 
comtudo se persuadirem que fosse tão culpado á 
cerca delia como se dizia , o Duque d'01mancé. 
Mas que dúvidas lhe pôr ? A deposição do Caçador 
furtivo , as assinaturas , a irrevogável sancçào dos 
Herceville, do Marquez, do Cura, e do Bailio, 
as palavras formáes de M"*". d'Estanges... Quantos 
argumentos fazião "força ao spirito para que adop- 
tasse o que o coração estava repeliindo ! Hvpocri' 
sia similhante , que elles tinlião pelo mais feio dos 
vicios , não podião dar-lhe assenso : e que Hypocri- 
sia ! Dissimular 5o annos o crime cjue fermentava 
na alma ; é o engenho e traças de atroce corrupção; 
disfarçá-la com o apparente exercício de todas as 
virtudes!.. Por algum canto se descobre sempre a 
gangrena do coração ; e óra , o pi'Oceder do Duque 
d'01mancé , nem um instante se desmentira ante 
j^eus olhos. 

Não tiverão por bem impugnar o desditoso amor 
que ella empregava no Cavalheiro de S. Jorge j mas 
enleava-os o pouco empenho que , na viuvez da Du- 
queza tinha demostrado; que não parecia natural, 
que se tivesse quedo , se ainda algum amor lhe 
tinha. Suspeitavão que essa infeliz Senhora se des- 



(íi3o ) 
lumljrava no amor do Clavalliciíx). Neste pensa- 
mento se despediíão delia , firaiemenle resolutos a 
doscoliiir onde se ausentáia o Cavalheiro, e son- 
dar , e arrancar-llie em fim do seio o arcano do 
seu amor, ou senão o da sua indiíTeiença a respeito 
d*^ M***. d'Olmancé. Conhecia o Conimendador ao 
Marquez d'Crfai , com quem tinha e treita amizade 
o Cavalheiro; e logo no dia seguinte , lhe escreveo 
que lhe viesse fallar, o que o jMarquez súbito cuni- 
prio, pelo muito que ternamente venerava o Com- 
mendadur. 

Passados os primeiros abraços , lhe disse M. dc 
Selville:» ÍNleu caro dUrfai , tendes de fazer-me 
um importante serviço. — » Disponde de mim. — 
» Conheceis ô Cavalheiro de 5. Jorge ! — » Titulo é 
de que eu me houro. — Onde se acha agora? — Em 
JNlalta ; íiiida as suas Caravanas, e vai pronunciar os 
últimos votos. — Muito me espanto; que lortes ra- 
zões tenho , para crer que ce'rta aííéição occulta se 
oppunha a similhante resolução. — JNão vos enga- 
náes , Senhor Commendador ; o Cavalheiro de 
S. Jorge adora amaisbella, a mais xiiluosa Dama... 
Vós a conheceis , nem poderião meus iorvores ac- 
crescer um átomo ás raras virtudes que a disiin- 
guP'i. — Creio que indicáes lá a Duquí^^za d'Ol- 
mancé ? — Klla mesma ; ([ue aqui trago eu na Car- 
teira , a Carta , que antes de partir para Malta me 



( 23i ) 
escreveo o Cavalheiro : léJe-a , e colhereis delia ,' 
quão violento é o amor do meu Amigo, e quanta é 
sua fineza. 

Leo o Commendador a Carta , que dizia : » Sim 
querido iVIarrjuez ; eu parto. V ou cumprir o tão re- 
tardado sacrifício , que de mini reque'r a minha fa- 
mília. Cerrou se pois toda a esperança minha? Que 
fiz eu era a tornar a ver ! Que imprudência ! Ir ainda 
beber a peçonha que me consume ! E bebê-la a 
golpes largos ! Esvaeceo-se o remédio. Só lagrimas... 
só a morte... Desgraçado de mim ! são as que me 
re.itão. Quem se negai ia ao contentamento de a tor^ 
nar a vêr 1 De ainda ouvir aquella encantadora vóz , 
que desde os meus primeiros annos me captivou. 
Desconhecida lôrça me impellia a vê-la. E 'que 
abalo , oh Ce'ol oh meu Amigo, me não deo na 
alma ! Oh feliz prazo da nossa infância , como se 
me afíiguraste alii ! Que ciirto foste ! Porque não 
tinha eu nessa infância, esta alma toda ardores, que 
hoje me abraza! Então lhe dissera, a cada instante 
do dia, quanto eu a amava , qi;anto eu a adorava ! A 
minha pouca iviade levaria o perdão comsigo. Muito 
a amava eu já desde então : mas liôje... Oh ! que a 
12 annos ninguém sabe amar ! O tempo da infância 
é um roubo que a Isalureza fez a uma alma que 
iiasceo sensível! 

Inúteis pezares 1 Entre ella e mim vou pôr de eu- 



( 23a ) 
contro immensos mares , e logo solemnps votos es- 
torvarão... Poderei eu pronunciá-los, esses votos 
despiedados, que tem de apagar em mim a única 
chamnía que consola , que alimenta o homem no 
desamparo, na miséria de seus males?.. Oh Espe- 
rança! Tem de ser. Tcnte-se ao menos, se os brados 
do Dever são mais poderosos que a vóz da Natu- 
reza. Essa esperança que me nutre, e a quem dá 
pábulo a minha loucura, e' chymerica esperança. 
Ponhamos entre o meu coração, e ella uma insu- 
puravcl ])arreira... m^ttâraos as derradeiras forças. 
E se ella me amasse ! Todo o meu sangue , toda 
esta minha vida eu dera , por lograr dessa ventura. 

Mas: desejos vãos! Sou-lhe indiííerenle Parto. 

Afíligir-lhe eu o coração, retratando o meu amor! 
a ella que é tão sensivel !.. Tingir-lhe de amargura 
os fios da vida , não lhe descorando as máximas de 
seu recato I . . Fuja-se. 

Dez mezes passei junto delia ! Mas que rápidos 
voavão ! Vinte vezes , mil vezes se me quiz despe- 
gar dos lábios o segredo. Se ella , oh meu querido 
Amigo, houvera castigado com enfados seus essa 
minha imprudente temeridade , ficaria eu com 
vida ? Eu com a ver me deleitava quando menos ; 
que tem sua doçura esse estado ; mormente , 
olhando-mc ella , c não se irando de me vêr. Que 
incógnito poder é esse, que todos os passos enca- 



U 



( 233 ) 
minlia para o objecto, que nos conquistou ? Xão 
de've pois amar aquelle que quizer livremente 
profeiir que elle ama ? Vê-la-liás essa adorável 
Senhora : não a conheces ; mas se a vês , tens de 
logo conhecê-la ; porque nada ha neste Universo 
de mais formosura , de mais caroavel , de mais 
discrição , de mais sensivel : todo o homem que 
delia ouvir , tem , mal a vir, de dizer — E ella — Del- 
ia me falia , e de continuo , delia ; só com ella eu 
depare em tuas Cartas : affigura-me quanto eu per- 
co — e morra eu de mágoa ». 

Lida a caria , disse o Commendador : » A.d- 
miro o generoso proceder do vosso amigo : infini- 
tamente nobre é o sacrifício que elle faz. JNão o 
desculpo todavia de não ter explicado á Duqueza 
as intenções que á cerca delia tinha : estranho- 
Ihe esse proceder. — E suspeitáes vós, que M.*^* 
d'01mancé se inclinasse ao meu Amigo ? Tenho 
de confessar-vos , que muito me pêza , ([ue o 
Cavalheiro não se quize'sse confiar de mim. 
Ainda que passou alguns tempos em minha ca- 
sa , quando lá assistia a Duqueza, ( por que 
eu dantes não o conhecia ) não ])astào alguns 
mezes para entrar no interior d'uma pessoa ; 
só lhe conheci a casca , e essa me pareceo san , 
e boa: mas ide por esses bosques, vereis troncos 
cuja casca promelte scvidos de vida , e dihi a 



( 234 ) 

um qnarlo d'liora , ei-lo o carvallio que desaba 
sohre rai/es carcomida'^. — É verdade , scnlior 
Conimendador, que das Artes a mais diíTicil e' a 
de conhecer os homens: mas conheço conpleta- 
mente o coração do cavalheiro de S.- Jorge, que 
é o mais puro, o mais sensivel , e o mais di- 
gno da estimação dos homens de he\n. — 

Depois que o Marquez dXlrlai partio , ficou o 
Commendador , esse iespeita\el ancião reflectindo 
nos meios t{ue emi^regaria para empenhiir o Ca- 
valheiro a deixíir INialta, e voltar a Paris. « Se 
elle é digno de Madama d'OImancé (dizia elle com- 
sigo ) por jue se de hão ocparar dous corações ,que 
parece , que o Amor e a virtude tem unidos ? 
Porque se privaria a minha digna Amiga da fe- 
licidade de consociar o seu destino com o do 
único liomem qne a pude faxcr períeitamente 
venturosa? « Psa pleria dcteruinação pois de em- 
penlií.r os seus po ;êr(S em unir os dous Aman- 
tes, resolve-se a esclarecer certas duvidas que elle 
não podia descartar do ânimo ; e que bem a pe- 
zar seu r tornavão a enfrar nella ; e esclareci- 
das ellas , por seriamente o peito ao complemento 
dos desposoiios de Cavalheno de S. -Jorge com 
a Duqueza dOlmancé. 

Tinha- se eml)arcado para Malta o Cavalheiro 
de S. Jorge j mus na altura do Cabo de Espaitel, 



( sS^Í ) 
uma Fragata Inglcza, clmmaclaWorcTiester, investio 
com o navio em f\m elle ia , e o tomou. Com- 
mandava a tal íragata Milord Stanley , niôço de 
ol)ra de uS annos; e camo a guerra, p >r grande 
desgraça nossa , justifica a atrocidade dos com- 
bates , pôde hem ennoljrecer-se pela generosidade- 
nas acções delia. Em despeito da disciplina, que 
elle fazia , que a bordo se observasse , não poude 
elle tolher que o Cavalheiro de S. Jorge não pas- 
sasse pelos direitos do vencedor , e qr.e nos pri- 
meiros instantes de confusão, o não despojassem 
os da equipagem da fiagata. Mas logo que aquie- 
tada a desordem ( que anda inseparável com a 
victoria ) deo lugar ao socêgo, cuidou Milord em 
cumprir com o dever, que lhe impunha a hu- 
manidade, indo visitar os prisioneiros. Nem poude 
ver o Cavalheiro de S. Jorge , seai que por elle 
se interessasse vivamente ; e como , com attenção 
seguida o examinasse por alguns dias, conheceo 
nelle quanto era necessário para conquistar von- 
tades , e não tardou muito que no seu próprio 
coração não advertisse que entrava de meias no 
caso , que por honraria sua fazia bizair imenle 
dos mais prisio eiros. De primeiro attribuio á 
perda da liberdade e do que trazia de mai> va- 
lioso as sombras de tristeza profunda que l!ie vi- 
nhão do peito. Esses cuidados do atiiigido Cava- 



( 236 ) 
llieiro ciliciou o Loi-J em dissipá-los súbito, compre- 
hendendo na partilha que da preza lhe cal)ia , o des- 
pojo tio Cavalheiro; (hmdo-lhe ao mesmo passo 
a segurança que apenas chegado a Inglaterra , ap- 
pressaiia o escamWo delle. 

Bem percebeo Milord Slanley que nem o be- 
neficio com que o penhorou, nem a promessa 
da mais próxima liberdade ameigarão a torvação 
que despedaçava o coração do Cavalheiro; antes 
cuidou que devisava mais nellc certo caracter in- 
quie'to e violento , que paixão profunda. O que 
a cerca delle Stanley obrara, adquiria direitos á 
confiança ; sendo moço , mais promettia indul- 
gência que severidade , o verdor de seus annos : 
assim lhe instou com viveza, que com elle se 
abrisse. Repugnou o Cavalheiro , e deo nessa re- 
pugnância motivo a snspcitar-se , que pcccava em 
feito vergonhoso a confidencia , que delle recla- 
mava o Lord. Pelo que , este dava demonstrações 
de ser mais relaxado, do que austero em sua mo- 
ralidade, convencido que para ganhara confiança 
de qualquer, rei e'va demonstrar-lhe parecenças com 
o génio ; e surtio-lhe esse meio mui bem. 'Confes- 
sou-Uie o Cavalheiro, que o único pezar que o 
consumia era a perda d'um sobretudo , de cujo o 
tinlião os marinheiros despojado; por quanto na 
enlrecoslura delle sc enccrravão papéis numa Car- 



( ^37 ) 
teira , que erão para elle de importância sunima ; 
e que o pezar , que lhe empeçonhentava o socêgo 
do ânimo , era o susto , que se vulgarisasse o se- 
gredo que esses pape'is coutinhão. 

Deo logo Milord Stanley apertadas ordens, por 
que se lhe entregasse o so])retudo: trazido este , 
e dado ao marinheiro o valor delle ; por saber se 
era verdade o que lhe disseVa o Cavalheiro , busca 
a carteira , e dando com ella no assinalado entre- 
forro , acode a lhe dar parte de bom achado. Allí 
se deo o Cavalheiro á mais solta alegria pela boa 
nova , nem deparava com phrases assaz expres- 
sivas da gratidão devida ao generoso Milord. Já aco- 
dia com a mão a receber a Carteira, ({uando Stan- 
ley lhe declarou que lhe era impossível entregar- 
lh'a. — Como assim! Vos me negáes, Milord , a 
Carteira de que depende a felicidade, e o descanso 
da minha vida? — Cavalheiro, assim éque tenho eu 
a regalia de dispor do que vos pertence, mas da Car- 
teira não : porque todos os papéis ( e vós o sabeis 
muito bem), que se achão em Navio tomado , dev.em 
ser enviados ao Ministro, porque elle os examine 
antes que os entregue. — Pelos poderes do Ce'o 
Milord , dai-rae esses papéis, se não quereis que eu 
seja o mais desgraçado dos homens todos. 

Como resistisse Stanley em liros entregar , lança- 
do o Cavalheiro nos transcj da desesperação , íazia 



( 9.3R ) 

exfravaííDncins mil , queria se mattar : de maneira, 
que se vio o Commnnlante no caso de lhe pôr 
giiarJas á vista, j^ara o remir dos excessos da sua 
violência. Chegado apenas a Inglaterra , tratou 
Stanley (íiel á sua promessa) do escauibio do Ca- 
vaílieiro , e o ti ansjioz em França. Foi a primeira 
intenção de Milord entregar logo ao Ministio os 
papéis da Carteira ; mas também a segundo de ver 
primeiro o que co:itinhão: bem via elle que era 
desattento ; m;:s (|uasi como a seu máo grado resis- 
tir não ponde a sen curioso desejo. Gelava-se-lhe 
o coração ao lê-los ... » Que nions'ro ! E escondia- 
se( gritava alli o Loí\l ) uma alma tão atroz , n um 
tão formoso rosto , e n'um apparencia de todas as 
virtudes! Vi-o, e amei-o. Oh quão suave me fôru 
podcr-lhe conservar ainda esse mesmo affecto ! 

Sobre o partido que tomar devia nesse lance , 
reílectio Milord maduramente : como os papéis em 
nada se refcrião á causa do Estado, teve por bem, 
que sem ser infiel ao seu Rei , os podia reter com- 
sigo. Enlregá-los ao Ministro era arruinar o Cava- 
lheiro de S. Jorge; queimá-los, ou remeltê-los ao 
culpado , era ser complice no delicto. Tomou pois 
o partido , que lhe inspirou a geneiosa humani- 
dade ; que temos de convir que a equidade não. 
Ouvira muitas vezes o Cavalheiro fallarno Marquez 
d^Urfai; e pelos informes que tomou á cerca do 



( ^3o ) 
caracter e costumes d'esse fidalgo francez , soube 
que possuía a consideração , e estima das pessoas 
de bem ; disse então comsigo : « O Cavalheiro de 
S. Jorge é mancebo; é d' uma familia distincta; 
cuidemos em lhe encobrir a (\ue o empuxarão as 
paixões dessa idade ; e dado que difficil nos pareça 
a cura , não desesperemos delia. Tanto mais que 
me convida a probidade a que eu vigie a desven- 
turosa víctima de suas maquinações. O Cavalheiro, 
que não sabe o meu designio, tem de tremer 
do uso que eu da Carteira fazer posso: já o susto, 
(nessa incer eza ) é uma lição forte que lhe pode 
semear remorsos na alma , que sejão precursores 
d'um verdadeiro arrependimento. 



Tinha o Commendador annuncindo a M'^^ d'01- 
mancé, que lhe era indispensável o fazer certa jor- 
nada; o que dava grão pezar á Duqueza , em se 
ver privada do seu respeitável Amigo ; e at«: M*^*, 
de Séaiiane admirada dessa sub tanea partida , se 
deo por altamente agastada , que a não houvesse o 
Commendador prevenido ; e como soube , que par- 
tira para os seus Paços de Selville , consolava a sua 
amiga dOlmancé , acconselhando-a que a ess*" ns- 
pcitavel Ancião despachasse correio traz corre o, 
ate que cansado de tanta caria sua, tomasse a re^ 



( ajo ) 
solução de voltar á sua companhia. — Não com- 
prebendo, querida Se'miane, tal-.leveza, e tal desa- 
lento como o teu : atormentar com cartas o nosso 
Amigo, ate' que venha , e' reílectir mal. Serão do- 
vjiosas as tuas cartas , e o Gommendador , por 
haver mais quantia delias , estenderá a ausên- 
cia. — Esse cumprimento, minha amável Amiga, 
me lisonjêa muito , mas não me logra : não queVes 
que lhe escreva, mas perdes o feitio ; porque desde 
o dia , em que nos relataste teus infortúnios , es- 
talo de impaciência de conversar com o amado 
Gommendador ; e esse implacável homem deshu- 
manamente de mim foge. Oh que me não liei-de 
privar de lhe verter na alma os meus mais mimosos 

pensamentos: tenho segredos Sim, segredos 

que coníiar-lhe quero , e tu não os has-de saber : 
tudo quanto tentares a esse eííeito será vão. — So- 
céga-te , Marqueza ; que não que'ro pôr em pro- 
vanças a tua amizade. — Dizes-me isso com um 
tom tão serio , que te eu dera por agastada. — Mal 
me conheces. Agastada ? nem por sombras. — Nes- 
se caso , com licença tua , vou-me pôr a escrever 
lá no teu. gabinete. Promette-me que me não hás 
de inquietar, nem querer salier o que eu es- 
crevo. — Promctto. — M. de Semiane ha de aqui 
vir ter ; faze-lhe hoix companhia, em quanto acabo , 



Sobretudo não o deixes entrar. — Vai descan^ 
sada. Ouça- me elle ; que Hão te irá estorvar. — 

Escreveo a Marqueza ao Commendador , nos 
termos seguintes : » Que motivo teve tão súbita par- 
tida ? Assim se deixào A.migos^táes. Anciava eu ver- 
"vos para discorrer comvosco á cerca da terrivel 
■narração da nossa Amiga ; actos nullos ! Ides- vos, 
■e me tolheis essa consolação. Mas fallai. Dáes por 
possivel quanto lhe ouvimos ? Folheei quantos pa- 
péis continha o CoíTre , e tão claro como o Sól,^Ê 
que tudo é certo; e todavia ainda tenho dúvidas^ 
'Quanto não padeceo , Coitadinha! E ha homens 
de tal condição! Ter unhas de Onça , com cara tão 
gentil , com garbo tão Senhoril! Quem é que havia 
de crer , que c'um exterior.... Não : não pode ser. 
Formosa d'Oimanee', e se a tua imaginação fosse 
quem te atormentou então ! Por mim, aíTumo que 
todos os homenss ào de primor. 

Sabeis vós , Commendador , que é felicidade 
minha, que haja entre mim e vós alguns centos 
de léguas, e que vós não sejáes adamado mance- 
binho ! Seguro , que assentariào que vos declarasse 
inclinação de amor ! O que é certo, é que eu vos 
escrevi uma extravagância ; e que excepto vós , e 
. meu marido , todos os homens , sem contradicção , 
são loucos ou patetas. Como v. g, o Duque d'OhTian- 
cé. Que desazo! Que desestramento ! Oh que attoií- 
J'om, X 16 



( 24-2 ) 
tado ! Deixar caliir da algibeira similhante Carta ! 
Dera-llie eu pancadas. Ide-vos lá lidar na felicida- 
de de similhantes tresloucados. Imagináes vós que 
haja elle tudo quanto para agradar se necessita? 
Quando eu digo tudo, bem me podeis crer •, por- 
quanto recto e' o meu engenho , excellente o cora- 
ção , e para julgar as pessoas , nunca me fio só dos 
^Ihos. 0'ra, eu tinha tudo inventado, tudo previsto, 
tudo arrumado ; que elle gradualmente lhe fosse 
captivando a vontade ,- divertindo a imaginação, 
dando-lhe com que encher momentos vagos. Oh 
que mui pe'rto então se está do coração! Nada 
4Íissol Portou-se como um principiante. Outro d'01- 
mancé que como uma bomba allí dá o baque. 
Commendador, bem julgáes vós qual seria o espanto 
da minha Amiga 1 Affigurou-se-lhe vèr a Sombra 
de seu marido. Em transe tal , eu mesma faria o 
que ella fez. Enfadei-me com d'01mance' , ralhei 
com elle •, mas ralhei , como vós o não podeis ima- 
ginar. O mal era feito.... Nem por isso me faltou 
vontade de rir. Desluzir o que traçara a minha pru- 
dência ! A-ccordai comigo , que tal desmancho não 
era para esperar-se. 

E podia eu rir , que a via tão desconsolada ? eu 
que a amo tanto 1 eu que de'ra todo o meu sangue , 
tudo quanto possuo e valho , até a minha joviali- 
dade , por lhe enxugar a menor daquellas lágrimas 



( '13 ) 
tão lindas, que ella vJile com graças mil. Se eu 
fosse homem , c amante de M'\ d'01mancé, e sen- 
tisseem mim o menor stímulo de infidelidade, ía- 
me lançar com dous joelhos no chão, diante delia, 
e pedir-lhe , que chorasse; e uma lagriminha sul 
me daria na alma tal dose de constância, que seis 
mezes me durasse , quando menos. Mas falíamos 
serio dous minutos ( se é que eu consegui-lo posso). 
Fez maravilhas a vossa admoestação; muito folgo , 
que sejáes do meu parecer. Ella agastau-se , tomou 
sestro contra d'01mancé,e porque? o lance não 
vinha disposto d'antemão. Sémiane me disse , que 
tínheis amizade com o novo Duque : muito folgo 
que assim seja : mas seja ou não , affirmo-vos que 
tem excellente alma, e guapo coração. Dizem 
somente d'elle , os indiííerentes , que e amável 
homem ; mas as nimias qualidades que elle possúe, 
fazem que seus amigos se não aíioutem a dá-lo 
pelo que elle e'. Um cento de acções de brio sei eu 
delle, que uma só bastara, para lhe pôr aos pés 
todo o Universo. Commendador, bem sabeis vós 
quão sincera eu sou ; e o que eu vos digo é a minha 
alma inteira e pura : a fora Sémiane , o Duque fora 
o único a quem eu honrara com o nome de Spôso 
meu ; e bem sabeis que para merecer a minha esco- 
lha, ou a minha approvaçào, mais que virtudes 
ordinárias se precisa. 

i6 * 



( 244 ) 

Palavra de honra , agradeço á leveza de minha 
índole o ter-me salvado de prevenções. Dariào por 
menos avassallado a ellas um engenho mais reflexo: 
pois não é assim ; não ha hi destrui-las. A primeira 
sensação decide pró , ou contra ; e as reflexões , 
que depois vem , se i óem do partido da opinião 
que de primeiro se tomou. Se ella é favorável á 
pessca que queremos conhecer ; e que o Público 
tem que se queixar dessa pessoa, damos o Pú- 
blico por injusto ; dizemos que a pessoa é tão mo- 
desta que encobre as virtudes que tem ; ou que se 
as deixa perceber, que então vendo nellas sua pró- 
pria sátyra , se vingão , desacreditando a pessoa. 
Foi desavantajosa a primeira sensação ; e delia faz 
diíTerente conceito o Público ? Dizemos que a pes- 
sou é hypccrita , e que de mui arteira, que é, dis- 
farça os seus defeitos ; ou que de mui aduladora se 
avilta nt)s cortejos , para que lhe passem os vicios; 
ou lhe chamamos pródiga , que com suas profusões 
compra a estimação do maior numero da gente. 
E assim se escôão nos' ânimos reflexos os vicios e 
as virtudes qnasi sempre , uns que não lhe abrem 
os olhos , ou'ros que llies não voltão o coração. 
Perguntai a esses prevenidos a ra^ão ; por ceVto 
que a não dirão : e comtudo , nem de ódio , nem 
de amor tal prevenção lhes vera. Um certo orgtdho 
interior nos estorva de confessarmos a nós mes- 



( 1\^ ) 

mos , que nos enganámos : e faz que pela mór parte ^ 
quando adoptamos , ou rejeitamos tal pessoa é por 
ampararmos a nossa infallibil idade. Gentes dessa 
specie respeitão tanto o tacto delicado que ellas 
cm si suppõem , que nem tómão o trabalho de 
examinar. Eu porém , pela minha leveza , appro- 
varei á manhan o que hoje desappróvo •, e é bem 
diíFicil que nesse fluxo e refluxo de opiniões contra- 
rias , que me védão assentar juízo firme em objecto 
algum , não se atravessem por cabo algumas virtu- 
des, que me decidão. Assim que, desvairada , co- 
jno pareço , tenho mais capacidade que certa 
gente. 

Se ahi viesse um Sylpho, v. g. viesse um Rei dizer- 
me mal de M*^'. d'01mancé , não lhe de'ra eu mais 
crédito , que se me vie'ra dizer mal de vós. E por- 
que ? Porque a coragem que^ mostrou em seus in- 
fortúnios , o respeito que teve a sua Máe , que a sa- 
crificou , as attenções á cerca de seu marido , que 
a perseguio, o seu decoroso comedimento n'um 
amor que lhe envenena os dias da vida , seu pro_. 
ceder tão nobre na demanda que lhe produzio o 
testamento que tanto aaíilige, são virludes que se 
não fingem. Imaginários sejão embora seus pezares ; 
logo que ella crê , que aorigem delles é verdadei. 
ra , fica com toda a inteireza a sua virtude. Mas , 
meu Commendador , sem tal pensar, vejo que dis^ 



^ 



( ^46 ) 

COITO. Que tristeza ! A. Razão.... nao tem pés, 
nem cabeça. A propósito : não lhe perco as espe- 
ranças ao ditto casamento. Partistes ; e clesmancliá- 
tes-me todo o plano que eu tinha ideado ; não im- 
porta : voltareis , e ella casará com o DiKpie , oh 
por ce'rto ! c será feliz. Olhai , que vo-lo digo eu : 
se ella e' feliz , morro de gosto. Todavia seria pena ; 
que não a veria eu então chorar: que chora ella 
com tanta graça I . . não a veria surrir ; e o seu siUTÍr 
é tão donoso ! 

E um desconsolo que não estejáes aqui. Descon- 
solo grande , não me poder lograr duma conversa- 
ção com vosco , apúz a conversação sublime que 
tivestes com M''^- d'01mincé. Fino-me de desejos 
de beijar essa bella frente sombreada de veneráveis 
cans, cujo entendimento , cuja bôcca concertarão o 
parto d'csses discursos em que vós tão discretamente 
]h€L*affiguráveis o quadro dos seus deveres. Não me 
conti-adigáes •, oh não! Que sou eu capaz, n'um 
accesso de gratidão , de ir l)eijar o Correio, (jue mo 
trouxer a vossa resposta. Ouc me dizeis! Não vedes 
vós Sémiane , que me lê, por cima do hombro , 
qvianto vos eu escrevo , e que ri a bandeiras des- 
pregadas? Não é elle o primeiro Marido, que ri 
colhendo de súbito a lista dos beijos que sua mu- 
lher promette ? Mas dizei-me, Commendador, 
quem é esse Cavalheiro de S. Jorge? Tenhominhas 



( 247 ) 
suspeitas... Conhece bem a minha Amiga o queelle 
é?E conheceis-lo vós? Tórno-vo-lo ai-epetir, porque 
não basta ser amável para ser Amante da Duqueza. 

Oh Deos de minha ahira! E eu que o não cui- 
dava! São duas horas já, e hei-de ir jantar a uni 
convite mui se'rio , composto de Damas, que não 
passem de 20 annos ; e tenho de gastar quatro horas 
a toucar-me ; e ainda não comecei. Como me hei-de 
haver? Como? JN'um quarto de hora o faço. Com- 
mendador, um abraço, e um beijo, e voltai quanto 
antes. Em poucos dias se julgará a famosa de- 
manda ». 

Com eííeito , a intenção, com que o Commenda- 
dor foi a Selville , era a de tomar noticias do Mar- 
quez de S. Jorge vizinho seu, á cerca do que depo- 
séra o furtivo Caçador : e óra, assinara este com o 
nome de Dupréz a sua deposição; e o Commenda,- 
dor não somente conhecera ao Duque d'Olmancé 
um Ciiado d'esse nome ; mas ainda se lembrava 
que esse Criado ficara em casa até á morte do 
Amo , e dahi passara a] servir o Cavalheiro de 
S. Jorge. E óra, quanto elle ouvira a d'[Jrfai, á conta 
do Cavalheiro, não tinha assaz vigor que desluzisse 
as suas suspeitas. Assim, mal entrou no Solar,. foi- 
se ter com o Marquez de S. Jorge , e este llie segu- 
rou que tudo era pura verdade : e ainda declanioiL 
contra a perfídia do Duíiue morto , que com detes- 



( 248 ) 
tavel aleive, não só lhe quizera desacreditar seu 
filho , com siippô-lo capaz de induzir M"a. d'Es'- 
tanges ; mas espalhara sobre essa desditosa Dama 
todas as suspeitas da deshonra^ 

Conveio o Commendador que, a não ser aleive a 
deposição assina-la, réaera o Duque de alta vileza. 
— Duvidáes , Senhor Commendador da declaração 
<l'um homem qtue morre ? — Senhor Marquez, fran- 
camente digo, que custa a imaginar, que de'sse em 
tão odiosos excessos homem que amei , e que esti- 
mei em quanto viveo, e cuja lembrança me é ainda 
prezada. O Commendador, que acabava estas pafl 
lavras, entra o Cura. — Boffé ( bradou o Marquez ) 
que vindes, Padre Cura, a propósito, para con- 
vencerdes o meu Amigo á cerca dos crimes que 
tramou M. d'Olmancé para se desposar com M^í». 
d'Estanges. Attói)i!o reparou o Commendador no 
grande enleio do Cura ; nem no como eíle fallou , 
dava ares do convencimento. Convidado pelo Mar- 
quez , ficou para o jantar ; e lá pela tarde , indo-se 
dar um passeio pelo Parque , ,o Commendador cu- 
rioso de saber o raotÍNO do enleio do Cura, traçou 
modo de ter conversação com elle. — E morreo 
esse miserável poucos dias depois da declaração 
feita? — Assim se diz. -r- Como assim? Deveis 
sa])ê-lo , pois vos c^bia enterrá-lo — Ha hi recatado 
mysterio. A declaração bem a ouvi euj e quando na 



I 



( ^\9 ) 
seguinte dia fui para lhe dar os soccorros spirítuáes, 
que me elle pedio , disserào-me que aííuella noite 
morrera , e o Chirurgião pedira o cadáver para o 
disseccar. Resposta que mo espantou ; e que fez que 
demostrei ao Senhor Marquez , que me espantava 
esse proceder do Chirurgião. Respondeo-me, que 
não pode'ra negar esse favor , para bem da Arte. 
Qual foi meu assombro, quando , passado tempo , 
n uma visita , que fiz , em Paris , ao Cavalheiro de 
S. Jorge , vi n'um seu Criado , ar. feições do mori- 
bundo Caçador! Também elle se turvou com me 
ver : fitei olhos nelle; e ei-lo que ;enfia , cora... Já 
lhe eu ia perguntar... Mas seu Amo o manda em- 
bora. Assinalei ao Cavalheiro as suspeitas que tinha; 
elle pôz-se a rir : mas na torvação do gesto, lhe 
rastreei o enleio da alma- Assim não quiz pergun- 
tar mais. Guardai-me segredo. O Criado , e o Ca- 
çador chamão-se ambos Duprez; bastante assumpto 
para reflexões ! Vós punis pela honra do Duque : 
vossa prudência romperá a nuvem que cobre tudo. 



Na conversação que com o Cura teve , não falloii 
o Commendador ao Marquez , e com o pretexto d« 
negócios importantes , se despedio delle paia Sel- 
vilie. E era assim ; que não era de parecer o bom 



( iSo ) 
Commendador de confiar á Duqueza , nem a M'-*. 
de Se'miane , que tinha tão estreita amizade com o 
novo Duque , quanta tive'ra com o parente morto ; 
e como o Duque mancebo lhe escrevera, pedindo- 
Ihe qne se achasse cm Selville, para lá lhe commu- 
nicar negocio urgente, e lá nessa visita recebesse a 
Carta de M''*. de Se'miane, respondeo-lhe assim. » 
Que ditosa que sois , Senhora ! i\ vossa jovialidade 
verte de continuo tinta de côr de rosa, no porvir; 
quando eu , que sou mais seiio que vós , me sinto 
na impossibilidade de encobrir quanto infortúnio 
avisto na nossa commum Amiga. Sim, Marqueza ; 
a quantia dos males da imaginação é maior , que 
a dos males verdadeiros : e esse é o caso de M*^"*. 
d'01mance'. Muito receio , que o mais puro coração 
tenha ate'quí odiado gente de bem , para amar... 
Aqui paro ; não digo mais. O que lhe ouviuios me 
assusta ; e custa-me a crer em sua franqueza , crer 
no que tanta gente testifica ; nesse alongado fio de 
bárbaros procedimentos. Ella com tudo era inca- 
paz de os inventar. Sou sincero ; nem por tanto 
retiro da lembrança de seu Spôso a minha estima , 
senão quando não achem nenhum refugio as mi- 
nhas incertezas. EUe morto não pode defender-se . 
aos seus amigos cabe cumprir com esse dever; jus- 
tificá-lo , como elle o faria , se vivo fora : e eu nisso 
trabalho com ardor. 



( ^5i ) 
A" nossa Amiga , alfim , e bem injusta no anteci- 
pado ódio , que ella tomou ao novo Duque : coui 
um coração tão recto, com um juizo de tanto 
acerto... Nem sempre provão as prevenções falsos 
os raciocinios ; e por grande desgraça. Julgão antes 
os homens segundo as circumstancias , que com 
conhecimento de causa ; óra , ainda no caso que a 
equidade natural se. deixasse illudirpela prevenção, 
nunca serão os argumentos que a desarraiguem; 
mas sim o aspecto muito mais eloquente da pessoa 
que intentamos rehal)ilitar. Sem que o de a demos- 
trar , porei a equidade da Duqueza , daqui a pou- 
cos dias, a uma árdua provança ; e então veremos 
em que opinião ella terá a nosso Duque d'01mancé. 
Não vos declaro o que disponho obrar, delia o sabe- 
reis. O jogo vai direito ; e bem se permitte a des- 
treza , quando ella arma á defeza,e interesses da 
Virtude. Esse amor que ella tem ao Cavalheiro de 
S. Jorge d elle bem justificado ? Subjuga-se uma 
Senhora como ella, com o bem appessoado da 
pessoa, e algumas exteriores prendas? Com pezar 
vo-lo digo : mas eu tenho esse moço por um fmo 
dissimulado ; e não gosto da gente que d do parecer 
do quanto vem ; c que tómão êxtase á menor pala- 
vra de Humanidade, que sahe da bôcca de outrem. 
Mas ante os olhos d*uma Dama prevenida , passará 
por brandura de animo , e amor da sensibilidade o 



( 252 ) 

que, a meu parecer , é ura defeito : e que progres"- ;' 
SOS não fará nella a prevenção , quando ella mesma 
é a brandura , e a sensibilidade personalisada ? 
Com sustos lhe ouvi a narração de seus infortúnios ; 
e jr.ro-vos , que a obrigação de renunciar á estima , 
que tive á cerca de seu Spôso , fora cruel supplicio 
para mim. Duvidar e nesse caso , ventura minha j 
sem ser oííensa da Duqueza. Perdoái-me este dizer. 
Seria ella a primeira virtuosa Dama, a quem a 
diflTere.ça da idade , a dissimilhança da índole , a 
encoberta, mas invencivel repugnância, que era 
despeito próprio se sente á cerca de algum objecto, 
houvesse desgostado de seu marido ? Confesso-vos , 
que essa opinião , não desfalcaria um átomo da 
minha estima ; e que mais que muito sei , que bem ^ 
a miúdo o Amor , e o (Jdio sem algum motivo nas-- * 
cem. Táes julguei as razões de queixa , que ella 
demostrava ter contra seu Spôso. Não sei, Ma- 
dama,se o não estar o coração mais nobre abri- 
gado contra essas prevenções, é ou não uma imper- 
feição da Natureza ; sem o querer, é injusto ; mo- 
tivo esse, que lhe. dá mais jus a nossa compaixão, 
que ao vitupério. Quem ha hi que reprehenda uma 
injustiça, que a imaginação appresenta com más-»- 
cara de equidade ! É como quem quize'sse casti- Á 
gar um homem , pelos excessos que commettêra 
no delido d'uma febre ardente. A narração dos- 



( 253 ) 
acontecimentos da sua vida me lançou em terrível 
enleio : ella é tal , que dera eííectiva desconfiança ; 
de maneira, que não sei que firmeza lhe dê. A.h ] 
que se ella. podesse amá-lo , nenhum outro que 
d'01mancé , lhe eu dera por marido ; e a ouvt-la , 
foi um monstro. EUe morto , o único que deparo 
digno delia , é o Primo : mas a hoiTenda luz que 
ella espargio pelo que atéqui mereceo a attenção 
de toda a gente, quem ha hi que a queira exporá 
segunda prova ? Não caiamos todavia n'um erro , 
mais perigoso que o vicio mesmo : erro de duvi- 
dar se ainda ha virtude ? 

A Duqueza cuida que conhece perfeitamente o 
Cavalheiro de S' Jorge. Ella o cuida ; mas eu 
duvido. Griárão-se ambos desde as mantilhas ; mas 
e bastante ? Não. Conheceo a paz da infância ; não 
conheceo o homem. O da infância morrec , quando 
appareceo o homem agitado pelas paixões ; e esse 
homem é o que nem ella , nem nós conhecemos- 
Convenho que as virtudes da infância dão vanta- 
josa presumpção para as virtudes de outra idade ; 
mas como para o homem , que entra pela Aurora 
das paixões , basta que lhe appontem destramente 
ao coração uma virtude , para que esta desarraigue 
os vicios da infância : assim também um vicio, que 
elle abraçou avidamente , basta para aíFogar o pim- 
polho das virtudes que desabrocharão na infância. 



( '>-''y\ ) 

Talvez que ainda não se reflectio num oLjcclo 
de tanta importância para o homem ; e esse objecto 
e' , que, em geral não influem na vidado homem 
as impressões que recebeo na infância , mas sim os 
objectos, que lhe fe'rem os sentidos, quando ao 
coração lhe estão clamando as paixões primeiras. 
E tanto é verdade ; que desde os annos púberes 
até á idade em que as paixões , mais quebranta- 
das já , dão abeVta ás reflexões, conservará antes o 
rastilho dos preconceitos que bebeo na puericia , 
que o das virtudes que lhe tentarão inspirar : esses 
lhe são talvez de préstimo; estas de empacho. 
Quando o homem ente'sta com a épocha, em que 
a Natureza abre o Oriente das . paixões , alli é o 
amassar a molle cera; porque enlão a vóz impe- 
riosa ({ue lhe falia ao coração o dispõe a todos 
os moldes , e a ceder á vóz que o avassalla. Esse 
instante , em que ( pelo uso em que estamos) en- 
tregámos a ella mesma a Mocidade , pôde ser que 
fora o único , em (jue a deviaraos vigiar, ou antes 
moldá-la; com conselhos não , que é surda; mas 
sim com objectos exteriores. O único brado que 
então ouvem , é o das Paixões , que lhe clamão — 
Goza. — Para esse gozo obter , túma o Mancel)o 
indiferentemente a estrada do Vicio , ou a da Vir- 
tude. jNem delle pende a escolha : pende de quem 
o guia. Lane á-lo ao Mundo , e fiar delle qual es- 



( 255 ) 
trada tomará , é por certo um papel de sortes : e 
todavia essa boa ou ruin estrada o fará feliz ou des- 
graçado ; considerando que lhe parecerá tanto 
mais segura a estrada que tomou , e tanto mais 
preferível , quanto ella o coroou com o feliz suc- 
cesso. Erro é , que sempre reina , comparar vida 
estragada , com morígera educação na infância 
havida ; contínuo é dizer-se : » Cahir em simi- 
Ihantes absurdos , homem tão bem criado ! » Não 
querem contemplar que esse homem tão bem cria- 
do morreo aos i5 ou lO annos ; e que alli se 
mudarão aíTeitos , sensações , e ide'ias ; que ( n'uma 
palavra ) é um 'Ente novo. Se nesse instante o de- 
samparáes , como podereis arguí-lo , se nada , á 
seu respeito , então obrásteis ? Criminareis um ho- 
mem , porque não conservou as impressões moráes 
que na infância recebera ? E como se o arguísseis 
de não regular as acções do dia pelos cunlios do 
nocturno sonho , que o Sói voltando , lhe apa- 
gou na memória , quando lhe desviou o somno. 

Adeos , linda Marqueza ; vigiai a nossa commum 
Amiga; segui o meu sistema; não lhe falíeis nas 
bellas qualidades donosso Du<fue : fazei como eu 
faço ; que ellas lhe fallem por si mesmas.. Conhe- 
ço-a quasi tanto como vós. Digo quasi; porque, 
igualando-o na estimação, sempre a um ve'lho se 
encobre alguma cousa. Sigamos esta vere'da,que 



( 256 ) 
seguro estou que nos nào escape. Mas conservai 
sempre essa jovialidade que vos faz ditosa , essa 
formosura , que nos maravilha , essas virtudes , 
que são nosso exemplo; o que vem a dizer que 
eternamente vos dedico a minha ternura e o meu 
acatamento. » 

Esperou alguns dias o Commendador , pelo Du- 
que d'Olmancé ; e já principiava a receiar não lhe 
tivesse acontecido algum infeliz desastre : eis que 
chega lima Carta , que diz , que como a sua 
demanda com a Viúva de seu Primo será julgada 
dalli a poucos dias, não lhe cabe aííàstar-se da 
Capital ; portanto lhe pede que faça uma visita á 
Menina Ingleza , que lhe clle de'ra a conhecer, e de 
quem elle é o protector. A esse pedimento acodio 
logo o Commendador ; e com tanto maior conten- 
tamento , que o dispunha a pôr por obra um pro- 
jecto , que na sua Carta indicara a M*^*. de Séniiane. 



riM DA PKIMEIUA PAIiTC. 



I 



( •>-57 ) 
'i—— — — — — — ia— iitãw 

HEROICIDADE 

DO AMOR E DA AMIZADE. 

IK PARTE. 

A quatro léguas dos paços de Selville ficava umâ 
lindíssima morada, que pertencia ao Duque d'01- 
inancé , em que havia algum mezes , habitava 
uma Ingieza de poucos annos , mas cujo nasci- 
mento, e cujo nome não erão conhecidos. Tão 
sohtaria vivia que nunca de seus aposentos a vi- 
rão fora: só o CommendaJor, a cujo ella tinha 
tanto respeito como veneração , lhe fazia algu- 
mas visitas. Como ella o visse um dia vir desa- 
companhado do Duque , tão des-socegada que 
disse a brados; « Alguma nova ruin me trazeis, 
senhor Commendador ! — Nova ruin M^a. ! Não 
vai a tanto. Recebi uma carta do Duque, em que 
me incuml)e de vo-la communicar. Sois tão cheia 
de razão , que concebereis quão forçosos são o& 

motivos que o fazem obrar assim. A necessi- 
to/w, X. 1'j 



( 258 ) 

(lade — A. necessidade , senhor Commenda- 

dor! Sim Ml'». ^ lede a carta. » Ella a tomou, e 
leo o que se siígue. 

» Caro Comniendador , bem creio que me será 
impossivel ir-vos visitar; que me obriga a de- 
manda a ficar. Bem sabieis a esperança que eu 
tinha do unir a minha sorte com a da viuva Du- 
queza d'01inance' , e pôr assim remate á demanda, 
que nos desune : mas seja ódio da sua parte , ou 
indestroza dos nossos Amigos, que em tal se en- 
tremetterào ; óra seja que estivesse prevenido o 
seu coração , o que eu com mais razão suppo- 
nhoj óra emnm , da minha parte falta de mérito, 
o que e' certo, é que essa ventura me fugio. Digo 
minha ventura , não quanto aos bens; porque d'es- 
ses não faço maior caso , que em quanto posso com 
elles ser aos meus Amigos ulil : mas em quanto á se- 
nhora adorável, a ella me é força que renuncie. Uma 
só vez a \ i : e mui profunda calou a impressão , 
que ella em mim fez ; e tanto sinto mais perdê- 
la , quanto n)ais avultava a minha esperança. Vio ■ 
me ella, e não com desagrado; como erão pu- 
ras as minhas intenções, lh'as declarei logo. Não 
me Sdbia o nome; por quanto julgara a nossa 
engraçada amiga, Marqueza de Sémiane, que lho 
devia eu occultar, ( creio que sem razão ). Cuma 
Dama do caracter de M«°a. d'01mancé, nada tem 



( 9.5^ ) 
ãe parecer astúcia. Da ai-ibelra ajoelhado ante 
ella, me se desliza uma carta fatal, que tudo 
descobrio. Deo - se por trahida. Volta de Passy , 
onde a scena se passou, súbito a Paris, agastada 
por extremo contra nós. M^^ de Se'miane ainda 
conserva esperanças, segura-me que também as ten- 
des : eu , nenhumas. 

Perderei a demanda ( tudo m'o annuncia ), e 
Jjem concebeis que golpe corta as minhas espe- 
ranças , e que desmancho me'tte nas minhas ren- 
das actuáes. Mettia em conta a herança d'esse 
meu Parente ; e nessa confiança , fiz empenhos , 
que compe'te satisfazer. Assentei, que subindo a 
gráo de opulência devia augmentar a despeza ao 
uivei do titulo; agjra desconfiado de composição 
tenho de cercear do luzimento , para ncmtar des- 
peza. Pagas as dividas, principal dever d'uni homem 
honrado, de 80,000 fr. de renda , mal ficarei com 
5o,ooo. Inteirado esláes dos gastos que traz comsigo 
o morar em Paris , ir á corte , sustentar no P»egi- 
mcnto o splendor do titulo oiie tenho, O «jue mais 
me despedaça o coração , e' des-iograr-me do con- 
tentamento que se tira de ser útil a bastantes in- 
felices, que amparava o meu cuidado. Igualmente 
íi sorte de nossa jóven Amiga (direi melhor, mais 
vivamente) me inqnieta. Como as minhas fazen- 
das no Bearn ficão mais arredadas , são essas as 



r 



( i6o ) 
primeiras que vendi, tanto mais fácil, ffiie em 
n;ida desmembrão o senhorio principal achegado, 
tantos séculos ha , á minha Casa. Igualmente ven- 
do a quinta , em que vive essa minha Protegi- 
da : annúncio , que lhe adoçareis como mel- 
hor possáes. 

Não mora já em Londres o seu inimigo ; ella 
pôde lá voltar com segurança. Para a viajem lhe 
envio , presentando-lhos como dádiva cem luizes ; 
que é quanto posso mandar por óra : quando lh'os 
déreis não molesteis seu timbre e pundonor ; dai- 
Ihe a entender somente , que como eu a consi- 
dero de nascimento illustre , lh'os mando, como 
empre'stimo. Sois prudente , escusados são avi- 
sos. Grande consolação me fica , em que sou 
geralmente amado , e que ninguém se alegrará 
com o meu desastre : que a ElRei contento , por- 
que sal)e que com toda a minha alma o sirvo ; 
dou-me bem com os cortezãos , porque não sou 
seu concurrente ; e se me valho da privança é 
só para alcançar para os outros o que alcançar 
para mim poderá. Assim é que não irei com disfar- 
çado traje desparzir aqui e alem alguns soccor- 
los. Gran pezar para mim! Perderá o coração ; mas 
ganhará a faina ; que quem nesse trajo me encon- 
trava me suppunha encobertos amores. O que me 
desconsola mais é o meu triste Comtois , em quem 



( 26l ) 

eu punha toda a minha confiança nos empregos es- 
moleres , que é todo pezares de (como elle diz) 
que não terá d'óra em diante , de passar os , que 
lhe eu remettia, suaves instantes. Que remediei 
Convém ser justo, e depois liberal. 

Se Germancia deseja que Júlia a accompanhe 
até Londres, consentireis; que ate' passa a ser de- 
coro. Ás minhas duas PupiUas mil amizades, e 
a vós abraços mil. 

Oh ce'os ( bradou Germancia quando acabou 
de ler a caita ). E é pois ce'rto, que os que me- 
recem mais de ser ditosos, são esses os que o são 
menos I Não ha que hesitar , MUa. é partir. E se 
vós estivésseis no lance de vos desempenhar com 
o vosso bemfeitor ?.,. — Como 1 Por vossa vida o 
dizei. — Ouvi-me attenta. O vosso bemfeitor ima- 
gina como desfeito o casamento ; mas eu não 
julgo assim. O melhor x\migo , que a Dnqueza 
tem , sou eu , c sou o homem que a melhor 
porção da sua confiança logra: óra ella ignora que 
eu seu amigo do Duque , primo d'esse de quem 
ella está viúva , e a quem deo ainda o homi- 
cidio assaz de prazo, para fazer testamento , pelo 
qual lhe deixa grande parte de seus bens ; que a 
assim não ser, todos esses ])ens cahião de direita 
ao vosso amável Protector. Tinhào imagniado 
os uossos Amigos confundir todos esses interesses, 



( 0.6-2 ) 

envolvendo-os todos n'uni casamento tão ade- 
quado em todo o sentido: mas o verdadeiro mo- 
tivo porque M^a. d'01mance' o rej.ita, vem d'u- 
ma aíTeiçào desventurosa , e tanto mais desven- 
turosa que tenho violentas suspeitas , que o ob- 
jecto que ella ama e' indigno de similhante se- 
nhora. Creio , que muito quizera a Duqueza des- 
cartar-se da verba do testamento , que lhe le'ga os 
dons terços dos ])ens no caso de segundas vodas 
de que provenhão filhos, o que e' mui possivel ; 
que apenas conta elía 11 annos : e a se não ca- 
sar , tornão ao Duque, ou a seus herdeiros, os 
dous terços. Contempla ella mui bem que se ella 
se desposa com o objecto que llie conquistou o 
alvedrio , mal-usa da generosidade de seu Marido; 
pois expolia o Duque d'uraa herança, a que elle 
tem direitos tão constantes. Untra-se ella com o 
Duque a nfío entermeiarem ce'rtas prevenções : ella 
porém é cheia de razão ; e com Dama de tal lote , 
não trope'ra em duvida, que se não renda ella 
á evidencia. A vós é reservado o desempenha 
dessa obra. — Dizei , senhor , dizei : que me in- 
cumbe que faça. — Repugnar-vos-hia que eu vos 
encomniendasse á Duqueza ? — De nenhum mo- 
do. — - Deveis grandes obrigações ao Duque j não 
vos pejará o confessá-las ; o que valerá a lhe pôr 
com evidtnciii ante os olhos a virtude d' uma 



( 263 ) 
pessoa , virtude de que ella parece que duvida. 
E rá tanto ao natural , que parecerei não dar- 
me por sabido da parte que elle tomou em vos- 
sas avenu ras. — Prompta estou , e abraço cubi- 
çosamente a esperança de poder ser útil a quem 
sagradas obrigações devo. — Não vos empenha- 
rei , Mlla. a que me confieis a se'rie de acon- 
tecimentos , que vos pôz sob a protecção imme- 
diata do Duque; por quanto respeito o vosso se- 
gredo , e aguardarei para quando julgardes ade- 
quado confiar-mo. — Senhor Commendador, á 
bondade com que me honráes , o devo , e desde já 
vo-lo confio. 



Nascida em Londres, me criei, com o nome 
de Betti, em casa de Mistress Smith que com- 
merciava em fancaria , para com ella apprender 
o que são occupações feminis. Sei que sou filha 
d'um dos Pares de Camará alta , cujo morrco de 
paixão da morte de minha Mãe •, mas seu nome 
e titulo não o sei : somente Misti^ess Smith me 
declarou, que meu Tutor, poderoso Senhor em 
Inglaterra, por uma phantasia bem Ingleza , me 
pôz em casa delia , quando eu tinha quatro an- 
nos , e a meu Irmão que então seis tinha, o man- 
dou á Universidade de Cambridge \ e nada uíais 



( iC,\ ) 
me disse , dado que ella me segurou , que saljia 
ao claro quanto me competia. Assim, com o sim- 
ples nome de Betti , me vi confundida com as 
minhas companheiras , sem que cousa alguma de- 
notasse que eu fosse algum dia a herdeira de seis 
mil libras sterlinas de renda , e pertencer a uma das 
mais poderosas famil.ias dos três Reinos. E tal 
sorte me espera lí na minha maioridade, se os 
acontecimentos m'a não estorvão. 

Essa apparencia de igual com elles , foi certa- 
mente quem enganou os bárbaros que sobre a, 
minha fronte tantos infortúnios accumulárão ; to- 
mando - me por uma moça da classe ordinária: 
prevenção que os inclinou a me fazerem o ul- 
traje de que devera o meu sexo ter-me em couto^ 
se mais generoso lôra o vosso sexo. Orçava eu já 
pelos i5 annos, e como o commercio de Mistress 
Smith franqueava as portas ao Público , entra um 
dia na lógem , um homem soberbamente vestido, 
decorado com diílcrentes cruzes e placas , accom- 
panhado de diíFcrentes pessoas , que o tratavão 
por Vossa AJteza ; pelo olhar que em mim fitou , 
comprehendi que' nelle imprimi forte aíTeição \ en- 
feirando um pouco, se retirou, mas muitas ve- 
zes voltou depois á Icjgt^m , das quáes visitas col- 
ligi que a mim se endereçavão ; sem que toda- 
\ia me elle ditto houvesse palavra de que çu po- 



C 265 ) 
desse colher sustos ; que limitava elle todas essas at- 
tençòes a algumas infantis caricias limpas de todo o 
receio. Já nesse tempo tinha eu um conhecimento, 
muito de meu peito, em que não tinha Amor en- 
trada alguma ; que bem arredado andava ainda o 
prazo, em que eu apprendi a conhecê-lo: era 
uma Amizade singe'la , correlação de ge'nios , con- 
cordância de idade , igualdade de pensamentos , 
que essa união de vontades fosse necessária á 
minha felicidade- 

Um mancebo francez , Carlos foi o nome que 
somente lhe soube , salvara ( arriscando a sua ) 
a Mistress Smith , a vida ; que se apeava ella d'uma 
carruagem, no sobpé que orlava a sua casa; eis que o 
pélhe falha , eis cáhe ; os cavallos espantão-se com o 
ruído da queda, abalão-se , e ião-lhe rodar as rodas 
sobre o corpo: salta Carlos, que alli, por acaso, 
presente, vio o perigo , salta , como digo , no sobpé 
da casa, trava com esforçado braço, dos raios 
da roda, e'rgue-a, dá-lhe um violento sacão ea 
derruba para o contrario lado em que jazia Mis- 
tress Smith , e ei-la desaíírontada , e salva ; e Cai> 
los que a toma nos braços , a depõe na lógem , 
e parte. Bem conheceis o enthiisiasmo do Povo 
Inglez , quando vê corajosa acção. Levão-o em 
triumpho a sua casa j e, a necessitar elle de bens 
Cheios, esse lance bastara a euriquecé-lo. 



( s66 ) 

Veio Carlos , no dia seguinte saber novas de Mis- 
tress Smitli, que outro malnãosentio alem do susto» 
Ella o recebeo com extremos de agradecimento ; 
e como a mais enternecida Mãe teria recebida 
um mimoso íilho seu; e d'esse instante foi como 
sua a nossa casa, e se travou entre nós a Ami- 
zade tal , que o creio eu incapaz de a trahir vil- 
mente , a pezar dos fortes motivos que ha para 
assim o suspeitar. É a gente mais circumspecta 
em Inglaterra, que n'outras partes: não consente 
lá a url)anidade que se facão indiscretas perguntas, 
com que se enfadem pessoas com quem não ha mui 
estreito conhecimento. Assim, Mistress Smith lhe 
perguntou somente como se chamava , e elle disse 
que, Carlos; que era francez , e que o trouxera 
a Londres o gosto de correr terras : e elle calou-se. 
Convencida porem de seu honrado coração e costu- 
mes puros , o tratou com tanta confiança , como 
se delle tivera, e de sua farailia as mais comple- 
tas informações. 

Não chamem leveza esse modo de proceder : 
que o que só dahi se prova é que o homem é 
o que julgão, e não os accessorios delle. Ora, 
dahi vem não saber eu tegóra quem elle e ; e ser-me 
"impossivel deparar com novas suas, quando me 
é tão necessário , sendo elle a única testemunha, 
que eu possa ollerecer á mirdia família , para prova 



(267) 

da minha innocencia. Mistress Smitli conliecendo 
a harmonia de nossas vontades , nos sondou a um « 
e a outro , e alcançou de nós que não havia em 
nós amor , mas só amizade : e desde essa occasião 
cessarão nella as observações , e òs receios. Ama- 
va eu a Carlos com amor de Irman; na conver- 
sação sua me instruía, divertindo - me ; e como 
elle fallava malinglez, o desejo que eu tinha de 
o comprehender mais á minha vontade fez que 
em mui pouco tempo apprendi francez com elle. 
Era Carlos de agradável presença, de índole mui 
branda, e sempre igual , dado que um pouco 
annuviado: tinha lido a muito, de modo que se 
me resvalavão agradavelmente junto delle os dias; e 
torno a repeti-lo; era habito , era costume , não era 
amor; o se quando elle se ia, me ficava desaso- 
cêgo , saudades não me íicavão : tornava eu a ve- 
lo ? Com gosto, mas sem abalo, o via. 

Só achava exquisito nelle, esconder-se , cada vez 
que Sua Alteza á lógem vinha ; e quando lhe per- 
guntava o porquê , respondia-me : » Não soííro Al- 
tezas; etiquêttas não as soífro. » Nem eu lançava 
mais alem a vista ; avizinhando porém depois uns 
lances, nunca pude descortinar se lhe era côm- 
plice , ou se lhe era falso : sube de certo , que elle 
era de sua Casa. Ainda suspeito muito que traba- 
lhava por conta própria sua , quando a tal iUleza o 



( 268 ) 
empregava como agente seu. Consentia Místress 
Smith, fque eu fosse espairecer-me em companhia 
delle; que lavra a confiança, onde a depravação 
não mora r da depravação brotou nas sociedades o 
decoro. Ao ceVto esses espairecimentos davão de si 
prazeres innocentes ; que ignorava eu então a dis- 
tancia y que entre mim , e esse povo tinha de pôr a 
minha futura plana. Carlos me considerava como 
urna fanqueirinha , e por conseguinte me advertia 
a miúdo dos perigos a que anda exposta uma moça 
d'esse estado , e c'uma cara como a minha ; carre- 
gava mais nos laços que nos arma o induzimento 
dos Grandes d'este mundo , a nós innocentes e vir- 
tuosas; quasi com as lágrimas nos olhos me obtes- 
tava, que para me salvar delles, vigiasse mui apu- 
radamente sobre mim mesma : avisos que eu delle 
acceitava agi^adecida , promettendo que muito m& 
approveitaria delles. 



Um dia... dia crue'l ! veio Carlos mais cedo do 
que usava ; e mesmo , reparei , que alterado no 
semblante. — Que tendes ? ( lhe perguntei ) — Que 
tens, meu filho? (lhe bradou Misti^ess Smith) — 
Ando doente ; dóe-me a cabeça muito. — Vai-te 
espairecer um pouco j vai com Betti j eu o fora se 



( a69 ) 
não me impedira o meu commerclo. — Agradável 
proposta! e muito mais agradável, se a amável 
Betti não repugna sacrificar-me o dia de hoje! — 
Por certo não. Mandou logo vir carruagem de alu- 
gue'r. Reparei que ao entrar nella , Carlos lançou 
olhos inquietos a uma e outra parte. Entrados na 
carruagem , se lhe serenou o rosto. Que digo ! nunca 
lhe notei tanta alegria. Tinha ditto ao Cocheiro, 
que nos levasse a Greenwich , onde nos apeámos 
na casa de pasto de James Keem ; e ao Cocheiro , 
que vie'sse ás 6 horas. Almoçámos á ligeira, e fômo- 
nos passear ao longo das enriquecidas encostas que 
órlào o rio Thâmesis. Guapa manhan ! A soberba 
perspectiva de Londres, o Pão (para assim dizer) 
coalhado das riquezas de todo o Universo , o con- 
tentamento de Carlos, a sua engraçada conversa- 
ção ; o socêgo em fim do meu próprio coração , 
tudo se dava as mãos para aííormosentar aquelles 
instantes. Nunca tão copiosas flores juncarão as 
bordas d'um despenho. 

Voltámos á casa de pasto ; jantámos. Dava costas 
no Outeiro a casa em que jantáramos ; e dado que 
o salão fazia segundo andar d'uma banda , dava da 
outra, por uma porta de vidros , ao réz da estrada. 
Xom pretexto de dar ao Dono da casa , ce'rtas oi- 
deas , sahio Carlos. Eis que elle apenas fora, pára , 
junto á porta de vidros, um Coche a seis Cavídlos 



( 270 ) 
de posta, ladeado de alguns de Cavallo : apéa-se utfíf 

entra no salão , onde eu estava ; êrgo-me ainda sem 
susto , pergimta-me se sou Betti , apenas soltei 
que sim, faz um aceno, entra a caterva; de as- 
sustada vou dar um grito; mas já c'um lenço 
me impedem a folia; tomão-me inesistivel entre bra- 
ços, impellem-me na carruagem: — já cila ia 
mui longe , que não podia ainda eu certi(icar-me 
se era realidade a scena , que como relâmpa- 
go passou mais rápida , que eu vo-la conto. 

Em todos os acontecimentos da minha vida 
senti sempre em mim certa coragem que mui 
bem me sustinha : delia tirei a liberdade de ânimo , 
para reflectir no que me acontecia. Já era um 
grande haver , sentir puro o coração. Mas a que 
fim esse rapto? e o autor delle , quem? Perdia 
então o tino. Contemplava depois desesperado a 
Carlos, quando entrasse no salão e não me achasse. 
Vinha - me ao pensamento suspeitar nelle ; ideia, 
que eu logo rejeitava. Se elle me amava , que 
necessidade havia de m'o dar a entender por 
modo tão estranho ! Porque mo não dizia ? Receios 
de repúdios meus ? Crimes só se abração , quando 
só a esperança de ser ditoso falha. Assim, mo- 
ralmente era impossivel que fosse Carlos quem 
de Mistress Smith me arrancava. 

Logo que despegámos de Londres me desafo- 



( 271 ) 

gárão do lenço , que me tapava a bôcca. Fií 
algumas perguntas — illuclidas todas. O acata- 
mento porem com que me tratavão , desluzia 
toda a violência que fora de temer de roubado- 
res táes. Pelo que , tomei o meu partido ; eicó- 
rando no socêgo da minha consciência, deixei ao 
tempo que me de'sse luz á cerca da sorte que 
me era decretada- Chegados a Douvres, passei 
da carruagem á Camará de Paquete , que se "/azia 
á vela. Não tinhão consentido os meus conduc- 
tores que descansássemos em parte alguma, e até 
a comida era correndo. Não pude ver, sem pranto , 
ir-se-me alongando da vista a ribanceira da minha 
Pátria, onde tão mansos dias tinha desfructado. 
Logo acodindo a outro refrigério, me subio o pen- 
samento, que nem sempre seria eu tão vigiada, 
que não tivesse azo de fugir. 

Ora, não me sentia eu absolutamente desprovida ; 
porquanto , mal chegámos a Greenwich me tinha 
Carlos , como por brinco , deixado uma bolsa com 
3o guinés , pertendendo que fosse eu quem nesse 
dia o regalasse. Piindo peguei na bolsa , mas agora 
já a dispunha em meu ânimo, para me facilitar a 
fuga, se a occasiào se oíierecesse. Foi curta, e foi 
feliz a travessia ; e mal chegámos a Calais ; socega- 
dos os meus conductores á cerca de sua expedição , 
me instarão que tomasse algum repouso , no que eu 
bem consenti} que necessário rae era. Perguntei- 



( Íi72 ) 

lhes se podia escrever a Londres a Mistress SmitU 
dando-lhe parte d'esse caso , e desafogá-la do cui- 
dado em que a teria a minha ausência. Respondê- 
rão-me , que em Paris , no caso que sua A.lteza o 
permittisse , o faria facihuente. Esse nome de Al- 
teza , com o enleio da resposta me dérão a pres- 
sentir, que algum projecto amoroso envolvia a 
expedição ; e dalli tirei luz , para o meu comporta- 
mento em caso tal. A tal Alteza magnifica em tudo 
o que pode ser útil a uma Dama que vai de jor- 
nada , largamente provera d'antemão , até as mais 
miúdas bagatéllas. 

De Calais a Paris viemos em 4 dias ; e ia eu per- 
cebendo , que á medida que nos avizinhávamos da 
Capital augmentava o respeito , que comigo tinhão 
os Conductores. De primeiro vinhão como compa- 
nheiros de estrada , agora antes Criados cuidosos 
em servir-me , que iguáes meus. Chegados a Paris , 
apeámos-nos numas Casas nobres no centro do 
subúrbio de S. Antão (i), onde fui recebida como 
Dona da Casa d'ha muitos annos , pelos Criados e 
Criadas que me haviào de servn\ ]Não se mostrou 
logo o Sylpho , querendo ter-me em suspensões j 

(i) Quando os Francezes dizem simplesmente Stryín- 
toine , entendem S. Antão Eremita quando porem que- 
rem denotar S. António Poriuguez^ accrescentão St.-An" 
toine de Padoue, 



( ^73 ) 
e antes de apparecer, dar-me, pela elegância e 
riqueza dos móveis, pelo brilho dos atavios de 
meu uso , guapa ide'ia de quão galan que elle era , 
e adular-me assim a minha vaidade , antes de dar 
assaltos a meu peito. 

Volvidos já três dias de repouso, que as Aias 
empregarão em alardear ante meus olhos quantos 
objectos agradáveis, de luxo, e de prazer me 
pertencião; fui advertida que vinha appresentar- 
se-me o meu desconhecido Amante. Com impa- 
ciência , confesso , e não com interesse, o esperava. 
E o interesse que eu levava nisso era que inti- 
mando-lhe quanto irregular fora o proceder que 
usou comigo, fallando-lhe a Razão por minha 
bôcca , abrisse os olhos , e me tornasse ao estado 
de cujo me arrebatara. Que assim discorre quem 
co'a boa opinião que tem dos homens, os não 
communicou ainda de modo que se capacite que 
elles toda a grandeza assentão em serem máos , 
como também todo o seu gosto, em roubar coração 
que se lhes nc'ga. Ouço abrir o portão , entra uma 
soberba carruagem, sobe ao meu quarto um homem 
riccamente trajado.... E que pasmo foi o meu, 
quando avistei a mesma Alteza que vinha á lógem 
de Mistress Smith! Então me vislumbrou na mente 
quanto Carlos me havia dilto da audácia dos Gran- 
des quando a depravação lhes tem eivado o cora- 
Tom. X, j8 



( 274 ) 
tão. Vi allí pela primeira vez o vulto ao perigo j 
é conheci a astúcia* Fez-me o mais lisonjeiro cum- 
primento ; a cujo respondi friamente, mas não 
de modo que decepasse toda a esperança; por- 
quanto adverti, que se quizesse lograr-me d'um 
tanto mais de liberdade , devia ir a tento com 
elle : somente lhe argui o rapto , mui contrario á 
probidade, e ao respeito que um homem de bem 
a si se de've ; elle me rebateo sobre os Ímpetos 
d'uma paixão invencivel , essa violência : e disse 
mais , que inteirado da liberdade Ingleza , deses- 
perara de contentar em Londres o seu desejo ; por- 
que no caso , que eu o rejeitasse , logo que me 
declarasse o seu amor, não poderia valer-se da 
força , no grémio d'uma Nação ufana de suas pre- 
rogatiVas , que não teria algum resguardo á ele- 
vação da sua plana : que assim preferira acarear- 
, me a um Reino , onde anda mais assinalada a dis- 
tancia entre Grandes , e Povo , e por conseguinte ^ 
menos constrangimento nas paixões dos Grandes , 
e mais notória a fraqueza no Povo. Então me deo a 
saber que era o Conde Federico de W***; que delle 
pendia transpassar-me aos seus Estados, onde lhe 
€u seria mais sujeita: que desejando porém que 
fossem de flores só as minhas cadeias , quizera que 
as enti-ançasse o Amor no Templo de Volúpia ; por 
também lhe parecer que seria o clima de França 



( 275 ) 
mais adequado a me embrandecer o coração , que 
o desabrido Céo lá da Aliem anba. 

Fiz-lhe alli parte dos sustos que devia a minha 
ausência motivar a JMistress Smilh , e a um de 
meus Amigos chamado Carlos. Ouvio-me, e rio- 
se » Esse que se inquie'te , pouco vai; pague os 
suaves instantes, que junto a vós gozou: é uiil 
guapo velhaquinho , que merece a vingançazinlia 
que eu provar lhe faço. Quanto a Mistress Suiith, 
èscrevei-lhe , socegai-a ; dai-lhe parte da Dita que 
vos eu preparo. EUa é de tão bom juizo , que vos 
dará parabéns : porquanto nunca vos prometleria a 
sua lógem o bem que grangeará a minha munificên- 
cia. » Já me não era dado duvidar do opprobrio que 
o Conde de de W*** me apparelhava : mas também 
me não cabe na falia expressar o que a altivez do 
meu génio padeceo ouvindo-o. Acodio a Prudência, 
e soíTreou os assomos da minha indignação. Recorri 
ao tempo; não que me raiasse luz de refugio ; mas 
porque começa a triumphar dos pezares quem tem 
meio de os pôr mais no longe. Pedi pois ao Prin- 
cepe , que não quizesse dever á violência o que um 
mais brando movimento da alma lhe poderia con- 
ceder , passados tempos. Que me deixasse entrar 
em mim , e accostumar-me ao género de vida a que 
me convidava Amor ; aííogar certos preconceitos , 

que íallavão mui senhoris ao coração d'uma Me- 

i8 * 



( 276 ) 
hlna que fora alelli criada com máximas bem ad- 
versas ás que se lhe davão a adoptar. 

Prevenido elle, de que era ol)scuro o nascimento 
meu , dalii tomava confiança , imaginando que no 
Cotejo que eu fizesse do luxo que me ladeava , com 
a mesquinhez que me destinava a Fortuna, me 
inclinasse a contemplar no seu attendado o manan- 
cial da minha ventura j assim, me prometteo quanto 
eu pedia. Era de seu gosto que eu desse alarde de 
mim na Cidade ; mas eu pedi-lhe , que me deixasse 
viver retirada; consentio ; mas sob condição , que 
viria jantar, ou celar comigo, quando nisso me 
não incommodasse. Competia-me aturar o que eu 
não tinha jus de impedir; e a minha resposta foi 
uma tácita mesura. Polidamente me lançou em 
rosto não ter eu ainda deixado as Inglezas roupas, 
com que roubada fora , tendo-me elle preparado 
tão preciosos vestidos : respondi-lhe , que não tendo 
anciã nenhuma de dar mostra de' mim, inútil me 
era o enfeite; e que affeiçoada ao traje do meu 
Paiz , lhe pedia que houvesse por bem que eu dclle 
me não descartasse, senão no ultimo extremo. Com 
eíícito , excepto roupa branca , indispensável em 
seu uso , de nenhuma dessas aviltadoras dadivas do 
Príncepe , me servi nesses poucos dias , que nessa 
casa morei. 

iNessa mesma noite esa-evi a Mlstress Smith , 



C 277 ) 
que estava em salvo , que socegasse , que cedo 
a iria ver; nada lhe individuei do rapto, nem. 
do sitio que habitava : quiz ficar com a regalia 
de dar á minha aventura a cor , que bem me 
parecesse , accommodada ás circumstancias. Vi- 
nnha-me ideia , que a s iberem que eu fiquei algum 
tempo em poder do Princepe , custaria a não pôr 
mácula no meu recato; e era o que eu queria evitar. 
Escrevi, e fiquei mais descansada; no prazo, qu« 
mediou até que veio a resposta, algumas vezes vi o 
Princepe, que se comportou com certa decência , 
dado que me foliasse de continuo, no seu amor. Mas 
logo que eu via esse seu amor querer tomar largas, 
c'um único olhar, o retrahia a mais comedidos limi- 
tes. Ah ! que o olhar da Innocencia , é talvez a única 
lança que á Virtude ficou , para repellir os assaltos 
do Vicio ! Chegou por fim a resposta de Mistress. 
Smitli , que explicava sem rebuço a minha nobre 
origem , e os bens de que havia de gozar algum 
dia: bens que eu sacrificava. Pertendia ella, por 
um temerário proceder, ,que tanto desmentia das 
honradas máximas , com que me criara , arguir-me 
de ingrata, e de a ter, pelo meu odioso comporta- 
mento , posto no transe de expeiimeutar o resenti- 
mento da minha familia ; que segundo os injuriosos 
termos com que a molestavão , lhe fazião pagar 
bem cruelmente cara a confiança que ella em mim 



( 0-78 ) 
tinha. Apóz as mais duras expressões , informava 
na Carta , que corria em Londres por constante , 
que eu dallí desparecêra em companhia d'um man- 
cebo francez, que ella tivera a fraqueza de receber 
em sua casa. 

Todas as minhas 'jdclas desconcertou essa Carta. 
Já a minha origem era abonadamente illustre ; já 
não era Mistress Smith , que me importava muito 
desenganar; mas sim á minha família , e ao nome 
que me era destinado , que eu devia dar razão do 
meu procedimento. Sentia em mim céi^to contenta- 
mento de poder por minha vez accurvar o Princepe 
com o pendor da minha altivez : dous partidos lhe 
dava á escolha •, de me desposar já e logo ( nesse 
tempo ainda a ninguém amava ), ou de me recon- 
duzir com honra conhecida a Londres ; e lá me 
pedir público perdão do desacato contra a minha 
virtude commettido. Tinha eu que não podia elle 
negar assenso a un^a ou outra dessas duas condi- 
ções. Apparcce o Princepe ; móstro-lhe a Carta de 
Mistress Smith •, e já lhe íallo c'uma ce'rla altivez j 
passou por ellí^ os olhos , e desata a rir. » Oh que 
Novella , querida minha 1 Para a compor melhor, 
devera Mistress Smith ao menos , encobrir-vos. — 
Princepe , ou dar-me já a mão de Spôso , ou sem 
demora reconduzir-me a Londres. — Desposar- 
vos?Tem sua difficuldade. Sou casado. Passar a. 



( ^19 
Londres ? E longe , e não me sinto essa vontade. 
'— Considerai , que falláis com quem nasceo de 
mui nobre sangue! Melhor, melhor! Mais ufano 
o meu triumpho , e mais al)onado o meu gosto. 
— Não mais motejo insultuoso, Oh Princepe. — 
« Adeos , Menina ; d'esse caprichozinho , á manhan, 
nem novas ha de haver; e crede que sem esse 
jnal-vistQ hymenêo , sem essa jornada a Londres, 
tenho de ser ditoso; mas tomai, desd'hora sen- 
tido em vós ; que vos dou uma rival muito para 
temer, e mal que vires repartido com outra o 
meu coração , tenho que se ha de embrandçcer a 
vosso. » 

Eu de fúrias abafava , e já no meu juizo con- 
certava projectos encaminhados á minha vingança; 
cahia a noite , quando o Princepe me deixou. 
Abro uma porta do sallào, desço ao jardim , adian- 
to- me numa rua de árvores , para mitigar um 
tanto com a fresquidão da noite , a fermentação 
em que andavão os meus spíritos. . . eis que se 
abre uma porta falsa do jardim, que encami- 
nhava para o Campo; entra um homem : vé-me 
sozinha; corre a mim; fujo, mas falhão-meos 
pe's , vergo , acóde-me elle. . . eis-me nos braços 
de Carlos. Sois vós ! Oh céos ! — Não percamos 
tempo. Que me dizeis do Princepe ? — É um 
monstro, — Foi ditoso ? — Antes morrer. — Erv- 



( a?^o ) 
tão, ainda vim a lompo. Vinde comigo. Attónifn, 
assustada, sem saber que partido tome, mais deixo 
tirar por mim , que co.nduzir-me. Carlos e' robusto ; 
tóma-me nos braços , e súbito me lança n'uma 
carruagem , que estava peVto d'alli ; e vendo-se 
um tanto longe , me diz : « Favoreceo-nos a ven- 
tura; ainda cheguei a lanço de salvar a virtude ;^ 
a um asylo vos levo , que ate para o Princepe 
será inviolável e sagrado. Ides agora muito aba- 
lada , não comprehenderêis ce'rtas particularida- 
des que tenho que dizer-vos ; cedo espero que vos 
porei nos braços de Mistress Smith. 

Voltámos sobre a esquina d'uma rua , quando 
manda parar o Cocheiro uma vóz de mim des- 
conhecida , e cujo homem vi pela primeira vez 
nesse desgraçado momento , sobe á portinhola 
diz algumas palavras ao ouvido a Carlos. . . Que 
horror ! ( Diz Carlos ). — Fugi sem perder tempo-, 
(diz outro homem). Entra na carruagem , Carlos 
sahe , dizendo: » Tem cuidado delia ; bem sat)es 
onde ia eu levá-la ; dá fmi ao que eu tinha tão 
bem começado. » O desconhecido lhe apertou a 
mão •, assentou-se onde elle ia ; Carlos desappare- 
ceo-, partimos. Eis que 20 homens rodêào a car- 
ruagem , (jue veloz corria; um delles abre a por- 
tinhola , e diz : » Da parte d'ElRei , vos dai por 
prezos. » Sobe acconipanhado do dous mais , que 



(^81 ) 
se assenlão como podem ; a mais qiiadrillia , na 
táboa , 110 assento do Cocheiro , ás duas porti- 
nholas , e — a casa do Commissario — diz o qne 
dera — a parte d'Ehei, Atélli, confesso, que pouco 
desasocego me deo : bem via perseguição do 
Princepe , que percebeo a minha fuga, que al- 
cançou ordens , que as punha em execução : mas 
também sentia ce'rLo contentamento de que nos 
levassem perante o Commissario ; que levava eu 
comigo a carta de Mistress Smith , que me havia de 
servir de titulo com que reclamasse a protecção de 
Governo , contra o indigno roubador , que em 
menosprezo das leis , me tinha reteúda. 

Aqui é que de horror se me errição os cabei- 
los ; e aqui vi até onde pôde arrastar a desgraça 
das victimas da prevenção o fatal encadeamento 
das circumstancias. Chegamos a casa do Com- 
missario ; mais nos arrastão , que nos apeião da 
carruagem : por minha desventura caio , e em vez 
de soccôrro , sou indignamente mal tratada. Já o 
Povo, que se tinha apinhado á porta de Commis- 
sario começava a se condoer de mim : eis que um 
de meus algozes lhes clama ? » Condoei-vos de 
mattadores. » Terrivel brado me rompeo da bôcca , 
que me grangeou injurias d'esse vulgacho; e como 
eu não podesse andar, mortificada da queda, tão 
inhumanamente me arrastarão pelas quinas dos 



( a83 ) 
dcgráos da entrada, que desde os joelhos até aos pés 
çra uma só esíoladura, uma só chaga viva. — » Ani- 
mo , Miss ( me diz o Companheiro da minha des- 
graça ) muito ânimo; que beiíf tendes de carecer 
delle. » O prémio que destas palavras , que em 
Inglez me disse, conseguio, foi uma desmedida bo- 
fetada , pelo condoimento, que de mim mostrou. 

Entramos no Gabinete do Commissario , a quem 
disse o Oflicial de justiça : » Bem sabeis, Senhor, 
quem é o suspeitado fidalgo; e estes são da sua co- 
luitiva ; eu os puz em seguro ; e ahi tendes esse fa- 
moso Carlos , de cujo nos remettêrão , de Londres, 
os sináes. — É falso — ( bradei ) — Callai-vos — 
( me respondeo o official de justiça ). Fez-nos per- 
guntas o Commissario ; e a pezar de lhe affirmar- 
mos que nenhum conhecimento tínhamos de tal 
homicidio, sej-arada do meu Companheiro, que 
nunca tornei a ver, me lançarão numa prisão , 
onde mal que entrei, fui buscada e rebuscada, e 
se] apposárào de meus papéis , e dos 5o guinés , quç 
me dera Carlos , e que eu ainda possuía ; e logo 
me profundarão n'uma masmorra escura, onde 
fôrão tão bárbaros , que me deixarão lá 17 dias, 
sem cuidarem em me curar das feridas , deitada 
sobre uma pouca de palha , sustentada a pão e 
agua. 

Que horrenda situação ! Que temerosas consi-'- 



( 283 ) 
deraçoes me viéião allí accometter! O estado em 
que me eu sentia assemelhava ao do delirio. Cri- 
minando a minha imprudência de me ter ainda 
confiado d'esse Carlos , que talvez fora quem o meu 
í^oubo favoneára em Londres ; de quem me fallava 
o meu roubador, como de pessoa conhecida , cha- 
mando-lhe amável velhaquinho ; d'esse Carlos em 
fim , que eu não apurara quem elle era, e que igual- 
mente podia ser um aventureiro, ou um homem 
de bem... Por fim eu ignorava o que delle feito 
fora. Foi leveza nelle entregar-me ao homem , com 
quem fui preza? Conhecia-o elle bem ? e depois de 
longos tempos ? Mas ouvi fallar d'homicidio ; e eu 
çompromettida com um homem, que poucos mi- 
nutos vi; e eu em terra estranha! Que horrenda 
situação ! Fui feliz , em que a minha coragem me 
susteve : nunca tanta cm mim senti. A despeito do 
ar inficionado da masmorra , as feridas que eu sim- 
plesmente banhava com agua, sararão em breve 
tempo; e passados alguns dias , me considerei, não 
digo alegre , que era impossivel , mas socegada,. 
Benefícios teus, oh Consciência pural Tu, fiél Con- 
soladora, enxugas as primeiras lágrimas dalnnocen- 
cia ; e (]uando o Crime ladeado de Protectores , e 
de Advogados estremece, o Infeliz que em ti única 
descansa , aguarda l)onançoso , no regaço do Des- 
íimparo , a sorte , que se lhe reserva I 



( 'i8i ) 
Abre-se a masmorra no fim de 17 dias : pelo pro- 
fundo silencio , que alli jazia depois d'umas tantas 
Iióias, assentei que era noite : » Erguei-vos, e 
segui-me ( troa uma desabrida vóz). 01)edeci; an- 
dei , mas cora trabalho ; muita , e muita vez se me 
encurvarão os joelhos desfalecidos e dormentes do 
desuso de andar : o terror involuntário que inspi- 
rava a escuridão do sitio , o temeroso ruido , que 
fazia o abrir ferrolhos, o corrê-los, e fechá-los, 
no descurso de estirados rodeios... Oli! que a não 
levar tal guia , nunca atinara, com o fim do qnasi- 
labyrintho ! Entro n'um aposento , que pelo aceio 
dos móveis , tive que pertencia ao Carcereiro, vejo 
assentado um homem bem vestido a uma banca 
allumiada com duas velas , que se ergue á minha 
entrada , que diz ao Guia : — Retirai-vos. Darei 
conta de M'^*- — Chega-me uma Cadeira, e diz que 
me assente. Perto me sentia eu então de cahir em 
desmaio , cm razão do abalo que em mim se fez ; 
porcebeo-o elle , e acode com vinho de Ilespanha , 
que lhe eu acceitei- Recobrci-me , e então me 
disse : » M''". ainda que não tenho a honra de que 
me conheçáes, e que vos seja indiíferente saber-me 
o nome, seja-vos sufficiente , que da parte de quem 
muito vos toma em seu amparo , aqui venho. Bem 
conheceis quão perigoso c o transe cm que vos 
?édesj presa cm companhia d'um mattador, basta 



( ^^8::í ) 

a voesa fuga , para não vos poder lavar de còmplice 
no crime. Cc'ita com tudo em vossa innocencia a 
Pessoa , em cujo nome aqui vos fallo, um só único 
meio deparou de vos salvar; meio, que elle com 
vossos mesmos Juizes concertou. Aqui vos trago da 
sua parte looo luizes, e á manhan ordem de sol- 
tura, com a única condição, que partireis sem 
demora para Londres : c'uma palavra só ditta por 
~vós, vos desendividáes de tantos benefícios. » 

Durante esse preambulo tive largas de recobrar 
inteiramente os meus sentidos : tornada em pleno 
acordo, não somente me tinha revestido de cora- 
geai , mas ainda de altivez , e de tranquillidade 
comple'ta. Assim llie respondi : » Duvido em pri- 
meiro lugar , que careça a Innocencia de que cor- 
cel tem meios para a salvar. Aquelle mesmo Deos, 
cuja misericórdia promette ao culpado perdão de 
.seus erros , é o mesmo , cuja justiça vela sobre o 
innocente : elle é o único , que quando me desam- 
parassem os homens todos , me não desampararia. 
Tal é a confiança que nelle devo pôr , e tanto é o 
que a mim injustamente opprimida , pensar me 
cal)e : respeitar-me a mim mesma na tribulação , 
quando me honro com o motivo, que a causou; e 
de ninguém acceitar os beneficies. Guardai os 
vossos looo luizes; c como a Equidade ordena, 
^UQ se me restitua a Liberdade , com cila virão 



m 



( i^G ) 
taml)em os 5o giiinds que eu trazia comigo, qué 
cllcs me al)mulrio para voltar á niiiilia Pátria. Essa 
Pessoa que tamanho sacrifício quer fazer, algum in- 
teresse o leva : por quanto , dado que seja generosa 
a Humanidade, nunca ella é pródiga; e quando des- 
borda da precisão , compra é que se faz , e não 
soccôiTo. Mas declarai-vos : que pelo mesmo caso , 
que não acceito paga á minha gratidão , terá ella 
de ser mais enérgica : Que é o que de mim reque- 
rem? — «Ante os olhos vos puz, M'". o quadro 
dos perigos , que correis , a fim que os eviteis com 
proferir uma única palavra. — » E que palavra? — 
» Convir á manhan , perante os Juizes , que o ho- 
mem , com quem vínheis é o mattador, que se pro- 
cura saber. Individuar-vos-hei certos pontos , ([ue 
são necessários , e appontar-vos o modo... — » Não 
mais , não mais : que me horroriso. jN ào me enga- 
násteis , e tudo me dão a entender os loooluizes. 
Dizei a quem vos manda , que não cabe ao homem 
calcular as circumstancias , que o podem mostrar 
re'o á vista do Universo , dado que innocente seja : 
mas que tem elle sempre em sua mão recusar o 
crime , que lhe propõem. Fracas, como os homens 
que as dictárão , julgão as Leis sobre apparencias 
unicamente ; d'onde procede que nem sempre a 
sombra delias e' tutelar da Innocencia. A lei su- 
prema sim , está assentada no coração e no seu tri- 



( 287 ) 

bunal é sem parcialidade julgada a Virtude, é jul- 
gado o Crime. Voltai a vosso Amo . quem que'r que 
seja : esta lição não carecia vir buscá-la , nas tré- 
Vas d'uma masmorra : lá a tinha na sua Consciên- 
cia, no caso que desejasse romper a escuridão com 
que a envolve ». 

Quiz-me elle ainda articular algumas pala- 
vras : — Agradecei á solidão , que aqui nos cinge , 
o escapardes ao desprezo dss homens de bem. 
Chamo o Guarda-chaves : » Tornai-me á masmorra: 
volto satisfeita , se tremebunda vim ; masmorras 
são Palácios para o ânimo honrado que escapou á 
corrupção. » Quando só me vi , contemplei na es- 
tranha visita, sem atinar coni quem me peitava 
com tão abominável proposta : bem o vislumbrava 
homem poderoso , que por encobrir o crime pró- 
prio , traçava acabrunhar o fraco. Mas quem era 
elle ? E porque vínhão a mim ? Pela imaginação 
me passava e repassava o Princepe ; todavia . por 
mais razão que houvesse de me sentir descontente 
delle, não acabava comigo suspeitá-lo de crime 
similbante. Como que'r que fosse , consegui com 
cedo da êminha coragem a recompensa : recom- 
pensa , que não deixou de trazer seu amargor j que 
entestava eu com o prazo , em que vinha accrescer 
á dolorosa sensação de meus infortúnios, a chaga 
do coração. Pela primeira Vez ia tomar conheci- 



C u88 ) 
irioiito com o Amor; e o homem, pelo Ceo man- 
dado jiaia me fazer ditosa , cheguei a vê-lo. . . . e , 
iHii instante depois.... para sempre, sem dúvida, 
perde lo. 



A noite ia já alta , quando voltei á masmorra : 
fraqueei ao abalo , e caijsaço que soffiêraj as pálpe- 
bras me cahião de pesadas ; havia alguns instantes 
já que eu dormitava : (>is que me desperta o Guarda 
chaves, e com mais branda vóz , me diz: » Há 
quem vos quer fallar , e venho. ... — » Se e' a mesma 
visita desla noite , não lhe queVo fallar. » — É ou- 
tra , e mais agradável que essa ; traz ordem de sol- 
tura. Espero que vos não esquecereis do cuidado 
que esle Criado vosso leve á cerca de vós. » Não 
me pude conter, que não surrisse,e não notasse 
as diííerentes impressões , que varias conjuncturas 
da vida fazem em certos lances. . . .Segui-o. 

Era alto dia : enfraquecidos os olhos , mal podiào 
suster a luz : entrei no gabinete d'enlre-postigos, (i) 
onde encontrei com o ((ue me vinha libertar. Vi . . . 
Oh allos Ce'os! não vi um homem, vi um Anjo. 



(i) lia nas prisões clous postigos com grades de ferro 
eutre os quács ha um Gabinete que tem varias servculia.v 



(1%) 

Âccompanhava-se o mais agradável semLlante ãe 
ioura ampla madeixa; solnesahião dous olhos 
azúes , a duas sobrancelhas pretas , lisa mas levan- 
tada a fronte ; não mui córádo , mas a mesma palli- 
dez interessava em seu favor; e o que é mais, 
bem apessoado, e afformoseado ainda pela singeleza 
que denota nobieza d'alma, e solidez de razão: » 
Sois Germancia ? ( com brandura me perguntou ). 
Então recordei o nome , que em Londres me dava 
Carlos ; nome francez que lhe agradava mais , que 
o de Betti. Immovel fiquei quasi , quando o con- 
templei , e que fui sentindo em mim uma inclina- 
ção que nunca atélli sentira por alguém ; e acabou 
de me penetrar, com a suavidade de suas falias, 
o coração. Disse comigo : » Este é o homem quJ 
lenho de amar, em quanto eu viva. )) — « Dais 
mostra que vos atalhais em responder-me ? Pru- 
dente sois , mas nada receeis : Sois Germancia ; 
que quando emmudece a vossa bôcca, por vós 
fallão a vossa modéstia , e a vossa formosura. Como 
este não é sitio, em que nos expliquemos; livre 
sois , dignai-vos de seguir-me. 

Entregarão-me o dinheiro , e a Carteira sellada 
pelo Ofiicial de justiça, como quando m'a tomarão; 
e como dentro vinha a Carta de Mistress Smitli , 
VI que ainda se não divulgara o segredo de quem 

eu era; fiquei contente. O meu Libertador me 
1 otn, Á, 



^9 



( 290 ) 

(íeo a mão para entrar na Carruagem, e eu lh'a 
dei , sem dizer palavra. Assombro , contenta- 
mento , turvação , abalo até então desconhecido 
me pi^eudião a vóz : frouxo smriso , lágrimas a 
furto soltas de meus olhos fôrão o único mostra- 
dor do que se volvia dentro da alma. Quando 
totalmente me vi só com elle , perguntei-lhe : » E 
não poderei saber a quem devo a inestimável ven- 
tura que estou gozando ? » — Prometti não me 
dar nunca a conhecer, quando posso ser útil aos 
infelizes. Nada mais avultaria o serviço que vos 
faço , quando eu lhe ajuntasse o meu nome : se 
pelo tempo adiante jidgardes que mereço que 
me admittáes no número dos vossos amigos , será 
grande gosto meu dar-me a conhecer; o que será | 
somente , quando vos vires em estado de não 
chamar benefícios , os serviços que eu fizer a res- 
peito vosso. 

ímpeto involuntaiio me precipitou nas suas 
mãos, o rosto j com lágrimas lh'as banhei ambas. 
— É muito , bella Germancia : é mais que muito. 
Não desventureis um homem, que talvez não é des- 
ditoso, que de vos ter visto. — Ah! que se de mim 
dependera a vossa felicidade — Admirável fran- 
queza! Corei do ímpeto meu ; e nos olhos do meu 
Libertédor divisei certos visos de suspensão , e de 
ternura. Um.suspiro me fugio dos lábios. Ambos íi- 



C 201 ) 

cámos como emmudecidos. Parou a carruagem 
diante diurnas casas de modesta apparencia; logo 
oUe me deo o braço para me apear j e paga a carrua- 
gem entrámos. Veio-nos receber um Senhora (como 
de 5o annos ) simplesmente vestida. — M-ia. Pvoger , 
ei-la a nossa encarcerada ; não tenho que recom- 
mendar-vo-la : abono-me na huitianidade de vossa 
Índole. Ajudou-me essa Dama a sobir, e ao entrar 
no quarto me appresentou sua fdha. » Faremos 
( disse ella ao meu Libertador ) o que melhor po- 
dermos , por afastar da ideia da nossa hóspeda , 
os ruins dias que tem passado. Disse o meu Li- 
bertador vuua palavra ao ouvido de M''^ Pvoger , a 
que ella respondeo alto: »> Nào estáesvósbem certo, 
que sei guardar segredo ? » 

Então se chegou mui corlezmente, e me to- 
mou a mão; parece-me que na minha tremia a sua. 

« JNpa, dai-vos por segura , na casa em que es- 
tais ; e eu vou-me. » — Deixais -me? — D'onde 
vos vem esse temor? Não ha aqui de que assustar- 
vos. Quem é que tem receios de pessoa , que por 
exercer acção virtuosa lhe foi conhecida? — Não 
me comprehcndêis. Que desabrido me seria não 
vos tomar a ver! — Talvez que para mimfosse 
o supplicio ainda mais cruel. Se m'o permittis , 
virei á manhan vêr-vos. Careceis de repouso , fi- 
rárs com ura segundo cu : e á manhan vos cir- 



(^92) 

cumstanciarei tudo quanto precedeo a vossa sol- 
tura , e consultaremos o partido que vos convém 
tomar. Beijou-me a mão , e feita uma profunda 
cortezia a mim e ás duas Senhoras, saliio. Quanto 
uma enternecida Mãe, quanto o amor de Irman 
pude imaginar em desvelos e caricias, tudo es- 
sas duas Senhoraá*liberalisárão comigo. Creio que 
devisei n'uma e n'outra, e maiormente na mais 
moça rasgos de similhança com o meu Liber- 
tador : callei-me todavia, que como elle não con- 
descendeo em nomear-se , cabia-me respeitar o 
seu segredo. 

Desejando não ser penosa ás minhas Bemfei- 
toras, (fuanto em mim coubesse quiz entregar a 
Mda. Roger metade do meu dinheiro , para ha- 
ver roupa branca, que a minha longa prisão me 
fazia necessária, — Minha fdha , guardai o vosso 
dinheiro, que algum dia vos será mais útil. Nós, 
giMÇ.TS a Deos ^ ainda que não somos riccas , 
temos sufficiente , e não abusaremos da vcssa si- 
tuação : íiai-vos na singeleza , que em toda a casa 
dá sinal de si ; e onde virdes bondade de co- 
ração unida com modéstia , sede certa , que allí 
encerrou a Beneficência seus thesouros. A. nada 
se forrão •, dentro de bre'ves horas me achei pro- 
vida de quanto necessita uma Donzella , e ainda 
em maior copia , do que em casa de Mistress Smith. 



( 2Ç)3 ) 

Que ditoso dia que passei nos braços de ambas 
as Senhoras ! Só quem soílreo , e que depois de 
prolixos padecimentos se vio no amparo de co- 
rações puros , e honestas almas , é que pôde 
avaliar esse gozo inefável. 

Veio no dia seguinte o meu Libertador, mais es- 
pairecido no semblante do que no dia d' antes; vinha 
de farda , e me pareceo mui bizarro. Tudo me 
convidava a confiar nelle, e como me pareceo, 
que tanto elle , cr»mo as Senhoras, desejavão co- 
nhecer as particularidades da minha vida , com- 
pletamente lhes satisfiz a vontade. Também eu 
mostrei depois , querer saber que Anjo tutelar o 
enviáia á minha prisão. — Nada ha mais sim- 
ples. Eu sou amigo de Carlos , que vos conheceo 
em Londres; que ficou admirado de tanta vir- 
tude e belleza como a vossa. Tinha conhecimento 
com um poderoso Senhor , em cuja comitiva 
corria terras. Fostes-lhe repentinamente roubada ; 
indignado cóiTe sobre vossos vestigios a Paris , 
onde chegou quasi a par de vós; descobrio o 
skio , onde o vosso roubador vos removera delle; 
como sabeis , vos arrebata ; e quiz o acaso que 
a carruagem em que vos elle salvou, pertencesse 
ao pederoso Senhor , com quem elle assistia : e 
o homem que na esquina da rua mandou parar 
a carruagem era criado de Carlos , que em ter- 
mos curtos lhe deo parte do homicidio , que u:n 



( 294 ) 
amordesordenaclo fizera commetterao dltto Senhor. 
Tinha Carlos mui fortes motivos, para atalhar 
as consequências d'esse funesto acontecimento ; 
confiou-vos ao leal Criado , que vos giúasse ao 
destinado asylo. Prendérão-vos , porque se enga- 
narão com a carruagem, e com a libré os agen- 
tes da Policia : soube-o Carlos , pelo boato do 
povo , volta logo atraz , e por algumas palavras 
que escaparão aos que vos vinhão de guarda, se 
inteirou da suspeita indigna que vos cingia : tam- 
bém soube , que cuidarão que o prendião , quando 
prenderão o seu Criado. As pessoas, que em Lon- 
dres tem sobre vós os olhos assentão que foi elle 
quem vos roubou; e mandarão a Paris os seus 
sináes, com o nome somente de Carlos : mas aqui , 
com o nome nobre que tem , não se inquieta 
com táes pesquizas infructiferas; alguma pare- 
cença de feições , de talhe , e de iguáes annos 
entre o Amo , e o Criado enganarão o Official da 
Policia. 

Alta noite corre Carlos a minha casa , conta- 
me todo esse funesto caso , affigura-me vossa pouca 
idade , vossa formosura , vossa innocencia , com 
tanta valentia , que me deo a suspeitar que ao 
carro da vossa formosura andava preso; mas eu 
conhecia-ihe no coração uma mui profunda af- 
feiçào ; e me persuadi que quem o movia , era 
a simplcz impulsão da humanidade , o que por ú 



( 295 ) 
so bastava para imflammar o meu zelo. Assim llie ju- 
rei que vos iria arrancar ao infortúnio, que vos amea- 
çava : Carlos obrigado por superiores motivos a 
auxiliar a fuga d'esse grande culpado , que elle 
nàuito despreza , fiado na mmlia promessa, partio 
tranquillo. Eu no dia seguinte , fui buscar o Minis- 
tro , que me honra com o seu acolhimento •, e lhe 
particularisei quanto Carlos me havia ditto ; e não 
obstante a confiança, que tem em mim, de mui 
grave que o negocio lhe pareceo, quiz tomar á cerca 
delle mais adequadas clarezas. Durante i4 dias 
observou comigo o não me tocar neile , mas em- 
fim chama-me de parte : « Desculpai - me se 
tantos dias vos tive suspenso; mas nos posto , em 
que me acho, me é credora a Justiça d'ante- 
mão a meus Amigos. Agora que tão inteirada estou 
como vós da innoccncia da vossa Ingleza, inda mais 
fiz : convencido estou da innocencia também do 
mísero companheiro do seu desastre : portanto , 
eis a ordem de soltura; em vez d' um aditai dous- 
Levai esta carta ao Magistrado, que tão bem in- 
formado está como eu, e brevemente vos serão en- 
tregues os dous protegidos vossos. 

Fui , como voando, ter com o Magistrado; mas 
são tão longas para o miseio que padece, as for- 
malidades, que ainda estirarão três dias, e só 
no iB^. dia vos pude retirar d'uma habitação tão 



( ^yr, ) 
desconforme da vossa pessoa. Sem dúvida , a vi- 
sita que tivestes na noite antecedente á nossa pri- 
meira vista, foi o ultimo esforço , (jiie o vil ho- 
micida verdadeiro quiz fazer, para arredar de si 
toda a suspeita. Se vos deixáveis illudir perdida 
estáveis. — Mas se combino os acontecimentos , 
com o que me disse Carlos , o homicida não pôde 
ser outro senão o mesmo que me arrebatou de 
Londres , em cuja casa assistia Carlos. — Tãa 
extraordinário é o caso , que tremera eu de o jul- 
gar temerariamente : se o não dissésseis ainda hoje 
ignorara que o vosso roubador fora o Conde Fre- 
derico de W*** : que foi tão callado por hon- 
raria Carlos, que nem num, nem n'outro boque- 
jou. A vós , bella Germancia compe'te agora de- 
cidir do que vos cumpre : que eu , se vos gran- 
geei a liberdade , foi para vos deixar Senhora delia. 
Qual e' a intenção vossa? 

Entrárão-se-me a humedecer com lágrimas os 
olhos, quando tal me perguntou. Bem sei que tenha 
de pronunciar sentença contra mim. Passar com 
estas Senhoras , e comvosco , o resto de meus dias , 
consagrá-los ao agradecimento, que vos devo, seria 
o que eu mais suavemente desejara : mas não se 
fez a Ventura para mim : mas Londres é a minha 
estada , e a única , que me compe'Le. O quadro, que 
nós compúnhamos todos quatro, revolvia a alma. 



( 297 ) 
M''^ Roger, que me apertava nos braços, e que 
dizia : » Assim é que se exprime a Virtude. » O 
meu Libertador , que se arremessava a meus pés , e 
que me banhava de lágrimas as mãos ; a Filha , que 
trabalhando n'um bastidor de tapeçaria, forcejava 
a encobrir as lágrimas que lhe bolhavão nas pes- 
tanas. — Ah! que muito o sinto, oh Geraiancia , 
que não será para vós única , o supplicio que vos 
impondes. Como vós ao claro vedes o que no meu 
coração se passa, o vejo eu também no vosso : 
pende, para sempre, a minha Dita, de saber agra- 
dar-vos , e descortino , que mais que muito o con- 
segui : mas tenho de imitar-vos em vosso nobre 
esforço : irei desfalecer-me longe de vossa vista. 
Preconceito fatal da fidalguia ! Sim , em Londres é 
vossa estada. Horrenda, mas muito real verdade ! 
Nem poderião estas Senhoras hospedar-vos , porque 
dentro de poucos dias se rasgará o ve'o que por óra 
as occulta : e a obrigação de as ver frequentemente, 
verteria suspeitas , na bondade , com que ellas vos 
honrassem. Mísero de mim ! que sendo o instante 
em que eu vos vi, o instante, em que me destes 
a conhecer quão delicioso é o viver ; esse instante 
se me esvaece como um sonho. Separamo-nos , 
deslembrais-vos de mim , e eu... — Cruel, despedi- 
me embora, mas não me angustieis. — Despedir- 
vos eu! angustiar-vos ! Oh Ccos !... JMas, todavia 



( 298 ) 
voltar a Londres não o podeis por óra ; que me 
escreve Carlos que lá se acha o vosso roubador , 
e que vos seria funesto encontrar-vos lá com elle. 
Dignai-vos de acceitar asylo num Convento em 
alguma Pxovincia de França ; e lá desconhecida 
do Universo , terei á cerca de vós todo o desvelo , 
e Carlos me informará de quanto o vosso inimigo 
tente. Se elle se afasta do Clima em que viestes ao 
mundo , custar-me-ha ; mas serei eu mesmo quem 
appresse a vossa partida. 

5) Ãl*^*. Roger, que sitio escolheremos nós para 
retiro seu? — A Cidade que se avizinha mais das 
pessoas , que conheceis , é Caen. Minha querida 
Germancia , o único a quem posso confiar tão- pre- 
cioso deposito , como vós sois , é o vosso mesmo 
Libertador : bem vejo que vos amais , que sois 
ambos moços ; mas também segura estou na sua 
virtude, e confio muito na vossa, e tanto, que não 
dou por imprudente a jornada. Quando uma Dama 
confessa francamente que ella ama , anda menos 
arredada do seu dever , que essa que dissimula 
a chamma , em que se abraza. Ide , ide , filhos 
meus; que o Céo porá os olhos na vossa ingenui- 
dade. Ficou resolvido que dalli a dous dias parti- 
ríamos : aili cri que era verdadeiramente como se 
me airancasse do seio de minha Màe , ou dos bra- 
ços d'uma Irman , quando me separei de tão ama- 



( 390 ) 
ye\ familia : nada me lembrava enlão de quem eu 
era , nem de Pátria , nem de padecidos infortúnios : 
affigurava-me ter passado com ellas toda a vida , 
e que o primeiro pezar que nella expriuaentava , 
era a nossa separação. Entrei na Carruagem , e par- 
timos pela posta. 

Que delicadas attenções! e que desvelos! que 
suaves consolações não empregou elle comigo para 
me seccar os prantos, posto que o motivo delles 
o lisonjeava! Que bem percebi eu , que lhe deviào 
aquellas senhoras extremosa amizade; e que á 
mais idosa tinha elle respeito extraordinário. A.té 
teve a prudência de não levar Criado nenhum 
comsigo. » Não quero ( me dizia ) que os fados da 
amável Germancia dependão da solta lingua d'um 
se'rvo ; nem que padeça a sua reputação da mali- 
gna opinião que elle poderá conceber de me con- 
siderar a sós com ella. Farei tanto que ella não 
perceba , que não tem ninguém ás suas ordens. 
Que digo eu !Tudo ella tem, pois que me tem ao 
pé de si. Ah ! que instantes tão suaves passarão 
como um sonho 1 No segundo dia entrámos em 
Caen. Mal que nos apeámos sahe , creio que a me 
apromptar a entrada no Convento ; dahi a um? 
hora entra : » Prestes está o vosso aposento , 
á raanhan o habitáes. Hoje , e talvez pela ultima 
vez, ceiarêmos ambos; que não serei eu, belJa 



( 3oo ) 
Germancia , quem vos reconduzirá a Londres-, 
Sei quão fraco é coravosco o brado do Dever ; 
nem eu a tão difficil prova exporei mais a minha 
virtude , nem o que a mim mesmo devo. — De vós 
pende. Senhor, tornar ou não a vêr-me. Se uma 
palavra vos digo.,. IVlas vós não dais no sentido 
d IS minhas palavras. 5) — Razão tendes. DeVa eu 
Leni no sentido delias , se mais não consultara , 
que o meu coração: mas vós sois ainda de mui 
tenra idade , e muito inge'nua para conceber 
quantos respeitos humanos avassallào em França 
um homem honrado. Juvo-vos , que se eu fora Tn- 
glez, já desd'hôje fôreis vós a única mulher a 
quem eu oíTerecêra a mão de Spôso; mas neste 
Reino, sacrifica-se a Dita á pública opinião 5 e 
condemnou-me o ter-vos visto ao perpetuo dissa- 
bor do celibato. — Que ide'ia! Tomáis-me por 
uma Heroina de Novella ? E se um reconheci- 
mento inopinado vos provasse que a minha sangui- 
nidade é igual á vossa ? . . — Feliz índole , que 
gi^aceja entre pezares ! 

Confesso que com movimento involuntário levei 
a mão á Carteira ; mas um assomo de altivez m'a 
retrahio; quasi me dei por aggravada , que luttasse , 
e levasse nelle o orgulho da fidalguia de vencida 
o seu amor; pelo punir delonguei declarar-lhe o 
que alli logo completaria a sua felicidade ; alem 



C 3or ) 
de que considerei que não tinha elle mesmo assnz 
de confiança em mim. E de mais , sabia eu quem 
elle era? Devia-lhe eu mais resguardos, que elle 
a mim? Mais lhe devia, sim; porque tinha sido 
meu Libertador; elle nada me devia, e eu tudo. 
Nobre delicadeza o obrigava ao silencio , em razão 
de querer evitar o meu agradecimento. Quanto 
me não angustiou depois essa desconforme reserva? 
Tê-lo-hía conservado , ter-me-ia forrado a bastantes 
pezares ; teria tido a consolação de vêr de continuo 
aquelle que , sem dúvida , não tornarei , em minha 
vida a ver. 

Foi Comigo ao Convento no dia seguinte , cuja 
entrada devia ser a fatal , e cruel época da nossa 
separação. Veio receber-me a Abbadessa á grade : 
— » M***. eis a poicionista de que tive a honra de 
vos fallar, e posto que a não tenha de ser conhecido 
de V. S*. espero que nada tenha que receiar da mi- 
nha, nem sua idade. A boa fama do vosso Con- 
vento me empenhou a preferi-lo ; assim confio que 
ella será tratada com o resguardo que lhe é devido , 
procurando-Uie quanto lhe possa lisonjear o gosto , 
assim em Mestres , como divertimentos que possão 
condizer com a regra monástica. A quantia que 
vos deixo será mais que sufficiente ; e nunca vos 
tardarão as mezadas; ser-vos-hão pigas de avanço. 
Adeos , Germancia , e travando-me da mão com 



( 302 ) 

iinpelo : » Adeos , oh nunca vos esciiiéça... » Nâo 
poude dar fim á phrase ; e eu o vi partir sem poder 
soltar uma só palavra. Então é que em mim senti 
quão crue'! era o amar. Corrião minhas lágrimas 
amares: para lhes dar carreira livre , comprazeo 
a Abl)adessa , em me deixar hora e meia só no 
locutório. Parece-me que depois se lembrou , que 
pedia a politica que viesse ella introduzir-me no meu 
aposento ; então , veio e me disse : » Vós chorás- 
teis : separações sempre são custosas ; nem tão 
amável Conductor se deixa sem saudades. E pa- 
rente vosso ? talvez que Irmão. — Não Senhora. » 
— Talvez futuro spôso ; bem o concluo das lágri- 
mas que verteis. — 

Dalli comprehendi que era curiosa , sobre falla- 
deira ; e logo me prometti , que a esses dous sestros 
lhe não havia de abrir carreira. Entrando no 
quarto delia ( digamo-lo de passagem ) que era um 
compendio do Paraíso , anles que religiosa cella : » 
Como assim ! ( exclamou ). Mas é mui linda! como 
ainda a não tinha visto á grande claridade do 

dia Oh vinde ver , Madre S" . f)oçura ( era uma 

freira velha e desdentada que vinha com gravi- 
dade contando as passadas ) vmde ver este Anjo 
que a nós desceo. — » Não é feia ; está na flor dos 
annos ; sim, é bella , é muito bella : mas , M*"*. Ab- 
badessa , os olhos uuo tem que comparar c'os 



( 3o3 ) 
vossos. :) — Ciêdes-lo vós assim , Madre S'*. Doçu- 
ra? O certo é que nesse locutório , não se vê quasi 
nada : hei-de mandar nelle rasgar outra janella. — 
Tal não fareis, M*^* se me acreditáes: meia clari- 
dade em similhantes sítios favonêa a modéstia , 
e também a Decência lucra. » E alguns annos se 
encobrem ( dizia eu comigo ). Se o meu ânimo se 
visse mais desabafado, que re'dea eu não largara 
ao riso , de lhes ouvir tal colloquio. — Como vos 
chamais M"^ ? — Germancia. — sem mais nada ? 
— Não , M*^*. — Não ? ( e aqui olhos piscados , e 
repiscados á freira vél|ia ). E de que terra sois ? — 
De Londres, M''*. — Oh Céos ! que é heréje. — Não 
vos aíflijáes ; sou Cathólica , e nunca poria pe's 
neste Convento , se o não fora : nasci de familia 
jacobita. — Vinde , vinde ; abraçai-me , meu Cora- 
ção. Sancta nasce quem nasce jacobita. Que de 
sangue vos correo em Casa ! Que de mártyres l 
Contar-me-heis tudo; não é assim ? Vamos, gran* 
gearêis benções de Deos a este Convento. 

De'rão-me agradável aposento ; e nos primeiros 
tempos, desfazia-se em caricias, e em perguntas 
todo o Convento •, já me enfadavão , mas convinha 
conformar-me. Os 5o guine's davão-me azo , a 
fazer regalos , e mimos ás Madres- No meu intróito 
fui donosa porcionista , sem com tudo deparar 
cuma só amiga- Eniedinhos, ciúmezinhos, mexe,- 



( 3o4 ) 
riqninlios era o que por lá reinava. Cara a cara ras- 
gados cumprimentos, na ausência mordeduras. 
Eu que tinha ge'nio franco, não me dolnava á 
dobréz que lavrava na republiquinlia. Tomei incli- 
nação a uma JMôça lisa , simples, boa, franca , por- 
cionista como eu, e que foi minha única compa- 
nhia ; nem ella me disfarçou qual fosse a progénie 
sua: » Sou (me disse) filha d'um pobre Criado, 
Cocheiro do Conde dOlmancé , o mais virtuoso , 
e masuífico fidalgo desta Provincia. Foi sua des- 
graça virar , certo dia , o Coche que governava ; 
cahio e ferio a cabeça de modo que da ferida 
morreo , deixando-me órphan. Muitos Amos com 
o notar de bêbado , o porião em esque'cimento ; 
mas o Conde, não imputando ao Cocheiro o erro 
d'um acaso , como não poude salvar o Páe , aíFor- 
tunou-lhe a filha ; neste Convento me pôz onde , 
graças ao seu cuidado, recebo a mais fidalga educa- 
ção ; e sei que leve a generosidade de pôr dinheiro 
a juro, com que possa vantajosa me achar Spôso. 
Se elle não fora aqui tão conhecido, suspeitara 
eu (jue quem vos aqui conduzio, quem vos fez tanto 
l)em , como contásteis , lôra elle ; porque poucos 
homens são capazes de tão bellas acções. O retrato 
que me fizestes do vosso libertador não se lhe 
assemelha-, que não é o Conde tão gentil, como 
elle. 



( 3o3 ) 
Com essa boa rapariga passei alguns dias , se não 
felizes , ao menos socegados : que tinha ella uma 
índole natural e recta , mas quando lhe contei os 
meus successos , não lhe dei noticia de quem eu 
era : que duas razões m'o impediào , a i^^. conser- 
var entre ella e mim certa igualdade , que é de 
preço nas pessoas com quem vivemos : a 2*^^. que , 
uma vez appossada do meu segredo , nle trataria 
com respeito , e não com confiança ; e perderia 
eu o direito de tratar como amiga , aquella que se 
considerasse como minha inferior ; e teria de recei- 
ar da sua parte que o seu zelo a não fizesse fallan 
Fui devisando que minguava no Convento a estima 
em que me tinhão : indignava-me que corressem á 
cerca de mim certos rumores surdos j se ella sou- 
besse a plana , a que eu podia aspirar , cubiçosa 
que me tivessem o respeito que ella me imaginasse , 
de mui boa, ser devido, a impellisse a declará-lo , 
essa declaração poderia carear - me algam risco, 
E a sabé-lo as freiras , ({uem lhes taparia a bôcca ? 
Como se não aguçaria a Abbadessa a escrever ã 
Londres! Contemplando nas circumstancias do meu 
rapto , na Carta de Mistress Smith, nos sináes que 
de Carlos mandarão a Paris , tudo me prova , que 
nos ânimos duma familia, que eu ainda não co- 
nhecia , e até nos dos que cuidarão da minha infan- 

cia , passava por ter fugido com um aventureiro ', 
'J'om. X. ao 



( 3o6 ) 
qiié súbito me reclamarão , e que voltando lá , me 
Veria no meio de gente prevenida contra mim , 
que a verd ideira relação de meus infortúnios terião 
por novella : e , ( o que me seria cem vezes mais 
cruel ) perderia a esperança de ainda ver o objecto 
da minlia inclinação. 

Já disse que a estima que de mim faziáo de pri- 
meiro no Convento começava a diminuir , e mais 
que muito assim era. Que digo eu ? já íugião de 
mim. Havia já 5 mezes que eu alli era ; não ^e aí- 
foutavão a me despedirem , em razão de que larga 
e pontualmente paga minha mezada; mas bem 
avistava eu , que me evitavão , como se eu con* 
tagio fora ; se me encontrava co'as freiras velhas , 
voltavão caras , e fazião o sinal da Cruz , como se 
virão o Anjo das trevas ; as moças levantavão meio 
véo , e em bandos me olhavão desdenhosas, e 
cáusticas. Tal foi em algumas delias o devoto zelo» 
que me viérão pôr á porta os presentinhos de Gafe' , 
e Chocalate que eu lhes havia feito , na fe' que 
erão mimos insidiosos de Spirito maligno. Júlia 
bramava, e eu ria. — » De que vem isto? (lhe 
dizia eu ás vezes ). Ora ella tanto fez , que o des- 
Cííbrlo. A. Porteira, que era boa mulhe'r,e não via 
ia malicia d'esse tratamento , tinha colhido d'umas 
e outras , quanto a meu respeito se dizia , e sou- 
bemos, que sem engano, tudo procedia do Direc* 



( 3o7 ) 
tor. Como não p iiz nelle a minha confiança , e 
que chamei outro , foi esse o meu primeiro delicto , 
ante os reverendos olhos das Madres, e mais grave 
ainda aos do Director, cujo zelo tinhão inílammado 
as circumstancias da minha chegada. — Fizestes 
( dizia elle á Abbadessa ) do vosso Convento , o 
viveiro do peccado. Vem um Mancebo aqui , traz 
um Moça comsigo, e recolheis-la ! Dais asylo a 
um individuo da cohorte de Satanaz? E d'onde 
Vem esse Mancebo? d'onde vem essa Moça? De 
Paris! de Paris! Da Babylonia destas Eias ! 

Dalli é que pullulavào todas essas mortiíicaçõezi- 
nhas afim de me molestarem ; e que já ião tão 
fora de termo , que nem conseutião que me avi- 
zinhasse ao Refeitório ; trazião-me o comer ao 
meu quarto , e passava por verídico , no Convento , 
que á roda da minha cella apparecião todas as 
noites chammas de fogo. Que refrigério a isso ? 
Rir, e calar-me; bera assente em que o interesse 
era possante móbil , que impediria por longos tem- 
pos a minha expulsão. Alem de que , a esperança 
que eu tinha que d'um ao outro dia , viesse o 
Libertador desatar os nós que a essa morada me 
prendião. .. . mas tudo tomou diverso rumo; e a 
vóz da rígida virtude me obrigou a obrar diííe- 
rentemente. Eis que no em tanto , vem a Caen 
o Duque d'Olmancé, protector de Júlia : o alvoíoçu 



C 3o8 ) 
que essa excellente Moça sentio em si , quando 
soube que eile a chamava ao locutório , posso-o 
eu dizer, porque o presenciei; entre pulos de 
alegria , me diz : « Oh que muito quero que o 
vejáes ! Vou-lhe pedir que m'o consinta, e tenho 
por seguro , que não m'o negará. Tem tão bom 
génio! Raiava-ihe de prazer orôslo, quando vol- 
tou : vinha de ver um Páe , um Amigo , um Bem- 
feitor. « Quer vêr-vos; ( vinha já gritando , quando 
voltou ) sim quer vér-vos , que'-lo , e deseja-o — 
Mas eu não o conheço. — Nem elle a vós. Aman- 
lian túrna a vir , não vos negueis a ver dos ho- 
mens o mais digno. Sem dúvida , que pelo re- 
trato que lhe fizerdes do vosso Libertador, elle 
o conhecerá , e o nomeará. 

Com eífeito tornou o Duque no dia seguinte , 
e resolvi me a accompanhar a minha amiga ao 
locutório. Não me enganou ; que vi um homem 
do mais nobre garbo, e bem appessoado , e que 
a pezar d'esse tom de Corte opulento ( por não 
dizer soberbo ) tinha tantos ares de bondade , e 
de lhaneza esparzidos pelo semblante , que davão 
gala as seus menores movimentos. « Por que acaso 
( me disse ) tanta formosura e tanta graça vi- 
vem desconhecidas nesle retiro ? Quem é que as 
veio esconder aqui? « — Iníbrlunios , com cuja nar- 
ração não quizeraeu importunar- vos, quando mór- 



C3o9 ) 
mente venho lograr, sem desconto de amargores, 
o prazer que me grangêa a minha Amiga , no 
conhecimento da V. Exa. — Feliz a descubro eu 
em vos ter conhecido. E uma excellente Moça , 
que me paga perfeitamente o cuidado que delia 
tenho ; pelo que lhe devo agradecimento. Júlia, de 
contente , debulhava - se em lágrimas. — Ah I meu 
Protector . . . meu Páe I ( dizia soluçando) é mui- 
to. . muito ; por certo. — Minha filha, minha que- 
rida filha ( e ia - lhe enxugando as lágrimas ) e 
quem vos devia , senão eu , servir-vos de Páe ! 
eu que usei em serviço meu os dias de vosso 
Páe! Mas, cortemos uma conversação que a to- 
dos três afílige ; que eu vejo que a vossa Unda 
Estrangeira tem tão l)om coração como os nos- 
sos ; assim começou a alegrar a conversação , gra- 
cejando com muito pico á cerca dos amuamen- 
tozinhos das freiras, segundo o que a minha Ami- 
ga algum tanto lhe appontára na véspera. 

Foi-os altiibuindo ( como mui galan qua era ) 
ao ciúme que lhes dava a rainha formosura , e 
dabi foi enramando uma quantia de lindas ex- 
pressões, que um grado fidalgo, quando é amá- 
vel, e discreto, e mormente quando é de ho- 
nesto proceder, sabe com muita destreza entrançar 
na conversação. Pareceo-me na verdade , superior 
as retrato, que delle me tinha debuxado Júlia i 



( 3io ) 
e tive para miai , que nascera para merecer a 
minha amizade , e a minha conliança. Psão cui-» 
dávamos ainda nós em sí^parar-nos, quando eis 
que a Â.bbadessa augustnmente encostada sobre 
duas condescendentes Religiosas , que lhe servião 
de Escudeiros, entra no locutório. Fez ao Duque 
uma mesura, como na Corte a fazem as Damas, 
ollereceo " lhe, ao de.sdem , a mão, que beijada 
pelo Duque , foi-se assentar mui lentamente n'u- 
ma cadeira de braços , guarnecida de quantiosos 
coxins , que outra condescendente freira tinlia tra- 
zido , e nos olhou desdenhosamente a todos , por 
cima do hombro : » Espero (disse que essa M"»*. 
me permittirão de fallar com sua Ex^. Fizemos- 
Ihe eu e Júlia , uma profunda mesura, e retirá- 
mo-nos, — Adeos , minha boa filha (lhe disse o 
Duque cum tom tão lhano , que disparatavão com 
clle os grandes ademanes da Abbadessa) não 
nic lu i-de IV, sem vos tornar a vèr : e lisongeo- 
me , (pie vos quererá Mil», ainda accompanhar 3 e 
saudon-me. JNão me capacitava eu que havia de 
servir de assumpto á conversação , que com tanta 
pompa se voio procurar. 

Pouco depois o sul>e. Tínhamos gasto na ale- 
gria que o Duqtie verteo nos nossos corações, o 
dia inteiro. Como Júlia era rainha vizinha, c 
como as freiras , em razão das chammas de fogo 



C 3,1 ) 
de que fallei, andavão sempre de longe , tinha- 
mo-nos deitado mui tarde ; eis que a Porteira 
me vem dizer que me chamavão ao locutório, 
Admirou-me •, poriue me não dizia o coração que 
fosse o meu Lil)ertador ; outra pessoa não a conhe- 
cia. Ergo-me, visto-me, desço. Que assomlíro foi o 
meu , quando vi "o Duque d'01mancé! Reparei que 
vinha mais serio , que na ve'-;pera. — ■■ Estranhais a 
minha visita ? Sentai-vos , M"". contar-vos-hei o mo- 
tivo. Deo-me hontem a Abbadessa a saber os sustos 
que neste Convento causa a estada vossa , e o risco 
que á sua salvação , e á dessas Madres motiva a 
vossa presença. Não me cabe esquadrinhar a pu-» 
reza de suas intenções, e ainda menos prevenir-me 
contra o comportamento que preeedeo a vossa en- 
trada aqui : nas confidencias , que me fizésteis , so- 
mente vejo o bem que fazer-vos posso , e delle lanço 
mão , porque esse é o meu dever. Essa espécie de 
retiro de todas as vossas Companheiras, se vos não 
empeçonha a vida, verte bem enôjos nella. Póde-se- 
Ihe dar remédio? Posso eu lisonjear-me , que a mi- 
nha reputação e um conhecimento de 24 horas vos 
inspirassem tal confiança em mim , que me paten- 
teeis o vosso coração , e me deis parte do vosso pro^ 
ceder , cujo mysterio, ao que eu creio, foi quem 
unicamente deo motivo a desavantajosas suspeitas ? 
— Té-la-heis , Senhor , e por inteiro , a minha con- 



(3.2) 

fiança : que quem não tem de que se envergonhe , 
não receia de fallar. Se a Senhora Al)badessa o 
houveVa querido, por certo que me captivára a 
confiança como vo-la eu entrego. Nada me pergun- 
tou, a nada lho pude responder. 

Então contei ao Duque quanto desde a infância, 
até ao ponto que cheguei a Caen me acontecera. 
Quiz que lhe repetisse o pouco que eu sabia do*ho^ 
jTiicidio, de que suspeitaváo uma Pessoa grande : 
attento se informou do em que tempo; quiz de mim 
ouvir por diversas vezes o retrato de Carlos; pedia- 
me com efficacia , que ihe descrevesse , a poder-me 
lembrar, cfue brazão de armas levava a carruagem 
cm que me prenderão, e qual libré vestia o co- 
cheiro. Artigo foi este , em que o não pude conten- 
tar, porque era quasi noite, quando nella entrei, 
alem da torvação em que me vi , quando Carlos 
me arrancou do poder do Conde Federico, e o 
horrível acontecimento, que logo veio, que a leni- 
trança que sós me deixarão foi a de ideias con- 
fusas. 

Em quanto durou a narração , me pareceo mui 
inquieto , e muito agitado o Duque , e só o meu 
silencio o arrancou das suas reflexões. — Desculpa 
vos peço, M"". que me prenderão o spiri to certas 
circunistaucias da vossa nan'ação; posto que com 
â vossa situação não tenhão relação alguma os mo- 



( 3i3 ) 
vimentos da alma , que ellas me inspirarão. Admiro 
a virtude , admiro a coragem , que vos sustivérão , 
nas posições cruéis em que vos vistes^ por ser nos 
vossos poucos annos , raro experimentar tão avul- 
tados revezes. Pelo que, mais digna sois de estima» 
e ainda mais condoivel ; consenti-rae porem que 
yiào louve com igual franqueza a prudência vossa ; 
que fácil me foi de conceber, que vos não é indif- 
ferente o vosso Libertador , cujo procedimento des- 
cobre uma alma delicada. Mas é mancebo , e não 
sabeis ql^m é; e toma hoje commummente o Vicio 
os tiajes da Virtude por cumprir suas tenções , e 
com affinco tal, que o não podeis imaginar : eííeitos 
da depravação do século ! Nada ruin suspeito nelle; 
mas não folgo com gente que se encobre j e o aíTeito, 
que em mim calasteis , de mui vivo que é , se as- 
susta do mal, que vos pode vir, ainda antes que 
elle se realise. 

Lembrar-vos-hieis vós do nome da rua , em que 
morava essa Dama Roger? — Sim , Senhor : rua de 
rOursine , suburijio de S. Marcello — Raro habitão 
nesse bairro pessoas fidalgas. Não faz ao caso; e 
esta minha objecção é fraca. Ainda outra pergunta : 
pareceo-me que de propósito evitasteis fallar no 
titulo , e plana da vossa familia... — Senhor Duque, 
a boa opinião que tenho do vosso juizo fez que jul- 
guei inútil um titulo illustre para mais abalar o 



l 3i4 ) 
vosso humano coração. Sei que pertenço a uma 
das mais lUiistres faniilias de Inglaterra , mas cujo 
nome me é occnlto. Esta Carta de Mistress Smith 
é o único abono do que vos digo. Lco-a o Duque : 
e logo se ergue, e me diz : — Permitti , Mi", alguns 
dias, o depois renovaremos, com licença vossa, 
esta importante conversação , em todo o contexto 
delia ; e então vos Paliarei com toda a probidade, 
que um liomem de bem deve á Virtude infortu- 
nosa ; mas lambem com toda a severidade devida 
á mociflade inexperta , a quem um passo mal-se- 
guro despenha no precipicio. Saudou-me profunda- 
mente , e partio. 

Subi ao meu quarto , onde Júlia me esperava 
com impaciência , e que ficou admirada da conver- 
sação que tive com o Duque d'Olmance', de cuja 
lhe dei parte, d'onde Júlia augurou favoravelmente 
a meu respeito. Não o cuidava eu assim, dissipado 
aquelle error , que tanto me comprazia. A ideia só 
de me ver forçada a diminuir a estimação, que eu 
fazia do meu Libertador , me dava cruel tormento : 
( ponpie melhor o diga ) a reflexão , que os dittos 
do Duque erguerão em mim , de que viria um dia , 
em que a lei severa do Dever me forçaria a abafar 
um amor que me envergonhasse , era o que me des- 
pedaçava o coração. Alh baqueei , e confesso que 
foi esse o único instante que em mira crimino. Creio 



( 3i5 ) 
rjuc se nesse dia apparecesse o meu Libertador» 
sem difíiculdade me iria com elle , desconhecido, 
como elle me era , e cm despeito mesmo do indus- 
trioso geilo, que o Duque d'Olraancé tomou para 
me intimar o perigo a que me expunha. Júlia , a 
quem nenhum movimento do meu coração lhe 
era encoberto , me reprehendia ; porque nunca 
tinha amado, essa amável Moça. Convém ter conhe- 
cido as paixões violentas , para julgaras contrarie- 
dades, que se encontrão no coração humano. 

Passarão 12 dias em que não vimos o Duque 
d'01mancé , que para mim fôrão 12 séculos , entre 
tremores , e ardências de que viesse ; parecia-me 
que com elle vinha a minha sentença de morte : 
e todavia os meus desejos lhe davão pressa, para 
assim mudar de tormento ; porquanto, o mais cruel 
supplicio é a incerteza do fr.turo. Appareceo em 
íim o Duque ; e a primeira cousa que estudei foi 
examinar -lhe o semblante ; vinha demudado. 
Não vinha severo , vinha compadecido. — No rosto 
annunciáes meus infortúnios- Perdi tudo. Demos- 
trais condoer-vos de mim. Não tenho de o tornar 
a ver? Oh justos Céos.! — M"*. se dáes ouvidos ás 
falias da Virtude , que vai designar-vos o vosso 
dever , ceVto e que não vereis... — Mas dizei , Se- 
nhor, que soubeste á cerca dellc ? — Nada que o 
desfavoreça ; que delle, a pezar de minhas pesqui- 



( 3i6 ) 
zas , nada pude rastrear. O Ministro de Estado de 
quem cUe vos fallou , o único de quem podia tirar 
algumas clarezas, esse e morto: o Magistrado, 
a quem levou a Carta , para a vossa soltura , desfez- 
se do seu cargo , e passou á Ilha de Franca , onde 
sua MuIlieV possúe vastas fazendas , que requerião 
a sua presença ; de maneira que lhe perdi o rasto. 
Quanto a 3I'i% Poger, íacil a descobii, que a 
única d'esse nome que mora na rua de TOursine é 
uma mulher pública ; a quantas perguntas, que 
á cerca de vós lhe fiz, respondeo ser possivel 
quanto me dissesteis ; mas tantos Mancebos e Moças 
llie passavão por casa na roda do anno , que era 
irapossivel ficarem-lhe na memoria épocas , nomes, 
ou feiçòes. Bem podeis crer que essa mulher tem 
bons motivos para se calar ; basta a Policia , e o 
medo que delia tem. Como quer que seja , consi- 
derai a que honradas mãos vos confiou o vosso 
Libertador, e julgai dela sua intenção. 

— Oh Ce'os, em quem se ha-de fiar a gente! 
Que desgraçada que sou! — Verdade e'que o sois ; 
bem o sei. Mas permitti-me ainda perguntar-vos : 
Ainda o amais ? — Já o não estimo, e basta. Pouco 
custa a uma alma honrada curar-se d'um amor, 
que se desaccompanhou da estima.— Então Mn». 
consolar-vos é o dever d'um amigo ; consolar vos, e 
proteger-vos. Vós vos destes a sentença, e com 



(3i7) 
ella me tolhestes o acconselhar-vos. Não partirá 
de Londres , antes de dous mezes o Conde Fede- 
rico ; não ébem que ahi torneis a apparecer antes. 
Ora , não vos cabe viver mais tempo das raezadas 
d'um homem, que talvez ponha a esse prêco o 
deshonestar-vos. Já deve começar a desprazer-vos 
este Convento ; e eu julgo que a Decência pede 
que occulteis ao vosso Amante o sitio da vossa resi- 
dência. Dareis vós cre'dito a uma pessoa , que não 
leva outro fito mais do que honrar a Virtude em 
qualque'r parte que a encontre? Tenho fazendas 
na Normandia , e lá me estimão , e lá tenho Ami- 
gos ; consenti que lá vos conduza; e pois que Júlia 
teve a dita de agradar-vos , Júlia irá comvosco. — 
V. Ex^. bem imagina quanto me tem de custar... 
mas mostrar-me-hei digna do generoso soccôrro , 
que se me oííerece , e que eu acceito. — Oh Se- 
nhora benemérita de melhores fados ! Custoso é 
o sacrifício : mas lembrai-vos , que nunca estes 
se fizeVão á Virtude , que a Virtude os não pre- 
miasse. — 

Tomei a mão ao Duque , e lh'a alaguei de lágri- 
mas. — Escusados são agradecimentos , M"\ : des- 
venturado o homem , que vê a Innocencia em pe- 
rigo , e anão soccórre! E logo chamou o Duque a 
Porteira, e lhe encarregou que dissesse a Júlia , que 
baixasse', e a mim; — Enxugai esse pranto ; não 



( 3i8 ) 
áemostréis á minlia Pupilla , cuja alma ainda é 
limpa de paixões , que ha na vida instantes táes , 
em que é penoso dar ouvidos á Pvazão. — Em des- 
peito da extrema perturbação que em mim volvia , 
foi-me forçoso admirá-lo. Compéte-me confessar, 
que nesse momento , não era o Duque ante meus 
olhos um homem, mas sim umÂnjo, cujo semblante 
raiando a alegiía , que n'unia bella alma tem seu 
foco , visos dava de ser o numcn Humanidade. 
Logo que o Duque ouvio os passos da sua Pupilla, 
tomou súbito o tora da mais franca alegria , de tal 
modo que ninguém crera , que tão enternecida 
scena tinha entre nós passado. — Bons dias , minha 
querida Júlia ; como passas? — Muito bem , mui- 
tissirao bem , para obedecer ao meu respeitável 
Bemfeitor. — Pronunciou Júlia estas palavras com 
o tom da mais terna gratidão , que penetra pelos 
seios da alma. — Sente-se a minha Júlia disposta 
a fazer uma jornada ?... jornada ; sim. Olha-me, 
com quanto pasmo queiras : M"". tem precisão de 
ir a Normandia ; já me acceitou por seu Escudeiro , 
e assentei que te não desagradaria ires por Aia — 
Júlia respondia, mas atalhou-a o Duque dizendo- 
me : — M"". , Tutor vosso me quizésteis ; uso das 
miidias prerogativas. É tarde , e não tendes sobejo 
tempo para os apprestos da jornada ; nem eu para 
dar as ordens necessárias : separemo-nos. Ás 6 da 



C3i9) 
raanhan bato á porta da Abbadia ; ache-vos en 

prestes , senão ralho. Numa hora se carrégão 

as azemelas ; chocolate prompto , que o hei de 
tomar comvosco , e partimos ás 7. Estais por esta 
conta , M"* ? — E vós consultais-me , quando a 
vossos conselhos devo a minha felicidade ? — Po- 
nhamos ponto nesse assumpto. Mas, que atontado 
sou! E ia-me, sem fallar á Abbadessa ! Espeuii 
um pouco ; que diante de vós é que fallar-lhe 
quero. Chamou outra vez a Porteira , e disse-lhe , 
que pedisse á Senhora Abbadessa que lhe fizesse 
a honra de lhe ouvir duas palavras. 

Muito tardou a Abbadessa a descer ao locutório , 
que muito tinha que lidar no toucador. Em quanto 
aguardava , gracejou com nosco o Duque , respi- 
rando a franca alegria , que só nos bons corações 
reside. Saboreava-se deliciosamente do prazer de 
aíFortunaros outros ; e ao certo , ha hi prazer mais 
puro ? Notei no Duque d'Olmancé um talento , 
que bem pernicioso fora n'um peito depravado. 
Possúe em gráo supremo a arte de compor o seai- 
blante de modo , que ninguém , que entre a vê-lo , 
lhe rastreara os abalos precedentes que lhe mo- 
verão a alma. D'essa arte usou , bem delicada e 
lisonjeiramente a meu respeito , logo que a Abba- 
dessa chegou. Tomou o Duque, para lhe fallar, 
aquelletom de igualdade, que os Grandes usão culre 



( 320 ) 

si ; e nunca lhe fallou em mim , que lhe não sahís- 
sem ao rosto sináes do mais profundo acatamento. 
— M**'., de duas porcionistas venho privar-vos ; por- 
que negócios importantes requerem a presença 
de M '". Germancia. As informações que tomei a 
seu respeito , e as poderosas recommendações que 
á cerca delia recebi, vos desanganarião de quão mal 
fundados erão os sustos vossos : mas é vedado des- 
cobrir segredo de outrem. Baste segurar-vos eu, 
que poucas porcionistas tendes recebido na vossa 
Abbadia, que ao respeito universal tenliào maior 
direito •, e (jue não imaginei qutf tinha feito muito , 
quando lhe suppliquei , que houvesse por de seu 
agrado , dar-me a honra de a conduzir na jornada , 
na qual não fora decente ir sem companhia : para 
o que , lhe instei , que acceitasse o desvelado pre's - 
timo da minha Pupilla. Como porem é mui conve- 
niente que esta jornada a ignorem seus adversários , 
tenho de pedir-vos, que esta sabida do Convento, 
6 a parte que nella me cabe , fiquem em segredo 
entre nós : e creio que póssõ levar comigo essa se- 
guridade. Ate' me aftbuto a affirmar-vos , que vou 
convencido de que o guardareis ; no que mais não 
faço do que render-vos o obsequio que vos é devido- 
Não podia o Duque dar mais valente , nem mais 
fina lição á Abbadessa , restabelecendo-me assim 
com uma só phrase , mui splcudidumcnte , no 



( 3-2t ) 

Animo delia , e no de toda a Communidade. De- 
pois que saudou a Abbadessa , e a nós deo cor-- 
dialmente as boas tardes , e nos recommendou 
a madrugada seguinte, foi-se. Com difficuldade 
se descreveria como a Abbadessa ficou stupefacta : 
queria balbuciar-me algumas desculpas : mas eu , 
com certo tom de dignidade , lhe respondi , que 
não tinha de que me queixar das attençòes que 
coi-iiigo tiverão as do Convento , e que ella nenhu- 
mas me devia. Buscava ella vãos , e ridiculos pre- 
textos , communs aos que se sentem culpados. 
« Não me permittio minha Tia , depois de muitos 
tempos, MH Germancia, que eu tivesse a honra 
de YOs vir ver ; mas , neste lance de nos separarmos 
espero cu , e ainda me lisongeio , que vos não ireis , 
sem me fazer a honraria de vir ceiar comigo. « — 
]M'•^ em despeito da lida, que comsigo traz uma 
véspera de partida , terei essa honra. -E acabando 
de dizer estas palavras , llie fiz uma mesura entre 
cortez , e de patrocinio. 

— E haveis de ir ceiar co'a Abbadessa ? — Sim , 
Juba , e hei-de vos levar comigo. — A mim ? — 
A vós , minha querida Júlia. Que nada castiga me- 
lhor essas acanhadas almas, como mteirá-las de 
que nos não fica rancor: amuar-se , é pôr-se com 
ellas de parelhas. Bem imagináes que scintiUava 

de impaciência de saber o que se tinlia passado. 
loni.^. 



— K d'oncle vem lai mndança , tal jornada , e tão 
súbita e tão inopinada ? — Posto que me pareceo 
que o Dnque quizera que eu com Júlia guardasse 
reservas , era essa Júlia tão excellente Moça , amava- 
a eu tanto , e tinlia-lhe eu tantos segredos confiado, 
que lhe não pude encobrir este. Assim a fiz sabe- 
dora de tudo o succedido , e não faltarão lágrimas^ 

— Sei (me disse Júlia) que vos affligirá o quevou di- 
zer-vos ; permitti com tudo , que antes de vo-lo 
dizer, vos de um beijo. O que o Duque pensou, 
pensado o tinha eu já ; que não fazia ( eu confesso ) 
grande conceito do vosso Libertador. Concordo 
que se occulte quem faz algum bem a outro 
ás não sabidas delle \ mas mostrar-se , e esconder 
seu nome, inspira desconfianças. Senhora muito 
amada minha , Senhora , ( que d'este instante como 
tal vos considero ) a pôr de parte a afieição que 
esse Mancebo vos inspirou , inevitável aííeição! 
persuado-me que pensaríeis como eu e como Sua 

Ex». 

Lavava-se-me em lágrimas o semblante ; c não 
linha que lhe responder; que bem sabia quanta 
razão tinha Júlia , e bem me parecião capciosas 
as desculpas que o meu Libertador me dera então , 
para encobrir seu nome : e dalii se scguio cahir eu 
na mais profunda melancolia. — Coragem , minha 
digna Senhora... — Júlia, minha querida Júlia > 



cliama-me amiga lua. — Amiga vossa \ M"^. a minha 
opinião é que nascestes na illustre plana, que cap- 
tiva o respeito , quando vem junta com a Virtude. 
Segredo é vosso , que eu saloerei , quando tíie jul- 
gardes merecedora delle. Apertei a mão a Júlia , 
sem mais resposta. Pozémo-nos a pr-eparar tudo 
para a partida , que nos levou o resto do dia , ate'ap- 
ponlar a hora em que tinha de ir aos aposentos da 
Abbadessa. Muito me custou a determinar Júlia a 
que me accompanhasse; mas logo que entrámos , 
mui deliberada lh'a presentei , dizendo : » M^\ não 
tereis por mal , que me não separe de quem sem- 
pre fui fielmente accompanhada. Como estas pala- 
vras levavão epigramma com sigo , a mui adoci- 
cada Abbadessa seu tregeiíinho lhes fez , de que 
pouca conta fiz. Muito ceremoniatica , e muito pes* 
ponteada foi a ceia , e nella me fôrão feitas quanias 
momices, e quantas entaladas polidezes servem ordi* 
liariam ente a soçobrar aquelles que tem de nós re» 
cebido aggravo, ou a quem injustamente desdfenhá-' 
mos. Quasi toda a Communidade aili assistia, menos 
o Director que tinha soprado a discordia.Era para 
ver como todas as Religiosas tinhào caras de mais de 
palmo ! Ate' creio que as que me fizerãò restituição 
de meus presenlinhos , tidos por endemoninhados , 
se arrependião tanto ou quanto de seu zelo indis«« 
ereto , e que bem quizerão agora té-los guardado. 

31 ^ 



( 324) 
Bem pouco estava eu para alegria , mas revesti 
no rosto certo ar cie jovialidade , e pareci não 
me dar por sentida do constrangimento que a 
minha presença alli causava : quiz ao menos dei- 
xar pezares de que me não tivessem cultivado mais 
assiduas ; e essa a melhor lição ([ue lhe podia dar. 
Eis que dá meia-noite , e delia tomei pretexto , 
como quem devia madrugar; assim me despedi 
-da Abhadcssa , e mais Religiosas , e Porcionistas. 
Tive de aturar a hypocrisia de abraços e de beijos, 
ate que me retirei com a minha leal Júlia, que 
bom quinhão levou nos mellifluos cumprimentos 
que me esperdiçárào. O como foi , não o sei : mas 
sei «lue nos não deitámos , e que erão já 4 horas , 
sem que o pensássemos; e como Júlia só traçava 
quantos meios podessem distrahir-me , não houve 
macaquice que não fizesse : pôz-se a arremedá-las 
todas freira por freira, e a contar-me mil graciosas 
historiettas. Mais de de'z vezes recomeçou o cho- 
colate que preparava para o Duque, e dez o en- 
tornou com seus brinquedos loucos. 

Punctual á hora apprazada o Duque veio, e em 
quanto almoçávamos , carregarão nas azémelas as 
minhas mallas, e mais as de Júlia.. Sahi da Abba- 
dia, sem levar saudades delia; mas não deixei de 
sentir que sahindo dalli , punha talvez um estorvo 
perpetuo entre mim, e o meu Libertador. Tal que 



( 3a5 ) 
um terno Páe trata os filhos que ama , nos tratava 
o Duque : e dizer posso que para nós tinha o cora- 
ção d\nn velho enlre cobertas de Mancel)0. Bem 
sabeis, que nos seus 3o annos, tem a sua reputação 
tão bem assente que não se aíToutarião as más Hn- 
guas a surrir-se , quando o vissem servir de givia a 
duas»Donzellas tão mocas como nós. Onde eu vi que 
era muito amado, foi no accolhimento que á mi- 
nha pobre Juba fez toda a Criadagem ; todos a aca- 
riciarão como a Irman muito amada j e cada um 
cuidava de comprazer ao Duque , assinalando-se 
nos aífagos que á Pupilla lhe fazia o ; que havia 
8 annos que a não tinhão visto , e todavia a conhe- 
cião todos. Sinal certo que era constante o Duque ; 
e annúncio tão favorável da bondade do Duque ^ 
como do bom serviço dos Criados ! 

Quando eu não soubera d'antes que era o Duque- 
fidalgo de mui grande porte , fácil me fora presumi- 
lo da maneira com que ia de jornada. Nós iamos , 
elle , Júlia e eu n'uma berlinda a 6 cavallos; Se- 
cretario , Intendente, Mordomo, noutra a 4; o 
Criado grave com dons lacaios , e dous palafre- 
neiros , que levavão dous Cavallos á dextra ião 
todos bem montados accompanhando-nos , de ma- 
neira que sendo ii pessoas,, occupavamos 17 Ca- 
vallos. Não se vai de jornada cora maior ostenta- 
ção. Tanto (|ue o caminho durou , lançava o Du- 



( 5-26 ) 
qae mão de tudo, para distraliir-me : desvelos 
attenciosos, cortezes amabilidades, conversações 
discretas , anecdótas curiosas , e cheias de pico ^ 
narradas com infinita jovialidade e finura. DifficU 
será que o creião. A pezar de tudo eu ia pensativa, 
c elle me cataneava. Posso fallar diante delia ( ap- 
pontando para Júlia) cpie vista abondade que usáes 
com ella , é de presumir , que nada lhe occultáes. 
Quem motiva essa melancolia em que vos vejo tão 
«ntranhada "^ De quem táes saudades -. — De quem ? 
por leviana me teríeis , se em tão curto espaço me 
vísseis já sai-ada a chaga. Não vo-lo encubro , uma 
única reflexão me cccupa , me atormenta. Qual- 
quer que elle seja, esse homem que me trouxe a 
soltura , por mim, e a meu respeito tudo fez; a elle 
devo talvez ter escapado ao supplicío que a preven- 
ção de meus Juizes me podia preparar; desde esse 
prazo , se eu existi , a seus benefícios o devo ; um s6 
diche , não tenho, uma só bagatella , que delle me 
não venha ; e quando elle souber da minha fuga , 
que horrendo conceito não fará dé mim ? Que 
motivos lhe não dou de me contemplar como um 
monstro de ingratidão, e como a mais desprezível 
creatura? — Ajuntaí-lhe ainda, que desesperação 
extrema a de perder na formosa e sensível German- 
cia , uma adorada Amante ? 

Surrindo me respondia assim o Duque. — Oh não 



( 527 ) 
gi'aceieis no caso. O seu amor , de que me vale se 
não é legitimo? A minha Honra, o meu dever me 
ordena, que o suíToque. — São rodeiozinlios que 
uma charama mal-extincta busca , como meios de 
se mostrar sem pejo, Fallémos sério ; se era culpá- 
vel o intuito do vosso Amante , não ficáes quite 
com elle, mal que vos certifiqueis de sua maldade ? 
E permittida a ingratidão, sem pejo algum , á cerca 
d'um homem, que de si cuida, quando por nós se 
emprega : e a mulher que toma em conta os sacri- 
íicios que um induzidor por ella fez , deve pcr- 
guntar-se a si mesma , se outros tantos sacrifícios 
houvera elle feito por lhe conservar a sua virtude ? 
Cem contra um , que ella dirá que não : e nessQ 
caso, em que lhe fica devedora ? Agradecer-lh'os 
fora ir cômpUce coma intenção do seu Amante; 
c confessá-lo-hia ella sem corar de pejo? M.'^* , se o 
vosso Libertador com limpeza de ânimo, vos foi de 
préstimo ; se de verdade vos ama , se elle é digno 
de vós , como o deseja o meu coração , não lhe 
dará o Amor descanso , que vos não procure : nem 
vós sereis sempre no transe de vos encobrir. En- 
tão saberá os motivos porque vivesteis retirada , e 
redobrará de amor e de estima. Ainda mais vo$ 
digo , que quando recommendei segredo á Abba- 
dessa , levava mormente o fito no Conde Federico , 
que nesse Mancebo , que eu não conheço , e que só 



( 328 ) 
yne foi suspeito , pelo conhecimento que elle tinlia 
d'essa Roger. Se elle tem depravado o coração , 
certo estou ( perdoai-me este desafogo de amor- 
proprio fundado na niinlia coidiccida probidade ) 
que nunca se avizinhará a uma Dama a quem o 
Duque d'01mance tomou em seu patrocinio : e se 
é honrado, dobrada razão lhe dou de se mostrar. 

Calarão em meu peito essas reflexões do Duque ; 
reflexões , que eu não tinha ainda feito; e fizérão 
cilas mais : reconduzirào-me ao coração a perdida 
bonança. Porei eu culpa ao Amor? Virá delle a 
vóz occulta que me diz na alma , que o meu Li- 
bertador é tal , qual eu m'o affigurei d'esde o pri- 
meiro encontro ? Comecei a capacilar-me que ain- 
da o tornaria a ver. O que eu somente não podia 
congraçar , era o retrato que d'essa Roger me fez o 
Duque, com o tom de decência e de Virtude , que 
nella percebi. Tirei dahi , que houvera engano nas 
informações que delia ao Duque derão : supposição 
esta , que abraçada com a esperança de apparecer 
aos olhos do meu Amante, adornada com a di- 
gnidade do sacrifício, qne por elle fiz, espargio 
pela minha imaginação mais folgada alegria. Delia 
se sentio bem a nossa sociedade , pelo mais res- 
tante da jornada, a que eu dei fim com tal se- 
renidade de ânimo qne cumulou de contentamento 
ao Duque d'Olmancé : a cujos domínios apenas 



( 32() ) 

que ciiegámos, me ai^osenton nesta pequena mo^ 
rada. A vida que aqui levei, Comraendador, bem 
a sabeis vós ; e sabeis como elle me deo conheci-^ 
mento comvosco. 



Tanto que acabou Germancia a sua narrativa , 
lhe annunciou o Comraendador de Selville, que 
no dia seguinte , sem mais tardar , partiria ella 
para Paris recommendada por elle á caroavel viúva 
d'Olmancé , a cuja casa, bem provida das instruc- 
ções do Commendador, se encaminhou , como 
convindo tinhão. Recebeo-a a Duqueza d'Olmancé, 
como receberia a mais querida filha do Commen- 
dador ; e M*^* de Se'raiane , que alli se achou pre- 
sente , entrou a bradar que o seu velho amigo era 
o mais adorável homem , que havia •, pois que lhes 
enviava uma M."^ que era um encanto, A cuja ex- 
clamação da bule-bule e estonteada Marqueza, 
que se não saciava de acariciar por extremo a 
Ijella íngleza, deo um surriso a viúva d^Oimancé. 
A Marqueza continuou : — Vou escrever, vou agra- 
decer ao admirável Commendador ; não , não lhe 
escrevo : depois d'ámanhan se julga a famosa de- 
manda. Esperarei. — 

Cu ma actividade bem digna d'uma alma nobre 
e generosa , prosegnia o Commendador nas suas 



( 33o ) 
pesqulzas , para demostrar a innocencia do seu 
Amigo. Já ia ter com M.'''' dXrfay , eis que recebe 
uma Carta de M.''' de Sémiane , que dizia assim. 
» Victoria ! victoria! A. demanda está vencida. 
AíTigiirai-vos , Commendador, a minha alegria, 
o meu delirio , o meu extremo desatino. Fui-m« 
aos abraços, a Presidentes, a Conselheiros; nem 
eu sei , se no meu arrobamento não beijei alguma 
meia dúzia de Escrivães. Que gozo! que prazer! 
Que bella pousada a da Grande-Camara ! Creio 
que airida lá estaria , se nào vie'ssem logo outras 
Causas a sentenciar. Psão por certo, não me passava 
tal pelo sentido. Assentava que todos os Deman- 
distas tinhão vencidas as suas Causas , como nós a 
nossa. Hoje, oh que sim! temos mais 200,000 fr. 
de renda. A.deos, tristezas! Mas não discorre as- 
sim a nossa inimitável Amiga. Mas eu , Commen- 
dador, eu perco o sentido. Já dez Cavallos arrui- 
nei para ir dar agradecimento a todo o Universo. 
Sémiane, pacato como vós o conheceis , diz que se 
lhes mette na cabeça aos meus amigos ganharem 
demandas , que ei-lo perdido. Nestes dous dias 
não se tem cá dormido ; não quero que ninguém 
durma j dormindo não se ri. Tenho escripto 200 
Cartas ; não vos agasteis , que vos guardei para o 
tillimo; e em tanto se me assocegou o juizo. Nos 
primeiros instantes não entenderíeis o que eu dis- 



(33i ) 
sesse. Mas M."^* d'01mancé ! Em quanto eu des- 
tempero , desconsola-se ella. Quem pode'ra pintar- 
vos esse dia ? essa coroavel scena ? Os desasocegos 
da nossa Amiga , o terrivel golpe que lhe descar- 
regou o Duque? Oh que o Duque é delicioso! 
tendes de adorá-lo. Traidor , que nos encol)rio o 
seu projecto 1 ft^i pérfida a astúcia 1 E temos de 
perdoar-lh'a. Quem lhe ha-de querer mal , depois 
do comportaraento que elle teve ? 

Na antevéspera do julgado recebeo a Duqueza 
d'01mancé a Ingleza que lhe recommendasteis. A 
propósito , Commendador , tenho agradecimentos 
que vos dar ; é ella donosa •, por certo , que é uma 
cara que enfeitiça. Na ve'spera me prevenio o Re- 
lator, porque lh'o tinha eu assim pedido. Vou de 
voo a Casa da nossa Amiga , que achei rodeada 
de Are'stos que outr'ora tinhão invalidado testa- 
mentos. — Tenho esperanças ( me disse ) que farão 
íissim. — Como no outro dia nos deviamos achar 
as nove horas no tribunal, dormi essa noite em 
Casa de M.*** ■d'01mance'. Ella toucou-se simples , 
mas quão airosamente , e quão formosa estava ! 
Eu , muito tempo havia , que me não tinha tou- 
cado tão augustamente. De verdade, que nenhuma 
equidade ha ahi em ser tão linda , quando a surte 
vai pender do juizo dos homens! Eu, oh que 



( 332 ) 
por ct^rto, que roubava os olhos , tanto mais que 
lendo a justiça por nós , natla me remordia. 

Entramos no tribunal , á vista de todas as togas. 
A Duqueza não disse palavra : eu tirei do muilo 
que fallei , uma extincção de vóz \ fallei a quantos 
houve. Derão-nos uma tribuna : os juizes tomarão 
seus assentos; póe-se tudo em silencio, e agrave 
Magestade das Leis adeja mui calada pelas abó- 
badas do Templo de Thémis. Avocão a Causa : 
sppresenta-se o Advogado da Duqqeza ; o do Du- 
que não appareceo. — Tanto melhor ( disse a 
nossa Amiga ) haverá demoras , e noutro dia serei 
talvez maisfortunosa. Perderei a causa — — Como 
acháes vós os subterfúgios do coração humano ? 
Orou Q célebre Bonnières ; nunca a Duqueza amal- 
diçoou tanto a Arte Oratória. A cada phrase ])ri- 
Ihante , a cada argumento forte , a cada reluzente 
prova , ouvia-lhe eu dizer raios. Orava elle pela 
Duqueza, e ella iria dizer aos juizes que elle os 
enganava. Por fim concluio : e o Presidente se er- 
gueo para pronunciar a revelia... Eis que súbita 
o Duque d'Olmancé , que nós não tínhamos avis- 
tado , rompe do concurso , appresenta-se ao tri- 
bunal, e pede que lhe seja permittido arrazoar 
a sua Causa. A Duqueza demostrando desdém na 
vista, me diz voltada para mim: — E esse é o homem 



( 333 ) 
flue tão desinteressado diziào , e tão generoso ?..« 
Confesso-vos , Commendador , que não fiquei em 
mim ! Foi a primeira vez , que se me acanhou a 
lingua , e não dei réplica. Sob minha palavra 
Konrada , era vergonha o vêr-me. 

Tornou-se a sentar o Presidente ; que já tinhão 
outorgado ao Duque a graça que pedia. Então dá 
nobremente uns passos mais , saúda o Parlamento , 
faz á Duqueza uma profunda cortezia , e com vóz 
firme , pronuncia a seguinte falia : 

— Não venho aqui , Senhobes , pleitear á Senhora 
Duqueza d'01mancé, seus bens legítimos, venho 
juntar o meu voto á sentença , que a Equidade 
quer que dictêis a favor delia. Dispute-lhe , quem a 
não conhecer , as pertenções ; mas quem a vir será 
sempre do parecer do Testador. Nem eu perten- 
derei desluzir com injusta resistência a mais bella 
acção , que meu Parente fez ; fallo da recompensa 
que elle deo á Virtude. Particular composição 
impedhia a Causa de vir ante este Tribunal , mas 
deixaria obscuros os direitos de M'^*. d'01aiancé , 
e obscuro o obséquio sincero e puro que aqui lhe 
faço. Nunca o triumpho da Viitude pôde levar 
sobejo lustre , nem ter por sobeja a submissão que 
lhe devem quantas Classes ha hi de homens. Sacri- 
fício nenhum faço 5 que não é generoso quem de 
nada necessita. Os serviços que á Pátria feitos te- 



( 334 ) 
ji"ho , levantarão minhas rendas acima de minliaí 
esperanças : e nestes meusannos, no meu brio , no 
amor que tenho á Pátria , acho inesgotável mina 
de riquezas. ReaUzai , Senhores , a uUima von- 
tade do Duque meu Parente ; e a vóz que ha de pro- 
ferir a sentença que de'rdes , me annunciará o mais 
suave beneficio. — 

Commendador , considerai que sensação não fez 
este discurso ! Applausos , pahneados vivas : Bravo, 
bravo retinnia nas abóbadas. Eu já não podia 
mais : chorava , ria , soluçava. Mas em que estado 
se via a triste Duquezat Uma demanda que ella 
se fmava de ver perdida, tão solemnemente ga- 
nhada ! Um homem que ella estimar não quize'ra , 
obrar diante delia e por ella , uma acção , que lhe 
careava a estima de toda a França! Que suppli- 
cio ! Contéve-se nada menos : só eu é que compre- 
hendi quanto ella padecia. Ergueo-se do assento 
em que levara meia partilha dos applausos liberali- 
sados ao Duque d'Olniance' : e quando desceo da 
tribuna , saudou os Juizes com a encantadora mo- 
déstia , que lhe conheceis ; só lhe faltava o socego 
da alma , que esparge por cima da Modéstia aquel- 
las cores de felicidade, que dão desejos de possui- 
la. Ao passar por diante do Duque , o saudou 
com um garbo mui senhor, e lhe disse : — JXin- 
guem , melhor que vós , soube dar aos homens alta» 



( 335 > 
fíçôes de desinteresse : espero , que serei eu de 
todas as do meu sexo , quem melhor delias appro- 
veitar-se saiba. — 

Meu Marido, que vinha atélli dando-lhe o braço , 
se esquivou maliciosamente ; assim lhe oíTereceo o 
Duque o seu ; e pedia a Decência que o acceitasse 
ella. Pelo que, d'um lado o Relator, e o Duque do 
outro, a reconduzirão até á caiTuagem. Dir-se-hia, 
que era um acontecimento em que toda a Nação 
se interessava. Em triumpho os conduzião. É ao 
mesmo passo tão amável e tão ruidoso o francez, 
no seu dar parabéns ! Além de que , um e outra 
são tão caroaveis ambos ! Na verdade que era a 
Generosidade dando o braço á Virtude. Paris está 
inteiramente na certeza que se casarão. Porque 
não pensa como Paris a nossa Amiga? Quasi que 
a não deixo só. Ella calada : que o comporta- 
mento do Duque lhe calou muito no ânimo ; vê-se 
forçada a lhe fazer justiça , constrange-se , entris- 
tece-se. Quanto não dera eu porque tivéssemos a 
certeza que pronunciou seus votos o Cavalheiro 
de S. Jorge ! Morta a Sperança, morre o Amor, 

Parece que a occupa infmito a Ingleza , que lhe 
reconuuendásteis. Faz mysterio do que requerem 
de seu coração o préstimo da amizade que vos tem, 
e o merecimento da recommendada. Appressai- 
Tos de voltar a nós j escrever não , que não rece- 



( 33G ) 
berei a Carta. A propósito , cuidáes que estou 
bem alegre? Pois não: que mais de dez vê/es 
tenho hoje chorado. O meu coitado Se'miane , 
parte daijui a quatro dias para o seu regimcnlo. 
Ficarei sem amigo, sem consolador, sem amante, 
sem marido ; e o peior é que esse bárljaro, esse 
monstro me leva o meu filho : e para que ? Para 
mostrar ao Pxegimento, um fedelho de 5 annos 
já vestido de farda. Homens ruins , que sempre nos 
sacrificáes ao vosso bom prazer! e que sempre 
mais crianças sois que nós. Excepto vós Com- 
mendador , (jue sois a Razão em pessoa. Adeos. » 

O Commendador ia , ({uando recebco a Carta , 
direito a casa da Marqueza d'Urfay •, leo-a e en- 
caminhou se la, a tempo que achou o Marquez 
moço conversando com a Mãe , que se turvarão 
muito, quando avistarão M'". de Selville, entrando 
comtudo em si , M*"*. d'Urfay lhe disse : » Senhor 
Commendador, muitas vezes me perguntásteis 
algumas clarezas á cerca do Cavalheiro de S. Jorge, 
amigo intimo de meu filho ; dei-vos quantas viérão 
á minha noticia. Agora , horrenda claridade nos 
allumia hoje: o Cavalheiro de S. Jorge é um 
monstro. — Que me dizeis. Senhora? — Senhor 
Commendador , nem minha Mãe , nem eu pode- 
res temos que nos facão duvidar de seus crimes. — 
Como assim? — Ouvi-me, Senhor. Milord Stanley 



C 337 ) 
Commanclante do navio, que fez prisioneiro ao 
Cavalheiro de S. Jorge, approveitando-se da Paz 
que corre entre Inglaterra e França , veio aqui ter, 
aqui me entregou ce'rtos papeis que provão com 
evidencia, que o Cavalheiro de S. Jorge é o mais fa- 
cinoroso de quantos malvados ha. Segundo a opi- 
nião geral , e o posto que elle obteve no militar , e o 
nome e titules da sua familia, justificarão bastan- 
temente a amizade , que com elle tive ; mas no 
conceito do homem que pensa , fora eu culpado , 
se lhe quizesse attenuar seus ruins feitos. 

Fundada foi na estima a razlio que me unio ao 
Cavalheiro de S. Jorge ; que se elle desconhece as 
Virtudes, possúe ao menos a perigosissima arte 
de saber-se mascarar com ellas ; e se a autoridade 
dos papeis , que em minhas mãos tenho , não me 
tolhera duvidar da realidade ; se eu não conhecera 
o infame ministro de seus designes , significajdo 
nesses mesinos papéis pela lettra mesma , que eu 
reconheço ser da mão do Cavalheiro de S. Jorge , 
confesso , Senhor Commendador , que tremeria de' 
conceber algum juizo temerário. Somos da mesma 
idade, juntos fizemos todos os nossos estudos, e 
exercicios : elle sérvio no Regimento, que eu cora" 
mando ; e o que estreitamente me unio com elle 
foi ver nelle valor, generosidade, sensibilidade, 
desinteresse , lealdade ; e di-lo-hei ? ceVío rigorismo 
2'oni, X' 32 



( 338 ) 
em seus costumes, cuja excessiva austeridade 
muitas vezes lhe estranhei. Vós mesmo , vos enga- 
náreis, Senhor, com elle *, se pelo alarde de suas 
virtudes me subjugou o ânimo , procedeo sómeiite 
de ({ue as prezo eu muito. Tenhamos sempre boa 
opinião de gente , que um malvado necessita em- 
bair. Os cabellos se me errição , quando se me 
falia em M'*. d'Olmancé, que tantos ruins feitos 
lhe tem custado já. Bem sabia eu que elle a amava ; 
e fortes motivos tenho para suspeitar que essa 
Senhora tão respeitável , quanto desditosa , o não 
•vio com indifíerença. Desgraçada Senhora ! O 
primeiro delicto do Cavalheiro de S. Jorge talvez 
foi o que a lançou nos braços de M"". d Olmancé , 
que ella não amava. 

O meu primeiro movimento foi o de romper a 
máscara a esse monstro a olhos de quantos o co- 
rihecião , o segundo me atalhou de o fazer. Que 
preconceitos , Commendador , constranjão a e(iui- 
dade a contemporisar cem a perversidade ! Ah ! 
Senhor , seu Páe a quem encanecerão 6o annos de 
honrados serviços, seu Irmão, seus Tios, e seus 
Primos, tão distinctos por sua muita honra, por 
seus empregos, por seus titulos ; 20 mausoléos que 
encobrem as venerandas cinzas de tantos Avós 
saudosos ainda agora á Pátria... Se eu publico o que 
sei 5 virá súbito o opprobrio rodeá-los todos , e iria 



í 



( 359 ) 
subindo a ignominia pelos séculos acima até ma* 
rear o tronco d'uma progénie que delle descendeo 
limpa, e lustrosa-: os crimes d'um máo homem 
estragarião 600 annos de Virtudes^ Injustiça ab- 
surda , mas corrente ! Commendador , acconselhai- 
me ; que estrada seguir devo em discrime tão hor- 
rendo? — Senhor Marquez, dais-me licença, que 
eu deite um lanço de olhos por esses papéis? — 
Com muito gosto, Senhor Commendador. — 

Ao passo que ia lendo, enfiava de espanto . — ^ 
M. d'Urfay , assaz li já , para me convencer que o 
Cavalheiro de S. Jorge é de todos os homens o mais 
abominável ; mas também concebo, que o seu sup- 
plicio lançaria indelével nódoa na sua respeitável fa- 
milia. Salvemos seu desditoso Páe da mágoa de ver 
o seu indigno filho morrer n'Lmi cadafalso. — Se- 
nhor Commendador, eu obtive uma licença de 
6 mezes , fehzmente que me irei no alcance de Ca- 
valheiro , que me segurou Milord Stanley que o 
acharia em HoUanda ; e Duprez seu infame agente , 
subitamente sahio de Paris para Amsterdam. Lá 
me encaminho , e vos darei conta de mim : vós , 
ide ter com Md». d'01mancé , vehii , sem que ella o 
saiba , sobre os perigos , que a ameaçào. — Mr. de 
Selville despedio-se de M''''. d'Urfay, a])raçou o 
Marquez , e voltou a casa, com o coração ([ue])ran-' 
tado de sustos , e de mágoa. 



(34o) 
Inconsolável se via a Duqueza por ter vencido a 
Demanda, Vãos esforços fazião seus Amigos, para 
arrancá-la de sua melancolia. A Jóven Ingleza , 
(que já lhe tinha captivado a amizade, e a con- 
fiança) fiél ás intenções do Commendador , tinha 
dado no coração d'essa Sen])ora generosa e sensivel, 
um golpe , tanto mais doloroso , quanto ella se 
via obrigada a fazer a justiça que era devida ao 
mancebo Duque d'01mancé. Dizia então comsigo r 
— Vós não quereis, oh Ceos, que eu venturosa 
seja : para que me accumuláes de riquezas, quando 
eu só mediania desejava? — E aqui vinhão lágri- 
mas a mares. — Está concluído ( seguia ella ). No 
desventuroso estado, em que me vejo, um só 
partido se me oííerece ; único que com o meu 
coração concorda , com a minha fortuna , e com 
a minha consciência. Germancia é quem só por 
agora me suspende executá-lo j tenho de assentar 
fixa a sua sorte , e á força de desvelos o alcança^ 
rei. Mas que íamilia é a sua? Dir-m'o-ha Mistress 
Smith ; virão reclamá-la seus Parentes. Que can- 
dura ! Que ingenuidade!. Que attractivos, e ao 
mesmo passo , quanta coragem essa caroavel 
Menina em si concentra! Disfarçá-lo não posso; 
tem de me custar para o futuro o destino delia. 
Quem deparará com esse Amante, de quem ella 
ludo espera , e de quem nem o nome sabe , nemi 



( 34i ) 
plana , nem qualidade , e que pelo debuxo que 
delle me faz, e' digno da sua ternura? Que geito 
me cabe tomar para desculpá-la ante os olhos de 
sua familia, seus illustres Parentes que raivão 
de cólera contra ella ? Oh quanto é digno do mais 
cruel supplicio , o monstro , que a tr.diio tão indi- 
gnamente ! Pobre Menina , tão innocente , e tão 
amada! Quanto é feliz esse malvado! Com as 
sombras do mysterio o cubra a innocencia dessa 
Menina , e tolha que se não divulgue o seu verda- 
deiro nome. 

Bem avisto o alvo do respeitável Commendador ; 
o Duque d'01mancé comportou-se com German- 
cia , como um Anjo; a acção que eile ante o Parla- 
mento obrou , não é de homem vulgar ; eu o sei : 
mas dar-lhe a recompensa a que elle aspira , eu não 
o posso , não. Dá-me o Duque lições de generosi^ 
dade j segui-las-hei. Mas o amor ! Amor não ob- 
serva ordens. Eis assitiada por meus Amigos , 
pela pública opinião , pela minha própria: todos 
me clamão : — ou te casa com elle , ou te deshon- 
ras. — Oh desgraçada Angélica ! Oh que não será 
meu Spôso. Não. Serei grandiosa com elle , e tal- 
vez mais. Não o amo j e todas as aíTeiçôes de meu 
peito lhe sacrifico : o meu amor não , pois que é 
sem esperança •, mas sim , e somente a minha li- 
berdade , os meus poucos annos, e os meus Amigos^ 



( 342 ) 
que eu tanto prezo. Esse Commendador de Sel- 
viile , que tanto me ama como se eu sua filha 
fora; a minha Se'miane , que me revésle de tanto 
encanto a vida ! E hei-de-os deixar ! para pagar a 
minha divida a d'01mance', ao lierdeiro de meu 
Spôso! E o derradeiro adeos que eu dér á amizade , 
sobrepujará o sacrifício que me elle fez d'uns l)ens , 
que eu não pertendia. Será um Claustro obscuro 
asylo , onde se enterrarão no esquecimento as mi- 
nhas desventuras , e com ellas a minha vida. Tenho 
de viver infeliz ; mas não fatigará , ao menos , o 
spectáculo de meus infortúnios os olhos dos meus 
Amigos. Riscada me verei da pauta dos humanos , 
mas conservarei a regalia única minha de recordar 
quantos desastres padecido tenho. 

Quando eu i50ze'r os pe's no umbral do meu der- 
radeiro asylo, quantos bens me cedeo o Duque d'01- 
mancé , todos então lhe entrego • dos que me per- 
tencem posso mui bem dispor j somente me reser- 
varei o que me for necessário porá o dote ; o de 
mais fai-ei partilhas entre a Amizade , assegurarei 
a ventura de Germancia , no caso , que a repudie 
a sua familia. Assim , de todas as delicias que po- 
dião carear as immensas riquezas , que eu possuia, 
a única a que tomarei o sabor, será a de comprar 
a 22 annos , com ellas uma sepultura. E que neces» 
sidade de riquezas tem aquella , que a viver desgrat 



( 343 ) 
cada se dedica? Oli! desgraçada?... Não, que lá 
me aguardão, o Socego, e a Paz do spirito", e a 
vera Felicidade. Que saudades posso eu levar do 
Mundo? Que venturas logrei eu nelle? Quando 
Menina , caluniniada , e expulsa dos Maternos bra- 
ços; Spôsa, indignamente atormentada ; quando 
Viúva, escrava; e como Amante, desventurada: 
táes meus fados sempre fôrão. Tudo quanto consti- 
túe a humana Felicidade neste Universo , se tornou 
em peçonha para mim! Filha única, objecto àe 
ufania para minha Mãe , ninguém tive , que meus 
prantos enxugasse ; herdeira , e ricea , não me 
consentirão a escolha de Marido ; Viúva opu- 
lenta e moça , o jugo do trato senhoril me veio 
assoberbar , com seu insupportavel peso ; possui- 
dora d'Lim sensivel coração , o único homem , em 
quem puz minha aíFeição, é o único cora quem 
me é vedado unir-me. Que estado , oh Ge'os , é 
este meu ! Para desfructar delle quanto preço pro- 
mettem avantagens tantas , campéte que eu atro- 
pélle os meus deveres todos? Cabia-me pois ser 
eu uma desnaturada filha, infiel Spôsa , immoral 
Viúva , desenvolta Amante ? E a Virtude ! Pôde 
elia , quando e' o encanto dos humanos , contri- 
buir a meus infortúnios, prendendo-me a quanto 
me foi abhorrecivel , e estorvando-me hoje, que 
me entregue ao que pôde só causar a minha Dita » 



(344) 
Na Religião somente é que encontrei consolador 
surriso, nesse movediço quadro de gozos, promet' 
tidos sempre, e nunca conseguidos, que a mun- 
dana felicidade me passou por ante os olhos : a 
Religião verterá nas feridas de meu peito o bálsamo 
lenitivo, que, se as não sarar de todo , me ensinará 
ao menos a supportá-l;is sem murmúrio. Separada 
dos humanos, não virá ferir em meus ouvidos o 
nome do meu Amante; mas sim virá o Esque'ci- 
mento com sua fria mão apagar lentamente a 
cliamma , que me consume. Separada das rique- 
zas , não me verei forçada a ter em preço um metal 
indigno , cuja posse preparou o meu supplicio , e 
o alongou depois. Arredada de meus Amigos , 
não me avisará mais o spectáculo de suas lágri- 
mas , que elles em mim contemplào tal força de 
virtude, que mereça mais ditoso Fado. » 

Táes erão os pezarosos pensamentos da Duqueza 
tVOlmancé , resoluta a sepultar d'um Claustro tan- 
tos dotes. Bem aguardava ella admoestações dt> 
Commendador, clamores da Marqueza, rogos de 
Amigos \ por lhes furtar o coruo , a ninguém com- 
municou o seu projecto; tomando só Germancia 
por confidente sua ; mas não antes que desse em 
seus negócios us ordens necessárias* 



«V^-V^^X V^-V^^íV^ 



( 345 ) 

Andava o Marqnez d'Urfay nos alcances do Ca- 
valheiro de S. Jorge j.informou-se em Âmsterdam , 
se allí o tinhão visto : um dia , passeiando no KaU 
verstat, vio Duprez ; corre a elle , e ei-lo que se 
lhe furta. Volta D'Urfay á pousada pezaroso de o 
não ter colhido , e logo lhe entregão um bilhêtte , 
de lettra que elle conheceo ser do Cavalheiro de 
S. Jorge. 

5) Bem te vi ; andas em meu alcance , por céi to : 
Milord Stanley me trahio, deo-te os meus papéis. 
Ah ! bárbaro , que não conce'be quanto custa a 
passar vergonha perante seus Amigos I Preferira 
eu mil vezes osupplicio: mas a tua presença, e 
os teus convicios evitá-los sube. Tive outrora um 

Amigo em dTJrfay , hoje Acabou-se : Sou-lhe 

odioso. Parto ; assim em vão será biiscar-me. Não 
me ponhas no transe de mentir. Adeos ; De ti fujo. 
Não cuides que depararás comigo. « 

Pôz á mágoa do Marquez remate esse bilhêtte. 
Bnrlárão-se-lhe as esperanças , no instante mesmo 
que elle imaginava empunhar o nó d'um enredo 
todo horrores , e que erriçava os cabêllos. Partia o 
Cavalheiro , e o Marquez não sabia para onde. 
A pezar , com tudo, dos crimes em que enfronhado 
via ao Cavalheiro de S. Jorge, sentia bem, no 
âmago de seupeij.o, que se não podia atalhar de 
amá-lo i custava-lhe , a despeito de tantas accumu- 



( 346 ) 
ladas provas , e crer que era culpado. Pergimtava- 
se a si mesmo ; » Mas porque foge elle de mim ? 
Vai-se-lhe o pejo a um Criminoso. Em que se teme 
de mim ! Que eu o reprehenda , e que o salve ? 
D*umas mofa, da outra se approveita. Perdido vai , 
oh Ce'os ! Que cor pode elle dar a esta estranha 
fuga ? Guardará jVJilord Stanley segredo á cerca de 
tanto crime abominável. Mas saber-se-ha que o 
fez prisioneiro quando ia para Malta , que o deixou 
depois livre , e que em vez de tornar a França , 
vagou por terras estranhas. Que dirão de simi- 
Ihanle proceder ? Transpõe-se a Prevenção alem 
do possivel ; e ainda é mais terrivel que a Calum- 
nia 5 porque esta só ruins a adoptão. Será ventura 
sua , se lhe suppõe somente alguma fraqueza no 
combate , ou enredos , e amores em Londres ! 
Que homem cordato deixa de conhecer o eííeito 
das prevenções , que igualmente tyrannisão bons 
e máos ? Nem contra ellas tem salvo conducto , 
talentos altos, juizos rectos, nem bons corações. 
Nem a Amizade mesma lhe se'rve de defensa : 
próvo-o comigo mesmo ; que longo tempo foi o 
Cavalheiro de S. Jorge amigo meu mui íntimo ; e 
olhando os horríveis pape'is que tenho em meu 
poder, num átomo passei da extrema confiança 
á extrema difidencia, E quem não dará cre'dito 
í^ esses pape'is malditos ?... Como defenderei evi 



( 347 ) 
o Cavalheiro de S. Jorge perante seu Páe , sua fa- 
mília , seus Amigos , seus Conhecidos , e até pe- 
rante os que lhe são indiíTerentes , se na alma te- 
nho a convicção intima de seus delictos? Ah! que 
se elle innocente fora.,.. Innocente ! Oh justos 
Ce'os ! Porque me é impossivel ai não ver nelle , 
que o mais ruin malvado ? Nenhuma certeza ad- 
quirir posso da innocencia sua ; e sem oífender a 
Piazão , não posso duvidar de seus delictos. Mísero 
de mim I Eu, que em toda a occasião , fui seu 
ardente defensor, não terei hoje aquelle fogo, 
aquella vehemencia, que persuade, que obriga a 
descartar- se do conceito injusto que se tomou á 
cerca de alguém. Cruel é a situação minha 1 se fraco 
sou em desculpá-lo , tenho de dever á boa opinião , 
que de mim corre no mundo , que me imaginarão 
mais instruido do que eííectivamente sou , e que 
suspeitarão o Cavalheiro de S. Jorge mais , ou 
menos culpado , segundo a mais ou menos frieza , 
que eu lançarei nos meus razoamentos. Que furor 
é o meu em vacillar no conceito que deile faço? 
Elle é culpado , e os seus delictos enterrados nas 
trevas ate'góra , ,tem de rebentar algum dia, á 
claridade pública. E não devo eu tremer á cerca 
da minha reputação? Que tem que imaginar de 
mim os que virem que tomei o partido d' um 
homem criminoso, que eu me aííoiitci a declarar, 



( 346 ) 
c a defender como Amigo meu? Quando mor- 
mente o meu coração e a Virtude se dão as mãos 
para o lançar de mim ?... Mas se elle não é cul- 
pado?... se não fora culpado... Seria eu então um 
monstro... O Cavalheiro de S. Jorge culpado de 
tamanhos crimes? E podes tu d'Urfay accreditá-lo? 
Que marulho de ideias incoherentes ! Prevenção 
que me faz bramir ! Espanta-me a pintura dos 
infortúnios que ella produzio. Porque consagra a 
Philosophia, sim , a cordata Philosophia , que não 
desampara ao Acaso cousa alguma , nem a combi- 
nações de' desregrado Orgulho ; porque não consa- 
gra ella os ócios seus a desarraigar os vicios? porque 
outros ócios não reserva para combater a mons- 
truosa imaginação , que os suppòe ? Se dado fora 
recensear o numero dos viciosos , como se faz ao 
dos Cidadãos , quantos homens não veriamos ^ que 
outra mácula não tem alem da que a Prevenção 
lhes pôz ? A Prevenção , sim ; que é mais de temer 
ainda , que o Vicio alardeado : d'este ainda ha spe- 
rança , que voltado á Virtude , se rehabilite nos 
ânimos -, ao passo , que o homem contra quem , 
por desgraça sua , se levantou a Prevenção , ( mila- 
gres que elle faça ) ninguém nelle crerá , e inútil 
lhe virá a ser , tanto a Virtude , como o Vicio. 

Perdidas as speranças de deparar com o Cava- 
lheiro de S. Jorge , depois que o Marquez passou 



( 349 ) 
parte da noite , nas reflexões aqui appontadas , tc- 
solveo tornar a França , e alii junto de sua Mãe , e 
do Commendador, lastimar o pouco fructo da jor- 
nada. Partia para onde sua Mãe morava, quando 
lhe apparéce Stanley, que em Paris ficara. Mos- 
trou-lhe d'Urfay sincera alegria de o vêr. — Parece- 
me , Milord , que estáveis para voltar a Inglaterra , 
quando nos despedimos. — Lá voltei, Senhor Mar- 
quez; mas negocio importante meretrahio a França. 
Acreditai, Milord, a sinceridade da minha expres- 
são ; infinito é o prazer que sinto em vos tornar 
a vêr. — Tendes novas do Cavalheiro ? — Vi-o de 
relance em Amsterdam , mas não pude íallar-lhe, 

— Ah que se eu a encontiá-lo cliego , com esta es- 
pada o atravesso. — Que me diíeis? — Infame, 
que me induzio , que me deshonrou minha Irman ! 

— Oh Céos ! — Passão ; bem o sabeis. Senhor Mar- 
quez , por Originaes os nossos Inglezes : meu Tio , 
tutor meu, e de minha Irman , deo na manta ( em 
despeito de immensos bens que tinhão de nos vir) 
de me pôr na Universidade de Cambridge , como 
simples paiticular ; e a minha Irman , sob nome de 
Betti , em casa d'uma Fanqueira em Londres , sem 
lhe dar conta da fam-^-a a que ella pertencia. Dessa 
casa fugio com ella ( Cavalheiro de S. Jorge, dis- 
farçado no nome de Carlos- — Que é o que eu 
ouço? — A verdade vos digo. — K se Betti fosse.,. 



( 3jo ) 
— Como assim... — Desculpai-me Milord -, um (ic- 
vaneio. Andais rastreando umairman, que anuíis, 
e que induzida... Se vos eu posso ajudar a deparai 
com ella... — Oh que muito ! Tenho de dar com 
ella , ainda que... — Ajudar-vos? Com toda a von- 
tade. Que formoso o dia, em que; pondo-a em 
vossos braços, me desendividasse do que por mim 
obrou vossa generosa estima , quando salvou , ou 
fez por salvar de infâmia um réo, mui earo ainda a 
este coração meu. — Salvá-lo? não : que para lhe 
arrancar a vida , o busco. Desgraçado delle, se meus 
óilios o avistão? Triste Belti, onde é que estás, dcg- 
ventnrosa e querida Irman? — Milord , explicai- 
me, por que estranha aventura... — O CavalheiíT) 
de S. Jorge roubou minha Irman de casa d'uma 
Fanqueira de Londres. — E estáes certo que foi 
elle? — Certissimo. — E ella chama-se Betti ? — 
Sim. — Porque a não chamastes, Céos, German- 
cia? — Não vos comprehendo. — Ora ouvi-me. O 
Criado grave do Cavalheiro , ou por melhor dizer, 
o seu Confidente , e seu còmplice , foi preso com 
uma Ingleza no subúrbio de S. Germano. — Dizei, 
dizei. — O Cavalheiro vem a mim desesperado , e 
me pede que empregue quanto valho em salvar 
dous innocentes. Reverenciando todas as virtudes, 
que eu então nellle suppunha, lanço-me a ir ter com 
o Ministro de Estado, que era Ainigo meu, alcança a 



( S5i ) 
Soltura da Ingleza , e do infeliz Criado. — Essa Me^ 
liina Ingleza é minha Irman. — Oh quanto o qiúzéra 
eu ! mas ella chama-se Germancia. — Nada faz j é 
ella. Dizei-me só onde ella é. — Eu fui-a pôr n um 
Mosteiro deCaen;mas de lá desappareceo depois. 
— D'esse asylo a arrebatou sem falta o pérfido Cava- 
lheiro. -^ Tal não creio Milord. Ah ! que se vós las- 
timáes a perda da amada Irman , eu a perda choro 
d'uma Amante amada. Essa fugitiva Irman, que 
não pôde ser a minha Germancia , virão dias em 
que ella volte ao vosso aíTecto , e á qualidade que a 
espera; quando eu pe'rco toda a sperança de tornar 
a ver a única pessoa , que me captivou o coração. 
E ainda a deparar com ella , não seria menos des- 
graçado. Com ella foragida , de familia obscura , 
desamparada de parentes , nem posso nem me é 
dado associar minha sorte. — Se é minha Irman. 
• — Impossivel é. — Senhor Marquez não me levo 
da diíferença do nome : Betti, Germancia, são uma 
pessoa só. Mas ai ! que essa infeliz , ignorando o 
que a si mesma se devia , e ao lustre da sua linha- 
gem, se perdeo", cedendo aos infames desejos d'esse 
monstro. Reparai , Milord , reparai que se Ger- 
mancia é vossa Irman, já daqui vo-la affumo digna 
de vós , e do nome que tendes. Se outrem , que não 
seu Irmão se affoutasse a pôr a mais le've nódoa na 
virtude dessa Menina, aqui estou eu para logo o 



( 35'2 ) 
desafiar. — Multo confiais em virtudes , para Aman- 
te. — Sim , Milord; que o dirieis como eu se a co- 
niiecêsseis. Ali? que se com ella deparássemos... e 
a ser ella vossa Irman... Se consentísseis a acceitar- 
me por Cunhado... E se Germapcia não repugnasse 
a dar-mc a mão de Spôsa... — Senhor Marquez , 
busquemo-la ambos; e se ella tomou o nome de 
Germancia , e que ainda elle mereça que por Irman 
a tenha , e se as inclinações não põe estorvo a 
vosso desejo , dai-me já por disposto a vos con- 
tentar em tudo. 

Encantado com essa nobre franqueza de Lord 
Stanley, lhe contou d'Urfay quanto a respeito da 
formosa Germancia obrado tinha , ( Germancia ou 
Bctti ) elle fora o generoso libertador dessa caroa- 
vel, e amabillssima Senhora. Com a mais séria at- 
tenção escutou Lord Stanley a narrativa do Mar- 
quez , e logo se promettêrão recíprocos , seguir os 
vestígios da fugitiva, e descobrir aonde se retirara. 



FIM DA SEGUlSnA PARTE. 



( 553 ) 

HEROICIDADE 

DO AMOR E DA AMIZADE. 

m^ PARTE. 

jLVIadama de vSémiane , que era moça j que fol- 
gava com quanto era de prazer , lhe tinha com 
ardor, deixado larga re'dea n'um donoso festejo » 
que sua Cunhada , na Quinta que tinha a i5 lé- 
guas de Paris dera, e aonde tanto dansou, que 
caliio numa catarrhal. M/* d'01mancé sempre fixa 
DO projecto de enclaustrar-se , só a Germancia 
dera d'essa resolução noticia : e esta assustada de 
tal determinação, empregou, para impedi-la, 
quanta valia tinha com a Duqueza j mas vio-a 
mais que firme nella. Pelo que , escreveo ao Com- 
mendador, que présLo viesse a Pa:iá; onde esse 
dií,'no ancião nada Iranscurou do que podia provar 
4 Duqueza, quão disconveniente era o parlido que 

iGiMara ; mas foi baldado empenho : que ella per^ 
Tom, X^ i^ 



( 354) 
slstlo, e por não desattender o Commendador , 
resistindo - lhe desasazoadamente , contentou - se 
com calar-se, e provar calada, que não havia que 
esperar , menos que toda a bateria não disparasse 
á uma. Assim , foi logo escrever a M.''* de Sémia- 
ne, nos termos que seguem : 

« M.*^* não ha hi perder tempo; despedi-vos 
dessa Quinta ; démo-nos as mãos para arrancar- 
mos a Duqueza do partido mais cruel que lhe po- 
dia a Desesperação dictar. Quer encarcerar-se 
n'um Convento , para restituir ao Duque d'Ol- 
mancé os bens que ella nem quer, nem pode con- 
servar com elle. Vinde já e logo, este é o instante 
de a pôr em sitio : não porque hajamos de usar de 
remédios violentos; basta-nos antepará-la que não 
se arreme'sse ao precipício. Bem advirto eu , que 
segundo a verba do testamento , e a generosidade 
do herdeiro , ella se vê na dura necessidade de 
deixar antes o mundo , que oííender o nobre , e 
melindroso pensar de sua alma briosa. Dama in- 
feliz, quanto e's para lastimada ! Se eu pode'ra ex- 
plicar-me!.. Esse Cavalheiro de S. Jorge... mas si- 
lencio! Ella cuida que elle a ama,d'essa illusão 
se lisonjêa ; essa ideia entre amarguras mil tem 
certo encanto , e lhe ennobrece ante seus olhos o 
Amante seu,emprestando-lhe as mesmas virtudes, 
que ella possúe , emprestando-lhe o mesmo de- 



( 355 ) 
smteresse que ella sente em si, o que é a causa 
do seu tormento : recíproca , e muda correspon- 
dência de generosidade que ella iiíiagina ter stabe- 
lecido entre ella, e elle. Que engano! Mísera, 
infeliz Amiga , ah! que se tu soubeVas.,. Em Paris, 
ao mais breve , vos espero. Felicidade é nossa que 
nos alarguem o prazo seus negócios, que ainda 
não então concluídos. » 

Não poudo ler a Carta do Commendador a Mar- 
queza de Semiane , e menos vir a Paris , no estado 
de desesperada melhora em que se via; nem ler a 
Historia dos acontecimentos de Germancia , que 
a Duqueza lhe remettéra , sabendo quanto a Mar^ 
queza desejava conhecê-los; e que ainda ate' então 
tinha ignorado. M.^* de Selville , que bem sabia o 
perigoso da sua Â.miga , como lhe conhecia a sen- 
sibilidade da Duqueza, lh'o encobria. Foi-se á 
Quinta de M.-»' dMlercy, Cunhada de M.'^* de Se'- 
miane,-cuja encontrou já fora de todo o perigo, 
mas inquietissiraa da resolução da Duqueza , que 
pelo muito que a conhecia, estava em sustos de 
que cumprisse tão violenta intenção. Querendo-a 
retrahir a ide'ias de mais sizo liie escreveo cata- 
neando-a jovialmente; e o Commendador con- 
sentio. 

« Minha incomparável Amiga , po7e'mo-nos am- 
bas no lance de fazermos cada uma um guapissi- 

2^ ^ 



( 3jG ) 
mo destempero , cu o tle morrer , e tu o de on- 
claiistrar-te. K fé de honrada , que assim como 
te cedia vantajens em juizo , em formosura, em 
discrição , assim t'as cedo agora em destempero. 
Moça , e linda , e ricca , e feliz , deixar-se morrer^ 
era falha no juizo. Mas formosa, opulenta, dis- 
creta, adorável , e adorada, e sobre isso tudo viúva- 
em seus 22 annos, deixar o mundo para empa- 
redar-se n'um Convento, le'va a bóia no fundo em 
desatino. Minha guapa, e minha bella , que amável 
que és em parir tão deliciosa ideia ! Tinhas certas 
tintas de razão , que muita vez me dérão mate , 
mas, graças ao Céo , que d'esse enfado me livraste. 
Meu Bemzinho, a Razão dos doudos é a dou- 
dice dos sisudos. 

Que perda fora , não pores por obra esse ricco 
projecto, na invenção único , nas particularidades 
maravilhoso ! E crueldade não dar fim ! As vossas 
loucuras são como as minhas, tem pouca dura. 
Oh que delicia! E como não riria eu de ver essa 
linda carinha embiocada num véo , esse airoso 
talhe enfronhado n'um burel , e esse pé mimoso, 
embetesgado n^ima grosseira alparca? Oh que se- 
ria donoso ver como huma negra gualdrapa de 
tumba, dava, com sua sombra fúnebre , resalto 
aos lyrios , e ás rosas de tuas lindas carnes. Pois 
digote que nunca te julguei capaz de tão namora- 



( 357 ) 
vel loucania. Mas pòe mais alto o pico , o tom no- 
bre e viril por ti tomado, para renunciar ao mundo 
e pompas suas ; esse é que me pêza não o ter ou- 
vido; e não estalaria eu de riso ! Oh que não ! 
menos que me não levassem de lá ; morria alli 
tVuma suffocação de inextinguível riso. 

A cara do Olmancé, é que eu quize'ra contem- 
plar. Como lhe eu disseVa então : — Pois que vai? 
Dais-vos por mui subtil, cuidando, por vossa 
grandeza de ânimo , captivar o coração d'uma Da- 
ma ? e essa grandeza vo-la rouba. Fiai-vos no Ijeni 
appessoado , no discorrer sensato , na brandura de 
Índole , e noutras táes virtudes raras neste século : 
que pre'stimo^vos tive'rão ? A única Dama que 
fora digna de vos levar em conta as vossas boas 
qualidades, é essa a única, que não se quiz dar 
por entendida. Feliz comvosco fora; mas nuo dis- 
corre assim M.'^=' d'01mance'; desgi-aças são seu 
manjar , tal é seu capricho ; desgraças c mais dis- 
graças. » 

Tomára-te eu daqui a 3o annos, para rir á bôcca 
forra , quando a idade , e a reflexão tive'ssem a- 
mortecido as paixões, rasgado com lenta viião o 
ve'o das prevenções; quando a mudez da solidão 
tivesse acarreado o enojo, mais CTue'1 cem ve- 
zes, que as tempestades do coração. Lá quando 
írcu- áticas querelas , te recordassem pouco a [lOuco 



( 358 > 
a doce paz que desíiuctavas no grémio de tens 
Amigos ; á quando coin pés de lan viessem as 
doenças camaradas da Velhice, e te colhessem 
no desamparo de bens da Fortuna; então e' que 
eu tomara vir á falia com esse spirilo heróico, 
que considera como sublime e.^fo^ço tersappor- 
tado quatro prolixos annos, impetuoaidades ; lá 
( digo ) quando 3o annos a fio , se tivesse azedado 
com destam|)adas minúcias, e continuas vexações 
d'uma Prelada. Como ao ver tanta guapice , me 
poria eu a gritar : — Quão rara , quão excellente, 
quão incompíiravel tonlice fez M.'^'' d'01raance' ! ! \ 
Assim, assim é que se sustem uma aposta! assim 
e' que se consagra nm desatino! E eu que me ufa- 
nava de louquissima, tenho de que á tua vista 
sou um nada. A mim é que cabia, quando batia 
ás portas do moimento , rir da pe'ça , que me que- 
ria pregar a Morte. Estaria a estas horas mui so- 
cegadinha no meu jazigo. Mas ir-se sepultar, em 
vida; empobrecer-se, por ser ricca ; metter a dor 
no coração de seus Amigos , porque nos amão j 
pôr grilhões á Liberdade , pela única razão de que 
somos livres; dar em si nus spirituáes, e eíemos , 
porque lòtos os nus temporáes , podia sahir delles 
a nossa Dita ; desesperar um Amante, porque nos 
vemos concluídos a estimá-lo; e para cúmulo de 
tudo o mais , desesperar-se a si mesma , para en- 



( 359 ) 
cetar uma nova carreira , por meio de tormentos , 
decorrê-la entre remorsos , e acabá-la com lágri- 
mas, com penas, com desamparo; isso é que se 
chama de mão de Mestre , e obra prima da Ex- 
travagância. Eisalii, minha amável com pettidora 
em doudices , o que eu não posso , sem ciúmes , 
ver; e o de que eu, com todo o coração quizéra 
ter sido a Inventora. 

O que porem me consola é que não terás brio 
para lhe dar effeito ; e então comigo fica a prima- 
zia : e eis a tontice com o seu remate posto. Quem 
não ha-de rir , a perder fôlego com strambótico 
projecto? A boa fé, minha digna e grave Amiga, 
que tem os Lentes de ridículo saber , de ter por 
jogo suas postillas. 

Eu me sinto ; oh que me sinto , como na Prima- 
vera a Natureza. Affigura-te minha querida o retá- 
bolo... que feliz retábolo. Minha Mãe, coitada , so- 
çobrada de pezares , que chega , com o peito 
opprimido , os sustos debuxados no rosto , e sem 
poder dormir de noite nem de dia; meu Marido, 
d'outro lado , co'a cabeça estonetada a razão de 
juros, porque em 12 dias não recebeo novas mi- 
nhas , que parte , como a fugir , do Regimento , 
que com o filho, rebenta alli como corisco no meut 
quarto; e eu guapa, radiosa, convalescente, dan- 
do abraços mui apei tados a tão queridos peitos , 



( 36o ) 
e enxugando á força de beijos, lágnmas que ma- 
navão por táes faces. Que não stavas tu alli , 
Amiga minha ! Oh que alli l)e])éras a mais enér- 
gica hção contra esses caprichinhos de clausura, 
que revolvem o toutiço de certas senhoras , que 
eu conheço ! Guardei a Mãe e despachei o Mari^ 
do, a quem essa escapula custar podia alguns dias 
de prisão. Não lhe farião mal; que são os táes 
Maridinhos , mais que muito violentos , quando 
querem que suas Mulheres, mortas ou vivas 
lhes escrevão sempre. Ah! que se me eu vira 
yiúva , e que se me appresentasse ahi um homem 
capaz , para desposar-me , bem sei eu o partido , 
que havia de tomar : — metlia-me freira , para 
anteparar a todos esses inconvenientes. 

Minha mui querida , oh que ainda não estás no 
remate. Decretado está, que em toda a minha 
vida serei sempre a mais bem arrazoada de quan. 
tos me ladearem. Apostara eu , que quando ( antes 
de partir de Paris ) te instava , por que me contas^ 
sem á historia da bella Desconhecida , se me tinha 
reservado , ser eu quem a mais agradável sus- 
pensão lhe motivasse. E tu, com essa tua extra- 
vagante prudência , que em toda a amplidão sua 
não vale um grãozinho da minha loucura, tufa^ 
zes padecer essa pobre Menina , três estiradas se- 
pianas : tu que blazonas de fiel Anjaote , com,-^ 



( 36i ) 
mettes em Amor sirailliantes culpas. Todavia, não 
atinaste ainda quanto custa amar, e não conhecer 
o o])]'ecto amado. A triste Menina mais ajuizada 
que tu , teria ido , por ce'rto , perguntar pelo seu 
Amante a toda a gente de Paris. Fora com isso : 
M.*^^ d'01mancé , a todos os olhos a occultou , 
capacitada que para ella só deo a Natureza á luz 
a Menina Ingleza. Eu mesma , que todos os dias 
lhe ia a sua Casa, que conheço quanto ha , que 
a toda a parte vou... pois a mim mesma, nada 
se m^ disse , em nada do que relevava fazer me 
consultarão. Bem, muito bem; guardem por se'- 
culos seu segredo; que também eu guardarei o meu. 
Daqui colheis , se eu sei muito , ou não. Pois 
calo-me. 

Creio, minha bella d'01mancé, que consegui 
desarrumar-te do rosto esse ar de mansidão , que 
te assenta tão lindamente. Daqui te estou ouvindo 
gritar: — Cruel Se'miane , morta me queres 1 Que 
louca sou em crer que ella me está lendo ! Já 
ella está no fim da Carta. Digo-o , por não mor- 
rer de abafo. Conheço a Dama Roeer , conheco" 
lhe a FUha ; e o que vale mais que tudo ; conheço 
o Amante da bella Gerniancia. Preso o tenho aos 
pés da banca, porque se não arremesse em Paris, 
antes que eu fmde a Carta. Prudentissima , al)re 
bem os olhos. Três compridas semanas te fôrão 



( 362 ) 
necessárias para rastrear t(ue família era a soa ; 
o qiic eu creio , qne lhe não dá muito abalo ; e 
essa grande obra não está ainda concluída : por 
quanto para dar valor íís cousas, é necessário 
fazc-las mysteriosas : e eu , n'nm mmuto, deparo- 
Ibe com o Amante; e que Amante? Mancebo, 
guapo, ricco , que a adora, que desadora de que 
a perdeo , que de alegria de dar com ella , perde 
o jnizo. Assenta , huma vez na vida, que tem seu 
préstimo a tontice. Pveccbo o famoso maço ; devoro 
a celebiada hisioria ; dou c'o nome de Roger ; 
paísso adiante : leio o retrato da Mãe e da Fillm ; 
ponlio-me attenta ; vem depois , que morão Rua 
de rOursine. « Sei quem suo. » 

Não me ouviste]^ Duqueza, ( não stás em tea 
juizo)fallar cem vezes na Marqueza d'Urfaj, que 
seu dissipador Marido deixou viúva , com um fi- 
lho , e duas filhas ? Não te disse , que esse Moço 
a poder de economia, tinha desempenhado, em 
poucos annos , os bens de sua Mãe ; e que essa 
mudara de nome , por se esquivar ás garras dos 
Credores? Que das filhas a mais velha, hoje Du- 
queza de M.*** se criou quasi comigo, pois que 
sua Mãe, e a minha erão como inseparáveis? 
Pois essa M.d\ dX'rfay , essa M-"* d'Urfay,sáo 
M/* e M."* Roger, que não se dando a conhecer, 
não acceitando visitas de seus antigos conheci- 



( 363 ) 
mentos, reduzidas a imi único Criado , fôrâo mo- 
rar 6 ou 7 annos na Rua de TOursine. Pasma 
agora; ellas fôrão quem receberão Germaucia : 
e o qne aqui digo é verdade pura. 

Faze-me favor de te arrancares , de desesperada, 
tim punhadinljo de cabêllos, porque não adivi- 
nhaste uma cousa , (pie tu sabias tanto como eu. 
Estranho eííeito da prevenção,que tão perfeitamente 
cega a gente; que ha tal que a sua própria Mãe 
a não conheceria. E d'onde lhe nasceo tal pre- 
venção ? da in-destreza do Duque d'01mancé , 
que tomou informações desacertadas. Mui ditoso 
tem elle de ser, se me dou por paga, co' o per- 
dão que elle pedir de joelhos á bella Germancia, 
e a M.*^^ d'Urfay. Muito é já o que atéqui disse ; 
mas ainda é pouco para o que tinha que dizer. 
O Acaso que é tão prestadio ás cabecinhas de 
vento , acodio a pedn- de bôcca. Era meio dia , 
e eu tinha-me posto a ler ; porta fechada para 
quantos ha ; que queria eu vêr-me sozinha no 
Universo ( por um instante : l)em entendido fica ). 
Entra com pe's de lan a minha Aia Justina. Ra- 
lho com ella ( está sabido ) : — Dá licença que en- 
tre um Amigo da Scnbora? — Não. — Absoluta- 
mente? — Sim. — Quando souber quem elle é, 
agoniar-se-ha. — Não. —Vai de partida para Pa- 
ris j e irá sem ver M.""* ? — Sim. Oh que não, ( di/. 



( 3G4 ) 
coiia vúz qne fez que levantasse ollios da leitura ) 
ç quando com todas as vossas iras me assobei- 
Lásseis. . . 

íjóito um grilo de alegria. — Como assim I Sois 
vós ? D'onde vindes ? O Cco vos manda aqui. Elle 
era... Adivinha-o. l^ra-d^Uríay mesmo em pessoa; 
dXrfay que eu tanto desejava, naquelle instante , 
ver ; e a quem eu tão desliuraanamente despedia. 
Quiz-ilie comtudo , concertar o prazer do assom- 
bro. Falíamos, taramelámos. — Que íizesteis, de- 
pois que vos eu não vi ? Como vão de saúde vossa 
Mãe , Irmans ? Como soubesteis , que. eu aqui 
stava? Fallárão-vos na minha perigosa doença? 
Choráreis vós , com a noticia da minha morte ? 
D'onde vindes vós? Em que passais o tempo? 
Que é o que aqui vos traz? E tantas perguntas 
enfiadas, que só ás pessoas que amamos , se fazem. 
Repara, querida minha , na observação que eu fiz 
a favor das pessoas de índole alegre. Examina 
bem duas pessoas , que de longos tempos se não 
virão ; por seguro tenhas , que são gente de bom 
coração , se no seu fallar desarrazoão. Quando cu 
d'óra em diante quizer grangear um amigo, e 
aífirmar-me de que me merece amizade , quero 
assistir ao accolhimenlo que elle fizer ao Amigo, 
que cUe , depois de longa ausência tornou a ver. 

— DXrfiiy, jantáes hoje comigo? Essa conta 



( 3e>3 ) 

faço; nem tenho de vos deixar, senão quando 
partir para Paris. -Hje não-, á manlian sim , e 
quão cedo queuáes : sacrificar-me-lieis essas horas 
mais. Elle não consentia em tal. — Mr. , assim o 
quero eu ; assim o mando. Levareis Carias para 
M.*^^' d'Olmance>. Vós não a conheceis. Dou-vos 
pretexto de vos presentardes a eila ; o que será 
muito de vosso agrado ; e lá renovareis conheci- 
mento d\ima pessoa , que folgareis muito torná- 
la a vêr. Obedeço, M.^^S pois qtie assim o reque- 
reis. E quem é essa pessoa? — Sabê-lo-heis. A 
propósito, Marquez; como vai de saúde a for- 
mosa Germancia? Germancia ! E d'onde vem que... 
Fez-me o coitado d'Urfay essa pergunta com ta- 
manha turvaçào , e tanto assomo , que me custou 
infmito não soltar o riso. — D'onde eu o sei? . . . 
d'onde... Não me cabe pois saber o segredo das 
minhas Amigas ? Conclui iM.''% o que dizieis;pelo 
Ce'o vos peço. — Com muito gosto : e posso affir • 
mar-vos que é a mais respeitável M'!»-, a mais di- 
gna do amor d'um Cavalheiro honrado, e que 
segundo todas as apparencias , é da mais illustre 
sanguinidade ; e que ella vos ama tanto , quanto 
vós a amais ; e em fim , Germancia é essa pessoa 
que a Duqueza d'Olmancé por gosto presentar-vo- 
la... Embaçado ficou, e suspenso. E como, oh 
Céos 1 seria possivel! A vida me dais , Senhora. E 



( 3G6 ) 
ella ainda me ama? Mas essa fuga, esse silencio 
horrível, esse saliir do Mosteiro 1 — Lede esse ma- 
nuscriíito; que ella é qi;em nelle falia. A simi- 
Ihança do nome de Roger , e a seve'ra rigidez do 
Duque dOlmancé causarão todos os vossos ia- 
fortunios. 

Nunca homem vi tão vivamente transportado. 
Chorava , ria , suspirava, gritava , ao passo que ia 
lendo: era amor, comple'to amor ; mas amor d' u- 
ma alma honrada , que folgava de poder con- 
coidar a honra , e o dever com a violência da 
sua paixão amorosa. Queria súbito partir. — Oh 
que não ; por politica demorasteis a partida , 
poucos instantes ha , agora a demorareis por 
gratidão , que a merece bem o que por vós tenho 
feito. Que alegria não vai conceber o meu Amigo 
Stanley , quando souber que sua Irman é digna 
delle ! — Que é o que dizeis, Marquez? M.''', este 
manuscripto prova que Betti , e que Germancia 
são uma só pessoa. Que arrebatamento é o meu, 
quando deparando com a minha Amante , ponho 
nos braços d'am terno Irmão , uma Irman querida ! 
Aqui me explicou d'Urfay , como conhecera Mi- 
lord Stanley, cuja Irman é na verdade Germancia. 

Poze'mo-nos á mesa ; imagina se nós comemos. 
EUe dcscifiou-me seus desasocêgos, suas sauda- 
des , sua desesperação , quando soube a fuga da 



( 367 ) 
sua Amante. Foi-se informar a Caen ; noticias 
niillas. Parece que a Abbadessa teve a palavra 
que íleo ao Duque crOlmance'. Que é o que eu 
our.o?E milord Stanley, que d'Urfay mesmo me 
conduz. Fecho a longuíssima Carta , cujo porta- 
dor queria eu que fosse o Amante de Gcrmancia. 
Não o será ; que o que'ro eu aqui. Também che- 
ga o Gommendador. Lá t'a mando por um criado. 
Adeos ; um milhão de beijos á incomparável Ger- 
mancia , se todavia no arrobamento , em que se 
ella vé, se lembrar ainda de seus Amigos. » 



Annunciava M.'** de Semiane á Duqueza não só 
a visita do Marquez de d'Uríay , mas ainda a do 
Gommendador e e do Milord , que vinhào de casa 
da Cunhada de M'^^ de Semiane, para convirem 
do que cumpria que fizessem a respeito do caso da 
Duqueza ; e mormente á cerca do Cavalheiro de 
S. Jorçe. O Marquez jantava só por só com M/^ de 
Se'miane , quando vierão dizer que Milord Stanley 
queria instantemente fallar com elle. — Que Mdord 
é esse, meu Marquez ? Um dos mais altos Senhores 
de Inglaterra, guapo Mancebo, Par da Gamara alta; 
dais licença, que o recel)a aqui?— Com muito 
gosto. Entra Milord Stanley, d'Urfay vai-se aos 
abraços a elle , gritando alegre : « Que ventura , 



( 368 )' 
JMilord , c a minha, cm vos certificar, que flemoá 
com vossa Irman , e que ella é digna da sua illustre 
linhagem ; que vive no patrocinio da mais virtuosa j 
e mais amável Senhora! — Minha Irman!.. D'onde 
o sabeis ? — M''''. conliece-a , e a honra com a amiza- 
de sua. Oh quem poderá, Senhor Marquez, annun- 
ciar-vos, que ao vosso amor c restituída essa queri- 
da Amante^ de que tanto me tendes ditto ! — Milord, 
]Milord : Betti , e Germancia são uma pessoa só. 
-— E possível ! Lede esse manuscripto ; comparai o 
qne elle contém , cem o Diário do Cavalheiro de 
S. Jorge, e dareis co'a prova do que affirmo. — 

Aqui tirou d'Urfay da algibeira o Diário, e junto 
com o manuscripto de Germancia os appresentoú a 
Milord, que conferio um com outro ; e exclamou : >» 
Mísera Betti ! Querida desditosa ? Quanto tens pa- 
decido! Quanto injustos comtigo fomos,em te ima- 
ginar culpada ! Com que prazer te apertarei nestes 
braços ! e com que anciã me não empenharei eu em 
apagar em teu ânimo ate os últimos traços da lem- 
brança de tuas desventuras. Partamos para Paris , 
vamo-la buscar; não irei, sem vós, Senhor Mar- 
quez : ao Amor, á Amizade, essa condescendência 
deveis. Ardo em desejos de vos presentar a minha 
Irman. Dia mui formoso para mim , em que' pre- 
sencearei um reconhecimento, que eu nem esperar, 
nem desejar ousava- Essa Germancia , cuja menção 



*( 36ç) ) 
Vem tão ampla nos papéis (fesse a])ominavel Cavà^ 
iheiro de S. Jorge é a mesma que Ketti , nome qué 
mmha Irman lá tinha em Londres. Pelo que se 
se'gue , que esse Cavalheiro , é o mesmo Carlos qué 
apparece na narrativa de minha Irman ; e ainda que 
ella fracamente o crimma , não vem por isso menos 
conte'st€ no seu horrivel Diário; onde se prova com 
evidencia ser elle o roubador, e os iniquissimos 
designios contra ella preparados. Que feliz -foi o 
íado de minha Irman, em que essa Senhora a acco- 
Ihesse^ exposta ainda mais qiie ella outrora, e 
talvez que agora ainda , ás honrosas tramas desse 
malfeitor. Se não temera de me aviltar, medindo 
-com a sua a minha espada, iria buscar por toda a 
terra esse covarde , que só com mulheres se ha. 
Mas a seu infeliz fado o entrego, quando tão ven- 
turoso vejo a Innocencia salva de suas mãos culpa^ 
das : com tanto que eu o não aviste ; que talvez não 
terei mão em mim. — 

W\ de Sémiane attónita do tão fogoso tracto de 
Mllord Stanley, tirou de cima da mesa o Diário do 
Cavalheiro, e decorreo delle algumas linhas. Ei-la 
que solta horroroso brado : o Marquez, que lhe vio 
nas mãos o Diário , corre a tirar-Iiio delias ; mas foi 
tarde ; que já ella tinha de sobejo lido , e ouvido de 
sobejo. Já apoderada do segredo, pedia individua- 
ções delle , que nem dXTrfay, nem o Lord podião 

Jl om, X, 

^4 



(370) 
reciisar-lhe. Já o Marquez começava... eis que entra 
o Cominendador ; e ao vê-lo pezarosa exclamou 
]NJ'*. de Se'raiane : » Oh Commendador, oh meu 
digno Amigo, quem é que ha-de annunciar á Du- 
queza essa nova tão funesta! O Cavalheiro de 
S. Jorge , em quem sua escolha pôz essa estimável 
Senhora, esse homem , que e o tormento da mais 
digna do nosso se'xo , esse homem \é um monstro ; 
( pouco disse ) esse homem é o malfeitor mais re- 
matado, que o Inferno enfurecido vomitou neste 
Universo. Olhai, como ainda tremo, do horrivel 
descohrimento que fiz. Ajudai-nos com vossos con- 
selhos ; salvai M*^*. d'01mancé da desesperação que 
vem sobre ella; conservai-nos uma Amiga tão pre- 
zada e tão querida dos nossos corações. 

Mais instruido do que o cuidava M''*. de Sémiane 
vmha o Commendador j mas não tanto quanto elle 
desejara : assim pedio ao Marquez, que lhe de'sse 
mais miúdas clarezas. Bem é de julgar, com que 
insoíTrimento uma Senhora da condição de M'"". de 
Se'miane , anciava ser mais ao largo esclarecida. 
M. d'Urfay começou assim ; » Pois que impossivel é 
já desd'óra encobrir-vos o que eu quize'ra sepultado 
na mais ceriada treva, não em quanto ao Cava- 
lheiro, que o não merece, mas sim á sua familia ; e 
pois que os Fados , mais que a nossa imprudência o 
rasgarão , abrir-vos cabe o segredo por inteiro. 



C 371 ) 
>Sabei , Senliora , que o criminoso Cavalheiro de 
S. Jorge, contemplando, sem dúvida, que tendo 
mais de nobre que de ricco, se acanhou nas espe- 
ranças de desposar M"*. d'Estanges. Contra o recato 
delia tramou esse malvado as mais odiosas maqui- 
nações ; como não poude marear-Iho na noite em 
que se lhe introduzio na câmera em que ella dor- 
mia, pôz o fito depois em arrancá-la ao Duque seu 
marido; projecto, que descoberto pelo Duque, a 
pôz cm parte que ningiem a visse. Enfurecido o 
Cavalheiro de náo arrebatar a desventurosa Angé- 
lica, vingativo mandou uiattar , junto de Sévres , o 
Duque d'Olmancé. Então é que xleo por fácil, 
( tirado o estorvo ) um novo projecto de rapto , que 
também se lhe baldou, partindo a Duqueza para 
Selville. A. Selville novo projecto de rapto; lá teve 
a audácia de ir contemplar a victima. De lá ia a 
Malta encerrar essa Dama, como vinha assentado 
no projecto. E não imagineis que se saciava a cor- 
rupção de seu ânimo com tantos amontoados hor-* 
rores : em quanto enramava esse abominável en- 
redo, levava de para par outro ainda, a deshonra 
da cândida Germancia. 

Cansado de tantas iniquidades perraittio o Ce'o , 
que se manifestasse á claridade do dia a negrura da 
alma do Cavalheiro de S.Jorge. Ao passar a Malta , 
onde elle ia aguardar a preza , foi tomado pelo 



2^ '^ 



f 372 ) 
Navio que commandava Milord. Este Diário de 
suas ruindades, escripto de seu propiio punho , co- 
sido vinha nos entreforros (Fuin vestido , que apa- 
nhado e posto nas mãos de Stanley, que ignorava o 
que em túes ruindades lhe cabia. Soube qual era 
a faniilia do Cavalheiro , e que plana em França 
tinha; sou])e com que amizade eu o honrava; e essa 
pouca reputação que grangeei entre as pessoas de 
bem; o generoso Inglez, que o não quiz deitar a 
perder, entregando ao Ministit) papéis táes, tomou 
o trabalho de vir entregar-m'os a mim cm França j 
deixando-o por inteiro á minha prudência. Que 
espanto foi o meu, ao ler Diário similhante! Co- 
nhecia eu bem Germancia, mas a Duqueza não; 
ambas me erão preciosas, uma pela fama que delia 
ouvira , e a outra pela aíTeição, que me inspirara. O 
Cavalheiro , como eu o estimava a par de Irmão, 
não pude súbito destruir uma amizade , cuja raiz 
me tinha envelhecido no coração. 

Indignado porém de que fora amigo de tal mons- 
tro, e sabendo que depois de se vêr livre não viera 
com tudo a França; sabendo mais, que Duprez 
fora ter com elle a Amsterdam, quiz antes de rom- 
per de todo, tentar os meios do conselho. Fui-mea 
rioUanda ; avistei o Cavalheiro de S. Jorge , que se 
me esquivou , quando eu ia ter com elle : hoje não 
sei onde jaz retirado , nem sei, se ainda lá medita 



( 373 ) 
novos crimes. Confesso, que como lhe não pude 
fallar, me vi enleiado ; se me calo, e vem a fim 
alguns de seus danados projectos, passarei por côm- 
plice; se fallo, angustio uma respeitável familia. E 
quem sabe se o Duque d'01mance' , descobrindo o 
homicida de seu Parente , não proseguirá com es- 
trondo a sua vingança ? E que golpe não daria no 
peito de M'^\ d'01mance' , descobrir-se tal verdade I 
Para que se ha-de verter no seio d'uma Senhora 
virtuosa tanta amargura, pelo motivo só de que re- 
colheo no coração ternos aííectos á cerca d' um su- 
jeito que os nãomerece ! » 

Tinha essa korrivel narrativa embargado nas 
veias de M''^ de Sémiane o curso do sangue; de 
pasmo e susto se lhe gelava ; de horror emmude- 
cia , incapaz por óra de dar algum conselho. M*^^. de 
S. Pers , sua Mãe que fora chamada, presenciando 
o discurso do Marquez ; dado que o interesse , que 
nelle tomara , menor fosse , ([ue o que sua filha 
nelle tomou , teve por essa razão mais prompto e 
mais desembaraçado o juizo ; e ella é quem rompeo 
o silencio, dizendo assim. » Uma só cousa estra- 
nho : por que acaso esse Duprez, Criado que foi do 
Duque d'01mancé defunto , fez , antes da morte , 
essa declaração em casa do Marquez de S. Jorge , 
que inteiramente absolve o filho de se ter introdu- 
zido no quarto de M"^ d'Estanscs , e carrega no 



( 3:4 ) 

marido o fardo de todo o enredo. M. d'Urfay, que 
não sabe as avenluras de M'*''. d'01mance', não nos 
explicará o enigma : o que porem é ceVto , é não ter 
morrido o Dnprez em casa do Marquez de S. Jorge. 
— Que dizeis a isto, Commendador? — M'"'*., M. de 
Selville no-lo segura. Duprez serve ainda ao Ca- 
valheiro de S. Jorge •, Duprez é ainda o abominável 
instrumento dos projectos de seu Amo : a quem 
mui fácil fora tirar surrepticiamente de casa de seu 
Páe ( onde por generoso , ou antes pródigo era mui 
querido ) esse Ciiado : que bem verificado vem y 
nesse Diário. O Diário alii está , onde todos o podem 
accreditar. — 

Pela vigilante attenção d'esse Duprez teve tempo 
o Cavalheiro de esquivar-se , no momento que se 
soube o homicidio de ]M^ d'01mancé. — Vós M"^* 
d'Urfay , fostes quem soltou da prisão esse birbante, 
quando com Germancia preso foi. — Verdade pura • 
mas nada então sabia do que o Diário diz. Mais 
ainda : varias vezes reP.ecti , que m'o deo o Minis- 
tro por innoccnte , quando me deo a ordem de 
soltura , que eu para elle não pedia. Presumire- 
mos dahi , que não separou , na ordem , os que nas 
informações andavão juntos? Não lhe devassou a 
vida toda-, capac itou-se, que não entrou no ho- 
micídio do Duque dOlmancé, e foi bastante. — 
Kcparci , que sua Irman , como Milord , nunca 



( 3,5 ) 
accusa , na sua narrativa , a Carlos ; que soubemos 
pelo seu mesmo Diário ser o Cavalheiro de S. 
Jorge. Toda a sua indignação feVe n um tal Conde 
Federico de W***. — Não nos compe'te M"^*. de 
Sémiane, calcular as detestáveis máximas dos li- 
bertinos. Quem sabe quáes horríveis convenções 
ajustarão entre si? Que melindre de pundonor 
concederemos a quem deixa o nome honrado da sua 
familia , por outro trivial, e entra na Comitiva 
d'uni depravado tal, como o Conde Federico •? — 
Sou d'esse parecer. Senhor Commendador ; pro- 
te'sto , que muita , e muita vez reprehendi o Cava- 
lheiro , de tão desparelhada união ; sem saber , que 
era o seu condescendente, nem que mudara" de 
nome. O ponto mais difficil é alcançar de M^^. d'Oi- 
niance', que veja ao claro quem eo Cavalheiro deS^. 
Jorge , e fazer com que delle se descarte. — Grande 
diOiculdade ! — Minha Filha , não percamos espe- 
ranças. Que em despeito da donosa docilidade ' 
que lhe aíTormosêa a índole , tem M'^^ d'01mancé 
táes brios na alma , que não consentirão parceira 
no coração de seu Amante. Além le que , o amor 
que lhe temos, se apaga immediatamente , quando 
igual chamma não arde no peito de quem amamos. 
Duro será o primeiro rebate ; mas só cicatriza 
chagas o remédio que violento as rasga. Conheço 
M"^*. d'01mancé j a Razão virá á flor da ayua , e 



( 3:0 ) 

nesse a])álo lhe atalhará a expressão. Lá quererão, 
roíiijjer alguns nuumiirios, alguns dolorosos quei- 
xumes ; mas esses só pedem aposento no peito de 
minha Filha. Passa por não saJ)ido o conhecimenta 
que vós M^ dXrfay, e vós Milord tendes com o 
Cavalheiro do S. Jorge. Quem vos tolhe , deixar- 
des , como por acaso , cahir na conversação , que 
Carlos e' o Cavalheiro, e imputíirdes ao amor de 
Germancia quanto elle fez ; e dardes seu desvelos 
por finezas d'nma affincada e violentissima paixão ? 
Quanto essa Menina disse , leva o cunho de tal 
ide'ia; e quão medrado vai , quando rompe d'uma 
bôcca, que se interessava a que assim não fosSe ? 
DuTidáes vós, que se não dé por humilhada a 
Duqueza d'01mance' , quando comparar o que elle 
por Germancia fez? Orgulho e esse que muito se 
compadece com a Virtude : não pela perda do 
Amante; mas sim, pelo intimo conhecimento de sua 
sua própria valia. Ficai ce'rtos,que com essa hu- 
miliação a trazemos a nós. Porque o não tentamos? 
Que nos custa uma tentativa que é mais amoravel , 
que essa inteira confidencia do que vem no Diário j 
cuja lhe despedaçaria o coração , e no-la roubaria 
para sempre ? Se a pondes no lance de envergo- 
nhar-se de similhaufe amor, então é que ella irá 
sepultar n'uma clausura seus pezares j se a deixar 
com vida golpe tão cruel. 



( 377 ) 
Do voto deM^\ de S. Pers fôrão M'^\ de Sémiane, 
€ mais o Couimendador , e resolverão que o Mar- 
quez e o I.ord partirião logo a Paris , seguidos pelo 
Commendador no dia depois. Concluio-se a con- 
ferencia ás 4 horas da manhan , e parlirào d'Uríay, 
e Stanley •, IS^'^ de Se'miane foi deitar-se inquieta , 
ardente á cerca da surte da Duqueza -, quanto não 
desejara vêr-se ao pe delia , para lhe ajudar a sof- 
frer o doloroso golpe , que lhe ião dar! Gemia de 
que a convalescença lhe vedasse a partida. » Tinha- 
me eu ( dizia ) por tão venturosa pela ventura que 
a d'Urfay vem promettida! Funesto descobri- 
mento 1 Indigno Cavalheiro de S- Jorge I Porque 
grangeou nos olhos teus tão funesto amor a minha 
Amiga! Quanto te lastimo, querida dOhnance'1 
Como supportarás tu a certeza de que não eá 
amada ; quando te é forçoso presenciar a felicidade 
de dons Amantes venturosos ! Que situação a tua , 
com a delles comparada! — Psão tinha o Commen- 
dador mais socegado o ânimo ; quando entre recei- 
os avistava ashorriveis consequências , que leben- 
tarião do descobrunento das iniquidades do Cava- 
lheiro de S. Jorge. Os fados da sua digna Amiga o 
atribulavão ; delia por quem mil vezes tivera sacri- 
hcado a vida. 

Tinha já a Duqueza recebido a Caita de :\í''\ de 
Se'miane , quando M'. dXrfay , e ?dilord Stanley a 



l 3:S ) 

qnem cila fez o mais attencioso agasalho , se ap- 
piescnlárão. Julgue-sc rjue alegria , que arrebata- 
mcDtos não fòrão os de M"". Stanley quando vio 
ante si um Irmão desejado, e um Amante aíTec- 
tnoso. Durou horas o dilirio ; e JNl''". d'Olmance', 
tomou parte no seu contentamento , a pezar das 
amarguras de seu peito. No serão do seguinte dia 
veio o Coramendador tomar parte do communi 
regozijo -, e a um aceno que fez, Milord Stanley 
pedio a Mr. d'Urfay, que começasse a historia de 
Germancia , que elle contou de modo, que dei- 
xava presumir que o Cavalheiro de S. Jorge achan- 
do-se em Londres com o nome de Carlos, tomara 
amores com a formosa Betti ; e M''\ dOlmancé 
c.ipacitada por essa narrativa , que o Cavalheiro de 
S. Joige a não amava com prefeiencia, ou que 
inteiramente lhe perdera o amor , começou a des- 
falecer , e um frio nioriai lhe discorreo pelas veias , 
ficou i)allida , e corou successivamente. Não fugi- 
rão dos óllios do Commendador nem dos outros 
esses dilícrentes abalos : mas a Duqueza chamando 
ao peito toda a sua coragem, táes esforços fez, 
que se elles não derrotarão a violenta dor , que a 
accommetteo , ao menos lhe de'ião disfarce ante 
os olhos de seus Amigos. 

Kecolhendo-se ao seu Camarim, já senhora de 
se entregar ás terriveis angustias que lhe despedaça- 



(3:9) 
vão a alma, arremessou-se a uma Cadeira; e lá, 
com enxutos olhos , apertado o coração , indi- 
cando só na vista os dolorosos tormentos , que a 
atril)ulavão , exclamava comsigo mesma : « E pois 
verdade, que estranhamente illudida fui te'g6ra? 
Que nunca me teve amor o Cavalheiro de S. 
Jorge? Ou que se uma hora o teve, Ingrato! o 
não tem já? Rematado infortúnio meu ! Faltava ao 
meu supplicio este último golpe. E elle adora 
Germancia! Ingrato! se te inteirasse do que era 
minha alma se passava? Saberias quão ternos 
aíTectos , no meu fraco peito, para ti medravão. 
Como , insensata , não abri olhos , que vissem a 
indiíTerença sua , eo seu esquecimento! Soube- 
me Viúva, sem me assinalar um rasgo de amor 
que me tivesse. Dou-lhe fim ; valha-me a Cora- 
gem ; deslembre-se um ingrato, ou um desleal. 
Bnsque-se a Dita , no regaço da enternecida Ami- 
zade. Sigão-se os sizudos conselhos do Commen- 
dador, respeitável ancião a quem a só Razão diiige: 
mais não resisto , homem estremado. Venceste , Sé- 
miane minha , que na mais ftna jovialidade en- 
volves teus conselhos ; venceste. Darei ao Duque 
a mão de Spôsa ; nessa união deparei com a ven- 
tura Que certeza tens. Angélica? Quanto em 

mim sinto os abalos , que ao coração enfraquecido 
dá a forca das circumstancias ! Tór.^.e a Prudência 



( 38(, ) 
a si (llriglr meus pnssos , e venha o Tempo dar ma-* 
duicza á minha lesohição.» 

Penosa e muita vez interrompida com os mais 
medonhos sonhos foi a noite que a Duqueza pas- 
sou. 1'Irguida que ella íbi , appresenta-se o Com- 
mendador, cila íorçando-se a surrir , lhe oílereceo 
a mão, que o Commendador beijou » — » Senhor 
Gommendador ( lhe disse ) fallasleis com d'Urray ; 
razão tinheis de duvidar que o Cavalheiro de S. 
Jorge, me tivesse amor... Nada me dizeis? Dou- 
\os , Amigo meu , por bom seguro , que serei di- 
gna do interesse, que cm mim tomais, digna de 
iiiim , digna de quantos Amigos tenho. Faço justiça 
ao Duiiie d'Olmance; pois que vós o honráes com 
vossa amizade, certa sou , que peUis suas virtudes 
se faz digno delia. Perdôo-vos o rodeio que lomas- 
teis , pois que era só encaminhado a que eu visse 
ao claro o merecimento d'um homem estimável , 
contra (luem me tinha cega a prevenção. Depois 
que venci a demanda , dispensar- me não pude 
de receber as visitas de M''. d'Olmancé , e ler azo 
de o appreciar •, muito mais ainda , depois que pos- 
suo Miss Stanley. Commendador , dou ao Duque 
a minha mão de Spôsa. Ficáes contente da vossa 
Amiga? Cuidáes, que ficará contente a minha 
querida Sémiane , sua Mãe , e os nossos Amigos 
todos? — Senhora! Oh minha digna Amiga, pou- 



C 38i ) 
des o remate á nossa felicidade , quando assegn- 
ráes a vossa. Com toda a sinceridade do meu cora- 
ção vos digo, que o Cavalhen'o de S. Jorge não 
era digno d'uma Dama tal como a Duqueza 
d'01mancé. 

Todo esse dia a Duqueza suspirou , sem dizer 
palavra. M''. d'01mancé informado das disposições 
favoráveis que corrião a seu respeito , empenhou- 
se em dissipar, por quantos meios soube, a car- 
regada tristeza que a soçobrava ; manso e manso o 
foi conseguindo , e tão venturoso foi que lhe ouvio 
confirmar ella mesma a disposição em que estava 
de lhe dar a mão de Spôsa. M''*. de Se'miane , e 
sua Mãe , que já tinliào voltado a Paris, tomarão 
since'ra parte na alegria do Duque d'01mancé. 

Propoz a Duqueza levar comsigo ao Camarote, 
que tinha na Ópera, Miss Stanley; a íim que pre- 
senciasse um spectáculo de novidade para ella. 
Não as accompanhou Milord , porque tinha que 
fazer certas visitas indispensáveis ; o Duque foi 
espairecer-se , por se aliviar de leve dor de cabeça , 
que o incommodava ; o Commendador foi ver 
uma Sobrinha sua, que se achava muito enferma ; 
IVK d'Urfay tinha que escrever ; M''^\ de Sémi.ine 
e S. Pers fôrão convidadas a um grande jantar , 
de maneira que fôião sem Cavallieiros á Oj>cra , 
a Duqueza e Miss Stanley. As dez da noite quando 



C 382 ) 
cm Casa da Diiqueza esperavão pelas , Senhoras <3 
com tanta mais impaciência , que assegurava o Du- 
que d'01mance' que era finda a representação ;decor- 
não as horas , e crescia a desasocego. A menor tar- 
dança assusta, quando tocca em pessoas que estima- 
mos. A cada instante tinhão por ridículo receio o 
desasocego seu. Vinhão-lhes á imaginação visitas, 
passeio , e mil outras desculpas , a e qual mais pro- 
vável : mas em despeito de esforços táes medrava 
a inquietação. 

Davãoonze e um quarto.... eis que ouvem uma 
Carruagem parar á porta. Soltão um ])rado de 
alegria — Ei-las que vem ! — Enganado , como 
elles , o Guarda-portão abre , a Carruagem entra. 
Mas quem dehneará a turvação extrema que pren- 
deo em todos ? Temeroso spectáculo , que a quan- 
tos alli erão , horrorisou ! Os urcos trazem por ins- 
tincto a casa a Carruagem ; descem precipitados os 
fidalgos ao páteo , vêm abertas de par em par as 
portinholas, os vidros em pedaços, nem Co- 
clieiro , nem Lacaios , em fim annunciado o mais 
medonho dos desastres. Clamão todos os de casa 
clama o Povo , que se appinhou á porta , espantado 
de ver a Carruagem erma , e desamparada r nin- 
guém se entende no acaso , ninguém dá a menor 
noticia. Aíiigurem-se todos a consternação de 
cada um. 



( 383 ) 

Cheio de sangue , e lodo da rua, chega , como 
arrastando-se , um dos Lacaios , que se atira aos 
pés dos Amigos de sua Ama , e que exclama : » 
Ah , ^Senhores , que inopinado accidente ! Não 
foi culpa nossa ; que todos perdeiiamos as vidas 
pela defender : erão mais de 20 ; o numero delles 
nos assoberbou. Quem , quem ? » Os que as leva- 
rão. Dize o mais. » IMisero de mim ! Atravessá- 
vamos a rua de Borgonha ; uma Carruagem nos 
embargava a passagem. Grita-lhe o Cocheiro , 
que se arrede. Foi como sinal dado. Rodéão 20 
mascarados a nossa Berlinda, abrem-na arrojados, 
tirão fora as Damas. Quer desviá-los o Cocheiro 
a fustigadas do açoute ; elles o derribão do assento ; 
nós apeamo-nos ; mas sem mais armas , que as 
nossas mãos, bem fácil nos aterrarão- Em tanto 
despe'de , como um raio , outra Berlinda a 6 Cavai- 
los ; deixão-nos estendidos na rua os homicidas , 
montão a Cavallo , e seguem á desfilada a Carrua- 
gem , que partira. 

Fora mais supportavel a morte aos Amigos da 
Diiqueza , que o não foi similhante narrativa. Mi- 
lord Stanley furioso , mas mais frio que o Duque 
d'01mancé , nem o Marquez d'Urfay ( o Lord 
não tinha amores ! ) bradou : » Vou-me a Casa 
do Ministro. A aífronta , que se me faz , elle 
Amigos , a ha-de sentir , que levarei ordens para 



( 384 ) 
o prender onde que'r que se encontre. Daqui a 
um quarto de lióra venho; tenhão-me um Ga* 
vallo prompto : não me podem encobrir a estrada 
que tomarem-, que são muitos n'um só bando, 
tenho de deparar com elles. Sahio á desfik^da o 
Lord , e d'Tjrfay lúgo apóz elle. Mas apenas dous 
tiros de espingarda, pára o Lord ; jád'Urfay , que 
lhe pe'rto ouve que grita : » Monstro, dá-me conta 
de minha Irnian, e da Duqueza. Dá-m'a, ou morre.)) 
Tira pela espada o desconhecido , que já o Lord 
tinha desembainhado a sua : cruzão-se as folhas , 
e ao primeiro bótte cáhe o desconhecido por terra 
lavado em sangue seu. O encontro , o insulto , o 
accommettlmento, a estocada, a queda , foi fuga de 
relâmpago. Põe d'Urfay os olhos no atterrado , 
que ainda tinha sináes de vida , e » Oh Céos ! 
( gritou ) que é o Cavalheiro de S. Jorge ! » 

Conhecem o Lord , e d'Urfay forças bastantes 
ainda para soffrer transporte , e passão-no á morra- 
da de M'' . d'Olmancé. Apparecerem tal crise o Ca- 
valheiro alli , pareceo mysterio ; assim , precioso foi 
conservar-lhe a vida. Não perdera os sentidos o 
Cavalheiro ; bem percebeo que entrava em casa 
da Duqueza; e assim com algumas vozes mal 
articuladas repugnava alh entrar; mas não lhe derão 
ouvidos; antes se lhes espertou a curiosidade de 
saber o porciue; numa salla baixa o sentarão, 



( 385 ) 
até que o Chirurgião chegou. Novo , e inopinado 
Spectáculo , que accrescentado ao horror em que 
lidavão , depois de alguns momentos , acodirão 
todos a essa salla. M^ dXrfay com vóz Ijaixa disse 
ao Duque, ao Commendador , e ás Senhoras : » É 
o Cavalheiro de S. Jorge. » Este , que o ouvi o , 
levantou um tanto o rosto : » Ah 1 d'Urfay (disse) 
tinha eu de morrer ás tuas mãos? » Tal honra 
não terás. Olha para Stanlej , cuja mão purifica o 
mando d'um facinoroso que o macula. 

Fita o Cavalheiro os olhos no Lord, com intento 
de certificar-se : mas súbito levado de outra sensa- 
ção mais violenta , que a da ferida : » Oh ! não 
lhe digáes , que em tal estado sou , que moireria 
de pezar. — Horroroso fingimento! Restitue-no- 
lii , traidor , restitue-me minha Irman , que nos 
roubaste , e mais essa Senhora , que tanta desven- 
tura teve em te conhecer. » Então se ergue com 
fiu'or, com incrível violência o Cavalheiro ; corre» 
lhe o sangue a grandes golfãos da ferida : » Oh 
homicidas , oh Amigos , parabéns vos dai de que 
inda vivo. Vingai-vos , e vingai-me. Ide varar o 
coração a esse monscro , a esse tigre, que agri- 
lhoado, lia tantos tempos trago. Eu desfaleço, 
oh Céos ! correi , voai à W***. á corte de Federico , 
que é o único culpado. » Eis cáhe c'um desmaio 
tal , que môito o crerão , e ficão todos , de assoni» 
Tom. X, ai 



( 386) 
bro c snsfo , como státuas frios. Ousm primeiro 
riKcbroii o silencio , foi Milord Stanloy : » Amigos 
meus , flar-se- Ília que fosse eu o criminoso? Fora 
nosso o engano, quando accusámos o Cavalheiro? 
Kste homem está nas» mãos da Morte , e lá não se 
mente, a 

» Stanley , en parto ; antes que transponhào as 
íis fronteiras as alcanço. » — Tendes de ficar •, a 
mim cabe por mil razões partir; são mais respei- 
táveis os direitos d\im Irmão , que os d'»iTt 
x\mante. Em segundo lugar são necessários aqus 
os cuidados vossos; porque parece que alguns sináes 
de vida se denotão no Cavalheiro ; e pelos soccor- 
ros , que lhe forem dados , conservado que seja 
algumas horas , pela confiança, que mais que em 
nenhum de nós em vós terá, poderá com suas 
ultimas palavra», esclarecer-nos em muitos pon- 
tos. Pôde vir a divulgar-se este nosso encontro, e 
ausente e longe , fico mais em salvo : accompa- 
nhando-me M'. d'Olmancé pedirá , como Official 
General que é , com mais direito , auxilio militar , 
se for preciso. Gomo o Duque conveio no projecto , 
ei-los que abração a M'. d'lJrfay, o ao Gommen- 
dador , despedem-se da* Senhoras , e promettendo 
que trarão comsigo a Duqueza e Germancia ^ 
ou morrepão na empreza , montão a cavallo , e 
partem. 



( 387 ) 

Cliegado que foi o Ghiringiáo , logo que visitou a 
ferida : » JNão lhe dou muita vida ( disse ). Todavia 
tenteada a ferida, bem que profunda , não a achou 
perigosa; porque não oíTendêra alugm dos maiores 
vasos. O que p.orém dava, por óra, maior receio era 
a grande copia de sangue que perdera pelo violento 
abalo que a si deo. Que lhe aííianeava a vida ; que a 
dieta fosse severa , que 4 vezes por dia o viria visi- 
tar ; que alli , para sua guarda » deixava dous Pra* 
ticanles seus , cuja capacidade conhecia muito 
bem. Com mancheia de dinheiro recompensou 
Mr. dXrfay ao experto Chirurgião o desvelo que 
empregara no mísero Cavalheiro, e nos Criados,, 
três dos quáes com o Cocheiro não menos , na* 
^juella noite morrerão. Também , a poder de di- 
nheiro, conseguio o Marquez que não vertesse 
este segredo por fora da pousada. O caso tinha 
âconlecido ás 1 1 da noite, e n'um bairro solitário , 
masjá,eem poucas horas, era sabido, em toda 
a Cidade , o roul)o da Duqueza d'Olmancé. 

Angustiados , e como quem desespeVa, estavão o 
ManjUez d'Urfay, e o Comraendador, e M''% de 
Se'iniane, e sua Mãe, estremecidos da situação 
em qae estarião a Duqueza , e mais Germancia ; 
susp.ravão peias vêr de volta ; e tremião da che- 
gada. Que assombro , quando visse expirando . 

€m sua casa , o seu Amante! Horrorizavão-se de 

>5 " 



( 388 5 
não saberem como lli'o haviâo de appresentar; 
não como indiílerente , não como culpado ; as ulti- 
mas vozes que de'ra desnegavào tudo. » Viva elle 
( diziào ), se justificar-se pôde ; e se o não pôde, 
morra. Que antes ({ueremos dos crimes seus ter 
dúvidas , que certezas. » 



f«^«,.«^«/^^/«/V^^%«%,'«.'%,^/^f«/«'%''%''«« 



Era para ver , como M***. de Se'miane se portava 
alli , como Dona daquella Casa , velando , dis- 
pondo tudo ; o Commendador , que não falhava 
um só dia em visitá-la ; M^ d'Urfay , que não des- 
amparava a cama do ferido. M'''. de Sémiane ficou 
estranha com um caso , que lhe contou o Marquez 
dizendo-lhe que Duprez , esse Criado e Confidente 
do Cavalheiro de S. Jorge , se aíFoutára , pelos 
indicies que teve a buscar alli seu Amo; e que 
vendo-o em tal estado , se derretera em lágrimas , 
e nvuica mais se lhe arredara da cabeceira : que 
a nenhumas perguntas respondera , e só , num 
Ímpeto de mágoa dissera : » Os que a meu Amo 
pozérão em tal estado , verterião lágrimas , se 
lhe conhecessem bem o generoso , e sensivel cora- 
ção. » — Esse homem, se o vedes tão socegado , 
por certo , que não se sente implicado nos crimes 
(se os elle tem) do Cavalheiro. Não sei que jul- 



C 3So ) 
gue ; por cautela mandei que o tenlião de olho ,' 
pelo, muito que pôde prestar para o desenredo. — 
Mas vós , caro d'UrfaY , vós mattáis-vos ; po'rque vos 
não deitais , depois de três noites perdidas ? Consi- 
derai que vos deveis conservar para uma Amante. 
— Que talvez não tornarei a ver! — Melhor que vós 
auguro eu. Se toda a esperança falha , matte-nos 
a mágoa. — Dava ao Marquez M'^*. de Sémiane 
uma esperança , que ella não tinha. 

Quatro vezes no dia vinha o Chirurgião visitar 
o ferido , e do bem que ia a cura se lisonjeava 
que a podê-lo conservar no abattimento em que 
o via , alguns dias mais , que esperava pô-lo a 
salvo. No outavo dia, lá pela tarde , tendo o Ca- 
valheiro recuperado a falia , avisarão ao Marquez, 
que lhe queria elle fallar. Achava-se , nesse ins- 
tante o Marquez com M.*^* de Sémiane , e logo 
que desceo , lhe apertou a mão , e lhe disse, com 
quasi extincta vóz, o Cavalheiro : « D'Urfay já 
não e' meu Amigo ? Oli que ainda o sou ; e nos 
desvelos meus o mostro muito. — Desvelos , que eu 
á Humanidade de'vo?... Não , Amigo; ao meu cora- 
ção os de'ves. — Acha-se ella aqui ? — Descansa , 
que tudo vai bem. — Nisto entra o Chirurgião, que 
tolhe, sób pena de vida , que o Cavalheiro falle ; 
veda que lhe entre ninguém no quarto , ate que 
elle o permitia. Assocegadu o Cavalheiro com 



( 3íjo ) 
as poucas palavras do Marquez , Ilie tomou ain- 
da a mão , e tingio levemente os lábios com um 
surriso ; ollion , reconheceo Duprez, , e teve con- 
solação de o ver alli. Clicumstancias estas , que 
ainda que ténues , confirmavão todos os Amigos 
da Duqueza na opinião de que bem podia o Ca- 
valheiro não ser tão monstro , como o davão a 
crer razões tão válidas. Ainda contemplavão , que 
a ser elle criminoso, se receiára de vêr d'Urfay , 
e mais ainda se assustara de ver Duprez teme- 
rosa testimunha contra si 5 e vê-lo entre mãos de 
Amigos da Duqueza. Não podião em conjecturas 
táes fundamentar juízo. 

Noticia nenhuma da Duqueza , nem de Misa 
Stanley ; dald sustos , e apertos de coração. O 
Marquez demudado a olhos vistos tinha o sem- 
blante lívido , olhos maceratlos , emmagrecido , e 
pállido ; dava cuidado a seus Amigos que fraque- 
asse ao pezar , que surdamente o consumia : se 
a vista d' esses modelos da Amizade se encontra- 
va com a sua, rebentavão logo lágrimas, e asso- 
mavão - se - lhes aos rostos os tormentos que na 
alma padecião , de lhe sahir ás faces do Marquez 
o coração , pelo Amor , despedaçado. Sua pró- 
pria Mãe , apenas delle soube o desventuroso a- 
contecimento da Dii'{ueza , e de Miss Stanley , 
^correo a vçi-se com seu Fillio; que ao ver tão 



( 3ç)i ) 
excellente , tão enternecida Mãe , se lhe rasgarão 
no peito , quantas fendas Amor llie tinha aberto. 
Apertá-la nos braços , banhá-la em lágrimas , pro- 
ferir entre mágoas e desesperação o nome de Gei^ 
maneia-, erão scenas, que dez vezes no dia, se 
renovão. IM.*** de Se'miane dava a d'Lrfay , e aos 
mais , esperanças , que ella mesma não accredita- 
va em si. D^Urfay requeria a sua Amante •, M/* de 
Sémiane, e M.^* de S. Pers requerião, como tam- 
bém o Commendador, a sua Amiga. 

Na cruel alternativa , que de si produz a espe- 
rança , e o receio , i5 dias erão já volvidos, quan- 
do uma manhan , a temp« que o desasocego , 
em que vião o Cavalheiro de S. Jorge , os ajuntara, 
ouvem entrar no páteo um Postilhão sem se aíTou- 
tarem a se erguer de sen lugar; ei-los que infião de 
susto... Mas sôa o nome de M. d'01mancé. abrem-se 
as portas do aposento, arreraessa-se a seus braços 
o próprio Duque. Os abraços, os gritos: » Então? 
Então? Oh meus Amigos! meus caros Amigos, 
estão ambas com saúde , e ambas salvas , logo 
chegào. E o Cavalheiro. ... O Cavalheiro vive 
ainda? — Temos essa esperança. — Perdidos pomos. 
— Entranhou-se pelos ânimos de todos o Terror, 
quando tal exclamação llie ouvirão. ISão sabiào 
o que augurassem delia. — Pois a minha Amiga 
ignora ainda?... Ainda. E todavia compete que 



( 3o2 ) 
ell a o saiba. Mas oh Amigos mens,não lhe estra- 
guemos este ptimeu'0 lanço de alegria •, constran- 
jâmo-nos ; necessita a Duífiieza de repouso ; nesse 
prazo consultaremos os meios de lhe dar a saber o 
que se tem passado. Se eu fora o único que o sou- 
besse!.. Ainda não acabava, quando ouvirão o ruido 
da Carruagem; então pergunta : — Pôde Milord mos- 
trar-se sem perigo? — Pôde : tudo o silencio sepul- 
tou. — Mf. d'Urfay,vós me dais socego. — Abalanção- 
se todos a ir buscar M''*. d^Olmancé , e Germancia. 
Aífigurai o geral contentamento de seus Ami- 
dos , de seus Criados ; as ternas caricias , que essa 
Senhora excellente prodigou ; c o como ella as- 
sinalou a cada um o pezar que ella sentia das in- 
quietações , que ella causara , não ha vozes que o 
declarem. Com que graça não agradeceo ella a 
M'*\ de Se'miane , e de S. Pers , e ao Marquez 
d'Urfay , como também ao Commendador , a 
generosa attenção que nella punhão ! Quão sensi- 
vel lhe não foi encontrá-los em sua pousada , 6 
saber que alli se habituarão a esperá-la ! O prazer 
que reluzia nos olhos de d'Urfay , e de German- 
cia relavava ainda este quadro de enternecida pers- 
pectiva. A Amizade que Miss Stanley demostrava 
á Dama que cedo tinha de lhe servir de Mãe (i) , 

(i) Chamuo aqui ás Sogras , Mães , e Irinans ás Cunhadas, 



( 3o3 ) 
a M*^^*. de Semiane , e de S- Pers , ao Commen- 
dador , annunciavão seus óllios tímidos, e suas 
trémulas phrases, que o mais exaltado prazer que 
lhe laborava na alma , era o de se tornar a ver 
na presença do seu Amante. Propozérão súbito 
a M''^ d'01mancé, que no leito conseguisse algum 
descanso. — Eu descanso ? ( respondeo ) nunca 
me senti mais forte. .Tanto tempo ha , que privada 
sou de meus Amigos , que crueza fora separar- 
me delles. Consintào-me o prazer de os ver.— ^ 

"Ventura foi que por consentimento do Chirur- 
giào , tinhão , a braços , passado o Cavalheiro a 
outro quarto bem arredado do da Duqueza d'Ol- 
mancé ; bem seguros , que não passaria por allí ; 
o que não acontecera , se o tivessem deixado no 
quarto baixo ao réz da rua. 



Quiz a Duqueza d'01mancé dar ordens para 
o jantar; mas M'^^ de Se'miane se lhe oppoz, e 
disse rindo : — A Dona desta Casa sou eu ; e em 
quanto eu aqui me achar , quem manda aqui sou 
eu : assim mando , que não saiáes do vosso quarto. 
— A ordens tão poderosas obedeço ; fico pois 
como convidada. » Tanto fez M"^*. de Semiane , e 
a mais companhia, que arredarão da Duqueza 



( 3ç)í ) 
torla a suspeita, que em sua casa eslava o Cava- 
lheiro de S. Jorge. Táo alegre quanto o permiltia 
a situação e constrangimento de seus Amigos, ella 
que de nada desconfiava; seus Criados, apenas 
convalescentes das feridas , não podião servir á 
mesa. Inquietou-se de os não ver; e perguntou 
porque. Dessa pergurta nasceo fallar-se na mórle 
do Cocheiro , e outros Criados , quando a rouba- 
rão. Chorou , quando ouvio que erão mortos os 
seus Criados fie'is. Com esse ve'o da tristeza de 
M''\ d'01mancé cobrirão seus Amigos a sua. 

Ao erguer- se da mesa , como todos se achas- 
sem no quarto delia:» Vejo (disse a Duqueza) 
nos vossos rostos , agora que em seguro estais da 
SJrte de Germancia , e da minha , o ardente in- 
soíTri mento que em vós lavra de saber quanto nos 
succedeo ; sereis satisfeitos. Os nossos andantes 
Cavalheiros , que vierào por montes , e por vallcs , 
livrar as suas Heroinas , me facultarão tomar eu 
a mim eáse prazer. Sabido tendes o como nos ar- 
rancarão de nossa Carruagem , e nos lançarão 
n'uma Berlinda a 6 Cavallos , que partio como 
um corisco. Bem presumis qual susto foi o nosso. 
A minha Germancia ( coitadinha ! ) tremia como 
uma folha , e me apertava a mão. Fora que esti- 
▼omos de Paris , vi , á luz dos archotes , quão 
oumerosa era a nossa escolta : era ao menos de 



( 395 ) 
i5 liomens a cavallo. Depois de meia lioia de 
silencio , e conjecturas minhas , todr>s nullas , 
JViiss Stanley dá um grito: — Por mim é qtie vos 
vem , mui certa sou , este desastre. É o Conde 
Federico de W***. quem me persegue. — Muito 
o quize'ra eu que assim fosse ; porquanto o aca- 
nharia a presença d'uma Dama de meu porte. 
Assustar se-hia , que se enganassem tanto os seus , 
que demasiando as ordens dadas, se atrevessem a 
an'ebatar-me : e quando eu lhe declarar que sois 
de qualificada familia , e sob a minha protecção , 
e a de Milord Stanley , lhe virão cores ao rosto j 
e terá de nos remetter á nossa familia , e Amigos 
nossos. Tanto mais, que nem eu, nem vós commet- 
têmos imprudência alguma ; e que similhante 
tratamento é um attentado contra usos , e costu- 
mes , e contra o Direito das gentes. Bem firmes e 
escoradas na nossa consciência, temos a justiça 
por nós. O que só me penalisa é o quanto inquietos 
ficão nossos Parentes e Amigos ; nem ElRei , ])em 
certa estou, deixará impunida a injúria, que se 
nos faz. Vosso Irmão , com os conselhos de d'Ur- 
fay , e d'Olmance', fará que tudo pare n'uma 
jornada forçadamente feita. Tomara só saber 
se será longa. 

A seguridade, com que fallei, assocegou Gcr- 
mancia , que soltou accompanhado d'um suspiro : 



( 3or> ) 
» Mísero (rUrfay ! » — B)m,l)om, minha Miss. 
Fóigo que vos não facão os revezes deslembrar 
de quem amamos. Quasi que esteve para rir. 
Tanto socègo me pousava no pei'o , c tão rouco 
imaginava , que a mim é que buscavão. Seis noites, 
ignorando onde parávamos de dia , já levávamos 
de jornada; o qne nrto não era muito cómmodo 
para Damas de guapo enfeite. Verdade é que tou- 
cadas para ir á Opera , desmentia para .a jornada 
lai toucado; nada menos usarão com nosco os nos- 
sos Guias todo o res-^uardo, e acatamento pos- 
siveis. Che'gamos por fim a \V***. onde pousámos 
dous dias , sem vêr o Princepe. As Aias que nos 
servião , nos dissérão que o Princepe , no terceiro 
dia chegava d'uma Caçada mui distante dalli. 
Então se nos appresentou , e disse : « Consegui , 
Senhora Dnqueza, o principal de meus desejos. 
ISIui longos tempos ha, que eu desejava possuir-vos 
em meu Palácio ; mas por minha indexteridade 
me falharão todas as occasiòes em que podeVa con- 
seguir essa ventagem. » 

Nesse instante põe olhos era Miss Stanley e 
nelles denota a mais alta suspensão : » E também 
a bella Germancia! Tanto melhor. Não ha-hi 
queixar-se de abundância , quando ella é tão agra- 
dável» Bem vos promêlto, que me não escapareis 
agora , como a última vez. » Fácil era de compre- 



( ^Q1> \ 

hencler de falias táes , que a Heroina da aventura , 

€ra eu , e Germancia um accessorio. Terrível des- 
cobrimenlo ! Mas então conservando todo o mea 
socêgo , voltei em jovialidade , o caso , e adisse : a 
Galantíssima foi a peça que V^ A. nos íêz. O 
meio infallivel de ter visitas é sacá-las por alto : ao 
menos mereciào Damas alguma attenção mais. 
Demasiado é a jovialidade quando toca em pessoa , 
que se não é Soberana, prende em bastantes Casas , 
que o são. Onde está a galantaria que nos expõe 
a 6 consecutivas aífadigadas noites de jornada ? 
Isào sei que fados serão os meus ; porem , con- 
siderai Princepe, que vossa Parenta sou; e que 
M"°.e filha e Irman de Pares da Gran Bretanha, 
Bera perdoar-vos quero essa indecente travessura i 
e ainda passarei aqui alguns dias , bem capacitada , 
que sou como em minha casa ; e logo volaremos a 
Paris concluir o casamento de M'^''. que a vossa 
aglantaria demorou bem fora de propósito. 

Tinha o Conde calculado furores , iras , ei-lo 
stupeíacto do tom que eu á cerca deile tomei. 
•OuÍ2-me balbuciar algumas phrases de desculpa , 
iíias não soube acdbá-las. Era já noite, deo-nos a 
mão para irmos ceiar , em presença de toda a 
•sua Corte •, e lá é que allectei de o tratar de igual 
a igual ; muito satisfeita de que comprehcndessem 
íjuantos o rodeavão , o respeito que se me devia. 



( 397 ) 
Dispensáino-noS^ de assistir ao jogo que se seguio 
á ceia , e letiiámo-nos. Não que eu tivesse descar- 
tado de mim todo o desasocêgo ; que ainda que 
provou bem o tom desassombrado com que lhe 
íallei , podia bem ser que reflectisse , que nos 
tinha em seu poder. Vigiava sobre nós o Ceo. Nessa 
mesma noite , nos desampachou delle uma Apo- 
plexia. EUe era gordo, fatigára-se na Caçada, 
cciou desregradamente ; ás 4 da manhan já não 
vivia. Não o sabiamos nós •, mas eis correm pela 
jnanhan ao nosso quarto ; abalada do ruido acor- 
do Germancia. Abre- se a porta ( qae alegria ! ). 
Entra Milord Stanley , e o Du(|ue. Sinal de atten- 
ção foi este, da parte do Duque, que acabou de 
me deliberar a cumprir a minha promessa. Quando 
tal disse corou de pejo a Duqueza ; cores , que não 
se esconderão dos olhos de seus Amigos. Continuou 
depois dizendo. 

» Esses Cavalheiros nos informão então , do im- 
proviso falecimento do Conde, e por que mudo 
quasi milagroso , nos viamos livres delle. Sem o 
menor estorvo sahimos do seu Palácio , onde tudo 
andava em confusão. Descansámos alguns dias em 
quanto nos porviamos de objectos necessários para 
^ jornada; e depois de grande cansaço, e como 
vedes , pouco perigo , nos braços de nossos Amigos 
nos achámos. » Em quanto a Duqueza acabava a 



( 399 ) 
,«?ua narrativa , Miss Stanley , a quem ainda nãó 
tiahão prevenido, indo ao aposento que M/* d'Ol- 
mancé lhe tinha adereçado, encontra na escada, 
que servia para o seu quarto, e para o outro em 
que tinhão accommodado o Cavalheiro de S. Jorge, 
encontra ( como digo ) com Duprez ; entra na salla, 
dizendo á Duqueza : » INIinha cara Amiga, grandes 
clarezas podemos tirar doesse homem que foi preso 
comigo ; agora o vi aqui em Casa. Solta a compa- 
nhia toda horroroso grito. Que situação! Aniquila-- 
dos os ânimos , Germancia assustada, a Duqueza 
como atterrada.... M"^*. pôz-se logo em campo : con- 
tou quanto succedéra ; o combate do Cavalheiro 
com jNlilord , as razões que havia para a suspeita ; . 
a opinião' que delle tinha. Ficou M"^*. d'01mancá 
assombrada e emmudecida , e como enterrada en\ 
suas considerações. Lágrimas nos olhos de todos l 
« Quero ver o Cavalheiro ( diz a Duqueza ) tenho 
ânimo para tanto. Ouvuei a justiíicação que elle me 
deve, » 

Todo o resto do dia ficou com semblante som- 
brio ; mas M^*. de Se'miane, não a desamparou um 
só instante,fez quanto poude pela consolar. Toman- 
do-lhe a mão, lhe disse M'*. d^Olmancé : » Pomada 
me perguntes. Tcrrivel golpe recebi. Não nasci para 
ser feliz. » Séccos tinha seus óllios a Duquezaj nem 
uma só lágrima. Lidava-lhe uo coração alguma es- 



( 4oo ^ 
Iranlicza , que M'*. de Sémiane rastrear não podia : 
foi-llie com tudo facil descortinar com que força se 
tinlia despertado o amor que a Duqueza tinha ao 
Cavalheiro. 

Costumada dlia longo tempo , a lhe adivinhar no 
rosto os pensamentos da alma, entendia o menor 
movimento, o menor abalo que as paixões lhe 
davão. Se Milord Stanley se avizinhava da Du- 
queza, se lhe entrava no quaito sem ser d'antes 
annunciado , ce'rto abalo de involuntário horror a 
fazia estremecer. Quem somente lh'o percebia era 
M**'. da Se'miane, porque em tudo não mudara a 
Duqueza em nada á cerca dos resguardos de costu- 
me ao Irmão de Germancla. Assim ião passando os 
dias os Amifíos de M'*. d'Olmancé, sensitiva Angé- 
lica, ([ue tinha visto o Cavalheiro de S. Jorge , e que 
Senhora de si mesma, nem uniito alvoroço, nem 
sobeja frieza demostrara , quando o vio. (iom bon- 
dade o tratou , e lhe pedio, que vivesse com socégo 
para qne mais cedo sarasse da ferida, alfa inando-lhe 
que aguardava, com prazer, esse momento, tanto 
por elle, como porella mesma, e por seus Amigos a 
quem era devedor de clarezas á cerca do mais im- 
portante acontecimento. Esse momento , em que o 
Cavalheiro explicasse o sentido de similhanle pro- 
ceder, com insoílrimento se esperava ; em (juanto 
esse infeliz lisonjeado com a Dita de que gozava , 



(4oi ) 

tornando a ver aDuqueza, abria á Esperança as 
portas de seu ânimo : o que obrou na sua ferida 
mais que quantos soccorros a Arte lhe adminis- 
trava. Até o Chirurgião declarou , que dentro de 
poucos dias , poderia o Doente sahir do seu quarto, 
c supportar a fadiga d'uma conversaçãos 

A annuviada melancolia da Duqueza lavrava 
sempre ; e nem a mesma convalescença do Cava- 
lheiro a dissipava : as suspeitas que lhe entrarão á 
cerca da lealdade do seu Amante, servião de ver- 
me roedor, que manso e manso a consumia. Logo 
que o Cavalheiro de S. Jorge teve faculdade de se 
erguer , ainda que enfraquecido , ia passando alguns 
dias na conversação da Duqueza e Amigos delia , 
sem com tudo começar alguma explicação. Dado 
que o havia elle com gente mui prevenida contra 
elle, a candidez que lhe i espirava no semblante 
penalisado, e lânguido , lhe captivou quanto havia 
de ter como Juizes seus. O primeiro de seus cuida- 
dos foi perguntar por Milord Stanley , e apenas que 
esse appareceo, o Cavalheno o abraçou, pedindo 
que lhe outorgasse sua amizade > da qual o julga- 
ria digno, quando melhoro conhecesse. Começarão 
a cahir lágrimas dos olhos de Stanley , e de todos 
os Amigos da Duqueza, quando virão com quanta 
generosidade e nobreza a tinha elle pedido. O Lord 

se lhe lançou ao pescoço , e o mesmo fize'rào os 
Tom. X* a6 



( 405 ) 
mais, como esquecendo os imputados delictos. 
Passados outo dias; achando-se em fim o Cava- 
lheiro, como se podia desejar, deo prazo no dia 
seguinte, para a declaração que havia de fazer. 

M''*. de Sémiane , que não dormio em toda a 
noite , que antecedeo tal dia , entrou mui de manso 
na Câmara da Duqueza, pela não acordar (que erão 
3 da madrugada) e pasmou de a vér sentada a escre- 
ver. » Tu não dormes , Se'miane ? — Não , que to- 
mara ler um dia mais de idade , para te vêr mais 
socegada , e ( talvez) mais venturosa. » M*"*. d'01- 
mancé arrancou um suspiro ; — « Tenho ainda 
muita Carta que escrever; deixa , que eu continue ; 
M'^. de Se'miane pegou n'um livro, e a Duqueza foi 
escrevendo ate' ás 8 com tanto socego, como sen- 
tido 5 lacrou vários maços , que fechou no seu es- 
criptorio. Fechados, disse á sua Amiga: » Tomemos 
Chocolate , que me sinto fatigada. Chamou M''^ de 
So'minne, veio o Copeiro, e depois o Chocolate. 
Entrarão depois todos no quarto da Duqueza, e 
dahi o Cavalheiro , que no semblante denotava so- 
cego de ânimo satisfeito*, com o que deo contenta- 
mento aos da Companhia, que augurarão dalli, 
que lhe não despedaçavão remorsos o coração. 
M'*. d^Olmince seatou-se no seu perguiceiro , e a 
seu lado M*^*. de Scmianc; a mais companhia, em 
torno delias ; e o Cavalheiro disse então : 



( 4o3 ) 

» Não tenlio de separar na minha narrativa a Se- 
nhora Duqueza de Miss Stanley ; pelo muito que 
entrançadas vem nos factos que tenho de relatar. 
Mal começa quem , M\ d'01mancé, descobre' em 
seu intróito a violenta , mas respeitosa chamma, 
que me ardeo no peito , desde que entrei a conhe- 
cer-me, e que eu conservarei ate' o meu último ar- 
lanco. Falia por minha bôcca a Verdade : e como 
quanto me aconteceo, quanto cu fiz, dessa chamma 
derivou ,confessar-vo-lo divida foi', porque só assim 
se explicão as acções minhas. Nas màos vos ponho 
o castigo que julgardes que a minha temeridade 
merece. Esse amor, que ignoráveis , Senhora, mo- 
tivo foi de vossas penas; que quizeu antes conservar 
a vossa virtude intacta, salvar-vos a pessoa de horro- 
rosos perigos, do queinteressar-vos a que tomásseis 
parte no meu amor. Amor , que vos lançou nos bra- 
ços de M. d'01mance'; amor , que deo motivo a que 
entrasse no jazigo, odiado de vós , o mais digno dos 
homens todos ; amor, que dictou o testamento que 
vos deo tantos pezares; inspirado unicamente para 
que a vossa mão recompensasse o sacrifício , que 
eu fizera; amor em fim que injustamente me gran- 
geou as iras de Milord Stanley, como vou signifi- 
car-vos. 

» Recordai o tempo em que M'^^ d'Estanges vos 
trouxe a Paris , onde o Gonde Fcderico bebeo em 

36 * 



( 4o4 } 
vossos olhos a detestável aíTeição , que tantos crimes 
fez que commeltesse : que a impressão que nelle 
fizesteis, occultá-la não poutlc. Presentou-se á Con- 
dessa , e insinuou, intenções de casamento. Vossa 
]Màedcslum])rada pela avantajosa sorte, que se vos 
oílerecia, nada examinou , deixou conceber ao Prin- 
cepe, que se inclinaria a quantas reservas reque- 
resse essa união com vosco. Queria um casamento 
secreto 5 o meu amor porem soube logo que motivo 
era o vc rdadeiro , doesse segredo. Tomei conheci- 
mento com um da sua comitiva, e como lhe fallasse 
no casamento próximo do Conde com vosco, pôz- 
se a rir: » Ignorais vós que o Princepe é um depra- 
vado? (i) M"*. d'Estanges é mais uma victima que 
elle põe no rói das que elle sacrificou á sua Luxuria: 
tanto mais que esse casamento é nuUo; que elle 
ha i5 annos que é casado; e ainda que ha lo que se 
dá por viúvo , sua Spôsa se consome de mágoa , 
n um solar que elle possúe nas extremas da Hun- 
gria , onde seu bárbaro marido a desterrou. Enco- 
bri com tudo esse segredo , que a minha amizade 
vos confiou ; porque nem eu, nem vósescapariamos 
á sua vingança j que elle e' um monstro que brinca 
com os mais horrendos crimes. Perder-nos-hiamos, 



(i) Homem que merece rodado vivo. O Diccionario de 
Academia diz : un homnw sans pri/ici/>e. 



C 4ô5 ) 
sem por isso salvarmos a pobre desgraçada em quem 
elle os olhos pôz : que e elle tão bandoleiro em 
seus amores, quanto constante e inconcusso em 
seus projectos, até que acabe de conclui-los. Es- 
tremeci de tal ouvir; e muito mais , de que tinha 
o Príncipe já Cartas alli promptas para desacreditar 
M'^\ d'Estanges e sua Mãe no caso que ellas enten- 
dessem que as queria elle burlar com um casa- 
mento supposto : nem se limitaria a sua vingança 
em as desacreditar; mas que tinha apaniguados 
prestes a mattá-la apenas dessem de seus crimes o 
menor rumor. 

Não me bastava porem ter descoberto quão 
malvado o Conde era, relevava que lhe compre- 
hendesse também eu os seus designios , para lh'os 
atravessar, e com mais certeza lh'os desmanchar: 
o que era o auge da difllculdade. Mas que obstácu- 
los não derriba o Amor, quando a alma cóbm 
da Affeição violência , e íôrças ! Sube que procu- 
rava o Conde um Secretario ; tive quem me apre- 
sentasse a elle, com o simples de Carlos ; porque 
ainda que com meu nome verdadeiro poderá en- 
trar em sua casa ; mas o liame que havia enlrc a 
minha íamilia e a vossa , me esquivaria a sua con- 
fiança. Alem de que, me convinha muito esse em- 
prego, que só por só , com elle me occupava ; estor- 
vando , que outros me vissem e me conhecessem. 



( 4o6 ) 
datlo poucos fossem os que eu receiasse , tendo sitio 
criado na Província , e pouco tempo morado em 
Paris. Sem difíiculdade meacceitou o Conde,e tanto 
mais se contentou de mim , que aííectava eu com 
elle seus próprios vicios , de sorte que em i5 dias, 
já me appossava de toda a sua confiança, e quasi 
em tudo necessitava de mim. Então desaííectada- 
mente proferi o vosso nome , e vi que os olhos se 
lhe animarão ; e entre gabos da vossa formosura, 
me confiou com quanto amor se abrasava por vós ; 
e também a esperança que tinha de tirar proveito 
da ambição da Condessa vossa Mãe para abusar 
da vossa iAnocencia por meio d'um falseado ca- 
samento. 

» Confesso que estive para perder o juizo. Ne- 
nhum lanço de impedir tal crime me acodia á ima- 
ginação. Dentro d'um mez se conciuia o matrimo- 
nio. Cruel , e mui cruel foi o partido , que muito 
a pezar de meu peito , contra mim tomei , e con- 
tra vós! Mas antes quiz despedaçar minha alma e 
a vossa , que adorar-vos deshonrada por um mons- 
tro. Perdia-vos *, mas ao menos quando vos perdia , 
vos tomava em seus braços o maior homem de 
bem , que eu conhecia. Peço ao Conde licença 
de alguns dias , para ir ao Campo restaurar-me de 
saúde: chefio , peia posta , a minha casa, quando 
M. d'Olmancé morava na vossa Quinta. Dupre^ 



( 4o7 í 
seu primeiro Criado grave, em quem eu tlnlia 
gi-ande confiança , atinou csni o motivo da inquie- 
tação que me devorava, e de cuja Uie não fiz mys- 
terio. Estremeceo , comprehendendo como eu , 
quanto perigo haveria , em dar estrondo. Bandeá- 
mos o partido que em tal urgência se tomaria. 
Todos erão difficeis. O Tempo instava. Communico 
a Duprez ceVta ide'ia que me sobresahio, que lhe 
pareceo bem extrema , mas de cuja lhe dei a conhe- 
cer a summa necessidade. 

» Dei-me por doente , e por tal me creo no dia 
seguinte vossa Mãe e vós -, em quanto eu , com boa 
saúde occulto estava no quarto de Duprez , até 
que no instante , que mais favorável se julgou 
desci ao vosso quarto ; e logo foi Duprez avisar 
M'. d^Olmance' , que fora fingida a minha moléstia , 
pois que ia ce'rto que a eu fingira para enganar a 
Condessa d'Estanges , e que me achava no quarto 
de sua filha. Eu , que o ouvir descer, proferi um 
tanto alas algumas palavras , que sem vos acor- 
dar as ouvisse elle... O seguinte vós o sabeis, M^\ 
^'ão me enganei no meu projecto; devotou-se o 
mais honrado Cavalheiro. Perdoai-me o enredo : 
salvar-vos dos laços d'um facinoroso era tudo. Bem 
amargosa foi a taça que vos dei a beber. Expunha- 
vos ás iras de vossa Mãej mas não permittia calcular 



( 4o8 ) 
se erão mui dolorosos os remédios , quando o mal 
era tão grave. 

» Via-me eu nesse temoroso transe , em que 
única a Virtude nos consola ; mas não de modo 
que exclua o sentirmos os golpes de nossas má- 
goas. Prazo fatal! em que eu vinha de entregara 
outrem , o que eu mais queria , e pronunciar a 
sentença que para sempre me atalhava a esperança 
de vos declarar o meu amor. 

» Volto a Paris, onde vejo, que em nada min- 
guou a confiança do Conde para comigo ; pelo 
contrario mais do que dantes necessitou de mim, 
e com gosto me vio de volta. Espalhado o rumor 
do vosso casamento , dado <iue bem secreto fosse , 
entrou em fúrias o Princepe , deitou labare'das de 
cólera •, e porque attribuio ao interesse que eu to- 
mava em sua paixão , a melancolia que o vosso 
acontecimento me causava , me tomou ainda mais 
amor. Gamo se tinhào resguardado de vulgarizar 
as circumstancias , que obrigarão vossa Mãe a 
entregar a vossa mão de Spôsa a IVr. d'Olmancé, 
considerou esse proceder de M'^^ d'Estanges como 
insultuosa aífronta , que de caso pensado lhe fora 
feita; e dahi concebeo ódio implacável contra 
M- d'Olmance, jurando, que cruelmente se vin- 
garia. O piiuieiro partido que abraçou , foi o de 
vos arrebatar, em despeito dos sacros laços que 



( 4o9) 
acabavâo de vos unu\ Dei parte a Diiprez , que 
prevenio seu Amo de ter descoberto que eu maqui- 
nava de roubar-vo-la, com o que fez que M. d'01- 
mancé tomou súbito a resoUição de vos levar a um 
Solar antigo que lá junto possuía dos Pjrenêos , 
onde occulta aos olhos todos , largo prazo corre- 
ria , antes de deparar com vosco ; e eu teria azo da 
socegar-me, 

M Já vos eu disse que era o Conde Federico 
constantissimo em seus projectos ; desvanecido 
este , encaminhava logo outro. Soubera pelas suas 
espias onde M. d'01mancé vos tinha ' desterrado : 
então sem resguardo algum lançou-se a vos rou- 
bar a força descoberta. Precisando porem d'um 
pretexto para entrar nesse solar , lhe acodio o seu 
engenho , fértil em astúcias , com o de queixar-se 
ao Ministro, de que um vassallo seu , que lhe ser^ia 
de Criado, o roubara ; e que para escapar á justiça 
se salvara nas raias de França fronteiras a Castella. 
Pelo que, pedio ordem , que se lhe abrissem todas 
as casas até dar com o criminoso : ordem , que 
sem restricção alguma lhe foi dada. Ufano com 
arma similhante, m'a mostrou, e tudo preparou 
para o vosso rapto. Como porem não Ihe^casse 
socêgo , á cerca da face que o negocio tomaria, 
das justas queixas de M. d'Olmancé , das devassas , 
que a pezar do seu gráo de Soberano se poderião 



( 4'o ) 
tirar cm seu desabono : » Parto para Inglaterra 
í me disse ) a esperar pela prêa : tu , Carlos , fica , 
para vigiares tudo : e quando seguro sejas que 
se cumprirão minhas ordens , no dia seguinte abala, 
e vem ter comigo a Londres. Meus receios se reno- 
varão com esse novo projecto ; avisei logo a Du- 
prez , que como leal Criado me empenhou a que 
viesse dar vista de mim nos redores do solar, em 
que vós residis , promeltendo - me que acertaria 
modo de vos sobnegar aos réos designicsdo 
Conde. 

» Logo que Duprez soube da minha chegada aos 
Pyrenéos, deo a crer, que de convenção com- 
vosco , vie'ra eu a aquelles silios para vos levar fu- 
gida ; e d'OImancé furioso , quando tal nova 
ouvio , vem súbito ao solar. Eu , que de propósito , 
me dei a ver nesses contornos , fui causa , que 
vosso Spôso , que depois do Casamento, concebera 
por vós o mais violento amor, não se deo , por 
vos conservar , a outro partido que de encerrar-voâ 
em tal sitio do solar, que era só delle conhecido. 
Partido violento , de que me advertio Duprez ! 
Partio-se-me o coração com tal ouvir-lhe ; e a 
mais violenta dôr se me apoderou de alma. Mísero 
de mim ! que vim a ser vosso verdugo , por não 
querer ser o instrumento do vosso descrédito. Fui- 
ipe a Londres onde o Conde me esperava, e o como 



surtira a sua boiTorosa conjuração contra vós; 
que, a pezar de todo o desvelo de seus cômplices , 
nunca chegarão a descobrh-vos. Cinco mêzes ron- 
darão pelas vizinhanças da vossa habitação, e a 
favor da ordem d'ElRei, visitarão quantidade 
de vezes , a morada de ISr. d'Olmancé , que como 
lhes não suspeitava a intenção , os deixava entrar, 
na opinião que buscavào algum malfeitor , que fu- 
gia ao castigo merecido. 

» Contemplai que raiva não entrou noPrincepe, 
quando illudidas vio as suas esperanças ! Tenho 
por seguro , que d'esse instante mesmo meditou 
vingar-se, dando ao vosso Spôso a morte. E nesse 
tempo mesmo em que o vosso amor o trazia fre- 
nético , não lhe dava ócio a sua índole depravada: 
tinha posto a vista em Germ anciã , de que logo me 
deo parte. Condoi-me da desgraçada Menina, e 
do desdouro que lhe apprestava esse dissoluto. 
O Acaso me abrio modo : e este foi o ter valido 
levemente a Mistress Smith , e dahi ter entrada 
em casa delia 3 conquisto sua amizade , e a da bella 
Germancia ( ouso dizê-lo assim ). Familiaridade foi 
essa, que a não ignorou por largo tempo o Prin- 
cepe, nem as outras ISleninas que na lógem traba- 
Ihavão-, ate me suspeitava amante de Germancia, 
e galanteando comigo, me oíTerccia o seu pre'stimo, 
com tanto que nesse honrado trato tivesse elle a 



( 4l2 ) 

preeminência. Ora, para osquivá-la ao desastre que 
se lhe preparava, não me impellia somente a inno- 
cencia de Germancia ; mas sim e muito , a sua alma 
tão bem dotada de conhecidas virtudes, que me 
confirmarão n'um dever, ingenito já d'antes em 
meu peito. 

» Agora cabe lançar alguma luz nesses desastra- 
dos papéis , que por algum tempo , ( e quem sabe se 
amda hoje ) me ílzérão odioso a Stanley e a dXV. 
%. Profundo nos seus crimes, incrivel nos regres- 
sos de executá-los , consummado na dexteridade , 
e politica , que para elles se requer, grangeadas so- 
lidamente pela reflexão, escrevia o Princepe ( para 
nunca se afastar do plano concebido ) todos os seus 
projectos : - Tal dia farei tal cousa : - a Lai farei 
que sigão... -etc. Como eu era o único Confidente , 
era o único também a quem elle communicava esse 
livro de lendjrança : e como eu era o único , ou tal- 
vez o mais interessado em desmanchar o projecto ; 
receioso de que esquecendo alguma circumsfancia [ 
empecesse aos desejos de meu coração ; ou que 
uma leitura precipitada me não deixasse colher 
todos osmenéos do projecto, para os prevenir, a 
tempo; copiava á pressa , e com olho na porta, e 
ouvido á escuta : — Farei etc. - 3/andarci — etc. 
Não me liando nas mais seguras , nos entrefórros 
d'um sobretudo escondi a minha cópia, e lá a con- 



( 4'3 ) 
sultava ; e quando o Príncepe duvidasse da miníia 
lealdade, não iria dar lá com ella. Quão assustado 
me não vi, quando prisioneiro de Stanley, sube 
que elíe tal cópia lera? Mas dobremos folha, que 
muitos pezares tinha eu ainda de tragar antes de 
experimentar esse. 

» Assinallou dia o Conde para partir de Londres , 
,que foi a antevéspera do rapto de Germáncia í 
sendo facil com pretexto de commercio , tirar essa 
Menina de casa de Mistress Smitli , e lançar mão 
delia. Sabeis como anteparei esse rapto, mas não 
sal)êis, como illudido fui no meu proje'cto. Um dos 
do Príncepe, invejoso da confiança que esse em 
mim punha, folgaria do sul)ir a ella, levantado 
Sobre minha mina; e como se lhe encommendára 
o roubo de Germáncia, de cuja corria em casa 
fama ser eu o Amante predilecto ; elle que me vio 
sahir cedo , no dia destinado para o roubo , suspei- 
tando , que a ia eu avisar, seguio-me, e vio-me en- 
trar em casa de Mistress Smitli, e meia hora depois 
entrar n\ima Carruagem com Germáncia, pòz-se 
na trazeira^ e [sem que o soubéssemos , tomou no- 
ticia do sitio em que haviamos de passar o dia. 
Mudou o primeiro plano , alardeou ao Príncepe a 
sua intelligencia , appromptou pe'rto de Greenwich 
a Carruagem, coleou-se na casa de pasto, em que 
estávamos , e apenas me vio afastado de Germáncia, 



( 4i ', ) 

(que fui dispor algumas cousas) destro ,' e rápido 
lucra os instantes ; manda um criado insinuar ao 
Conde como tudo lhe surtira bem. Que foi o Prin- 
c.'pe mesmo que me individuou tudo : tanto o 
poséra de bom humor essa noticia! E em vez de 
se enfadar comigo , pelo estorvo que cu quizéra 
pôr a seus amores , motejou-me em razão da peça , 
que me pregara. Perdoai-me Miss Stanley : elle 
ignorava a valia d'uma conquista como a vossa ; 
pois que vos considerava como uma Moça fácil a 
induzir, e a delia triumphar ; persuadido que uma 
simples phantesia não era de peso tal , que tirasse a 
confiança um homem que lhe era necessário. Tal- 
vez , que se eu tão ditoso fosse , que de seu poder 
vos arrancasse , o não tomaria elle tão de le've ; 
como porem tinha a presa certa , com bem diíTeren- 
tes olhos considerava, satisfeito em sua alma, todas 
essas circun\stancias. Vi-me quasi perdido •, e foi- 
mc necessário fingir uma afieição, que me não 
aflfoutára a conceber á cerca de vós ; por tanto me 
perdoou, como a Amante, fraude, que não per- 
doara , como a Confidente. 

» Partimos de Londres no dia seguinte ao rapto 
de Germancia, e chegado a Paris, sidje (pie meu 
Páe tirara contra mim ordem de reclusão , porque 
me soubérão vindo nocturnamentc ao vosso (juarto; 
que o soube elle , a pezar de quantas caule'las se 



tomarão , porque lhe não fosse aos ouvidos ; e fu- 
rioso de me saber culpado, determinou punir-me. 
Escrevi a Duprez , que me viesse fallar ao sitio que 
lhe assinalei : como fiquei attónito , quando em lu- 
gar de Duprez vi M. dOlmancé , que entre estreitos 
abraços : » Sei tudo ( me disse ) meu generoso Ca- 
valheiro de S. Jorge : consenti que eu me deslem- 
bre em vossos braços dos cruéis instantes, que 
passei depois da minha união , com a mais respei- 
tável de todas as MulheVes. Como me não dais 
meio , oh Céos , de galardoar tão insigne sacrifício!)) 
Confesso que não fiquei homem , não, a falias láes. 
Então me explicou M. d'01mance' , o como desco- 
brira tudo o que se passou depois do vosso Caza- 
mento. Deixara cahir Duprez , nesse alvoroto , a 
minha Carta , no aposento de vosso Spôso, Julgai 
qual foi seu pasmo. Chama pelo Criado , que lhe 
não dissimula circumstancia alguma dos infames 
designios do Conde Federico , e os meios que eu 
tomara , para lh'os desvanecer. 

» Aqui não poude M. d'01mancé resistir ao desejo 
d'uma conversação comigo •, com quem veio ter em 
lugar de Duprez. Que cores bastarão a vos pintar o 
pezaroso Duque , quando reflectia no injusto ciúme, 
e proceder a respeito vosso ? » Nasci eu pois ( me 
dizia ) para tormento dessa adorável Sjíôsa ? Beui 
que sejaes ( se ouso dizc-lo ) de tudo o i'imco autor. 



( 4'6 ) 
impossível me é o nào vos admirar, muito e muito 
arredado de arguir em vós um comportamento que 
compõe o elogio de vosso coração. E com tudo 
foslcs vós quem me forçou a ser o Verdugo dessa 
desventurosa. Confesso-vos , Amigo, que ninguém 
pôde ser Spôso delia , sem que a adore ; e quando o 
Céo, por ella , me abrasou o coração , foi para me 
punir da uiinlia crueldade. Como lhe desenvolverei 
o fio do meu comportamento com ella, sem lhe des- 
cobrir que a amais ; como , quando hoje sei que são 
imaginários quantos aggravos lhe suppuz? Dou-vos 
por ce'rto , que ella vos ama ; mas , Cavalheiro , ella 
ignora, que vós a amais; é nisso, ao menos, me con- 
solo. » Assim nos apartámos, promettendo de tor- 
nar a nos ver , todos os dias. » Adeos , bizarro , e 
virtuoso Mancebo ; não ficará sem galardão o sacri- 
fício que fizesteis. Bem vedes quanto a minha saúde 
é ténue ; passem ainda breves annos, e deixar-me- 
ha a vida. Olhai-me, como Páe d'iima Amante, 
que para vós a conserva ; mas entretanto , não 
queVo ser menos generoso, que vós. Tóca-me a 
niim o sacrificar-mc. Cidpado vosso Páe vos crê , 
pnnir-vos (iue'r : toda a apparencia odiosa dessa 
trama qucro--a eu tomar sobre mim , e com uma 
prevenção destruir outra prevenção. 

» Assim que , ainda nessa occasião me sérvio 
Diiprez, tne sérvio o Duque d'01raance', que o 



( 4i7 ) 
postou lá (lepositadamente ; e lá fez a declaração , 
que sabeis , e o Ghirurgião , a quem se de'rão boas 
luvas , por que se calasse j e quantidade de di- 
fiheiro que se deo a quantos podião fallar : de ma- 
neira , que Duprez sahio vivo da imaginada morte. 
Nem eu perdia a lembrança de Germancia desgra- 
çada; vendo-me, melhor que ninguém , no segredo 
do livro de lembrança do Conde , atinei com o 
sitio, em que a retirara. Lá fui; lá examinei todas 
as entradas , lá deparei com essa portinha , que 
dava no jardim, cuja chave fácil me foi havê-la. 
Entro uma manhan no Gabinete , vou-me ( foi 
pressentimento ? ou instincto ? ) á fatal gaveta do 
Escritório — Que papel primeuo vejo? O projecto 
dehomicidio de M^ d'01mance'. Mo sei se os 
meus olhos accredite ; forçosamente assentei que 
fallavão certeza. Só tendo o pérfido espias suas em 
vossa casa , é que podia estar informado do dia em 
que o Duque ia a Versalhes ; á vinda se liavia de 
prefazer o atroz dehcto. JNão cabia perder tempo. 
Copeio á pressa o funesto designio ; e como tinha 
de salvar Germancia do poder do Conde nesse dia 
mesmo , sirvo-me d'uma Carruagem , que tinha 
ás minhas ordens. Mal agourada Carruagem , que 
a lançou na mais dolorosa crise! Levava eu Ger- 
mancia ao Mostcuo de Panthemont, eis que Du- 
prez, faz que pare a Carruagem, para avisar-me, 
Tom.X- -2-1 



(4,S) 

f[\\e Irnzlão a sna casa qnasi morto o Duque d'OI- 
iiiance. Fatalidade inopinada ! 

« Que antecipara essa ida o Duque : e esse ins- 
tante mesmo , em. que eu deparava com o projecto 
do homicidio , era O mesmo em que elle corria á 
sua perdição. Porquanto avisado , a tempo , dessa 
partida antecipada , despedio á ponte de Sèvres os 
cômplices , que lhe derão o tiro de pistola, O meu 
primeiro acordo, foi lançar-me fora da Carruagem, 
acodir a vossa casa , deixando Mi&s Stanley com 
Duprez, que a conduzisse onde eu a destinava. 
Apenas me ausentei , que a Poliria , suspeitosa que 
meus mysteriosos passos tivessem algum liame coni 
o homicidio perpetrado, encarregou um de seus 
OíTiciáes , que me seguisse , e prendesse quanto 
servisse a esclarecer esse caso crime. Bem conheci 
o engano •■, bem me penalisou a alma ; mas quão 
impossivel o acodir-lhe com presentaneo remédio l 
Vou de voo buscar IVP d'Olmancé, entro no 
quarto , quando vos saldeis , ou ( por melhor dizer ) 
quando desmaiada de mágoa , vos levavão ao 
vosso leito. Foi lance, em que depostas as cautelas 
usáes , segundo o fito que eu levava , não me estor- 
varia a vossa presença , de mostrar-me. Cuidei que 
alli morria, quando o abracei. » Não podia esqui- 
var os meus iniquos fados ( me disse ). \'ive , sim 
vive , honrado Cavalheiro , para me suIjs til u ires , 



|)araa doçares os dias d'uma Spôsa, qlie êu, a muito 
pezar meu , desventurei. Assaz forças conservo 
ainda para lhe dar azo de te fazer ditoso, recom* 
pensando com a maior parte dos meus bens, que lhe 
deixo á sua disposição, a pessoa, que por glória delia 
se sacrificou a si, o melhor Amigo , que teve d'01' 
mancé. Nem nisso injusto sou : que Senhor sou 
do que é meu ', o meu legitimo herdeiro é suffi- 
cienlemente ricco , e dispensar-se pôde de maior 
abastança. 

» Entre copiosas lágrimas me abraçou , me pedio 
que me ausentasse , e que não mais vie'sse vê-lo ; 
que poderia o vér-me lançar algum amargon esse 
derradeiro prazo , que eile queria consagrar aos 
deveres da Religião , e a dispor de seus bens. De 
seus braços , quasi morto , me arranquei ; e o meu 
primeiro assomo foi de ir vingar-me no infame 
Princepe ; o segundo interessar-me a favor de vós j 
que desde esse momento me contemplei como 
vosso único defensor. Mas podia eu fraquear aos 
golpes d'esse adversário; e fora deixar-vos então ao 
capricho d'esse monstix). Fehz , que vos tomou o 
Ce'o sob seu amparo, inspirando-vos que buscás- 
seis a sombra de W. de Selville , logo que o Du- 
que fechasse os olhos : um ou dous dias mais que 
tardásseis , tudo aprestado estava para aneba- 
tar-vos •, porque só por gozar mais folqadament^ 

2: * 



C 420 ) 

da sua víclima , se descartara do Spôso. Ao saliir 
de casa de M. d'01mancé , duas ou três hora& 
fiquei aniquilado com o peso de honores tantos. 
O interesse de Miss Stanley, que gemia em tão 
triste e injusto captiveiro , me arrancou ( para 
assim dizer ) de mim próprio. Não tinha , alem de 
d'Urfay. em quem me confiasse ; fui buscá-lo , 
como delle o sabeis , e o mais venturoso successo 
coroou os meus desvelos. 

« A pezar da minha arraigada indignação contra: 
o Conde de W***. fui , no dia seguinte , vê-lo , e 
no semblante lhe avistei os sustos que lhe dava a 
Cocheiro preso , a fuga de Germancia , e os restos 
que de vida conservava ainda M. d'01mance'. Como 
elle me julgava ])em arredado de suspeitar todos 
esses tratos , não cuidou em me descobrir o âmago 
de seus i>ensamentos j que nem elle ainda sabia 
que nessa Carruagem fora Germancia presa ; dias 
passarão, antes que o soubesse. O Cocheiro porem, 
que me era affecto , nunca confessou que fora eu 
quem a tirara daquella casa; respondeo nuamente , 
que um dos Criados , que a servia , vie'ra pedir 
uma das Carruagens do Príncepe ; e que pelas or- 
dens que tinha de obedecer a quem viesse da parte 
de'ssa Senhora , não recusara. Esclarecer esse 
facto era impossivel ; porque fugida Germancia , 



( 4^1 ) 
despargirão-se assustados os de seu serviço •, e desde 
esse instante , lhe vierão mais sérias occupações , 
que as de pesquizar Criados. 

Apenas me vio , me insinuou logo a que me dis- 
pozesse a partir , porque negócios urgentes o clia- 
mavão com brevidade a Inglaterra : Como nessa 
conjunctura me era mui relevante o assistir em 
Paris , constrangendo-me quanto pude , lhe pedi , 
que me deixasse ir passar algum tempo com a 
minha familia , restaurar a saúde que de dia em 
dia se me enfraquecia, e se arruinava. Foi -lhe 
fácil crêr-me 5 e como os tormentos em que lidava , 
se me debuxavão ao vivo no semblante , de ver- 
dade me teve por doente. Deo-me alguns mêzes 
de licença mas que lhe desse parte da minha 
morada, para me escrever , se de mim necessitasse. 
Despedi-me delle , crendo que pela ultima vez ; 
mas quiz ainda o Fado , com diversos embaraços , 
que eu delle me aproximasse. 

» Feneceo sua carreira o Duque d'01mance' j e 
sube logo , que apenas morto , partisteis para casa 
do Senhor Comraendador. Confesso , que em 
despeito da mágoa de perder Amigo tal , concebi 
a mais viva alegria , de vos ver salva das astúcias 
do Princepe. Tantas revoluçpes , umas sobre 
outras , me causarão tão violentas fe'bres , que 
me tiverão 1 5 dias de cama j e se conservei a vids^., 



( 4í2 ) 

aos desvelos de Duprez a devo , que enlrou em 
meu serviço , logo que o An7o lho morreo. Quem 
dissera , que sem se descuidar de me assistir , 
ainda elle achava tempo de esquadrinhar o que 
íóra se passava ? Pois por elle é que eu sul)e que o 
Conde tinha partido para Inglaterra , repentina- 
mente. Então, a alegria de o ver distante , e o de- 
sejo , Senhoril , de tornar a ver-vos , e a minha 
boa compleição , adiantarão a melhora ; de sorte , 
que apenas pude supportar a jornada, tomei Carrua- 
gem , e parti para Selvillc , onde passei , junto de 
vós, os mais agradáveis seis mêzes da minha vida, 
mas tamhem os mais infortunosos. A resolução 
que vos inspirou o testamento de vosso Spôso, 
me fez grande admiração , quando me despeda- 
çava , quando punha silencio ao meu amor, que 
tomava azo de se manifestar a vós. Convinde po- 
rem comigo , que então fora eu Amante bem pouco 
delicado, se em tal momento , nelle vos fallasse : 
persuadir-vos-hieis , que o interesse , e não mais , 
me abria a bôcca , assustada de perder uma ri- 
q^ueza , que a gratidão de vosso Spôso me reser- 
vava , porque de vossa mão a mim viesse. Tanto 
o desejava eu, como vós, que a vossa Demanda 
se perdesse, pnra que, sem macular a minha 
generosidade , désseis ouvidos ao m?u amor. Vede 
eoiiio se me originou meu infortúnio , c como uma 



í 



( 4'-i3 ) 
disposição, que o vosso Spôso fez, para assegurar 
a minha Dita ; como tudo o que devera concor- 
rer , a me achegar a vós , sérvio pelo contrario , a , 
para sempre, me pôr longe. Funesto eííeito d'uma 
prevenção , (não a direi injusta ) que vos odiou 
até os dons de quem lá no intimo , tanto como eu , 
desejava a vossa felicidade ; e que gostoso encarou 
com a Morte em razão de que ella despedaçava 
laços , que elle via mui bem , que vos erão insup- 
portaveis. 

« Quando em fim partisteis de Selville , capa- 
citei-me que esse adeos ete'rno fosse , sendo a 
jneu parecer inevitável o vencimento da vossa 
Demanda; affigurando-me que todos os vossos jul- 
gadores vos verião com os olhos , com que eu vos 
via ; e não me enganei ; que leváveis vossa virtu- 
de por abonado fiador do vosso comportamento. 
Em que estado fiquei eu? Ninguém , a quem po- 
desse abrir meu peito! E d'Urfay , que só tiuha 
essa prerogaliva , tão distante de mim , que lhe 
era negado salvar-me da desesperação! D'esse 
transe me veio arrancar um novo accidente, que 
me arremessou ( para o dizer assim ) á Morte , 
que das mãos de Stanley se me dispunha. Des- 
cuidado do Príncepe , então em AUemanha deoois 
de assibtir 6 mêzes em Londres , assentava eu , 
que envergonhado do pouco fructo (jue colhera 



( 4-^4 ) 
de seus ciimes, liie ficassem só remorsos na lera,- 
brança... Era honrar sobejo sua ahna tão malva- 
da ! Eis que recel)o esta Carta : 

— E de pasmar, querido Carlos , que honrado 
com tantos favores meus, me descuideis assim. 
Por indiíTerença ? tal não creio. Por mesquinho 
galardão de vosso pre'stimo ? Em despeito de 
vossa deslembrança , vos faço Camarista de mi- 
nha pessoa ; dado que ignore a linhagem vossa. Ahi 
dares com a chave dourada , e c'o Diploma > nova 
mercê, que tomarei por fiadora da vossa lealdade e 
préstimo , mais úteis que nunca , nesta occurrencia. 
INão me posso descartar da paixão amorpsa,que essa 
danada Mulher me inspirou : tenho de a satisfazer , 
ainda quando em perigo a vida ponha. Ella vem 
a Paris , e agora não tem Marido , que a defenda. 
Tudo está prompto , só me falta uma boa caberá 
que dê intelligencia aos que nisso emprego , e em 
cujos não fio demasiado. Vinde, mal que recebáes 
a Carta ; ç no subúrbio de S. Diniz , á Águia de 
ouro , perguntareis por uns Negociantes Húngaros , 
que executarão quanto lhes ordeneis, depois de 
vos communicarem ce'rtas instrucções. Fortes ra- 
zões tenho para não remetter a Duqueza para 
AUemanha •, mas tenho em Malta um Amigo se- 
guro : levai-a lá , e dando-me delia parte , lá rece- 
bereis as minhas ordens. Inútil fora nomear-vos 



( 4-^5 ) 
quem •, está avisado , e mal que chegueis , se mos- 
trará. Fidelidade, prudência, e saber calar: de 
vós o espero , porque m*o deveis assim ; e as mi'» 
nhãs mercês sobrepujarão vosos desejos. — 

» Esse novo transe me recuperou a coragem , 
que a vossa despedida me roubara. Então , Se- 
nhora, chamei a mim todo o meu remanso, para 
pesar maduramente o que me relevava cumprir. 
Era a Carta de antiga data : Ir eu a Paris! quem 
sabe se vou jd tarde ? F ou-me a Malta , e ou Id 
morro j ou Id vos saluo. O desejo que mostrei de 
entrar nessa Ordem , quando adolescente ^ seja o 
pretexto da minha viagem. E súbito parti. Não sei 
o que me salvou da desesperação quando prisio- 
neiro fui de Lord Stanley. Assentei que o instante 
que me punha em prisão , vos lançava nos braços 
do meu rival ; e quando a este pezar accresceo a 
perda dos meus pape'is, quasi que perdi o juízo. 
Que horrenda situação ! Privado subitamente do 
único bem que á vida me jn^endia! assoberbado 
de alhêos crimes ; ninguém que me vindicasse in-* 
nocente •, Duprez tão mencionado nesses papéis , 
cômplice meu por prémio da sua fidelidade ^ e 
aquinhoado no supplicio preparado ( ao que então 
via ) para o meu castigo ! Ah ! que só de o eu 
pensar , estremecia ! 

» Chego a Londres , onde respiro algum alívio ; 



C 4^6 ) 
Duprf z me escreve , que vigiado por elle , derro- 
tado fôra o projecto do Princepe, e vós a salvo. 
Contar-vos as aventuras qiio se me seguirão fora 
contar-vos o que já sabeis. Achei o Princepe agas- 
tado do mui baldados que tinlião sido os raptos 
que maquinara ; cansado não. Esta última tenta- 
tiva tinha surlido eíleilo , e quando cu corria, a 
vos tirar de suas mãos , deparei com a Morte , 
nos umbraes quasi daquella Senhora , a quem , 
com gosto , tudo sacriíi<iuei ■, socêgo , mocidade , 
lidíis, saúde, e ( ouso dizê-lo ) até a reputação 
mesma : pois que consenti passar por um malva- 
do, ante os olhos do homem , que eu mais amo, 
e que é mais credor da minha estimação , em 
todo esse tempo , em que me não pude justifi- 
car , sem que ao mesmo passo sacrificasse as vir- 
tudes , e a vida d'uma Senhora, que merece o 
acatamento do Mundo todo. Nem o Ce'o amparou 
meus dias, sem a intenção, de que alcançasse eu 
a Coroa , pela qual tanto contendi : e outro sim , 
se os meus ténues serviços tem ante vós algum 
valor; eis que juntos todos os vossos Amigos aqui 
estão , em suas mãos poidio a minha sorte ; a 
faculdade lhes dou de se lançar a vossos pés , e 
que vos instem que me concedáes a recompensa 
(jue elles julguem , que me é devida. » 
Com enthusiastico brado lhe responderão todos 



( i^l ) 

os Amigos tie M.''» d'01mance. Abraçar , apertar, 
alagar de lágrimas o virtuoso , o esforçado Cava- 
lheiro de S. Jorge , foi um geral impulso. M*^". 
de Sémiane , de S. Pers , o Marquez d'Urfay e sua 
Mãe , e Miss Stanley, e até o Commendador , como 
de concertado acordo lançados aos pe's da Duque- 
za , com os ])raços para ella estendidos , com os 
olhos vertendo lágrimas, com os peitos opprimi- 
dos com soluços , lhe appresentavão o Cavalheiro, 
e lhe clamavão. — Este seja o Spôso vosso; ado- 
rável Senhora, galardoai suas virtudes. — A Du- 
queza , que atélli , com carregado silencio , se 
contive'ra , de repente se ergue do perguiceiro 
onde ouvira immovel toda a narrativa do Cava- 
lheiro , e c'uma vóz animada de furores surdos , 
exclama : « Cessai esses importunos rogos ; cruéis 
Amigos , já não é tempo; promettida tenho a mão 
de Spôsa. » — 

« Oh não, não, infortunosa Dama ( diz com re- 
forçada vóz o Duque d'01mancé )\oh não, vós nada 
promettesteis. Ei-la a promessa . que encerrava a 
minha inteira felicidade. » ( abre a Carteira tira a 
promessa , e rasga-a em mil pedaços ). A mim , 
e a mais ninguém compete tão generoso sacrifí- 
cio. » E quão doloroso foi o spectáculo , que en- 
tão se ofíereceo a todos os daquella companhia . 
O Cavalheiro de S- Jorge; ou já que a longa 



( 4'-'-S ) 
íiarrativa , ou já que a ardência com que fallára, 
liie descerrasse a ferida... ei-lo estendido no chão , 
todo lavado em sangue ; cabido n'um mortal de- 
líquio. Que horror não lavra nos ânimos de todos! 
Ergucm-no , levão-no : todos a uma vóz : — Mor- 
reo. — Entranhada de gratidão á cerca do gene- 
roso Amante , que a tudo se sacrificou por cila , 
vem chegar-se ao Cavalheiro; com enxutos olhos 
contempla a pallidez da Morte derramada pelo 
rosto delle , fica immovel , fica naquclle remanso 
apparentc , que é o retrato da desesperação mais 
rematada , e arremessa-se a esse vulto inanimado. 
— O Duque d'01mancc , mais morto que vivo , 
com arrastados passos , fraqueando-lhe os joelhos, 
e empinados para o Céo os braços , lhe estava 
supplicando que d'esse aíílictissimo spectáculo se 
desviasse, EUa então se ergue , vólta-se ao Duque, 
põe-lbe olhos fitos ; « Vós , a quem prometli 
tomar-vos por Esposo , olhai , e não tomeis ciúme ; 
vede o que concedo ao mais digno de quantos 
homens ba..( então imprime um beijo na desbo- 
tada face do Cavalheiro ). Foi o primeiro que lhe 
dei , e tem de ser o derradeiro. » 

Não poude M'^*. d'Olmancé resistir á tempestuosa 
borrasca que lhe disferio no peito: assaltada de 
ardente fe'bre dentro de meia hora rompeo em 
delírio tal , que dco sustos a todos os seus Ami- 



( 4^9 ) . 
gos. Festivos bravos vem a sens ouvidos enleados 
com o nome do Cavalheiro de S. Jorge — » Ah! 
que se ella tornasse em si , como se não restau- 
raria de tão perfeito , e tão enternecido Amante ! 
— Abrem-se-lhe os olhos alvoroçados , e fitão-se 
no Duque , e em M'*. de Semiane : w Que e' o 
que eu ouço ? o Cavalheiro?. . . ( ]^F^ de Se'miane) 
Está com vida.)) (A Duqueza) » Como! Pois não mor- 
reo ? (O Duque). — Não, M*^*. eis que as forças 
se lhe aviventão. Falla-lhe o Commendador , falia 
M'^\ de Semiane ; todos os Amigos lhe dizem , que 
o Duque seria como um desesperado, se ella 
não premiasse com o titulo de Spôso , tão fino, tão 
desinteressado Amante. Derrama-se lhe nos lábios 
um surriso brando: p6e dúvidas: )> Enganar- 
me-hiào ? Não. » Recobra forças; vê o Cavalheiro, 
restaurado quasi por milagre ; consente a dar-lhe 
a mão de que elle tão digno se fez. O mesmo dia 
em que hymenêo o coroou coroou também esse 
mo Deos ao Marque:^ d'Urfai e a Miss Stanley ; 
de maneira que se transformarão em rosáes , e 
em murtas amorosas, os funéreos cjprestes que 
querião crescer á roda de dous Amantes dignos 
de mais ditosos fados. Oh venturosos sejão, e 
seus annos se prolonguem sem nuvens de tristeza , 
nem desastres ! 

riW i>\ TERCEIRA E ULTIMA 1>AI'.TS. 



C43o ) 

CARTAS 

D'UMA RELIGIOSA PORTUGUEZA. 



CARTA P. 

jli foi possível que um minuto de enfado conce* 
besses contra mim ? e que eu com a aííeição mais 
terna , com a aííeição mais delicada te desse um 
único instante de pezar ? De que remorsos, ai mi* 
scra de mim! não fora eu atormentada, se que- 
brantado houvesse a fé que te hei jurado ? Ah ! que 
se excesso ha de que accusar-me eu deva, é o do 
muito que eu fiél te sou ; é de que ainda esse enfado 
eu t'o perdoo. E porque consentir eu remorso 
tal? E não tenho eu razão de me queixar? E não 
fizera eu aggravo a esse teu aílecto , se consentisse 
sem ressentido murmúrio , a força de me soltares 
o menor ditto? E quanto, oh Ce'os , arguo minha 
alma eu de continuo , de que ella não patentêa 
assaz o ardor de seus impulsos j quando tu... todos 



(43. ) 
os segredos de tua alma cauteloso fe'clias! Quando 
nádào em languidez meus óllios, accnso-os do 
mal que elles servem ao meu amor, e de que soné- 
gão ardores de meu peito : quando elles sobêjão de 
vivos, também os accusa a minha languidez : com 
as acções de mais claro grito , inda me parece que 
assaz me não declaro ; quando tu d'um nada com- 
pões segredo. Oh quanto esse teu proceder magoou 
minha alma ! E quanto dó , se me visses, te eu cau- 
sara! E quanto, se então , me podesses ver os pen- 
samentos ! Mas d'onde me vem o curioso empenho 
de decifrar o que volve em teu coração? E lá deparar 
talvez com tibiezas , e ( quem sabe ) com desleal- 
dades? De hcarado m'as encóbres;e d' esse encobrir, 
obrigações te devo : que me esquivas o pezar de te 
ver indiíierente .comigo ; e condoído da minha fra- 
queza me dissimulas o que de mim sentes. Ai de 
mim ! Que a conhecer-te eu, de primeiro , tal, bem 
pôde ser, que pelo teu se moldasse este meu peito. 
E óra tu , então has resolvido amar-me tibio , dês 
que viste que em fúrias de amor me abrazo. Não 
que da compleição te venha o poderes refrear-te 
assim • que bem reparei eu hontem quanto de asso- 
mado tens : bem que assomos táes não t'os cause a 
cólera, mas tão somente o ultraje. Ingrato! Quáes 
tens de Amor queixumes , que tão má parte nelle 
tomas? Porque não empre'gas esses Ímpetos, ein 



( 43i ) 
correspondência d'estcs meus. Quem impede acce- 
lerarem-se os passos com quô adiantemos a nossa 
felicidade? E quem, ao ver quão appressado t(í 
retiras do meu quarto , imaginaria o quão lento 
buscá-lo vens , quando Amor de lá te está cha- 
mando ? Cabe <iue leis te imponha um coração que 
todo sé entregou? Vai-te, que em castigá-lo bem 
fizeste : que eu de vergonha morreria , se de algum 
movimento meu me desse por Senhora. E quão 
bem que sabes o coino se castiga eSsa espécie de 
revólla ! Lembras-te acaso do apparente remanso 
com que me oíTereceste liontem de me ajudar a 
mais te não ver? E tiveste ânimo de tal me oíferecer, 
e pensamento de que eu tal acceitasse ? Tanto tem 
de melindre o meu amor, que mais dolorosa me se- 
ria de delicto em mim , que em ti, se o commettes- 
ses ; que mais ciosa sou desta affeiçào minha , que 
da própria tua : e mais te perdoara unw infideli- 
dade , que o suspeitar essa em mim. Sim ; que mais 
folgo de me vêr leal comtigo , que comigo tu leal. 
Tão preciosa é a ternura com que te amo , e a esti- 
ma em que te prezo , e tanta glória concebo delia , 
que não avalio maior delicto, que o delia duvidares. 
Duvidares tu , quando tudo, no meu coração , no 
teu , se aífmca a persuadir-t'o ? Não ha hi um único 
descuido teu , que te não ponha aos olhos que sobe 
a adoração o meu aílecto. Tanto me tem o Amor 



( 433) 
Uístruida em me aproveitar de todo o lance ; pois a 
reserva mesma de accariciar-te tem de te convencer 
do excesso desta paixão minha (i). Comprazimento 
é este meu , em que não sei se hás reparado. 
Quantas vezes não hei reprimido , qiiándo entras , 
os impulsos da minha alegiía, só porque nos teus 
olhos attentei que me pedias mais moderação 1 
Aggravo me íize'ras , se nessas occasiões , não re- 
parasses no quanto me eu constrangia. SaCriíicios 
que te eu fazia ; e que me erão os mais custosos 
que nunca te fiz. Nem t'os lanço por táes em rosto. 
Que me vai ser eu , ou não perfeitamente ditosa, 
com tanto que o que falta á minha Dita , augmente 
a tua ? Vira-te eu mais empenhado a meu respeito, 
e oh quanto jubilara então no conceito de ser 
a mais amada ! mas tu não jul)ilarias de o seres 
tanto. Fora esse o caso de imaginares, que algo ao 
teu amor devias : e eu me darta os gabos de qne á 
minha inclinação devesses tudo. Não abuses toda- 
via d'essa minha amorosa l)izarria , cerceando 
d'esse apoucado empenho que inda demostras para 
comigo. Sê também generoso como eu , e vem- 
me protestar , que dá mór vulto á tua aííeiçào o 
desinteresse desta minha ; e que em arriscando 

(i) Espirito refinatlo de alcoíiol a 6o grãos da quiíita* 
essência das finuras da aíTcioio. 

Tom. X.. a8 



( 434 ) 

líc commeltcr tiulo ao azar, nada eu arrisco; e 
e que lãoliél , e tão te'rno me serás sempre , quãa 
íicl , c ternamente eu tua sou. 



'V%'%^^V 



CARTA ir. 



Como é feia ( não te minto ) a Senhora , que hon- 
tem á noite dansou 1 E o Conde da Cunha an- 
dou mui mal em dá-la por formosa, E ficares tu ho- 
ras esquecidas ao pe' d'ella ! Parecec-me pelo ar 
que no semblante dava , que não despontava de 
discreta , no que ella te dizia : mas nada menos 
boa parte do tempo que durou a visita , com 
ella conversaste; e quão duro me foi ouvir -te 
que te não desagradava a sua conversação ! E 
que falias de encanto tal te ha ella ditto? ]Nó- 
VAS fôrão de alguma Dama de França, amores 
teus? ou começava ella já a dar-te amores ! Que 
conversação tão aturada só Amor sal)e entreté-la. 
Esses teus Francezes d'ha pouco vindos, não me 
parecerão bem agradáveis ; todo o serão causa- 
rão meu martyrio , c os mais galantes dittos que 
imaginar soube'rão; dittos afíectados que me não 



( 435 ) 
podião divertir ; delles só me procédeo , a hoitô 
toda, desatinada enchaquêca, de que nào deras 
tino se de mim o não souberas. 

Não duvido , que andão os teus servos empre* 
gados em saber novas de como essa Franceza af- 
fortunada se acha hoje do cansaço de hontem; 
qtie tanto a fizeste dansar , que liem se pôde incul- 
car doente. Que attractivos encontraste nella ? Que 
ternura lhe supposéste ? Que lealdade mais firme 
que a de outrem? Ou que inclinação mais prompta 
a querer-te maior bem , do que eu te dei a de* 
mostrar? 

Cousa impossível ! Tu muito o saljes, que só 
de te ver passar , se me ausentou todo o socêgo 
da minha vida ; e sem que me atalhasse o pundo- 
nor do se'xo , nem o da nobreza, fui eu a pri- 
meira que diligenciei os acasos de tornar a ver- 
te. Se ella mais fez do que eu , direi que ella sô 
acha esta manhan á cabeceira do teu leito, e 
que lá deparará com ella Durino meu criado. 
Para felicidade tua, o desejo assim. Que me em- 
penho eu tanto em tudo o que te pode apprazerj 
que cortarei, em quanto eu viva, pela minha 
Dita , por augmentar a tua. E se para contentar 
essa Beldade a regalas com a leitura d'esta minha 
carta , dá-lh'a sem scrúpulo a ler. Nem , para o 
adiantamento de tuas pretenções julgo eu inútil 



( 436 ) 
*5sa leitura ; que appellido tenho eu bem cotilie- 
ciJo neste Reino , e assaz me adularão de formo- 
sa ; mas já de o ser me despersuadio o teu des- 
prezo. Para essa nova conquista bem podes por 
exemplo dar-me; e dizer-Uie que estremecida te 
amo. Convirei gostosa ; que antes que'ro contri- 
buir para a minha perdição, que pôr em nega- 
tiva tão qualificado aííeito. . 

Sim. Que te amo eu mil vezes mais do que a 
mim própria, neste mesmo lance de ciúmes , em 
que te escrevo. Confesso que o modo , com que 
hontem precedeste , me arrojou centelhas de raiva 
no coração; e (porque nada occulte ), desleal te 
cieio. Abhorreço a Marqueza de F. . . . que deo 
azo a que visses essa Dama pouco ha chegada. 
Quizéra eu , que nunca viera ao mundo a Mar- 
queza de F. . . . pois que no dia de seu cazamento 
é que tu me entranhaste nà alma a Dôr que sinto. 
Abhorreço o que inventou baile. Abhorreço -me a 
mim própria ; e sobre tudo abhorreço ainda essa 
Franceza mii vezes mais. Entre tantos abhoreci- 
mentos nenhum porem teve a audácia de se che- 
gar a ti; que ainda infiel , te considero amável. A 
todas as luzes que te eu veja , e até ainda aos 
pés dessa cruel rival , que toda a minha felicidade 
perturba, encontro em ti incentivos láes, que em 
nealium outro homem se dcparào. Quão louca 



( 437 ) 
cu sou! Muito me enoiára que os não vissem em 
ti, os mais , quaés eu os vejo. E dado que a essa 
opinião eu persuadida esteja, que jaz pendente a 
perda para mim, da affeição tua, antes despenhar-me 
consinto nesse desespera<lo pego, que cercear-te um 
só dos gabos que mereces. Como porem concorda 
Amor contrários táes 1 D'essa opinião vem que 
maior ciúme não cal)e que haja, do que o meu 
ciúme á cerca de quanto te diz respeito ; e iria 
eu não menos ao cabo do mundo gangrear - te 
admiradores. Abhorrêço essa Franceza , com tão 
entranhavel ódio , que não ha hi crueza que em 
destruição sua eu não executara. Desejara - lhe 
eu a Dita de que a amasses , se em mim cou- 
be'sse , que com esse amor tu mais ditoso foras. 
Sim. Que o teu contentamento o pre'zo eu era 
muito •, e por te ver contente-, me dera eu por 
bem venturosa , se todo o prazer da minha vida 
o sacrificasse a um instante de teu gosto. Oh \ 
como , sem hesitar eu o faria ! Porque não és tu 
como eu? Se quanto eu te amo, me amaras tu, 
que ventura para nós ambos! A tua Dita, a minha 
fora , e mais completa ainda fora a tua. Ninguém 
em todo o mundo concebeo em seu peito amor tão 
avultado •, porque ninguém concebeo tanto , o muito 
que tu mereces : e de compassiva morreria eu , 
se capaz te imaginasse de íirmar o teu amor em 



( 438 ) 
outra Dama. Habituado á maneira com que eu amo, 
não acertarias com quem tão <litoso te fizesse, 
como o e's comigo. Por mim julgo as outras Da- 
mos , e sinto dentro de mim , que só eu para ti 
nasci. Que fura do melindre de teu ânimo , se 
não deparasse c'um coração tão delicado! Esses 
olhos tão eloquentes, e tão bem comprehendi- 
doi, quae's,a não ser os meus, saberião respon- 
der-lhes? Dá-o por impossível! Amar? só nós am- 
bos o sabemos : e de mágoa morreriamos um e 
outro j se differente empenho sorteassem nossas 
almas. 



•WV^-V^ "VX^W^ 



( 439^ 

CARTzi IIP. 



V/uAKDo é que terá fira essa tua ausência ? E pas- 
sar-se-ha inda hoje o dia sem que a Lisboa vol- 
tes? Tão esquecido estás de que ha já dous dias 
/jue partiste? Imagino que pozeste na vontade ach ar- 
me já defunta quando volvas ! E que menos por 
accompanbar ElRei na visita que elle fez ás Náos 
deixaste a Corte, que por te descartar d' uma im- 
portuna Amante. Com eíTeito , essa eu sou ( dê- 
mo-lo por assentado) em summo grão: que uma 
ausência de 24 horas me chega aos umbráes da 
morte , e o que para qualquer sobeja felicidade 
fora , não o é para mim sempre. Tempos ha em 
que te não contemplo assaz ricco de venturas ; 
outros em que te conside'ro tanto delias abastado , 
que de outras , e não de mim te vem essa ri ' 
queza. Até me dão tristeza os meus transportes , 
quando percebo que não reparas nelles como eu 
quizéra. Assustão-me essas tuas distracções. Qui- 
zéra-te eu recolhido em ti mesmo , quando eu sei 
tudo o que dentro de ti se passa : e desespe'ro- 
me quando por descuido teu , não sahes ao ím- 
peto de meus arrojos. 



( 4ÍO ) 

Confesso nieii desatino j mas que prudência ca- 
be em quem tanto amor como eu encerra? Ra- 
zão seria que mais quietação em mim houvesse, 
neste mesmo prazo em que te escrevo, quando 
sei que a dous passos estás de mim 5 que o teu 
dever é quem lá te demora ; e que eu poderá ir 
vér-te, a não m'o impedir a moléstia de meu 
Irmão, que 1 'igo que partiste adoeceo. Quando sei 
que onde resides, não residem Damas. . . Agudo 
espinho arrancado de meu seio ! Mas quantos não 
pungem ainda a mísera Amante que tanto amor 
como eu concebe! Essas Náos , essas guerreiras 
armas, e petrechos tem de te desavesar dos pa- 
cíficos prazeres do Amor: e quem sabe , se nesta 
hora mesma, não estás tu delineando o instante 
do nosso apartamento ( infallivel infortúnio! e ex- 
cogitas meio de preparar o teu coração para esse 
transe ! Ah ! que me não fora mais funesto o ver- 
te em companliia das mais raras formosuras da 
Europa, que essa artilheria, no caso que tal eífeito 
em ti produza. 

?São que eu combater queira com o que a ti 
de'ves, pois que mais que a mim própria, estimo 
o teu pundonor, bem inteirada de que não vie'ste 
á luz para passar teus dias junta de mim. Mas 
meu gosto fora , que te horrorizasse esse neces- 
sário dever , no mesmo auge que a mipi me hor- 



( 44i ) 
rorlza ; que nesse pensamento estremecesses , e que 
qiiEfnto mais é inevitável esse apartamento , tanto 
mais imaginasses, que, sem morrer, te fôra im- 
possivel supportá - lo. Nem me crimines de que 
amo ver te a braços com a desesperação ; que não 
teus tu de verter uma só lagrima, que eu não an- 
ceie de enxugá-la; e liei - de sempre a primeira 
ser , em te pedir que briosamente supportes o 
transe que , por sobeja dor , me arrancará a vida. 
Que não houve'ra abi para mim consolação, se 
eu crera, que vim ao mundo , para que fosse tua 
desconsolação a minha ausência. Qual é pois o 
meu desejo ? Não o sei. Desejo toda a minha vida 
amar-te , e até adorar-te. Desejo, a ser possivel^ 
que me ames tu , como eu te amo. Desejos táes 
só loucas como eu os podem ter. Não te enoje 
de mim o vêr-me cm tal loucura : que a não ser 
por ti , por nenhum outro em mim coubera. Lou- 
cura, que eu nunca trocar quizeVa pela mais sólida 
prudência, se para a ter, relevasse amar-te eu 
menos. Tens mil prendas no teu juizo, contras 
tantas me dizias ter descoberto em mim ; prendas 
a que eu nada menos renunciara , se da nossa 
loucura aos progressos empecessem. Nas acções 
de nossa alma , só o Amor deve dominio ter : 
tudo se lhe deve , em tudo se deve contentá-lo ; 
queixe-se a Razão , ou não se queixe. Foi tal teu 



( 4 í-->- ) 
parecer, desde que nao me viste? Receio que óra 
haja recobrado toda a liberdade do juízo. E está 
elle inda nessa posse , quando pensas uuma guerra 
que te de\'e separar de mim ? Não cabe em ti trai- 
ção tão feia. Ce'rto : cada soldado que vês , te ar- 
ranca um suspiro , e jú saboreio o gosto de que 
te ouvirei , quando voltares, que tem dias de vago 
o teu juizo , e que toda a jornada te vagueou. Se- 
gura estou eu que ninguém te boquejou em mim; 
em mim que não teabo esse deleito de sobeja ra- 
zão ; antes desarrazoo em modo tal , que se es- 
pantão quantos me escutão. wSe não fora a molés- 
tia de meu Irmão, que pretexta os meus devaneios, 
todos os de casa assentarião que sou louca rema- 
tada. Pouco falha , que o eu não seja ; e pelo des- 
concerto desta Carta podes tirar o desmancho do 
meu juizo ; e delia tirarás os motivos de arguir-me. 
Os estragos que em meu semblante fez a tua 
ausência, dá -los -hás por mais jucundos que a 
frescura da mais linda têz ; e por horrível me ti- 
veVa e«, se três dias privada de te ver, aííeiada 
me não tivessem. Que será de mim quando pas- 
sarem seis mêzes , sem que em te veja ? Não me 
verão mudança no rosto, porque ao separar-me 
de ti cahirei morta. Ouço ruido pela rua ; batte- 
me o coração. Serias tu , que chegues ! De des- 
socêgo , c impaciência acabo. Não sou em mim. 



( 443 ) 

Ai mísera ! Náo te poderei ver que de alvoroço 
me não sinto. E se não e's tu a (jueni espero , 
tal turvação e tão revoltosos movimentos me ti- 
rarão o lume da alma. 



CARTA IVa. 



Jlj tenho cu de ver sempre em ti friezas, e per- 
guiça? sem que cousa alguma turve o teu re- 
manso ? Só poderá dar-lhe abalo , lançar-me eu 
em braços d'um rival , e que o vejas tu ? Me- 
nos essa inconstância , que nunca m'a consentirá 
o meu aíFecto , todas as mais te dei a parceber. 
Acceitei a mão do Duque de A. ... no passeio ; 
de propósito me sentei á ceia ao lado delle; olhei-o 
com ternura , cada vez que vi , poderias fazer 
reparo *, disse - lhe mil ninharias ao ouvido por 
que as tomasses gor cousas importantes ; e não 
consegui que se te alterasse o semblante. Ingrato ! 
deshumano ! que tão pouco amas , a (;uem tanto 
te quer. Desvelos, favores, fidehdade minha não 
te merecem um rasgo de ciúme ? Tão pouco apreço 
faz de mim aquclle , que mais precioso me e 



( 444 ) 

que o meu soccgo , que o meu pundonor, que 
vira sem estremecer deixá-lo eu por outrem? E para 
que eu trema uma sombra me sobeja. Só de po- 
res cm qualquer Dama os óllios me toma o frio 
da morte ; uma acção tua de me'ra civilidade , me 
custa ura dia de desespero. E tu vcs com soce- 
gados óllios , que diante da tua presença fallo 
com outro todo um serão. Ah ! (jue nunca me 
tiveste amor! Sei, e muito o como se que'r bem ; 
assim não creio que amor sejão alíeitos tão con- 
trários aos meus. Que não fizera eu para te cas- 
tigar dessa frieza ? Instantes lia , que assomada , 
e dcspeitosa posera em outrem o amor que em 
ti emprego. Mas como "^ se no calor mesmo d'esse 
despeito , nada avisto que amável seja como tu 
es! Inda hontem, quando as tuas tibiezas te des- 
pojavão de attractivos , fitos estes óllios meus em 
cada acção tua , só para admirá-las tinhão vista. 
Os próprios teus desdéns ressiimbravão grandeza , 
c debuxavão fidalguia de génio; e de ti é que eu 
fallava ao ouvido do Duque : tão pouco está 
em miin aproveitar-me dos lances da offender-te! 
Tinha sim muito a peito piear-te de maneira , 
que me de'sses azo a dizer-te alguma aspereza 
ás claras. — Eu dizer -t'a? quando do sobejo 
amor e que a cólera me nasce ? E que no mais 
subido das raivas que me dava o teusocêgo, de- 



(445) 
parava com razoes Je o defender , se tão dasasi- 
xado não íôra o meu aíTecto ? Tanto mais que tinha 
meu Irmão em nós os olhos , e mal de mim se elle 
rastreasse em ti a menor intenção de me querer 
fallar. O que todavia te não atalhava de teres ciú- 
mes ; que , sem que outrem o percebesse , eu co- 
lheria do teu mover de olhos ; que houvera eu 
bem visto nelles cousas , que os mais da socie- 
dade não devisassem como eu. Mas ai! que nada 
vi do que eu nelles espreitava. Vi amor ; mas em 
caso igual , morar nelles amor 1 Queria ver nel- 
les despeito , raiva ; que em tudo me contradisses- 
sem , que me achassem feia ; que namorassem 
outra Dama ; e por último que faiscassem de cio- 
sos , pois que eu taes apparencias desleáes mos- 
trava. E tu em troco d'esses assomos naturáes 
de verdadeiro amor, me pagavas com mil lou- 
vores meus ; me apertaste a mesma mão , que eu 
tinha ao Duque dado , mão de que deveras ter 
horror. Quasi que vi o instante que me deVas pa- 
rabéns que se inclinasse a mim o mais honrado 
fidalgo da nossa Corte. Insensível I Assim é que 
se ama? Assim é que eu te amo? Ah! que se 
anles dele amar, como eu te amo, houveVa des- 
cortinado em ti igual tibieza. . . E quando a liou- 
ve'ra eu visto , como agora a vejo , e maior ainda 
que ella fora , poderia eu resistir á força que me 



( 446 y 

dobrava a te amar? Violento aííecto , de que hão 
pude ser Senhora ! E se eu derramo os olhos da 
imaginação pelos prazeres, que dessa minha af- 
feiçãomeprovierão, não posso arrependemnc de que 
no peito lhe dei pousada. Que não fizeVa eu quando 
contente de ti, se transportada de amor, ggóra mes- 
mo que mais motivos tenho de queixar-me. . . . Mas 
tu me conheces bem; satisfeita me viste, e viste 
descontente; agradecida, e queixosa e sempre en- 
tre iras , ou agradecimentos extremosa Amante. 
E não te dá emulação carácter que é tão de ap- 
petecer nas Damas? 

Insensivel (mais que muito amado), ama-me 
quanto es amado : que só no amor consiste o pra- 
zer perfeito ; da extrema aílciçao nasce o prazer 
extremo : e mais mal faz a tibieza aos que a pos- 
suem , que aos que ella amargura. Ah ! que se bem 
sentiste o que vale um amoroso arrobo, quanto 
tens de invejar os que elle adita ! Para o amor 
mesmo que tu me tens , rejeitara eu esse teu so- 
cêgo de unimo. Ponho alto preço aos meus trans- 
portes , como quem os contempla pelo melhor 
l)eiii (pie cu possuo: e antes quizéra nunca mais 
vcr-te , ([ue vcr-te sem esse enlevo meu. 



( 447 ) 



CARTA Ya. 



Uo estylo da tua considero que qulzeste tentear 
a minha docilidade : que não é crivei te viesse ao 
pensamento que eu outrem ame. Paciência. E 
dado que esse conceito em que me tens seja mor- 
tal aggravo do melindre com que te amo , já muita 
vez de ti me veio , a mim , que te amo mais do 
que ninguém amou. Dares por rematada a minha 
deslealdade '. dizer-me injúrias ! Querer-me per- 
suadir que tornarei a vêr-te ! Tal não cabe no 
soíTrimento meu. Fui ciosa : mas onde ha grande 
amor lavra o ciúme. Ciosa sim , mas sem bruteza ; 
que entre os vislumbres dos zelos , e os assomos 
do despeito , distingui sempre que eras tu o sní- 
peitado. Mas que falhas não encontro no teu mo- 
do de amar ; e quão mal o entendes ! Como vem 
chuo o pouco amor que te jaz no peito ; e d que , 
quando o nào estudas , te escapa do coração , tão 
pouco digno é do amor! E como assim! esse teu 
coração, que eu, á custa do meu, comprei, e de 
que me fiz bencmeVita por tantos extiemos e li- 



(448) 
nezas , e tie que me de'ste palavra , e fe de ser 
eu dclle a única possuidora ; esse coração é capaz 
de, me oíícndcr assim ! E são injúrias os seus pri- 
meiros movimentos? E quando llie dás largas, 
se desmanda em ultrajes? 

Para te castigar , Ingrato , das suspeitas que 
concebeste , essas te deixo ; e o teu tormento fura 
duvidar do que te devera ser suave , se me cre- 
ras leal e te'rna. Fácil me fora desmaginar-te j 
quando mormente , para socégo próprio , me c 
vedada a liberdade de oílender-te. Mas que'ro dei- 
xar-te nesse engano para vingança minba ; e se 
crédito dás ao meu ânimo dissaboreado , dá por 
justas as tuas conjecturas todas , e dá-me a mim 
pela mais iníiél de todas as mulheres. Esse ho- 
mem todavia de quem zelos concebeste , nem 
visto o tenho eu ; nem ha hi prova , a que ea 
desassombrada me não sujeite, se eu quizesse delle, 
e dessa Carta , que dizem minha , dar-te plena 
satisfação. Dá-la ! E porque? Por invectivas? Para 
dahi me concluires tão aviltada como me tu de- 
signas, e entenderes que pelos teus ameaços me 
justifico ? — Não me verás jamais ( me escreves ); 
vás-te de Lisboa , por te salvar do infortúnio 
de encontrar-me? Apunhalarias o teu mais intima 
Amigo , se tão traidor te fosse , que á minha casa 
te trouxesse? — E que te féz, Crue'l, a minha 



( 4l9 ) 
vista, que te é tão insuportável? Ella que sem- 
pre, só prazer te annuiciava ? Estes óllios em que 
nunca devisaste senão amor, e anciã de t'o de^ 
mostrar ? Para os não ver , te ausentas de Lisboa ? 
Ah ! não te ausentes, que eu te pouparei o desvelo 
de evitar a minha vista. A. mim, que não a ti 
compe'te essa ausência. Sim : que te não custou a 
minha vista mais que a faciddade de me deixar 
amar , quando a tua nic custa todo o socégo e 
toda a minha ufania. Também confesso , que bem 
vezes foi todo o meu contentamento; que ainda 
hoje me debuxo na ahiia o íntimo abalo que en- 
tão sentia , quando imaginava teus passos distin- 
guir pelos passeios, e o.suavissimo desleixo que 
se appossava de meus sentidos, quando meus 
olhos se encontravão com os teus ; e o como o 
coração se me enlevava , quando careavamos 
furtada conversação. Nem eu sei como pude 
viver antes de vêr-te, nem como poderei viver 
quando não mais te veja. Tu já sentiste o que eu 
senti , pois que amado foste , e dizias que me 
amavas : e como podes propôr-me não mais olhar- 
me ? Serás satisfeito. Não mais tornarei a ver-te ; 
mas cá me íica o prazer extremo de te lançar 
em rosto a tua ingratidão -, e mais completa fora 
a rainha vingança, se os meus olhos, e as nii- 

nlias acções todas a minha innocencia te abo- 
Tom. X. 29 



( 45o ) 
nassem. Innocencla perfeita e pura a mínlia, e 
fácil de destruir a mentira que a crer te dérão. 
Bastara uni quarto de hora para convencer-te 
dessa injustiça, e morreres de amargura de a 
haveres commettido. Pensamento foi este , que já 
dous ou trcs abalos me deo de me arremes- 
sar a tua casa ; nem eu aposto , que antes de fin- 
dar o dia lá me não le've ; tão violento é o meu 
despeito , que me aííóga a razão. Estudei-te com 
tudo eu tanto o ge'nio , que receio , que te des- 
agrade esse rompante ; a ti em quem contemplei 
sempre comedimento em tudo , e que sempre 
olhaste mais pela minha reputação que eu pró- 
pria. Chegaste alguma vez a ponto de resguardo, 
que me queixei de ti. E que disseras então , se 
me viras romper o segredo do nosso amor e dar 
scândalo aos honrados ? Desprezar-me-hias, e se 
eu tal desprezo de mim te vira , alli morrera. 
Venha o que o Fado de'r ; para mim a tua eslima 
é tudo. Queixa-te de mini , dize-me injúrias , 
faze-me traições , que o podes ; mas desprezos 
nunca. Desde que este amor não consiga , que te 
dês , com elle , por ditoso , sem elle viver posso , 
mas sem a tua estima não : razão essa pela qual 
tão impaciente estou de vér-te ; não creias poi-êm 
que é por aííecto -, que louca eu fora se quizesse 
l>em a quem assim me trata. E cólera, masquem 



/ 
( 45t ) 
a causa, ê. . . amor. Que não não te assomarias 
tu a pontos táes , se excesso de amor não raili-- 
lasse em ti. Que me poderá persuadir de tal ? 
Ser-me-hião gratos esses mesmos ultrajes teus. 
Lisonjear-me não quero todavia d'esse agradável 
engano. Es culpado , e quando não o foras , quero 
assim crê-lo, para te punir de m'o deixar imagi- 
nar. Não vou hoje a casa alguma em que vèr-me 
possas. A Marqueza de C... está doente, e lá pas- 
sarei a tarde ; e tu não tens lá conhecimento. Em. 
fim quero estar enfadada ; e esta será a última 
Carta que de mim tenhas. 



te^í^^í^^-'^'^'^ 



CARTA VK 



hj sou eu quem te escreve ? e és tu o mesmo 
que outrora foste ? Que prodígio fez , que me 
assinalaste amor , e que esse amor me não deo 
contentamento ? Vi em ti anciã , e inso'Frido des- 
peito ; li em teus olhos aquelles desejos , a que eu 
acodi com sensibilidade; e tão ardentes, como 
quando fôrào já toda a minha Dita : e nada menos , 
tão leal e teVna como^ sempre te fui , fiquei tibia e 

desleixada. Se foi illusão que aos meus sentidos 

29 * 



( 453 ) 
fiZeiste , e que 'não calou no coração ? Como me 
ci.stão caro, os dittos agros que de mim te careaste! 
E quantos enlevos me rouba um dia de descuido 
teu ! Nào sei que iníerior spirito min me inílúe de 
continuo , de que ás minhas iras devo esses teus 
rasgos de ternura; e que entra em teus aíFeitos , 
mais politica do que sinceridade. Não te minto : 
donativo do Amor é o melindre em obras e pen- 
samentos namorados •, mas não donativo tão pre- 
cioso como o querem persuadir. Confesso que o 
melindre assaborêa os prazeres dos Amantes , mas 
lambem espinha cruamente as mágoas. Cuido sem- 
pre que te vejo nessa distracção , que tantas lá- 
grimas me custou ; considéra-o bem : os teus as- 
somos são toda a minha infelicidade ; mas serião 
todo o meu ódio , se os eu devesse a outro mo- 
tivo , que não fosse o movimento natural do teu 
coração. Receio-me de acções que vem estudadas , 
mais ainda que da tibieza da minha compleição : 
para almas grosseiras o exterior é laço ; mas não 
o é para quem no ânimo fineza tem. Queres sa- 
ber quáes , nesse ponto , meus sestros são ? O ex- 
cesso do hontem, nesses assomos teus, levantou a 
febre das suspeitas ; e porque parecias fora de ti , 
atravessei pelas apparencias para te pesquizar 
no âmago. Que seria de mim , oh Ce'os ! se lá me 
convencesse de que eras dissimulado ! Anteponho 



( 453 ) 
a tua afíeição á minha reputação ; e ainda á mi- 
nha vida ; com mais mansidão porem soíírêra a 
certeza de teu ódio para comigo , que apparencias 
falsas nesse teu amor. Não me atenho á fachada 
do edifício 5 entro nos camarins da alma : friezas , 
descuidos , levezas mesmas te perdoara ; dissimu- 
lações nunca. Contra amor não ha crime mais 
indesculpável que a traição ; de melhor vontade 
se perdoaria uma iníidelidade , que o desvelo em 
disfarçar-m'a. Que grandes cousas me não disseste 
no serão d'hontem ? quizéra pôr-tu a um espelho , 
para que te visses, como eu te via. Quanto dis- 
creparias do teu modo usual ! Davas ares mais 
senhoris que os de teu uso : brilhava-te a aííeição 
nos olhos , e os realçava de ternura , e de pene- 
tração ; vinha-te o coração aos lál)ios. Que feliz 
que eu sou ( dizia comigo ) se elle alli não vem 
de falso ! Porque em Am mais que muito sinto o 
que vales, e me faltào posses para o sentir me- 
nos. O prazer de te amar com toda a minha 
alma , é dom , que de ti me veio ; mas dom , 
que não tens tu forças bastantes para m'o tirar : 
que bem me capacito , que tenho , ainda a pezar 
meu , de sempre amar-te ; e seguridade , de que 
ainda a pezar teu, te hei-de querer bem. Perigosa 
seguridade ! Que tens tu coração tal , que se não 
deixa prender por medos ; e pouco firme fora essa 



( \H ) 

Conquista , se eu por meio tal a qiiízesse conser- 
var. Animo honrado, e gratidão muito montão em 
amizade', mas ein amor não tanto. Sem consultar 
a razão , se vai apóz a vontade , e o aíTecto. Lá 
vos leva a alma , e a despeito vosso , á vista de 
quem amamos ; e tanto me acontece a respeito 
de ti. 

Não , por continuação de vêr-te, nem por susto 
de agastar-te quando te não vejo , busco meio de 
que venhas vêr-me , mas sim por sôfrega curio- 
sidade , tjue sem artificio , nem reflexão me sobe 
do peito. Busco-te em lugares mesmo , onde sei 
que não tenho de encontrar-te. Se tanto te acon- 
tece por mim , mui ce'rta estou , que o tino de 
corações fará , que em toda a parte nos encon- 
tremos, A maior parte do dia de hoje tenho de a 
passar em sitio , em que me não aches. Entre- 
guêmo - nos ao nosso aííecto , dêmos a guia de 
nossas vontades , e verás que passaremos gostosos 
esse mesmo tempo , que nos não é dado estaiunos 
juntos. 



(455) 



CARTA VIK 



\JuEBTiÊMOs quantos juramentos fizemos; são mui 
agros de guardar; vejâmo-nos ; e já e logo, a 
poder ser. Imaginaste-me infiel, e entre ultrajes 
in'o deste a entender : nem , portanto , deixo de 
te amar ainda mais do que a mim própria, neui 
viver posso sem te ver. A que prestão estas au- 
sências arrufadas ?faltão-nos ellas inevitáveis? Vem 
dar á minha alma todo o contentamento , nesse 
curto praxo de nos vermos sem constrangimento. 
Escréves-me que me desejas ver para me pedir 
perdão; vem, vem, quando para mais não fora, 
que para me dizer injúrias. Vem , que te requeiro 
que venhas : porque quero antes vêr-te esses olhos 
agastados , que privar- me de vê-los. Nem eu ar- 
risco de sobejo, quando em ti deixo a escolha: 
que sei que tcVnos os hei-de ver, e falseando amo- 
res. Táes me parecerão já, esta manhan , na Igre- 
ja ; nelles avistei quanto te envergonhavas de cré- 
dulo : e lá também dos meus colheste as arrhas 
do meu perdão. Escureçamos similhaute arrufo ; 



( 4^6 ) 
c SC elle nos lembra , seja para o nunca mais 
acolher. Duvidarmos do nosso aííecto ? Para elle 
nos lançou Cupido ao mundo. Nem eu tiveVa o 
coração , que tenho , se não fora para o encher 
da tua ideia •, nem tu essa alma que tens , se 
para me amar , te não fôra dada. Sim : para te eu 
amar, quanto amável tu és; e para tu me ama- 
res, quanto e's tu amado , nos produzio o Céo a 
ambos capazes de tanto amor. Não me dirás, se 
depois que fingimos tanta malquerença , sentiste 
como eu ... . IMalquerença em nós ! Não temos 
posses pai^a tal,e é mais poderosa a nossa Es- 
trêlla , do que o são nossos despeitos. Que pe- 
noso me foi esse grande fingimento ! Qve violências 
se não fizérão os meus olhos, para te disfarçar 
seus movimentos ? Só os que a si próprios que- 
rem mal , podem desperdiçar instantes de amoroso 
accôrdo. Como ninguém sabe amar como nós 
amamos , ião meus passos ( máo grado meu ) a 
sitios onde eu linha de encontrar-te , e o meu co- 
ração , que se avezon a dilatar-se, quando tevê, 
ia subindo aos olhos, para por elles se te de- 
mostrar ; e como lh'o eu negasse , embates táes 
me dava no peito que só comprendé-los pôde 
quem os sente. Dou-me a crer, qx e táes os tinha« 
de senlii" tam])em. Fim si'ios onde não vinhas 
por acaso , te encontrei ) e se me cabe canfiar-te 



(457) 
minhas ufanias todas , tanta aíTeiçâo descortinei 
no teu olhar, depois ciue aííectas não me querer 
vêr, qual nunca descobri nelle : grande tontice 
são constrangimentos táes I Porque se não ha-de 
pôr ás claras o âmago da alma? Da tua, bem 
conhecia eu toda a ternura , toda a aííeição •, e 
podia eu estremar seus na;norados movimentos , 
de todos os dí>s outras almas •, mas não tinha ainda 
computado os da sua ce"iera, nem os da sua al- 
tivez. Ce'rto estava de que farias praça ao ciúme, 
pois que amavas, mas não sabia ainda que con- 
dição tomaria em teu peito essa paixão. Traição 
íôra não nVo ter mais cedo declarado, e quasí 
que á tua injustiça que'ro bem , por me ter des- 
coberto esse segredo. Desejei-te ciôso , e o con- 
segui por fmi; descarta-te porem de ciúmes, co- 
mo eu me descarto de curiosa. Nenhum Amante 
se ostenta com mais vantajera, que quando elle 
€ feliz. Errarão os que dissérào que dá ares de 
parvo o Amante que se diz contente ; mais pnrvo 
pareceria quando por outra ar se demostrasse. E 
quem não possúe em si assaz melindre para luar 
vantajens d'um Amante satisfeito do seu amor, 
pécca peio coração , não pela ventura. Vem , e 
vem logo ratificar-me esta verdade, que pouca 
fineza a minha fora , se atrazasse eu esse inst.ínte 
com o prolixo desta Carta. Bem sei que ás horas 



C 4^58 ) 
que eu te escrevo te é vedado vires vêr-me : e 
dado que em conversar comtigo por escripta me 
dê gosto, outro gosto maior. lhe preferira eu, 
que é o da tua presença. Assim é que o escrever- 
te me dá gosto , mas tu logras ( e eu comtigo ) o 
gosto de me veres. Esse me vem accomjíanliado 
das reservas do Decoro ; mas o outro posso- o 
tomar quando bem o queira. Agora , que todos 
os de Casa repousão , e se dão por venturosos de 
seu repouso , desfructo cu uma Dita, que nunca 
saliirá do mais profundo repouso. A. mão escreve , 
mas o men coração é quem te falia , como se tu 
foras lá para lhe responder ; aqui te está sacrifi- 
cando, com as suas vigílias, o seu insoífrimento. 
E como e' aífortunada , a que sabe amar com per- 
feição ! e quanto lastimo eu as que no ócio se 
desleixão sem tirar lucros da Liberdade ! Bons 
dias, meu Amigo, que já raia a Aurora, e mais 
cedo houveVa ella raiado , se a minha impaciência 
tivesse ella consultado. Perdoêmos-lhe a tardança; 
que não ama ella como nós amamos ; e para que 
menos insupportavel nos seja, cuidemos em burlá- 
la com algumas horas de somno. 



( 45ç) ) 



CARTA VIIK 



Considera, Amores meus, quão pouco previsto 
foste , que a ti mesmo , com enganosas esperan- 
ças , te traliiste , e a mim comtigo. Uma aííeição 
em que tu delineavas tantos prazeres , é hoje a tua 
desesperação mortal; que só parelhas corre com 
a desapiedada ausência, que foi sua causadora. 
Engenhosa a minha mágoa excogita o mais funes- 
to nome que dê a esla ausência , que tem de me 
privar para sempre de mirar-me nesses olhos, 
em (pie via tanto amor , e que me assinalavão 
movimentos , de que bebia o meu coração tanta 
alegrta, movimentos que erão para mim tudo; 
pois que para mais nada me ficavão desejos. Pri- 
vados ficão estes meus olhos, mísera de mim! 
da única luz, que os aviventava •, e que lhes deixa a 
ausência ? Lágrimas. Que outro uso lhes não dou, 
senão chorar , desde que em fim te sube resoluto 
ao duro apartamento , que me he-de dar a mor- 
te ; que não tem minha alma forças sufficientes 
com que o suppórte. Não entendo comtudo como 
infortúnios , quando elles de ti nascem , perdem 



( /,6o ) 

comigo nm tanto de sua crueldade; porque, co- 
mo disde que te cu vi, te dediquei ávida, tiro 
delles o contentamento de te fazer delia sacrifício. 
INlil vezes no dia , te envio suspiros da alma, 
que lá te vão buscar em qualquer sitio que estejas -, 
mas a resposta que me trazem em retribuição de 
tantos desassocegos , é um aviso mui lhano , que 
a minha ruin fortuna me remétle , accompanhado 
da crueza de não consentir que eu meu lisonje ; 
quando mormente me diz a cada instante : — Ma- 
rianna infeliz, é consumires-te em vão , por um 
Amante que não tornarás nunca a ver; que atra- 
vessou os mares, para se esquivar de ti; ei-lo em 
França , na roda dos prazeres , que de todos os teus 
pezares se descuida ; e que de todas esssas anciãs 
tuas se deslembra ; nem delias algum caso faz. — 
Oh que não é assim. Oh que nunca me resolverei 
a ter de ti tão mao conceito ; que muilo me in- 
teresso em te justificar comigo; nem no meu sentido, 
queVo pôr que de mim te hajas esq'ie'cido. A que 
propósito atormentar- me assim , com suspeitas 
falsas ! forcejarem desmaginar • me de quantos 
abonos te empenhaste a me dar do teu aífecto ! 
Tanto me encantavão teus desvelos, que muito 
ingrata fora eu, se com arrojos iguáes aos teus, 
quáes me dava a minha amorosa vontade , te não 
correspondesse , ao mesmo passo , que me logiava 
d'esses teus, 



(46i T 

Como se tornarão agras tão suaves lembranças 
tyrannisando-me agora o coração , que nesses 
tempos deleitavão! Em estranha situação o pôz a 
tua derradeira Carta j tão sensiveis abalos padeceo , 
que cuidei que lidava era separar-se de mim , para 
te ir buscar. Fiquei tão quebrantada d'esses force- 
jos seus , que três horas não sube parte do meu 
juizo : e me vedara recobrar a vida, se a tinha de 
de perder por ti , para ti a queria conservar. Tor- 
nei , a meu pezar , a ver a luz do Sói , quando 
me lisonjeava em sentir que de amor morria. E 
mais folgada , que não sentira rasgar-se-me este 
coração co'a dor da tua ausência. Viérão-me de- 
pois varias indisposições j e passarei eu sem ellas 
todo o tempo, em que te não vir? Padeço-as , e 
não murmuro, porque de ti me procedem. Tal 
e' a gratificação , que de ti consigo , pelo mui teVno 
amor que empreguei em ti. Embora : tenho de te 
adorar em quanto eu viva, e ninguém mais vêr ; 
e toma este meu seguro : não ames ninguém. 
Quem acharias tu que te amasse com tão ardente 
alFecto , como o meu ? Mais formosa que eu , 
bem podes vê-la ( lembro-me todavia que me dis- 
seste que eu não era feia) mas não com igual 
amor ; e sem amor tudo o mais é nada. 

INào contenlião tuas Cartiis cousas inúteis , nem 

me falles de me não deslembrar de ti. 1'^u esque'cer- 



( 4<32 ) 
te ! Eu que me não esqueço de que me prometteste 
que virias alguns tempos passar comigo? e por 
que razão não passar a vida inteira ? Ah ! que se 
eu podesse descartar-me d'este desconsolado Claus- 
ti'o, não me punha a esperar pelas tuas promessas : 
iria , sem resguardo algum , procurar-te, e seguir- 
te, e amar-te por todo esse universo. Não me 
lisonjeio de tal possibilidade , nem levar esperan- 
ÇQo que'ro ( bem agradáveis á imaginução ! ) mas 
sim entregar-me toda aos pezares. Deo-me ( bem 
t'o confesso , ) bons toques de contentamento , 
a occasião , que meu Irmão me oíTereceo de que 
te escreva ; e , por certo prazo , suspendeo a deses- 
peração em que me sinto. 

Oh dize-me, que empenho foi o teu de me encan- 
tares , como me encantaste , sabendo que me ha- 
vias de deixar? Que te valeo o infortunar-me 
assim ? Deixáras-me em socêgo , no meu Claustro. 
Que aggravos te tinha eu feito ? Oh perdoa , meu 
Bem ; nada te imputo , nenhuma vingança queVo ; 
só meu fado a culpa teve. Pareceo-lhe que nos 
faria quanto mal podésse , com separar-nos : e 
nossos corações nada ahi ha que os separe; que 
mais poderoso que o Fado , é o Deos Amor , e clle 
e quem nos unio até á morte. Se te é cara a minha 
vida escrêve-me a miúdo ; que bem mereço eu 
<|ue me dês novas do que em teu coração se passa , 



( 463 ) 
e de como te favorece a fortuna : e mais que tudo 
vem , e que eu te veja. 

Adeos : Não me posso afastar d'este papel , que 
te ha-de ir ás mãos ; e se essa Dita me coubesse, 
feliz de mim! Oh louca, oh louca; que não vejo 
que é impossível. Não posso mais. Adeos. Ama-me 
«empre ; e venhão embora padecimentos. 



CARTA IXa. 



Jr ARECE-me que o maior aggravo que fazer posso aos 
movimentos do meu coração é o empenho que tomo 
de lh'os dar pela escripta a conhecer. Quão feliz eu 
fora , se pela violência dos teus podeVas tu d'estes 
meus fazer conceito! Não me referirei a ti; ueux 
me atalharei de te dizer ( com menos actividade 
que o eu sinto ) que te não cabe maltratar-me 
assim com esse teu esque'cimento, que tanto me 
desespera ; e que em ti mesmo é vergonhoso. 

Justo é todavia que me eu lastime de pezares 
que eu d'antemão contemplava , quando te co- 
nheci resoluto a me deixares. Enganei-me , e muito 
me enganei , quando puz no pensamento que pro- 



( 464 ) 
cederias comigo mais lealmente , e fura do iisu&l, 
em la/ão de (jue o meu muito amor me real- 
çava (ia baixeza de táes suspeitas j e merecia mais 
fidelidade, que a que de ordinário no mundo corre. 
Mas disposto como estás a me traliires , passas por 
alto da j stiça que deves a quanto por ti me hei 
ofíerecido. Já mui desgraçada eu fora , se o teu 
amor o houvesse obtido á força de te haver amado, 
eu que tudo somente dever qnizéra á nossa in* 
clinação recíproca. INIas (|uão distanciada me vejo 
d'esses termos , quando depois de seis mezes nem 
uma só Carta de ti me vem ! Desastre , que eu 
altrihúo á cegueira , com que me entreguei , e 
me prendi a ti \ quando antever me relevava , que 
mnis cedo terião fim os meus gostos , que o meu 
aíleito. Quem me segurava que ficasses toda a 
vida em Pirtiig.l? Que renunciasses á Pátria, ao 
adiantamento, para em mim empregar todo o des- 
velo? INenhum alivio consentem minhas mágoas; 
e a lembrança mesma de meus prazeres assanha 
a minlia desesperação. Seráo pois inúteis quantos 
desejos formo ? nem tenho de jamais vêr-te no 
meu aposenío , como te via , todo ardência , todo 
arrojos? Ai de mim! Como me engano! c coin 3 
conheço mal ([ue quantos moviinentos me lidaváo 
na ideia e no ccração, se te davão a sentir quando 
unicamente os accendião os prazeres, e com el- 



( ^6j ) 
les se amortecião. Allí e que eu nesses mui af- 
fortunados instantes devi chamar pela minha ra^ 
zão , que me acodisse , e moderasse o excesso das 
minhas delicias ( que me havia de tão funesto ser ! )^ 
e pedir-lhe que me informasse do que hoje tenho 
de padecer. Mas eu que toda me entreguei a ti 
não estava em caso de imaginar no que havia 
de envenenar minha alegria , e que me tolheria 
de em cheio desfructar os ardentes penhores da 
affeição tua. Tanto me comprazia em me vêr com- 
tigo, que se me desluzia , que houvesse tempo , 
em tjue longe de mim fosses. Não menos me lem- 
Ina que alguma vez te disse que por tua causa ^ 
seria eu ainda desventurosa ; mas logo esses te- 
mores se dissipavão, e com gosto os sacrificava 
a ti , entregando-me ao accento e á má fe' de teus 
prote'stos. A todos esses males hem atinava eu 
com o remédio, e bem depressa me livrara del- 
les perdendo-te o amor. Agro remédio ! que antes 
padecer do que perder-te da lènll)rança ! Co- 
mo se de mim , ai triste I dependera : de mim , 
que arguir-me não posso de que um momento só 
te não haja amado. jNIais para lastimado e's tu » 
do que eu: que vale mais padecer, como eu pa- 
deço , que lograr - se dos languidos prazeres que 
te dão em França essas tuas Damas. Não te in- 
vejo a indilferençaj antes delia c dr ti me com- 
2 om> A« -'" 



( 4<56 > 
padeço ; c apostaria que nunca lerás de inteira- 
mente te esque'ceres de mim ; antes me lisonjeio, 
que te puz em estado de que nunca , a não ser 
comigo, desfructes comi)le'to contentamento: e mais 
ditosa sou que tu , em me ver com mais occu- 
pação , por quanto me nomearão Porteira do Mos- 
teiro , onde quantos me fallào , me considérão 
como uma louca ; porque não sei o que lhes res- 
pondo ; e que tão loucas como eu sejão as Re- 
ligiosas que me imaginarão capaz de emprego al- 
gum. OJi quanto invejo a felicidade de Manoel, e de 
Francisco ; e porque não estou eu como elles sem- 
pre contigo? Quem te IiouveVa seguido, e servido 
ainda mellior que elles ! e com melhor coração 
mui seguramente ! Que nada anceio eu mais que o 
gozar da tua vista. Lemhra-te de mim ao menos : 
que ser de ti lemluada me contentaria. Mas quem 
me dá essa certeza? Quando eu todos os dias te tinha 
presente, não limitava ahi minhas esperanças ; mas 
tu me tens ensinado a sujeitar-me a quanto quei- 
ras : e eu não me arrependo de te haver adoradoj 
e até de que tu me hajas rendido, folgo. A lua 
rigorosa ausência ( quem me diz , que não será e- 
térna ) nada desfalca dos impulsos do meu amor; 
e quero que todo o mundo saiba , que não faço 
mysterios delle, antes me regozijo de quanto con- 
tra o civil decoro , a teu respeito fiz; nem minha 



( 4^7 ) 
honra, nem meus scrupúlos emprego senão em 
te amar estremecidamente a minha vida toda , 
visto que por ti comecei a tomar lições de amor. 
Nem destas particularidades te fallo , para te obri- 
gar a que me escrevas ; tal constrangimento de ti 
não peço ; e só desejo o que te pedir a vontade 
de maneira que todos os abonos da tua aíTeicão, 
que te não venlião a pedir de bôcca póde-loster 
por rejeitados de mim. Eu mesma me farei força 
em te descrlpar , e me direi, que foi teu gosto 
retraliir-te de me escrever • tanta a disposição , 
em que me sinto ent» anhavclmente de perdoar os 
teus defeitos ! Foi caridoso comigo um Ofhcial 
francez , que esta manlian , três horas me fallou 
€m ti, e me disse que a Paz com França es- 
tava concluída. Se assim é, vem, falla-me , le- 
va-me para França ; e no caso que t'o não me- 
reça , faze de mim p que fur Lua vontade ; que 
não depende o meu amor do modo , com que me 
trates. Depois da tua ausência, não logrei uma 
hora de saúde •, nem outro prazer tive senão o de 
pronunciar teu nome mil vezes no dia. Algumas 
Religiosas, que sabem o estado em que me des- 
penhaste , me fallão a miúdo de ti. Do meu quarto 
por acaso saio •, do meu {piiulo onde tantas ve- 
zes vieste , e onde de continuo olho para o teu 

retrato, a quem mais que á vida, quero bem. 

3o ^ 



( 4GH ) 
Algnm prazer me dá , mas bem descontado com 
pezarcs , quando contemplo que talvez nunca mais 
terei de tornar a vér-te. Será certo que para sem- 
pre me deixaste? Desesperada me vejo. Desfalece 
a tua triste INlarianna ; e um desmaio me toma , 
quando dou fim á Carta. A.deos, adeos.Tem com- 
paixão de mim. 



fcfx-^^^x^^-^ 



^^^.^^^^«/W^ 



CARTA X .. 



VJLE ha-de ser de mim ? e que desejas tu que eu 
faça I Quão afastada me sinto de quanto havia an- 
tevisto ? Esi)erava que me escrevesses de todos os 
sítios por onde passasses , e escrevesses compridas 
Cartas ; que darias esteio á minha aíTeição, com a 
esperança de tornar a vcr-te; que mteiramentc 
fiada na tua lealdade, teiia algum socégo; situação 
supportavel , izenta de despiedadas mágoas. Traça- 
dos tinha alguns ténues projectos , na confiança que 
me dessem soccôrro , no caso , que eu souljesse de 
ccrlo que me houvesses perdido da lemljrança. Já 
de primeiro a distancia ein que te visse do mim; 
logo alguns assomos de devoção ; também o receio 



( 4Go ) 
de estragar de todo a minha saúde com tanta falta 
de dormir , tanto desassocêgo ; e a pouca esperança 
de que voltes; a frieza d'esse teu amor, e da tua 
despedida; o partires de Portugal com tão ruins 
pretextos; e outras mil razões tão múteis , eque bem 
>alem as dittas , pareciào prometter-me seguridade 
de soccôrro , em caso de precisá-lo. E como então 
teria somente de pelejar com a minha vontade, 
não tomei desconfianças de quão fraca me sentiria 
nesse transe, nem cousa alguma receei do que 
padeço agora. Que lástima a de não poder repartir 
comtigo os meus pezares ! e de ser eu só a desgra- 
çada ! Este pensamento me dá morte. Sim, que 
morro de desconfiança de que nunca fostes exces- 
sivamente sensivel a todos os nossos contentamen- 
tos. Agora é que eu avisto a fé mentida de todos os 
movimentos de teu ânimo , e que- me trahias quan- 
tas vezes me disseste, que era teu prazer summo, 
quando te vias só comigo. A's minhas importunitla- 
des devi talvez esses arrebatamentos e arrojos teus; 
que tinhas tu delineado a sangue frio abrazar-me o 
peito , e olhares a minha amorosa paixão como 
uma victoria ganhada por um coração desaífciçoa- 
do. Desgraçado de ti! que por teu pouco melindre em 
amor, perdeste os 1 ucros que pode'ras tirar da exalta- 
ção do meu aíTecto. E como pôde acontecer que 
com tanto amor que eu te manifestei não pude 



( 470 ) 
conseguir que te desses por plenamente feliz I Pe- 
nosa estou ( a teu respeito ) que te não lograsses 
de infinidade de prazeres, que te vinlião á mão, se 
amasses como devias. Ah ! que se os conheceras en- 
tenderias que mais sensiveis são, que o prazer de 
me haver enganado. E te capacitarias de quanto é 
mais entranhavelmente venturoso qr.em ama com 
arrebatamento, que quem se contenta só de ser 
amado. 

Nem eu sei o que sou, nem o que desejo; mil 
contrários impulsos me despedação a alma. Houve 
jamais situação tão deplorável ! Tão desatinada- 
mentc te amo, que não quize'ra que sentisses a 
agitação em que me sinto: mattar-me-hia,e sem me 
mattar de minha própria mão, me mattaria a dor , 
se soube'ra com certeza que não logras quietação ; 
que a tua vida passas entre perturbações e desasso- 
cêgos , que de continuo choras , que tudo te abhor- 
rece. Eu (jue não tenho bastante vigor contra meus 
pezares, como sustentaria a dôr, que dos teus me 
procedesse ? dos teus , que muito mais sensiveis me 
seriào? O a que todavia com grãocnsto me resol- 
vera, fora o desejo de que não te lembrasses de 
mim ; e a te fallar sincera , tenho fúrias de ciosa de 
quanto alegi\ir-te pôde longe de mim , de quanto 
pódt empeiil;?r-te o coração , de quanto te agrada 
em França. Nem eu sei por que razão te escrevo. 



Bem sei que unicamente te compadecerás de mim ; 
mas essa compaixão rejeito-a. E óra contra mim 
mesma me agasto , quando recordo quantos sacri- 
fícios te fiz. Reputação deslustrada ; expôr-me ao 
furor dos meus , á severidade das Leis d'este Reino 
contra as Religiosas ; á tua ingratidão, que é o desas- 
ti'e que mais me penaliza. Fementidos remorsos! 
Do âmago d'este meu coração quizeVa agora lan- 
çar-me aos maiores perigos, agora qvie alimento 
um funesto deleite de ter aventurado o meu recato, 
e a minha vida. F. não tinha eu dado á tua disposi- 
ção quanto possuo mais precioso? E não folgo eu 
muito de o ter tão bem empregado em ti? A.inda 
me não dou por contente de meus pezares , nem do 
meu extremoso aíTecto ; dado que ( triste de mim 1 ) 
lisonjeai-me possa de estar de ti contente. Mas 
vivo. Que infidelidade ! Dar-me tanto desvelo por 
conservar a vida , que devera ter perdida ! De ver- 
gonha morro. Toda a minha desesperação consiste 
pois nas minhas Cartas ? Se te eu amasse tanto 
como mil vezes te hei ditto , muito ha já que eu 
devera ter morrido. Queixa-te de mim, que te 
enganei. E porque (mísera de mim ! ) te não queixas 
tu ? Partiste, e á minha vi^^ta ; nem espero de ainda 
vêr-te ; e respiro ainda? Tn-idôra fui. Perdão te 
peço. Oh não me perdoas. Trata-me severo; não 
dês ainda por assaz violentas as minhas anciedades. 



(4:2 ) 

Sé min de contenlar ; responde-me que é teu gòslo , 
que eu por ti iiióira de amor. Dá-nie , sim, dá-me 
esse conforto, jiara que eu vença a fraqueza do 
meu sexo , e que cóite por todas essas irresoluçòes 
desesperada : que bem pôde ser , que o meu trá- 
gico fim e te obrigue a pensar em mim a miúdo, e 
que prezada le seja então a minha lembrança , 
mavioso da minha extraordinária morte. Mais vale 
similhante morte , que o estado em que me pozeste. 
Bem quizora eu nimca te haver visto. Adeos. Que 
conceito tão falsario ! pois que neste mesmo instante 
em qíie te escrevo, estimo mais ser infeliz amando- 
te , que de nunca te haver visto : e consinto em pa- 
decer meus tristes fados sem que delles murmure , 
pois que de ti dependia que elles prósperos corres- 
sem. Promette-me ternissimas saudades, se eu ás 
mãos da dôr feneço , e que ao menos a [violência 
do meu aííecto , de tudo te desgoste , e te descarte. 
Co' essa consolação morrerei contente ; e se tenho 
de para sempre te deixar, deixar-te a outrem não 
sofifrêra. Que mui agro me fora, que para te dar 
mais a querer, te servisses da minha desesperada 
morte , e dizeres que a causou a desatinada aífei- 
ção, que me inspiraste. Adeos , e ainda adeos; que 
se estirão muito as Cartas, que te escrevo , e te dou 
incómmodo em lè-las , e do que perdão te pe'ço , na 
confiança que serás indulgente á cerca d'uma pobre 



(4:3 ) 

douda. Ah ! que o não era eu antes que te amasse. 
Não sei se te fallo de sobejo na insupportavel situa- 
ção em que me vejo : e com tudo do intimo do meu 
coração te agradeço a desesperação que me enlou- 
quece, nascida de ti mesmo : e tanto assim que 
detesto a tranquillidade em que vivia antes de 
conhecer-te. Adeos •, que a minlia aíFeiçào a cada 
instante augmenta. Que de cousas te quizeVa dizer! 



CARTA XK 



Acaba de me dizer o Tenente da tua Companliia , 
que te obrigou uma tormenta a dar fundo no Al- 
garve : temo que te não molestassem os mares, e 
de tal modo temo , que todo o meu pezar escureci 
com esse receio. E imaginas tu que tome maior 
parte o teu Tenente , do que eu no que te res- 
guarda? Porque tem elle melhor informação tua 
do que eu t^nho? e porque me faltão Lettras tuas? 
Sou em fun bem desgraçada, se depois que partiste, 
não acertaste com occasião de me escreveres : mais 
desgraçada ainda, se a tiveste, e te descuidaste 
delia; então fôrão extremas a tua injustiça e a tua 
ingratidão. Dcsesperar-me-hia porém se te eilas mo- 



(474) 
livassem o menor desapiJido ; que antes quizeia 
vê-Jas sem casli^o , que vêi-nie a mim vingada. 
Resi^lo a quantas apparencias me queirão persuadir 
qi.e pouco ou na ia me amas; antes rae sinto dis- 
posta a me entregar cegamente ao meu amor , mais 
ainda que aos niolivos que me dás de me queixar 
do teu descuido. Qrantos desassocegos me houveVas 
evitado, se nos jiiimeiros dias, em que eu te vi, 
tiveVas procedido com essa negligencia; mas ella 
não deo mostra de si , senão depois. Quem se não 
achai ia lograda como eu , com táes arrebata- 
nienlos? e quem os não daria por sinceros? E 
quanto não é custoso resolvermo nos a admittir 
suspeitas na boa fé de quem somos amadas? E 
quanto não sei eu que a menor desculpa vos lava; 
e sem que mesmo cuides em m'a dar, }á o amor, 
que tão fielmente toma o cuidado de te servir, me 
tem preparada a te não achar culpado ; e se tal te 
consideVa alguma vêz , é para ter o gôslo de te jus- 
tificar logo. 

Frequente em namorar-me , arrebatado em 
abrazar-me, com finezas me enfeitiçaste, cora jura- 
mentos me deste segurança , e a minha inclinação 
violenta se deixou levar. Em que rematarão com 
tudo tão apraziveis princípios e tão bem assomb a- 
dos ? Em suspiros, em lágrimas, n'uma desconso- 
lada morte , a que nenhum remédio avisto. Assim 



C4:3) 

e que em te amar colhi prazeres indizíveis-, mas 
que exorbitantes penas me hão custado ; nem mo- 
vimento sinto, que de ti me proceda, sem que o abalo 
não seja extremo. Se eu com pertinancia houvera 
resistido ao teu amor; se algum motivo de ciúme, 
ou de pezar te houveVa dado , para aííervorar-te o 
afiecto; se em mim reserva houveVas, ou arte co- 
nhecido ; se eu houvera opposto a minha razão á 
inclinação natural que a ti me deo , e que lúgo em 
mim conheceste , dado que inútil foi quanto force- 
jei por encobri-la... então cabia vingares-te severo , 
usando do poder que tinhas. Mas já me parecias 
amável , antes que me dissesses que me amavas ; 
déste-me abonos de profunda aíFeiçào, que me en- 
levarão , e fôrão causa de te amar desperdiçada- 
mente. Mas tu , a quem não , como a mim vendara 
o Amor, porque consentiste, que eu chegasse ao 
estado, em que me vejo? Que destinavas tu fazer 
d'esses meus extremos , que tinhão de te ser impor- 
tunos ? Certificado estavas que não tinhas de ficar 
para sempre em Portugal. Para que quizeste pois 
em mim a desventurada victima , quando pode'ras 
acharnesta Cidade quem mais formosa fosse que eu, 
com quemlograsses igual prazer (visto que grosseiros 
fcós te agradão ) que leal te amasse , em quanto te 
tivesse avista, e que depois, com o tempo se con- 
solasse da tua ausência, e a quem tu , sein aleivosia: 



( 4:C) 

nem crueldade deixar poderás. O procedimenlo 
que usas comigo mais é procedimento de Tyranno 
que folga de perseguir, que procedimento de Amante 
que se empenha em agradar. Para que intenção , ai 
niisera de mim! tanto rigor disfe'res contra um co- 
ração que é todo teu ? Acabo de crer , que tão íucil 
te persuades contra mim, quão íacii me eu per- 
suadi a teu favor. Sem precisar do muilo amor ({ue 
te consagro, sem que me imagiuasse ter feito acção 
exlraordinaria , teria resistido a motivos muito 
mais relevantes, que os que tomaste, para deixar- 
me. Quão fracos me terião i)arecido! E não lia hi 
motivos que valessem a arrancar-me de teu lado : 
mas tu... deitaste sofregamente mão dos pretextos 
que se te depararão para voltar a França. Estava 
esse Navio de partida? Deixásses-lo paitir. Não ti- 
nhas Cartas da tua íamilia ? E não sabes tu mui 
bem quantas perseguições eu padeci da minha ? 
Obrigava-te a honra a me deixares? Fiz eu grande 
caso da minha? Era-te forçoso ir servir o teu Rei ? 
Se quanto delle se diz e ce'rto, nada do leu soccôrro 
precisava , e facilmente te daria por escusado. Se- 
riamos mais que muito felizes, passariamos a vida 
juntos. Mas pois que tinha de nos separar esta desa- 
brida ausência, ideia tenho que muito me conten- 
tará o haver-te guardado lealdade. Quanto atroz 
jne fora haver commcttido esse delicto I 



( 4:7 ) 

E conhecido, como tinhas, o íiilimo de meu 
peito, e toda a minha ternura, como podeste re- 
soher-te a deixar-me para sempre? Expôr-me aos 
sustos de que percas de mim lembrança? A que a 
novos amores sacriíiques os meus? Bem me capa- 
cito , que como uma louca te amo , e com tudo me 
não queixo de todos os movimentos do meu anciado 
coração , porque já me vou habituando a esses as- 
saltos. Que não podeVa eu suster a vida , a não des- 
cobrir nella certo contentamento , que é o de te 
amar no meio de táes mágoas. Só me desagrada por 
extremo o ódio , e o fastio que tomei a tudo : a mi- 
nha família , as minhas amizades , este mesmo 
mosteiro me são incomportáveis ; quanto por obri- 
gação, tenho de ver, quanto necessariamente fazer 
devo, me é odioso. Tão empenhada estou no meu 
amor para comtigo, que só a ti devem mirar todas as 
acções e todos os meus deveres. Sinr, que scrupuliso 
dos momentos da minha vida, que empregados em 
ti não são.E que fora de mim se não tivera o cora- 
ção abastado de tanto amor , e de tamanho ódio ? 
E poderá eu sobreviver ao que me occupa de con- 
tinuo , para desfiar languidamente socogada vida ? 
i\ão se compadece c"o meu génio tão vácua insensi- 
bihdade. Toda a gente repara na minha condição 
tão demudada , minlia pessoa , e modo ; minha 
Mke , com aspere/a me fallou nella ; mas (k^])ois 



C 478 ) 
com mais brandura : o que então lhe respondi me 
ni":o lembra ; mas creio que tudo lhe confessei. As 
Religiosas que mais severas são , tem compaixão de 
vêr-me, tem comigo ceVta estima , ceVto resguardo , 
e do amor que tantas penas me dá, tem piedade. E 
tu... e tu indlíFerente comigo , Cartas me escrtíveti 
tibias, dizes sempre as mesmas phrases , nem se- 
quer enches metade do papel; a anciã, com que 
estás de lhes ver o fim , se mostra nellas. Dona 
Briíes me perseguio estes dias passados porque sa- 
liisse do quarto, e assentando que me divertiria, 
me levou a passear á varanda, d'onde se avista 
Mertola. Comprazi-lhe; mas logo se apoderou de 
mim cruissima lembrança , que esse dia inteiro me 
alagou de lágrimas. Tornou-me ao quarto e me 
metteo na cama , onde mil reflexões fiz á cerca 
da pouca esperança que podia ter de me curar da 
aíieição. Quanto fazem por m'a aliviar , a azeda , e 
nos remédios mesmos aclio eu motivos para ainda 
me allligir. Por esses sitios mesmos te vi passar bem 
vezes com a bizarria c gala, que me encantara; e 
ness." mesma Varanda estive , no fatal dia , em que 
comecei a sentir na alma os des venturosos toques 
desta minha afleiçào- Pareceo-me que Wavas 
intuito de agradar-me , pobto que ainda me não 
conhecias ; e me persuadi de que entre todas as 
.oue comigo estavão , íizcste reparo em mim ; ima- 



( 479 > 
■ginei , que quando paravas , folgarias muito que eu 
melhor te visse , e admirasse a destreza e giaç i , 
com que meneavas o teu Cavallo. Algum susto 
me tomou quando passava por um sitio de máo 
caminho : que começava a lavrar em mim inte- 
resse de acções tuas; já me não eras indiíFerente ; 
já levava parte em quanto fizesses. Bem vias tu 
em que tinhão de parar principies táes , e ainda 
que eu nada tenha que resguard.-.r, com receio 
todavia de te não criminar mais , se possível é 
que mais réo não sejas, te não escrevo tudo; e 
também por me não arguir a mim mesma , qne 
depois de esforços tantos inutilmente feitos , para 
que Hél me fosses , não terás tu de o ser. 

Posso eu esperar das minhas Cartas , e do que 
nellas te lanço em rosto, o que acabar não poude 
o meu amor, e a entrega que de mim te fiz? Que 
feia ingratidão ! Mais que certa es'oii do meu infor- 
túnio ; nem o leu proceder me consente a menor 
dúvida : convém que eu receie tudo de quem 
assim me desampara. Não haverá outras Damas, 
a quem, como a mim encantes? outios illios , 
a quem , como aos meus agrades ? P -de bem ser, 
que folgasse eu mesma , (jue a aíteição de outi as 
Damas justifique a mitiha ; o até folgara que te 
achassem amável todas as Francezas , mas que ne- 
nhuma te amasse , nenhuma te content;>.sse. Impôs- 



( 4Bo ) 
sivol, c lidíciílo projecto! Experimentei não 
menos que e's incapaz de constante aííccto , e que 
sem soccôrro algum poderás esquécer-te de mim , 
sem que a tanto te induza aííeiçào moderna. INeni 
eu sei se desejara que para esse esquecimento se te 
deparasse arrazoado pretexto : maior desgraça 
minha, e mais ténue delicto o teu. Ficares em 
França ; não lerás lá requintados gostos ; mas ver- 
te-liás livre. Cansaço de prolixa jornada , certos 
rociáes decoros , receio de não responder como 
deves , a meus arrebatamentos , te reprezão em 
França. Ali não receies ! Contentar-me-liei de te 
ver de tempos em tempos , e saber que n'um mes- 
mo sitio estamos ambos. Lisonjas são talvez , em 
que me ce'vo a minha saudade -, quando tu (quem 
sabe ) te aííeiçoarás -mais da severidade , e rigores 
de outra Amante , que o não foste de meus favores. 
E poderão rigores enamorar-te? 

Antes porem de entrares em aíTeição extrema , 
passa pelo sentido o excesso de minhas mágoas , 
a incerteza de meus projectos , a variedade dos 
movimentos de meu ânimo , a extravagância 
de minhas Cartas , confianças , desesperos , e ciú- 
mes delias. Conside'ra , que buscas a tua desgraça ; 
põe os olhos no estado em que me vejo , e escar- 
menta -, que te não seja , ao menos , inulil o que 
eu por ti padeço. Cinco , ou seis mêzcs ha que 



penosa confidencia me fizeste , quando me confes- 
saste em boa fe' , que amaras em França ce'rta 
Dama : se ella é quem te atalha de voltai^ , dá-md 
a saber, sem algum resguardo, porque eu maia 
cedo acabe de padecer. Se alguma cousa me sos- 
têm a vida, é um vislumbre de esperança, e no 
caso que ella me falsée, quizéra perdê-la por in- 
teiro , e perder-me a mim com ella. Manda-me o 
retrato dessa Dama, e algumas Cartas suas, e 
juntamente me escre've quanto te ella diz ; que 
talvez ahi encontre motivos de consolar-me , ou 
de mais me angustiar : que no estado em que me 
vejo , não e' possível aturar mais tempo : que não 
ha hi mudança que não seja a meu favor. Queria 
também ter o retrato de teu Irmão, e de tua Cu- 
nhada; tudo quanto te pertence , me é prezado, e a 
quanto se te achega sou aífecta ; sem de mim me 
ficar disposição alguma. Instantes ha , que imagino 
assaz de submissão no meu ge'nio para poder servir 
a Dama que tu amasses. Teu máo trato, e o menos- 
prezo teu me tem tão prostrada , que ha occasiôes 
em que me não aíiouto a crer que podesse ter ciú- 
mes sem te desagradar ; que te aggravo , quando te 
lanço alguma cousa em rosto, e me dou por con- 
vencida , que me não cabe dar-te a saber , com o 
amoroso furor com que eu o exprimo, os movi- 
mentos de meu peito. 

Tom. X, 3, 



( \^-2 ) 

J;i ha mais qiic iiiuilo que por esta Carta um Of- 
ficial espera. Deti-rminada estava em t'a escrever de 
modo tal , qv.c sem tc-tlio a pode.sses receber ; mas 
de sobejo e' eila extravagante •, dêmos-lhc ínn. Mas 
ai de mim, que cuido estar íallando conitigo , 
quando te estou escrevendo, e que te julgo mais 
perlo de mim. Nem tão longa , nem tão importuna 
será a primeira : abre , e com segureza a podes lêr; 
que como não devo iollar iTuma aíieição , que te 
anoja , nem nclla boquejarei. Daqui a poucos dias , 
haverá um anno , que toda me entreguei a ti sem 
algum resguardo; muito ardente me parecia o teu 
aíTeclo , e mui sincero : que não eia de suspeitar 
que viria tempo, em (pie engeitasses minhas fine- 
zas , c que mais quizcsses arredar-te de mim qui- 
nhentas léguas, arriscar -te a naufrágios. Trata- 
mento igual ninguém tinha direito de o exercer co- 
mig ) : que bem tens de lemhrar-te do meu enleio , 
do nu'u pejo,e desordem de meus sentidos; mas 
não íiuereiás lembiar-Le , por te não empenhares a 
me amar contia teu gosto. Já quatro recados me 
manda o Otiicial, que quer partir, que está com 
pressa. Ah ! ((ue, sciu dúvida , alguma desventm-osa 
por aqui deixa! Adeos; <|ue mais mágoas me custa 
o acabara Carta, do qu'í te a li custou deixar-me.... 
e para sempre. Aileos ; que nem me atrevo a te es- 
crever mil ternuras , nem me entregar com soltura 



(4^3 ) 
a todos os ímpetos do meu coração , qnatido te amo 
mil vezes mais que a própria vida, e mil vezes ainda 
mais do que eu mesma cuido. Quanto e's cruel co- 
migo! Nào me escreves, (i) nem me posso atalhar 
de t'o dizer; e tornaria a começar, se o Ofucial não 
instasse por partir. Parta embora : que mais por 
mim escrevo de que por ti mesmo ; consólo-me. 
Bem sei que lia de assustar-te o prolixo d'esta minha 
Carta , e que a não hás-de ler. Em que te oíTcndi, 
para tanto me maltratares? Quem te instigou a vires 
envenenar-me a vida? K porque nasci eu antes em 
Portugal que n'outras terras ! Adeos ; dá-me des* 
culpa. Nem me aíTouto a te pedir, que me ames. 
Olha somente para o estado a que me reduziste. 
Adeos. * 



( I ) Escreveo ; e mui ternamente : mas a AbJ^adessa que 
rocebeo essas Cartas nunca as quiz entregar á Religiosa , 
que estas escrevia. Existem as Cartas do Oflicial francez , 
e andão hoje juntas ás primeiras. 



( /,H ) 



CARTA Xlla. 



rLiSTA é a última que te escrevo -, pelo stylo d'ella 
verás quão persuadida estou por fim , de que me 
não amas , e que te não devo amar. Quanto de 
ti me resta , remettido te será pela primeira oc- 
casião. Cessa em teu receio de que eu mais te 
escreva; nem que teu mesmo nome no maço ponha ; 
d'esse cuidado encarreguei a D. Brites, em quem 
depuz confidencias bem diveVsas das de agora. 
Confio que tomará toda a cautela por que o re- 
trato , e as pulseiras de que me fizeste mimo , 
saiba eu que coin que certeza te íôrão entre'gues. 
Quero que saibas, que dias ha, me sinto capaz 
de rasgar , e queimar penhores do teu amor , que 
me fòrão tão prezados ; mas tanta foi minha fra- 
queza para comtigo, e tanto a conhecer-te ao 
claro , que darás por incrivel que eu passe a tal 
extremo. Lograrei nesse caso o íVucto do que pa- 
deci em me separar d' esses penhores, quando 
saiba que nisso te careei algum despeito. Com 
vergonha minha t'o confesso , que me sinto mais 



( 485 ) 
de que eu quizéra , aíTeiçoada a essas ninharias 
e que precisava de todas as minhas reflexões , 
para me descartar delias uma por uma no instanle 
mesmo em que eu me dava por mais desnamo- 
rada de ti. Mas quem se enche de razão vem a 
cabo de quanto quer. Tudo puz em mão de D. 
Brites. Mas que lágrimas me não custou essa re- 
solução ! Depois de mil movimentos , mil incer- 
tezas , que tu não conceituas , e de que eu por 
ce'rto não te darei noticia, lhe pedi juramento de 
que nunca mais m'as tornasse , ainda quando eu 
para as ver uma vez, lh'as pedisse; antes que 
sem me dar parte , t'as remettesse. 

Nunca tão claro conheci o excesso do meu amor, 
como quando tanto esforço fiz par^ sarar delle. 
Receio que, se houveVa visto d'antes as difficul- 
dades, e violências d'esse empenho , me arrojasse 
a eraprendê-lo. Persuadida estou que os movimen- 
tos que eu experimentasse, amando-te assim in^-ato 
como te conheço , me serião menos despreziveis 
que os que sinto, quando para sempre me dei- 
xas. Já sube quanto menos me és prezado do que 
a aííeição que te eu tenho ; e quantas anciãs pa- 
deci no combate com o injurioso procedimento 
que fez que odiosa me fosse a tua pessoa. 

Não foi por ce'rto a natural soberba feminil 
quem me ajudou a tomar estas minhas resoluções. 



( 486 ) 
Mísera de miin ! Que desprezos te não sofíri? 
teu abUorrecimcnto , e ciúmes que me clava cada 
aííeição que cm qualque'r outra Dama podias em- 
pregar? Só me foi sempre incomportável a tua 
indiíleiença. As impertinentes protestações de ami-- 
zade ^ e ridículas cortezanias da tua derradeira 
carta me indicão teres r celjido quantas eu te 
eícievi, mas que, lidas por ti , nenhum abalo íi- 
zérão em teu peito, Ingrato 1 E que tão louca eii 
ainda sej.; , que me desespere de me não poder 
illudir , óra de que as minhas cartas, não chega- 
rão a tua casa , óra de que te não fôrào dadas l 
A tua boa te! E oh quanto a detesto eu! O que 
eu só te pedia , era que me escrevesses com 
sinceridade. Porque me não deixavas entregue 
ao meu aíecto? Assaz havia em não me escre- 
vendo. Clareza';,? não t'as pedia- Não me sobra, para 
desgraçada ser , o não me ter sido possivel metter-te 
no empenho de me enganares? de não deparar com 
motivos de desculpar-te ? Dou-te a sai)er, que me 
capacito que e's indigno da minha ahcição, e que 
entro a descortinar quantas qualidades ruins pos- 
súes. r^ad a obstante (se pode merecer-te quanto 
liei por li o!)ralo, alguma attençào aos favores que 
te peço ) te requeiro, que mais me não escrevas , e 
que me ajudes a me deslembrar de ti inteiramente. 
Ko caso que me constasse que algum tanto te penali- 



< 487 ) 
zoii a leitura d'esta Carta ; se eu te desse credito , c 

se me acarreassem despeito e iras essa confissão , e 
consentimento, talvez que o ardor me renovassem. 
Nada te inquie'tes d'óra em diante da maneira com 
que eu me rejo, porque fora desmanchar sem dúvi- 
da os meus projectos , de qualquer sorte que tu nel- 
les entrar quizésses. Nem o que esta Carta produzio 
em ti saber intento; só que'ro que náo perturbes a si- 
tiiação que me preparo : contenta-te com as mágoas 
que me causaste , qualquer que fosse o teu desígnio 
de me fazer desventurosa. Não me arranques esta 
minha incerteza , da qual espero fazer, com o tem- 
po, uma specie de socêgo de ânimo. Prométto-te , 
que nunca te abhorrecerei ; que muito desconíio de 
meus Ímpetos violentos , para que me atreva a em- 
prendê-lo. Antes me capacito, que podeVa aqui 
deparar com mais fie'l , e mais bem appessoado 
Amante. IMisera de mim! Ha hi sitio no meu cora- 
ção em que outro namoro caiba? E de quem? 
Pôde a minha aíTeiçào acabar comtigo constância e 
lealdade? Não ex: erimento eu, que um peito enter- 
necido não se esqr.éce nunca daíjuelie que lhe 
excitou transpoites de qne esse peito era capaz, 
mas que elle até então não conliec a? Que quantos 
al)alos sente , prendem todos no Ídolo que ddora ? 
Que se não curão, nem se apagão as primeiras 
fendas do amor? Quc todas as pai\ocs que ilie 



( 4S8 ) 
oíTereccra soccôrro, e que todo o esforço cmpe- 
nhão em occupar o sitio pvometteni debalde uma 
sensibilidade com que nunca o coração acerta? Que 
todos os prazeres que procura, sem vontade de os 
encontrar , se'rvem unicamente a inteirá-lo plena- 
mente, que nada lhe e' tão caroavel como a lem- 
brança de seuspezares? Porque me deste a conhe- 
cer a imperfeição e desagrado d'um amor que não 
tmha de ser perpétuo ; e as desditas que accompa- 
nlião violentas aífeiçôes quando não são reciprocas'' 
E porque motivo uma cega inclinação, e desabridos 
fados porfião pelo ordinário em nos determinar em 
favor daquellas que i)orião sua aíTeição em outra 
pessoa ? 

Ainda no caso que eu esperasse encontrar passa- 
tempo , empregando em outrem o meu aíFecto ; 
e que a alguém , de boa fé , desse esse titulo, tanta 
compaixão tenho de mim mesma , que scrupuli- 
sára de pôr no esatdo em que me vejo , o úl- 
timo dos homens ; e bem que te não deva al- 
gum resguardo , nunca me decidira a me vingar 
de ti com tanta crueldade , quando mesmo , por 
alguma mudança cpie antever não posso, de mim 
tal dependera. 

Excogi to, neste momento mesmo, motivos de 
te desculpar, e me digo , que ordinariarmente 
não c mui amável objecto uma religiosa. Parece 



(48o) 
com tudo , que se nessa escolha entrara a razão ,' 
preferir ellas devião ás outras Damas , por quanto 
nada as estorva de imaginar de contínuo na af- 
feição que tomarão , da qual as não desvião mil 
objectos com que o Mnndo as outras dissipa , e 
entretém. Também creio, que não ha hi grande 
contentamento em ver a pessoa amada , sempre 
distrahida com mil nónádas ; e que pouco me- 
lindre cabe ( antes desesperação ) em consentir 
que ellas unicamente fallem de assemble'as, de 
atavios , de passeios , andar a cada hora exposto 
a novos zelos, e ellas obrigadas a certos resguar- 
dos , comprazimentos e conversações. Quem é 
que vos abona que ellas se não agradem do que 
nessas occasiões se passa ; e que ellas consintão 
sempre com extremo te'dio os maridos seus? e sem 
nesse particular tomar algum prazer ? E co- 
mo devem desconfiar ellas d'um Amante que 
lhes pede exacta conta de tudo ; de tudo ; que 
fácil e socegado crê quanto lhe ellas dizem ; que 
com muita mansidão , e confiança as ve , dado 
que a deveres táes sujeitas? Não que eu por boas 
razões pertenda que amar-me devas ; ruins meios 
para essa pertençào razões serião ; melhores em- 
preguei eu , e que não surtirão. Quanto mais , 
que muito bem conheço eu o meu destino , e 
quanto me é impossivel superá-lo : tenho de ser 



( 4^0 ) 

decgrarnda em qunnto m a. E não o era cu, quando 
todos os (l;as le es'a a vendo? ]\ào nic via eu 
sen)pre em sustos de que leal , ou não me fos- 
ses? A cada insl;aite (o que não era possível ) te 
queria ver. Kstremccia dos perigos que corrias en- 
trando no Mosteiro ; quando estavas no exército, 
era miute paia mini ; dcsadorava tie não ser mais 
formosa , e mais digna de ti ; murmurava da minha 
mediana lidalfinia ; dava-me temores crer que te 
sei i<i nociva a alFcição que me mostravas ; ate' me 
parecia que te não tinlia amor bastante; temia 
as nas tios meus parentes contia ti. Via- me em- 
fsm n^ m transe tão infortunoso , como o de agora. 
Se depois que s tliistc de Portugal me tiveras dado 
alguns abonos da tua aífeição , toda me empe- 
níiár.i em te ir buscar com o disfarce que podesse. 
INías qne íôra de mim , se tu de mim fizeras 
pouco airêço , quando me viras em França ? Que 
desatino! que trasvio? Que cúmulo de aíFronta 
para a minha família , que me é tão prezada de- 
pois qne estou sem ti ! Bem claro vês , quanto 
cu conliero ((ue mais digna de lástima seria , do 
(|uc ór;i sen : forçoso é que ao menos falle com- 
tigo de bom sizo uma vez na vida. Quanto te 
lia-de agradar csce meu comedimento, e quanto 
tens de te contentar de miml Mas não o quero 
saber. Oh não mo escrevas. 



( 4oO 
Nunca lu reflectiste na maneira com que me 
hás tratado ? Não consideras a obrigação , que a 
mim , mais que a ninguém deves? Como louca 
te amei, por ti desprezei tudo. Não proce'des como 
honrado , e demostras á cerca de mim natural 
aversão , pois que ás perdidas me não amaste. 
Ah ! que me deixei encantar de medianas quali- 
dades ! Que é o que tu fizeste? Não te davas tu 
a mil diversos passatempos ? Deixaste por ven- 
tura a caça , o jogo ! Não foste o primeiro que 
partio para o exército? e último voltaste ? Como 
insensato te arremessaste aos perigos , quando te 
eu implorei que te poupasses para mim? Nunca 
buscaste meios de estabelecer-te em Portugal, onde 
eras estimado; bastou uma carta de teu hnião , 
para partires dcsempeçadamenle , e noticias me 
chegarão que em toda a viagem desfructaste hu- 
mor contente. E para confessar que me vejo 
obrigada a te abhorrecer de morte. E eu mesma 
fui quem láes desgraças me grangeei •, porque desde 
logo te accostumei a uma desmedida aífeição ( e 
tão de bua íé ! ). Arte é precisa para se dar a 
querer ; com arte se hão de buscar os meios de 
accendcr a chainma no peito; que nunca o ataor 
por si só, moti\a amor. Bem intentavas tu que 
eu te amasse ; e armado cs-^e projecto, nada ha 
hi que não fizesses i^orque viesse a eífeito ; resol- 



( 492 ) 
vido tinhas , que até me amarias , se assim cum- 
prisse. Inteirado porem que de tanto esforço não 
havia precisão. . • Oh que perfídia ! E cuidaste 
que impunemente me enganasses ? Pois declaro-te, 
que se tornas a Portugal , á vingança de meus 
parentes te commêtto. Longo tempo vivi n'um 
deixamento de mim própria , n'uma idolatria , de 
que hoje tenho horror, c com rigoridade insuppor- 
tavel me perseguem os remorsos; mui agra me an- 
gustia a vergonha , quando me traz á memoria 
os delictos , que por tua causa commetti ; que se 
desfez a nuvem de paixão que me tolhia penc- 
trar-lhe a enormidade. Quando é que eu me 
verei livre d'csse cruel tormento ? Não creio toda- 
via que mal algum desejar-te eu possa, e se tal- 
vez me resolvera a consentir em que vivesses ven- 
turoso. E poderias sê-lo tu , se acaso tens no peito 
uma bella alma ? 

Escrever-te determino ainda outra carta , em 
que te annuncie da(]ui a ce'rto prazo, que começo 
a ter socego ; e que lograrei o prazer de te arguir 
então de teu procedimento injusto para comigo; 
mas será quando não fôr já Ião viva essa lem- 
brança , e possa inteirar-tc de (jue desprezo, e 
fallar com indiíierença da tua aleivosia; quando 
emfnn me tiver esquecido de todos os meus pra- 
zeres de então , e de todos os prazeres contínuos. 



í 493 ) 

Bar-te a saber que só de ti me lembro, quando 
recordar - te que'ro. Convenho que em muito me 
levavas vantajem,e que influiste uma aííeição en- 
louquecida ; de que não tens com tudo de tirar 
grande vaidade. Eu moça, eu cre'dula , encerrada 
desde a infância num mosteiro , habituada a ver 
gente desaprazivel , nova nos louvores , que me 
davas de contínuo, julgava que a ti devia os attrac- 
tivos e a fermosura que em mim achavas , e em 
que me fazias attentar: ouvia o bem que de ti 
dizião, e fallarem-me todos a teu favor, além 
do muito que te empenhavas a que te cobrasse 
affecto. . . . Mas já tornei a mim d'esse encanto ; 
que foi grande o soccôrro, que para tal me deste 
e do qual eu tinha precisão extrema. Quando te 
remêtto as outras cartas , reseVvo somente as duas 
últimas, que mais a miúdo lerei do que não li 
as primeiras (i) , a fim de não recahir em fra- 
quezas similhantes. E quanto me não custão caro! 
E que aííortunada eu fora, se consentiras que te 
eu sempre amasse! Bem enteado que muito me 
occupo ainda ,em arguir-te , e me lembrar da tua 
deslealdade : recorda todavia , que a mim mes- 
ma me prometti agencear-me vida de mais re- 



(i) Falia das Cartas que o Cavalheiro lhe escrcvco autos 
da partida. 



( 4o4 ) 

manso; e que a tenho de conseguir, cu tão áes- 
atinada resolução liei-de tomar . . . Tu receberás, 
sem grande desprazer, as notas delia. Eu quede 
ti nada já agora que'ro , mui louca sou , em 
repetir sempre o mesmo. Creio que te não escre- 
verei mais. Quem me obriga a dar-Le razão de 
quanto por mim passa? 



os HEROES 



DE NOVELLA. 



APOLOGO DIALOGzlL. 



TRADUCÇAO VORTUGUEZA. 



( 407 ) 

DISCURSO 

À CERCA 

7 

DO SEGUINTE DIALOGO. 



O Diálogo que aqui se dá ao Público , foi 
composto por occaslão da portentosa cópia 
de Novellas , que apparecêrào pelo meiado 
do século precedente j e a origem delias^ é em 
breves palavras , a seguinte. Honorato d'Ur- 
féf homem de alta prosápia na Lugdunense, 
e mui dado a amores , querendo dar prés- 
timo a infinJos versos que para suns Ama- 
das composéra j e de muitas aventuras amo- 
rosas que lhe acontecerão , formar um Corpo> 
deparou c'uma mui aprazivel invenção. Fin- 
gio que no Forez , pequeno contorno da 
Limanha de Alvernia , houvera , no tempo 

de nossos primeiros Reis, um bando de Za- 
Tom. X, 3a 



( 498 ) 
gáes , e de Zagaias, que morando nas ribas 
do Lignon, e assaz abastados de bens , toma* 
"vão por passatempo levar ao pasto os seus 
rebanhos. Como tinlião vagar sobejo , nào 
tardou ( como bem imagináes ) o Amor de 
os vir des-socegar , e dar origem a quanti-» 
dade de consideráveis acontecimentos. Lá fez 
que succedessem todas as suas aventuras, e 
outras alheias, entresachando-as de versos; 
que máos como elles são , fôrão passando ao 
amparo da arte , com que os fez alli caber. 
Que sustentou elle o total d'essa Obra com a 
viva e íloreada narração , com ficções inge- 
nbosissimas , com personagens j cujas índoles 
e costumes tão delicadamente imaginou , 
quão agradavelmente variou , e constante os 
proseguio. E compôz d'essa feição uma No- 
vella , que grande nomeada , e muita estima 
grangeou entre as pessoas de estremado gos- 
to j não obstante incluir ella viciosas máxi- 
mas mordes, apregoar sempre amor e molli- 
dão , e chegar ainda ás vezes a oíTender o 
pejo. Quatro volumes compôz , e os intitulou 
Astréa; que assim se chamava a mais formosa 



(499) 
tlessas suas Pastoras. Como elle nesse entre- 
meio desse á vida fim , seu amigo , ou como 
outros querem , seu Criado Baro , sobre os ap- 
pontamentos que d'Urfé deixara , compôz o 
quinto volume^ que concluia a Novélla , e 
que não desmerecco dos qratro anteriores. 
A grande voga da Astréa aquéceo de sorte os 
disertos d'essa era , que á imitação delia com- 
posérào infindas outras : táes houve então 
que se alongarão a dez , e a doze tomos. Foi 
no Pnrnasso uma spécie de alluvião. As mais 
gabadas íôrão as de Gomlerviile, de la Cal- 
prenède, de Desmarets , e de Scuderi. Esses 
imitadores porem ^ no esmerar-se no encare- 
cido, e npurando-se em ennobrecer índoles e 
modos de suas personagens , dccahirão ( a 
meu parecer ) n'uma grande puerilidade. Que 
em vez de tomarem por assumpto os Pasto~ 
res occupados èm carear-se o coração das 
Pastoras a quem rendiào cultos , tomarão 
para emprego tal, não só Príncipes eReis, 
mas até os mais insignes Capitães da antigui- 
dade ; e esses no-los aíligurárão influídos 
nesse mesmo spírito dos táes Pastores , e 

3i * 



( 5oo ) 
qtiíisi como elles votados a nunca íallat , H 
nunca ouvir f aliar, senào de amor. De mòdo) 
que em lugar de que d'Urf"é , na sua Astréa j 
de seus mui frívolos Zagáes fez Heróes e de 
alto porte , elles de Herórs mui nomeados na 
Historia íizérão mui frívolos Pastores. Mais 
ainda : de Burguezes conhecidos seus fízérão 
Zagáes super-frivolissimos. Todavia acharão 
admiradores , e vogáráo altos mares as táes 
Obras ; sôhrelevando~as em louvores o Cyro 
e a Clelia de Mademoisella de Scudéri (i). E ora 
ella nào só cahio nessa puerilidade , tíias foi 
quem a levou mais ao galarim. E esse Cyro 
que ella presentar devera , como o Rei pelos 
Prophétas na Biblia promettido, por Heró- 
doto havido pelo maior Conquistador , e por 
tal afíigurado também por Xenophonte \^i) ; 
lugar ( digo ) de nos dar nesse Rei Cyro um em 
modelo da mais alta perfeição , nos deo ura 
Artaméne mais sem sizo que todos os Cela- 
dões ^ e que todos os Sylvendros , que todo 
^ ^ — . — -d 

(i) Irman de M. de Scudéri, também autor. 
(2) Que da vida de Cyro nos deiíou uma Novella. 



( 50T ) 

embevecido e desvelado em Mandane^ noite 
e dia se lamenta ^ e geme , e se enleva em seu 
namoro. Peior ainda ella fez na sua Clelia. 
AUí os grandes figurões da República Ro- 
mana , os Horacios Cocles, os Mucios Scé- 
volas , as Clelias , as Lucrecias , os Brutos 
mais esperdiçados ainda que Artaménes , 
compõem Cartas Geográphicas de amor; uns 
a outros se propõem enigmas e questões ga- 
lans , e fazem, quanto desmentir pode o ca- 
racter e a heróica d'esses primeiros Romanos. 
Como era rapaz, quando essas Novellas 
deScudéri, dela Calprenède, etc. davão mais 
rijo brado , com effrito as li com admira- 
ção, como todos então as liào, tomei-as por 
obra prima do nosso idioma. Viéráo annos , 
abrio-me a Razão os olhos, vi o quanto erão 
pueris. Já ia abrolhando em mim o spirito da 
Sátyra , e não me dei folga, que á maneira de 
Luciano , não desfrechasse apodos , não s6 
contra essa futilidade, mas contra a delambi- 
da affectacão da iinííuao;em, contra essas con- 
versações frívolas e vagas, contra esses vanta- 
josos retratos a cada página traçados : e que 



( 50'2 ) 

retratos ? De pessoas de medíocre formosura ; 
e ás vezes bem mal-encaradasj e por lim con- 
tra esse descompassado palaiifrorio de amor. 
Como porém Mademoisélla de Scudéri vivia 
ainda ^ contentei-me de debuxar na memória , 
este diáiOi:,oj e tanto o não imprimi então, 
que nem por escripta o puz : que esse peza- 
dume de que o lessem não quiz eu dar a uma 
Autora de tanto merecimento , e que a jul- 
gar pelos que a conhecerão , não coníorma- 
vào as ruins máximas de suas Novellas com 
o seu spirito, e ainda menos com a sua probi- 
dade e pundonor. Mas hoje que sepultada 
jaz 5 e riscados são da lista dos viventes os 
outros Compositores doesse género , dou ao 
público o tal Diálogo como na memóiia 
com elle dei : tanto agora mais necessário , 
que muitos que m'o ouvirão, tomái ào de cór 
vários trê hos delle , e o tem distribuído 
com titulo de meu ; e assim corre impresso 
em terras estrangeiras. Ei-lo agora , que o 
dou eu mesmo. Mas vir-lhe-háo igaáes ap- 
plausos aos que elle grangeava , quando eu 
em varias companhias o recitei f E que a 



( 5o3 ) 
todas as personagens que nelle introduzi 
lhes dava o tom que lhes quadrava ? Erão 
essas então muito lidas , e avistavão todos o 
íino da zombaria. Hoje ei-las cabidas no 
esquecimento essas Novellas , ninguém as 
lê já : não tenho que o Diálogo faça o mesmo 
efíeito. Sei comtudo , e muito ao certo , que 
todos os Homens de bom juizo e de sólida 
virtude me farão justiça , e facilmente re- 
conhecerão , que de baixo do véo d'uma 
ficção j por extremo jovial nas apparencias , 
e destampada e louca, onde quanto nella 
acontece j nem verdade , nem verosimilhan- 
ça existe y lhes dou eu a menos frivola tal- 
vez de quantas Obras me sahíráo da penna. 



( 5o5 ) 



OS HEROES DE NOVELLAS 

DIALOGO 

À MANEIRA PE LUCIANO, 



Miííos ( sahinão do seu tribunal acJwgaão ao palãcia 
de PlutÃo ). 

iVJ ALDiTO seja o Rábula palrador, que toda i^ ma,- 
nhan me lia gastado! e por um trapo de lençol, 
que a nm Remendão roubarão no atravessar o Lé- 
tbes. Nunca tanto me atroarão com Aristóteles, 
fiem ha hi Lei que me elle não trouxesse á báilha. 

P L u T Ã o. 
Muito agastado , oh Minos , vens. 

INI I N o s. 

Aqui sois oh infero Monarcha? E a que motivo? 

P L u T Â o. 

Por te dar a saber... Mas dize-me antes que Rá- 
iDula foi esse, qui tão doutamente te enojou esta 
íuanhan. Já cá desceo morto Huot? desceo Martinet? 



( 5o6 ) 
MlKf o s. 

Amda não , giaças a Deos. Mas é um mancebi- 
iilio dossa scliola. Que asnidades me nào disse? 
E o como as foi appontoando com citações de an- 
tigos sábios?, A pezar de que mui desazados a fallar 
os piinba, sempre c'um gentil apodo , e com guapice 
os tratava : » Gabmtemcnte diz Platão no seu Ti- 
mêo. Lindo é Séneca no seu Tratado dos Benefícios. 
Muito airoso é nos seus apólogos Esôpo. » 
Plutão. 

D;ís-me a vera eífigie d'um mal-criado bem ma- 
clniclio. Porque lhe de'ste tanta re'dea. Mandáras-la 
calar. 

Min os. 

Calar elle ? que , uma vez que enfiava a par- 
lenda , nem com eu me levantar da cadeira, nem 
com lhe eu clamar » Conclue , advogado. » Qual 
concluir ! Consumio a si só a audiência inteira. 
Nunca tal fui ia de fallar hei visto. Se tal desman- 
cho dura , largo o pôsto.j^ 

P L u T Ã o. 

Verdade é que nunca os mortos cá viérão tão 
tolos como agora. Tempos ha que nem um cá veio 
que sizo tenha,e sem fallar nos que o Foro cursão , 
naida ha mais destampado , que os que se dizem 



( 5o7 ) 
ISrbanos. Fallão certa gerigonça que elles appelliflào 
stylo galan ; e por mnis que eu e Prosérpina lhes 
inculquem que nos enojão, nos apódão ãe Eur- 
guezes , e em nada palans. Já me aíErmão que vai 
essa peste infesi.Uido os infernáes contornos , e tam- 
bém mesmo os Campos Elysiosje de modo, que Já 
os Heróes, e direi mais, já as Heroinas, que lá 
mcrão , dJrào nessa grande louquice ; mercê que 
lhes fizérão certos autores que tão guapa linguagem 
lhes imbutirão , e os transmudarão em esperdiça- 
dos amadores. A dizer-te a verdade, custa-me a 
crê-lo. Como ideiar que um Cyro , que um Ale- 
xandre , dispare de súl)ito , n'um Celadon , n'uni 
Thyrsis ? Cre'dito quero dar somente aos olhos. Já 
os mandei vir dos Elysios , e até do Tartái^o esses 
famigeros Herúes ; para o que fiz preparar esse 
grande sallão, a cujas portas vês os Guardas. E 
que é de Rhadamantho ? 

Mm os. 
Pvhadamantho ? Atirou-se ao Tártaro , para ver a 
entrada dum Loco-tenente criminal (i), que ei-lo 
que chega do outro mundo : do tal aíBrmão que 
fora , em quando viveo , tão celeljrado por sua 
capacidade em assumptos de judicatura , quão 
difamado por sua excessiva avareza. 

(i) Tardieu e sua Mulher. 



( 5o8 ) 

Plutão. 
Não e o tal que se pôz em pontos de o mattarcm 
çegunda vêz , por nao querer pagar a Charonte a 
passagem do Rio ? 

Miííos. 

Esse mesmo em pessoa. Se lhe visses aMiilheV? 
Foi painel que dava riso , o vê-la entrar enibu- 
rilhada n'uni lençol de scdm. 

Plutão. 

De sctim ? Que magnificência! 

MlNOS. 

Qual magnificência! Por forráta o fez. Co seo três 
theses dedicadas a seu marido... Que picara mulher! 
Temo que nos empeste o infeVno todo. Não ha 
dia que me não quebrem os ouvidos com furtos 
que ella faz. Pioubou ante hontem a Clotho a 
roca ; e ao Remendão o lençol com que tanto me 
aturdirão esta mardian. Que ideia é a tua ? pe- 
jares o infeVno com tão perigoso fardo ? 

PlltÃo. 

Pois não havia de entrar c'o marido ! visto que 
este sem ella mal condemnado fora. Eis Rliada- 
mantho que a propósito nos vem. Mas que tem ? 
<jue espantado me parece vir. 



( 5or)) 
Rhadamantho. 
Potente Rei do Tártaro , avisar-te venho , e que 
cuides em defendei -te a ti, e ao Reino teu. For- 
jado é no Inferno um grande partido. Todos esses 
Réos negão-te obediência , pegarão em armas. Pro- 
methéo já lá o encontrei c'o Abutre em punho; 
Tântalo em borrachado como um odre; Ixion que 
violou uma das Fúrias; Sisypho sentado no seu 
rochedo , que exhorta os convizinhos a sacodir o 
jugo de teu dominio. 

MlNOS. 

Os malvados. D'ha muito , que eu aventava essa 

desgraça. 

PltjtÃo. 

Não tomes susto. Verão como eu sei trazé-los 
ao jugo. Mas não percamos tempo. Que se lhes es- 
torvem as entradas ; dóbre-se a gUarda das unnhas 
Fúrias. Armem-se as milicias do infe'rno todas ; sol- 
tem o CeVbero. Tu, Rhadamantho, vai dlzera Mer- 
fcurio, que toda a artilharia de Júpiter meu hmão 
aqui m'a remêtta. Tu , Minos , comigo fica. Ve- 
jamos , se os nossos Heróes estão no caso de 
nos defenderem. Bom tino íoi o meu em os mandar 
cá hoje vir. E quem esse pobrête que lá nos vem 
com saccóla , e com bordão. Ah ! ah 1 e e^se doudo 
de Diógenes. » A que vens tu ? 



( 5io > 
Diógenes. 
Ouvi que estavas atarefado. Sou Vassallo f,el: 
venho oíTerecer-te o préstimo do meu bordão. 
Plutão. 
Bordão bem prestadio ! 

Diógenes. 
Não zombes : que talvez não serei cu o mais 
desazado dos que mandas vir. 

PlutIo. 
o porque não cliegão já os Ileróes? 

Diógenes. 
Já ah\ dei c-um l.ando de mentecaptos ; e creio 
que ^são os táe.. Due-me se e baile ,„e nos queres 

Plutão. 
Como , baile ? 

Diógenes. 
Baile, sim. Q.,e em trajes os vi eu que quadrão 
^em com dansa. Que guapos ! q„e game„h„s ! 

^adahe. v,s,o mais galan. nem mais Adoms. 
PlutIo. 
De vagar, Diógenes. Nem sempre motejos cabem 
Satyncos não valem comigo. Tanto mais que aos 
Heroes se deve acatamento. 



( 5ii ) 
Diógenes. 

Lá t'os dou a julgar; ei-los. » Cliegaí, famígeros 
Heróes , chegai vós mais famígeras Heroinas , que 
abalastes com vosso brado este Universo. For- 
mosa é a occasião de assinallar-vos. 

Plutão. 

Calate , que um apóz outro que venlião queVo, 
e sem mais séquito , quando muito , que do Con- 
fidente. Mas passemos , antes que tudo , Minos , 
passemos ambos ao sallão que te disse mandara 
preparar para os receber. Lá mandei pôr cadeiras, 
e balaústes , que nos separem de toda a mais 
companha. E^nlrcmos. — Bem está tudo. Fizerão 
o que eu mandei. Vem comnosco , Diógenes -, dir- 
nos-hás os nomes d'esses Heróes, como elles en- 
trando forem. Que a saber como tomaste conlie- 
cimento com elles , ninguém melhor conta que 
tu dará do feito. 

Diógeiíes. 

Dá-la-hei quanto caiba no meu poder. 

PlutÃo. 

Põe -te pois á minha ilharga. Vós Guardas , 
mal que aos que forem entrando, haja feito as 
minhas perguntas , vão-mos passando logo a esses 



(5í2 ) 
Compildos c tenebrosos corredores que encostados 
ficão a este sallão , e que lá aguardem as minhas 
ordens. Sentémo-nos. Quem é esse que como a 
descuido encostado no seu Escudeiro, primeiro 
chega? 

DiÓGEjVES. 

É o grande Cyro. 

PlutÂo. 

É pois esse grande Monarcha , que transferio 
á Pérsia o Medo Império , e que tantas batallias 
venceo ? Nos seus tempos vinlião-nos cá os ho- 
mens por trinta, e por quarenta mil todos os dias» 
Ninguém cá tantos nos remetteo. 

DlGGEKES. 

Não te escape chamar-lhe Cyro. 

PlutÃo. 

K por que causa? 

Diógenes. 

Porque esse nome já o perdoo. Perdeo. líôje 
chama-se Artaménes. 

PlutÃo. 

Onde e' que elle pescou o nome de Artaménes? 
Nunca tal nome li. 



( 5i3 ) 

Diógenes. 

É porque nunca lestes a sua vida. 

PlutÃo. 

Não a li ? Eu , que a Heródoto como qualquer 
o sei ! 

Diógenes. 

E co'esse teu saber nos dirás tu , quem moveo 
Cyro a conquistar tantas Provincias, a atravessar 
a Ásia , a Média , a Hyrcania , a Pérsia , e a destruir 
meio mundo? 

Plutão. 

Boa pergunta 1 Era Princepe ambicioso , e queria 
avassallar a terra toda. 

Diógenes. 
Como te enganas ! Queria libertar a sua Princeza, 
que lh'a roubado tinhão. 

PlutÃo. 
Que Princeza ? 

Diógenes. 

JNlandane. 

PlutÃo. 
Mandane ? 

Diógenes. 

Ella mesma. Sabes tu quantas vêzes a roubarão? 
Tom. X 33 



( 5i4) 
Plutão- 
Onde queres tu que eu dê co' isso? 

Diógenes. 
Roubráão-na outo vezes. 

P L u T Ão. 
Por muitas mãos passou ! 

Diógenes. 

Por ce'rto. Mas Ião virtuosos erão esses facinoro- 
sissimos , que nem dedo posérão nella. 

Plutão. 

Não engulo essa. Mas não dêmos trela a esse 
doudo de Diógenes, e ouçamos o que Cyro nos diz. 
Estamos a ponto de pelejar 3 e para General do 
meu Exe'rcito chamado vens. E não responde? Que 
é o que elle tem ? Disseras que não acerta onde 
sevê. 

Ctro ( exclamajido cos olhos em alvo^. 

Oh divina Princezal 

Plutão. 
Como assim? 

C Y K o. 
AU! Mandane injusta 1 



(5.5) 

P L U T Ã o. 

A que vem cá isso ? 

Cyro. 

Lisonjas , comprazentissimo Feraulas. Tanta cor- 
dura tens que imagines que Manei ane , a illnstre 
Mandane, haja nunca de volver olhos ao desfortu- 
noso Artame'ne? Amemo-la todavia. Mas amare- 
mos nós uma crue'I ? Serviremos nós uma insensi- 
vel ? Adorá-la-hemos nós inexorável ? Cyro , sim : 
ha-se de amar uma crue'l. Sim , Artamene, servir- 
se-ha uma insensível. Sim, Filho de Cambyses, 
ha-se de adorar a inexorável Filha de Cyaxares. 

P L U T A o. 

O tal Cyro treslouca. Dou por certo o que diz 
Diógenes. 

DlÓGEWES. 

Vês ao claro que a historia de Cyro ignoras? Mas 
dlze ao Escudeiro Feraulas que t'a venha contar ; o 
que elle muito folgará. EUe que sabe de ccr quantos 
pensamentos hão volvido no ceVebro de seu Amo ; 
e tem appontadas num rói quantas palavras Cvro 
entre si , disse , desde que ao Mundo veio ; e um 
papelorio, que sempre na algibeira traz, das Cartas 
que escreveo seu Amo. Verdade é, que te darão 

33 * 



( ííiO ) 
abrlmentos tle bôcca : que não tem elle de uso 
fazer curtas as narrações. 

P L u T Ã o. 

Vagar me crês tu de sobra ? 

C Y II o.' 

Mas , oh muito accareante pessoa... 

P L u T Ã o. 

Que stylo de linguagem! Quem é que jamais 
assim fallou ? Dize-me , oh mui choramigas Arta- 
méne , não te sentes vontade de gueiTear ? 

C Y R o. 

Oh consente-me esse favor, Plutão divino, que 
eu vá ouvir a historia de Aglátidas , e de Amestris , 
que se vai contar. Que é um dever que nos incumbe 
á cerca d'esses dousillustres desgraçados. Em tanto, 
aqui fica o leal Fe'raulas , que dê miúda conta da 
minha, e de quanto é inpossivel a minha felicidade. 

Plutão. 
É o de que eu não trato de me informar. Man- 
dem-me embora esse chorão. 

C Y R o. 

Por mercê... 

Plutão. 
Se te não vás... 



(5i7) 

C Y R o. 

Com effeito.... 

Plutão. 
Pônhão-m'o fora. 

C Y R o. 
Cá , no meu particular... 

Plutão. 

Se te não somes daqui.... Ei-io fora. Virão nunca 
vóssês tão aturado choro ? 

Diógenes. 

Inda ahi não está tudo. Vai lagiimejar agora a 
Historia de Aglátidas e Amestris ; e nove gordos 
volumes ainda tem que continuar nesse fadário. 

Plu T Ã o. 

Embora o cumpra : e cem tomos , se elle quizer , 
dessas asnidades. N'outros negócios tenho que cui- 
dar. Quem é essa Mulhe'r, que ahi vem ? 

Diógenes. 

Não a conheces ?E Tomyris. 

Plutão. 

Atarásca Rainha dos Messagêtas ? Que ensopou 
a cabeça de Cyro n um balde de sangue humaao? 



( 5.8) 
Por essa bem estou que não é chorona. Que é o 
que ella busca ^ 

T o M Y R I s. 

Biisquem-me^ que a perdi , minha Carteira ; 
E m'a déni , sein a abiir cerrada , e inteira» 

Diógenes. 
Carteira? Não a sinto cá : nem é traste , de que 
me eu sirva. Que os bons dittos que me vem á 
Lôcca, outros tómão por dcsve'lo recolhê-los , sem 
que me eu canse em assentá-los na Carteira. 

P L U T Ã o. 

Ella busca e rebusca. Pouco ha que a vi afio* 
roando quantos cantos e recantos esta salla tem. 
Que havia pois, grande Rainha, de tão subido va- 
lor nessa Carteií^a ? 

T o M Y K.IS. 

Um madrigal , que esta manhan compuz ao do- 
noso inimigo que eu adoro. 
MiPí o s. 

Como é doce l Não direis que ella é feita de aU 
côrce ? 

(i) são estes tlous versos, os prijiiciros com que Tomy- 
ris abre a quinta scena do primeiro acto da Tragedia de 
Cyro conípcJsta por QuiuauU, 



( 5i9 ) 
Diógenes. 

Quanto sinto que a Carteira se perdesse. Teria 
€u gáudio de ler um madrigal Messagcte. 

Plutão. 

Saibamos quem é o donoso inimigo, que ella 
adora. 

Diógenes. 

E esse mesmo Cyro, que daqui despedes. 

Pl u tÃo. 

Irrório! E ella mandou mattar o idolo de sua 
aíTeicão ? 

Diógenes. 

Foi um abuso , com que ha vinte e cinco se'- 
culos nos hão logrado , por erro do Gazelteiro da 
Scythia , que escorando-se num boato falso, nos 
assoalhou a noticia da sua morte. Quatorze ou 
quinze annos correm já desde que d'esse erro 
nos desluzirão. 

PlutÃo. 

Se é erro, eu ainda nelle creio. Engan^ísse -se 
ou não, o Gazetteiro da Scythia; vá ella todavia, 
buscar a bel prazer , nessas galarias o seu donoso 
inimigo ; e não poríie em inquirir pela Carteira 



( 5o.o •) 
que elli) púdc ser perdeo por seu descuido. Oce'rto 
é qi.e lli'a não furtou nenluui) de nós. Mas que 
roi u.-la vóz e essa que vem lá abaixo garganteando 
cerla modinha. 

Diógenes. 

E esse famigerado torto , Horácio Cocles , que 
vem cantar a um écclio , (que um gr arda teu 
me disse que ; erto daqui resòa ) uma cantiga que 
elle a Clelia compóz. 

Horácio Cocles ( Cantando ao éccho o estribilho da 
cantiga a CLélia ). 

» Publique Pheníssa mesma , 
« Que nada lia, como Clelia tão formoso ». 
PlltÀo. 

Que tarântula tomou a esse doudarraz de Mi- 
nos , que ri ás gargalhadas ? 

Mmos. 

E quem se não ha-de escangalhar de ouvir Ho- 
rácio Cocles cantar ao éccho? 

PlutÃo. 
Por cerfo que é caso raro ! e que é muito para 
ver. D-Kãv)-llie ([iie entre •, mas que nem por isso 
desminche o giuganteio ; e eu sei que folgará de 
o ouvir Mi nos de mais perto. 



( 521 ) 

Min os. 

Certo que sim. 

Horácio ( cantando ). 

» Publique Vlienissa mesma , 
» Que nada lia como Clélia , tão formoso. » 

Diógenes. 

Atinei-lhe co'a toada. É a comporta de Coimbra. 

HorxAcio ( cantando ). 

» Publique Phenissa mesma , 
w Que nada ha como Clélia tão formoso » - 

PlutÂo. 

E quem é essa Phenissa ? 

Diógejíes. 

É uma dama de Cápua das mais gabadas por 
galante , e por dis<reta , que tem sobeja presumpçáo 
de sua formosura , e de quem este Horácio mo- 
teja nessa cnntiga que de repente alinhavou , afim 
que quanto ahi ha confesse rendimento á formo- 
sura de Clélia. 

MlNOS. 

Nunca eu tal imaginei que esse illustre Romano 
tão egrégio músico , nem tão Poeta fosse de 



( 522 ) 

repentinas coplas. Mas por esta que elle canta o 
duu por Poela e músico chupado. 

PlltÃo. 

E eii sinto que dar vaga a bugiarias táes ê 
disparate. Olá, Horácio Cocles, impávido guerreiro, 
que único e só, contra um exército inteiro , uma 
ponte defendeste , como desatinaste , depois de 
morto , a ser Pastor? e que louco, ou louca foi 
a que te ensinou a gai gantear ? 

Horácio. 

» Publique Phenissa mesma , 
» Que nada ha , como Clélia , Ião formoso. » 

MiJíos. 

E como elle da cantiga se namora ! 

PlutÃo. 

Vá-se elle por essas affcrrar algum éccho. Lé- 
\em-no dalii. 

Horácio ( andando e cantando ). 

» Publique Phenissa mesma , 
> Que nada ha , como Clélia , ião formoso ». 

Plutão. 

Oli, que doudo, e que doudo! Nem nos virá 
algum que mais juizo tenha? 



( 523 ) 

D I Ó G EN ES. 

Lá te vem quem te contente : que entrar vejo a 
mais illustre de todas as Pxomanas; que para se eva- 
dir dos arraiáes de Porsena , a nado transpôz o 
Tibre. E essa mesma Cle'lia por quem Horácio 
Cocles anda tão esperdiçado. 

P L u T Ã o. 

Cem vezes, quando lia Tito Livio fiquei pasmado 
da aííouteza dessa moça. Mas receio me entra que 
Tito Livio me não minla. 

D 1 Ó GE .; ES. 

Ora escuta o que ella te que'r dizer. 

C L E L I A. 

E pois certo , oh cordato Rei do Tártaro , que 
ousa alevantar-se contra Plutão , contra o virtuoso 
Plutão , um bando de amotinados ? 

P L u T À o. 

Acertámos por fim c'uma pessoa de juizo. E 
ce'rto oli filha minha, que pegarão nas armas os 
criminosos do Interno*, e que mandámos aos Cam- 
pos Elysios chamar os líeróes, c que a soccorrer- 
nos venhão. 

C L E L I A.. 

Por gran mercê me digas , se acaso esses rebeldes 



( 5i4 > 
algum distúrbio hão levantado no Reino de Tenro? 
' Que desesperada eu íôr.i, que se alojassem na al- 
deia de Desvelos. Tomarão elles já a póvoa de Es~ 
criptos ãe amores ^ ou a de Galantes Cartas ? 

Plutão. 

Que terras dizes? Táes me não lembra tê-las na 

Carta visto. 

Diógenes. 

Nem delias Ptolemeo falia. São descobrimentos 
modernos. Não reparas , que ella nomeia terras que 
jazem no Continente do namoro? 

Plutão. 

É Continente de que não tenho noticia. 

C L ELI A. 

Com efíeito discorre com justidade o illustre Dió- 
genes. Que três diílercnças ha de Tenro : Tenro 
sobre estima , Tenro sobre inclinação , e Tenro sobre 
agradecimento. Quem pertende chegar a Tenro 
sobre estima tem de primeiro passar pela aldeia de 
Desvelos... 

PlutÃo. 

Inteirado estou, minha donzella, que mui deco- 
rado tenso Reino de Tenro; e que bom estirão 
darás nesse Remo a quem te namore. Mas eu que tal 



( D-iS ) 

Beino não conheço , nem conliecé-lo que'ro , te digo 
mui francamente que não sei se essas três aldeias , 
ou três rios a Tenro le'vão-, mas que os dou por es- 
trada Coimbran para a Casa dos Orates. 

Mino s. 

Não fora máò ajuntar á Carta de Tenro essa Casa 
dos Orates. São, pelo que eu vejo, paizes desco- 
nhecidos , esses de que se ha fallado, 

P L x; T Ã o. 

Também , pelo que entendo andáes de amores , 
minha ricca , e minha bella. 

C LELI A. 

Sim, Senhor : concedo que a Arunte amizade 
tenho tal que desliza (O em verdadeiro amor : mas 
taml)em é para considerar , que esse admirável fillio 
d'ElPvei de Cluslo, em toda a sua pessoa tem um 
não sei que tão extraordinário , e tão pouco imagi- 
nável , que menos qiie não lenhaes inconcebivel 
dureza de coração, é quasi impossivel que não con- 
cebáes a seu respeito uma paixão em todos os mo- 
dos racionavel. Porque em fim... 



(O Aqui, como em outros passagens arremeda Boileau , 
qvianlo lhe é possível , o Slylo dos Autores dessas nc- 
vellas. 



( 5^6 ) 

P L V T Ã O. 

Porque em fim, porque em fim... digo eu que 
inexplicável aversão tenho a quantas loucas ha; e 
que quando o filho d'FJPiei de Clusio inimagináveis 
encantos possuirá, e vós, oh minha ricca, co'a 
vossa inconcebivel parlenda.... Dai-me estremado 
prazer, com vos irdes , e mais esse vosso esperdi- 
çado aos quintos iufe'rnos. Graças; que já partio. E 
tem de nos sempre vir derretidos amantes? Aposto 
eu que até Lucrécia nos virá tratar de amores ? 

Diógenes. 

Não serás baldo d'esse gosto : que ella alii pinli- 
parada ,(i) vem. 

P LU T Ão. 

Foi gracejo em mim. Nem praza ao Céo, que eu 
nódoa ponha na mais virtuosa das esposas. 

Diógenes. 

Ne fiéris. Que lhe acho eu ares de loureira; e 
certos olhozinhos azevieiros... 
Plutão. 

Bem visto é que não conheces quem é Lucrécia. 
Ah que SC a tu viras a primeira vez, que aqui en- 

(i) Em piotura ao vivo. 



( 527 ) 
trou , sanguenta e desgrenhada ; punhal na dextra , 
assanhada , a cólera affigurada no semblante , entre 
os visos pállidos da morte. Porque te bem conven- 
ças , sobra que lhe perguntes o que ella do amor 
pensa ; e vê-lo-has então. Dize-no-lo Lucrécia , mas 
bem explicado e pelo claro. Crés tu , que se deva 
amar. 

Lucrécia ( cú'a carteira na mão ). 

E releva absolutamente, que á cerca d'esse ponto 
eu dá resposta exacta e decisiva ? 

Plutão. 
Sim. 

Lucrécia. 

Ei-la , e muito comesinha aqui lavrada nesta car- 
teira. Lêde-a. 

Plutão ( lendo na carteira ). 
» Sempre, se. si. mas. amasse, eternos, ai triste, 
amores, de amar : doce. fora. não. quão. ha » Que 
engrazada mexordia ! 

Lucrécia. 
Por seguro vos dou , que nunca mais clara , tenho 
lido, nem mais bem espevitada re'sposta. 
P L u T Ã o. 
Bem visto é aqui , que de uso tendes a clareza no 
íiizer. Que tresloucada! Quem tal jamais ha visto? 



C 528 ) 
• Não. SP. mas.et erno. Onde e que eu hei-de atinar 
c'um Édipo que tal enigma me desciíre? 

Diógenes. 

Longe daqni não está : que entrar avisto eu queni 
te será de préstimo. 

Plutão. 

Quem? dize. 

Diógenes. 

Esse Bruto , que remio Roma da tyrannia dos 
Tarquinos. 

Plutão. 

Esse austero Pxomano , qne mandou mattar 
seus fillios , porque conspirarão contra a Pátria ? 
Bruto explicar enigmas ! Que louco que és , Dió- 
genes. 

Diógenes. 
Eu louco ? PiCpara bem , que elle não é já esse 
auslcro Bruto , que tu cuidas. Hoje é de ingenho 
naturalmente terno 6 todo derretido •, que com- 
põe véisos lindíssimos , e faz escriptos de amores 
jdo mais ílno galanteio. 

MlNOS. 

Mas , para lhe mostrar as palavras do enigma 
precisa mostrar-lh'as escriptas , ou de cór sabê-las. 



1 



C 5ig) 

DiÓgesíes. 

Oh não te aíílijas , que muito ha que na carleítà 
delle andão escriptas. Xão hajas medo que uma car^ 
teiía falhe a Heróes d'esse cahbre. 



Plu 



TAOi 



Ora pois dá-nos, Bruto, o sentido das phrasea 
da carteira. 

Bruto. 

E porque não! Ei^las as palavras - Sempre se. 
mas. amasse, etc. aqui escriptas. 

PlutÃoí 
Mesmíssimas , por certo. 

B R U T Ot 

Léj óontinua , e terás visto que atinei co' enleíado 
e co'a finura das palavras de Lucrécia ; e a resposta 
a ellas , pontmho por pontinho , vai nas minhas que 
vão seguintes. 

» Eu, te. verás. de. dá. eterno, idade. 
» Que. haver, portento; amor pôde 

Plutão. 
Não averigúo se essas palavras a ponto umas a 
outras se retrucào. Mas sei mui bem, que nem 
umas , nem outras se entendem : nem me acho com 

Tom. A. a/ 

«'4 



( 53o ) 
desfastio tal fjue me de tratos ao miolo para as 
comineliender. 

D I Ó G E lí E s. 

Estou vendo , que me vem de relance deslindar 
a meada, e pôr-vos corrente o fio delia. Versa todo 
o mysteVio no trocado das palavras. Arrumados nos 
seus lugares , diz Lucrécia a Bruto : 

» Quão doce fora o amar , a amar-se sempre .' 
» jNIas , ai triste.' uão lia amor ete'ruo. » 

Bruto , com trocadilho similhante lhe responde ; 

» Dá , que eu te ame , portento desta idade ; 
)) E verás , que haver pode amor eterno. » 

Plutão. 
Que finura tão grosseira 1 Segue-se dahi , cpie 
quanto dizer-se com elegância queira , lá está no 
d iccionario transpostas as palavras. E possivel que 
t"io qualificadas pessoas como Lucrécia e Bruto 
dessem em tal excesso de extravagância, e em ba- 
gatellas táes seu tempo empreguem? 

Diógenes. 
E por hagatellas táes é que um ao outro se derão 
a conhecer por pessoas de iniinito ingenho. 

P L L T Ã o. 

E por hagatellas táes é que en vo-los dou por 
ialinitamenle orates. Pônhão-nos fura ; que já quasi 



( 53i ) 

que de mim não sei, Lucrécia amorosa! Lucrécia 
namoradeira! QualqueV dia cVesles , não desespe'ro 
de ouvir íallar nos galanteios de Diógenes. 

Diógenes. 
E porque não ? Já Pythágoras namorou. 

Plutão. 
P} th á goras ? 

Diógenes. 

Namorou-se de Theano filha sua , a quem elle no 
galanteio instruíra. Tal no-lo encampa o generoso 
Herninio, na vida que de Bruto nos historiou. De 
Theano é que alcançou esse Romano illustre o for- 
moso symbolo , que atéquí se descuidarão os Au- 
tores de o ajuntar aos outros symbolos de Pythá- 
goras. Ei-lo o Symbolo. — IN os donosos aíFeitos á 
cerca da sua Dama é qije o Philósòpho se apper- 
feiçôa. — 

Plutão. 

Estou na conta. Na loucura é que consiste a per- 
feição da sabedoria. Máxima admirável! Deixemos 
lá a tal Theano. Quem é a que lá nos vem requin- 
tíida exquisi-parla ? (i) 

( I ) Précieuse rklictile, 

34 '^ 



( 534 ) 

Diógenes. 

E a Sappho de Lesbos; a que inventou os versos 
Sapphicos. 

Plutão. 

Tinhão-m'a encarecido por formosa : e ella bem 
feia me parece. 

Diógenes. 

Verdade é que não tem mui lizo o rosto , nem 
mui regulares as feições : mas ha nos seus olhos 
( como ella diz na historia da sua vida ) ceVta op- 
posição entre o branco e o preto... 

P L u T Ã o. 

Piicca prenda! tão formoso como ella fora o Ce'r- 
bero , que logra essa opposição do branco e preto 
nos seus olhos. 

Diógenes. 

Ella , que chega. Alguma questão te aguarda. 

Sappho. 

Sabedor Plutão, supplico-te eu que por extenso 
me expliques o que da amizade pensas; e se crês tu 
que ella , como o amor, capaz seja de terneza? Tal 
foi a generosa conversação , que com o Sábio De- 
mócades,ecom ©agradável Phaon, tive'mos ha dias. 



( 533 ) 
Transcura, por me fazer mercê, ( alguns instantes) 
o cuidado de tua pessoa , e do estado teu , e me 
defme ao claro o que é coração terno , terneza de 
inclinação, e terneza de paixão. 

MlNOS. 

Esta , sim , leva as lampas a todas no des- 
tempero. Aposto eu , que ella é quem a todas 
as outras deo volta ao juizo. 

PlutÃo. 

Que despropósito ! vir-me cá , n'um dia de 
rebellião propor questões d' amor 1 

Diógenes. 

Autoridade tens que o faças. Que esses Heróes 
que já te aqui viérão , no ponto de dar uma batalha, 
em vez de ir dar ânimo aos soldados , designar 
os postos etc. punhão-se a ouvir a historia de 
Timarête , ou de Berefisa , cuja aventura mais 
assinalada , era talvez um escritinho d'amores , 
que se perdera , ou um transviado bracelete. 

PlutÃo. 

Pois se elles treslouquecera , não queVo eu tres- 
louquecer com elles ; e muito menos c'o essa ex- 
quisiti-parla. 



( 534 ) 
Sappho. 

Faze-me esse favor de te descartar d'esse ar 
Tartareo , e provinciano: tóma-me o ar do gentil 
galanteio de Cartlingo e de Cápua. Como é certo 
que para decidir tão importante ponto como o 
que te eu proponho , desejara eu muilo aqui ter 
quantas amigas nossas , quantos amigos illustres 
nossos 1 Visto porem que ausentes se achào , re- 
presente ao agradável Pliaon , o cordato Minos , 
e o engraçado Diógenes , ao galante Esôpo. 
PlutÂo. 

Pára , pára. Que personagem te cá virá , com 
quem traves essa conversa. Chamem Tisiphone. 
Sappho. 

Tisiphone? Conheço-a muito bem ; e talvez que 
te não desagrade o retrato que delia , por pre- 
caução compuz , na tenção que tenho de enxertá- 
la n'alguma das historias , que nós outros no- 
velleiros e novelleirns , nos vemos obrigados a 
contar em cada livro de nossas novellas. 

Plutão. 

Retrato d'um Fúria? É projecto mui de estranhar. 

DiÓGEJVES. 

Não tão estranho que o tu cuidas. Que pintou 
essa Sappho , que aUi vcs, algumas amigas suas. 



( 535 ) 
que em formosura não le'vão lampas a Tisiphonc; 
e que todavia com a cappa de lindas expressões, 
de elegantes exquisitos modos de dizer, que es- 
parzidos vão pelo retábulo , por heroinas passão 
dignas de novellas. 

MlNOS. 

Curiosidade não sei , ou se é loucura , vontade 
me esporêa de ver tão estrambótico retrato. 

PlltÀo. 

Dize-lhe , que t'o mostre. Que o consinto eu 
porque contente sejas. Vejamos que geito lhe ella 
dá, para da mais medonha das Eume'nides , no- 
la pintar aprazivel , e engraçada. 

Diógenes. 

Não lhe ha-de ser de grande lida : que já na 
effigie da virtuosa Arricidia nos encampou uma 
obra prima d'esse lote. Ouçamos ; que á algibeira 
ja me'tte a mão , e nos sacca o tal retrato, 

Sappho. 

A illustre Donzella , de quem tratar vos queVo, 
tem em sua pessoa um não sei que tão furio- 
samente extraordinário , e tão terrivelmente ma- 
ravilhoso , que não me vejo eu medianamente 
enleiada, quando cxpòr-vos imagino o seu retrato. 



( 530 ) 

MlNOS. 

Que bem assentes que estão em seus lugares 
os adverljios tenivelmente , e fiiriosamenle [ 

S.vpruo. 

Tem , de seu natural , agigantada Tisiplione a es- 
tatura , como passando além da altura das pessoas 
do seu se'xo , tão deseni penada porem , e cora 
tal proporção no todo que a sua mesma enormi^ 
dade lhe quadra Ixnn. Pequenos , mas tão cheios 
de fogo os olhos , tão vivos , tão penetrantes , e 
sobre tudo com certo orlado de vermelhão , que 
lhes dá relevo.... Oh ! que c um prodígio vê-los. 
Tem de natureza crespos e annelados os ca- 
bêllos : dirias que cobras são , que se enroscãa 
umas nas outras e que em roda de seu rosto 
retouçando foigão. Não tem no parecer a desbo- 
tada cor dessas mulheres Scythas ; mas sim o más- 
culo, o nobre íulo , que o Sói outorga ás gentes 
da Africa , cujas elle de mais perto com seus 
faios favorece. 

Formão-lhe o seio dons semi-globos de tostada 
simili-Amnzonio bico , e ([ue ( como que do peito 
ausentar-se querem ) languidos c negligentes de- 
bruçar-se vão na petrina. A este geito se lhe com- 
põe o demais corpo. Summamente altivo e nobre 
é o seu andai : duvido que Atalanta se lhe adian"". 



( 537 ) 
tasse na ccrrida. É por cabo , esta virtuosa rlon- 
zella tão adversa aos vícios, e mormente aos giandes 
crimes , que c'um facho na mão lhes vai na cola *, e 
auxiliada por suas illustres Irmans Megera e Alecto 
iguá sno adverso a ella , repouso lhes não dá 
aos máos. Cabe dizer-se , que Moral vivente são 
essas três Irmans. 

Diógenes. 

E bem ! Não é maravilhoso o tal retrato ? 
PlutÃo. 

Certo que sim. E nos deo da feialdade um 
fiel transumpto , (por lhe não chamar formoso). 
Mas e já de sobejo dar ouvidos a essa despro- 
positada. Vamos enfiando a revista dos nossos 
Heróes : e por não tomarmos , como atequí tanta 
fadiga , de os passarmos um por um ; venhào todos 
de golpe esses mentecaptos , e desta balaustrada 
lhes poremos olhos ate que nessas galarias sai- 
bamos que em seguro estão. Nem de lá sáião , 
sem que eu haja determinado o que delles quero, 
Mandem-nos entrar todos juntos- E que caterva ! 
São , Diógenes , todos elles nomeados na His- 
toria ? 

Diógenes. 

Muitos entremeiados ahi vera , <iue são chyme- 
ricos. 



( 538 ) 
PlutÃo. 
Chymcricps? E dão no-los por Heróes ? 
Diógenes. 

E por Heróes de arromba. No pináculo os col- 
locão esses Autores : e aos outros verdadeiros 
Heróes , é iiifallivcl que os lévào de vencida. 

Plutão. 

Fazes-me o gosto de me nomear alguns delles. 

Diógetíes. 

De boa vontade. Orondates , Spitridates , Al- 
canienes , Melinto , Britámaro , Merindor , Arta- 
xandro etc. 

Plutão. 

E fizérão voto esses Heróes todos , como os mais 
de nunca fallarem senão de amor ? 

Diógenes. 

E que fora , a não fallarem assim ? Como se in- 
titularião Heróes se não fossem namoiados?Coino 
se lioje o amor não fora a heróica virtude ? 

PlutÃo. 

E esse gi^ande simplório que lá vem atraz dos 
outros, e que traz a molleza aííigurada no sem- 
blante? Como c que te nomcas ? 



AsTUATE- 

Clianião-me Astrate. 

Plutão. 
E que é que aqui buscas ? 

Astrate. 
Ver a Rainha. 

PlutÃo. 

Que impertinente ] Não dirão por ahi , que eu 
tenho alguma Rainha embocetada , e que a amostro 
a quem a quer ver ?. E quem és tu ? E hás tu sido ? 

Astrate. 

Boa é essa ! Não hás tu lido um Autor Latino , 
que diz : Astratus wixít ? 

Plutão. 

E tanto, de ti , conta a Historia? 

Astrate. 

Tanto. E sobre esse guapo assumpto se en- 
genhou a Tragédia intitulada = Astrate == Tão 
bem são nella manejadas as paixões que os specta- 
dores ás gargalhadas riem desde o principio da 
Tragédia até ao fim : quando cu nella sempre 
choro, porque me não mostrão uma Rainha, por 
quem todo me derreto. 



( 54o ) 

Plutão. 

Muito bem. Vai-te pois ver por essas galarias , 
se ace'rtas co'essa Rainha encantada. Mas quem 
é esse alambazado Romano que ahi vem , depois 
d'esse namorado choramingas ? 

OSTORIO. 

Sou Ostorio. 

PlutÃo. 

Nome é o teu, que não creio que o li na His- 
toria. 

Ostorio. 

Lá de've estar : que o affirma assim Vabbé de 
Puré. 

PlutÃo. 

Bom fiador lE que figui^ fizeste lá no mundo, 
abonado por esse abhé de Pwe ? Virão-te por lá ? 

Ostorio. 

Olá se virão ! Bem o devo ao tal abbé que me 
tomou por Heróe d'uma versaria , que se repre- 
sentou no hotel de Boiírgogne. 

PlutÃo. 
È quantas vezes ? 



( 54i ) 

' OSTOKIO. 

Uma. 

Plutão. 
Vai-te outra vez lá. 

OSTORIO. 

Os da Comédia me dão de rosto; 

PlutÃo. 
E te imaginas tu que seja eu de melhor avença 
que elles ? Vai-te de corrida embocetar no escuro 
d'esses corredores- Que direi dessa Heroina que 
muito se remancha , no despedir daqui ? Oh que 
lh'o desculpo eu : que tão avolumada vem de 
sua pessoa , e tão cabide de armas , que se re- 
pugna a obedecer-me é que o fardel sobejo lhe 
atalha o ir mais presto embora. Mas quem é 
ella ? 

Diógenes. 

Como assim ! Pois não conheces a Pucella d'Or- 

iéans ? 

Plvtao. 

E essa moça mui valente que rei^io a Fi-ança 
do jngo dos Inglezes ? 

Diógenes, 

EUa mesmissima. 



( 54-2 ) 

Plutão. 

Mui cliaiTO lhe deviso o carão , e mui mal-di- 
gno do que delia contão. 

Diógenes. 

Ei-la , que tosse , e se avizinha á balaustrada. 
Alguma i)arlenda estudada traz ; e parlenda em 
verso : que nunca falia senão em verso. 

Plutão. 

É lera ella talento para a Poesia ? 

Diógenes. 

Agora o verás. 

PuC E L L A. 

Grão Piíncepe , que grande ora te chamo. 
Certo , que ao zêJo meu , respeito é freio, 
Mas teu illustre aspecto me redobra 
O corarão , e em redobrá-lo , o susto 
Me redobra. Ao teu illustre aspecto 
Este meu coração se sollicita , 
Tre'pa , se empina, e a dura terra deixa. 
Que nuo tenha r-u desd^dra tom bem forte , 
<^ue a ti , sém '^ue te aggrave , aspirar possa. 
Ponta mortal adquira á espádua esquerda 
Junto á garganta , c qudbre-lhe c'o golpe 
O osso , e das fontes , do quadril , da espádua 
Chova sangue..* 



( ^^43 ) 

PlutÃo. 
E III que língua é que falia ? 

Diógenes. 
Boa peygunta 1 

Plutão. 

Cuidei que fallava Alemão, ou Cantabro. (i) 
Quem é que tal lingua lhe ensinou? 

Diógenes. 

Um Potéa de quem ella foi quarenta annos por- 
cionista. 

Plutão. 

Má criação lhe deo. 

í' ■ 
Diógenes. 

Não, porque o pagassem mal, e não vie'ssem as 
mezadas muito a ponto. 

Plutão. 

Mal empregado dinheiro! Dize , oh Pucella, por- 
que te assoberbaste a memória com esses grossos 
feios vocábulos, tu , que outrora só cuidavas em 
s.dvar a tua pátria, e te adquirires glória? 

(i) Dizem alguns doutos , que muito se parece a liu- 
i.'u;\gcm da Cantábria com a da Baixa Bretanha. 



( 544 ) 

PuCELLA. 

Glória ? 

L'in só sílio lá leva , desse só sitio 
Rccla e rude... 

Plutão 
Kão me arranhes o ouvido. 

Púcella. 
Recta e rude a encosta e' , strelta a vere'da. ' 

PlutÃo. 

Qne jandos versos ! Não lhe ouço um , que a ca- 
beça em duas se não fenda. 

PuCELLÂ. 

Nem fle'cha lia que lá chegue ; e se lá chega , 
De seu sangue se tinge em lá chegando. 

PlutÃo 

Inda mais essa ?Dou por seguro , que de quantaá 
heroínas cá vie'rão , esta é a mais insupportaveL 
Mas lambem é a única que não alardeou ternezas. 
Tudo nella é dureza, é sequidão : e mais a creio 
própria a enregelar a alma , que a inspirar amor* 
Diógenes. 

E não menos o inspirou ella ao valente Dunois. 

PlutÀo. 
Ella? 



(545 ) 

Diógenes. 

Âo grande coração , coração máximo , 
Coração gaande, arcáz de dous amores (i). 

Ouvir compete o tal Dunois explicar esse amor a 
essa maravilhosa moça. 

A táes olhos do Céo , fronte magnânima , 
Tenho respeito só , só estima tenho 
Delia nada desejo ; e sendo amante , 
Amo-a eu c'um amor , que é sem desejos. 
Embora. Arda eu em chammas tão formosas 
E em holocausto aos olhos da Pucella. 

Sabe elle ou não , explicar os seus amore ? Que 
tal ? E não vem a pêllo no guerreiro Dunois bafo- 
rar holocausto ? 

Plutão. 
Ce'rto , que a pêllo vem : e que se pode , com 
versos táes , ir andando essa Guerreira , se ella o 
que'r , lá para essas galai'ias , inspirar igual amor 
a todos esses Heróes que lá estão. Não haja medo 
que ella a alma lhes amollêça. Vá-se já daqui , antes 
que me empurre mais versos; que paciência me 
foge de lh'os ouvir. Graças^ e mais graças que já se 
foi. Já , ao que eu creio , nenhum por ahi apparece. 
Enganei-me : que lá atraz da porta dou com um 
estafermo. Dou-o por sardo , que não ouvio as or- 

f i) Amor a ElRei , e amor Á Pucella. 
Tom, A. 35 



( 540 ) 
dens que dei, de que partissem todos. Conheces-1© 
tu, Diógenes. 

Diógenes. 
É Pharamundo , primeiro Rei de França. 

Plutão. 
Que é o que elle entre si falia ? 

Pharamundo. 
Tu bem o sabes, divina Rosamunda , que não es- 
perei para aniar-te , a dita de conliecer-te : a noticia 
me bastou da tua beldade ; que me veio por um 
dos meus riváes , para me abrazar nas chammasde 
querer-te. 

Plutão. 

E namorou-se ( ao que parece ) delia, antes que a 
visse. 

Diógenes. 

Nem por sombras. 

Plutão. 
Nem retrato delia? 

Diógenes. 
Nem retrato. 

Plutão. 

Se não é louco , não sei eu. o que elle seja. Dize- 
me cá , amoroso Pharamundo, não te dás por con- 



( 547 ) 
tente de haver fundado o mais florente reino da 
Europa , e contar na série de teus successores o 
Rei que hoje domina? Quem te desmanchou o juízo 
co' essa Princeza Rosamunda? 

Pharamukdo. 

"È bem verdade. Mas o amor... 

Plutão. 

E a dar-lhe sempre co'amor! Vai lá nas minhas 
galarias, encarecer as injustiças. E o primeiro , que 
me vem aturdir com amores^ calmo-lhe com este 
sceptro pelas ventas. Lá vem ainda um. Oh que 
lindo coque o espeVa ! 

M I jr o s. 
Toma tento. Repara , que é Mercúrio. 

Plutão. 

Perdão te pe'ço. Mas vens tu , por acaso , fallar- 
me também de amor ? 

Mercúrio. 

Amores ? Eu ? Alguns tratei , não meus , de meu 
Páe sim. Por elle adormentei Argos , e de geito , 
que nunca mais acordou. Novas trago, que te scrãf> 
de gôato. Mal que appontou a celeste artdbaria. 



( 548 ) 
entrarão no seu dcvér teus inimigos. Nunca lu 
mais socegado Rei do InfeYno hás sido que agora 
o és. 



'LUTAO. 



De Jóve núncio divino, a vida me recobras Peio 
nosso , porem , tão chegado parentesco me digas , 
tu que da Eloquência es Páè, como hás soíiiido 
que lá nesse mundo de cima foliem tão destampa- 
das phrases como essas que andão nabeVra (i) mor- 
mente nesses livros que chamão novéllas. Como 
hás consentido que tal linguagem fallem os mais 
egre'gios Heróes da antiguidade? 



(i) Cuido que Boileau foi tão prophéta como o Bandarra; 
e comprehendeo , nesta falia de Plutão , em stylo enco- 
berto e mysterioso os nossos. Tarèlos e seu gallicismo : 
comprehendeo , e enfeixou com as exquisi-parlas de Mo- 
lière ( Précieuses ridicides ) também as nossas Amintas e 
Polixênas. Oh que contente eu fora se nestes meus annos 
alcançados visse levantar-se em Portugal um Juvenal, um 
Euileau , que com o açoute da sátyra , me debreasse essa 
corja de besuntados : se levantasse um Molière , de que 
tanto necessitamos ; e que nos motejasse , no theatro , ao 
vivo , tanto Tarluflb , taulo Medico , tanto Marquez , e 
tanfa Philaminla .' E que doutrinados e corridos servissem 
Ue manifesto padrão iufanie , a quantos, pelo tempo 
adiante tivessem appetitc de imitá-los i 



( 5.Í0 ) 

Mercuiiio; 

Nem eu, nem Apollo quasi que não somos Divin- 
dades já para se invocar; e a maior parte d'esses qué 
hoje escrevem, tomarão por seh mui distincto pa- 
trono , um certo Gongori-parla (i) {Phébus ) que é 
o mais despropositado mostrengo que jamais se vio. 
Outro sim te venho avisar, que peça íoi, que te 
jpregárão. 

PlutÃo. 

Como ! peça? 

Mercúrio. 

Cuidas que os que aqui viérão são os verdadeiros 
Heróes? 

Plutão. 

E multo o creio : e para prova , elles que encerra-^ 
dos tenho nessas galarias , o dirão. 

Mercukio. 

D'ésse engano sahirás, quando te eu mostrar que 
é uma corja de mehantes ( antes phantasmas chy- 
méricas ) desbotadas copias de modernas persona- 
gens , que tivérão a audácia de se intituhirem os 
mais egrégios Heróes antigos ; mas curta lhes foi a 



(i) Veja-se a nota que vai no fira. 

35 * 



C 11o ) 
vida. Lá , pelas al)as do Styx e do Cocyto erradío& 
andão- Não atino em como te lograrão. Acertas 
nolles com algum carácter que inculque IToróes? 
O que os ha' téijui sostido na opinião dos Homens c 
um certo ouripél , uns cc'rlos lúze-liizes nas palavras 
com que ataviarão a esses, cujas, vidas descreverão: 
se os despes d'esse ounpe'l , ei-los táes quáes elles 
são. Até eu, qibando atravessei os Campos Eljsios , 
dei c'um Fiancez, que os conhecerá a todos , mal 
que lhes (hspão os t.ícs atavios : o que ( creio eu ) tu 
facilmente consentirás.. 

, Flutao. 

Tanto o consinto, que já e logo o quero feito. E 
porque teaipo se não pe'rca , fazei oh Guardas, que 
elles dessas galarias , poi' escusas portas saião , e na 
grande praça, todos juntos se adiem. Nós iremo- 
nos pôr nessas varandas da salla te'rrea , para os. 
mirar a nosso bel prazer. Levem lá cadeiras. Pòe-te, 
Meicurio, á minha mão direita, e á esquerda Mi- 
nos ; por delraz de nós te põe, Diógenes-. 

Mino s. 
Ei-los, que, em bandos chêgão de matula, 

PlltÃo. 
Todos ahi estão ? 



( 55i ) 

Guarda. 

ÍS^enhiim ficou nas galarias. 

Plltao. 

Acudão aqui quantos ahi ha de minhas vontades 
executores , Spéctros, Fúrias, Larvas , De'mos, m-- 
fernáes miUcias , que aqui todas mandei juntar. 
Fazei cerco , e. desataviai-mos todos, 

C T R o. 

E mandarás pôr nu e cru um Conquistador cor^o 
cu? 

PlutÃo. 

Generoso Cyro, nu e cru ; não ha remédio. 

Horácio Cocles. 

Um Romano, como eu , que único e só defendco 
contra Porsena e todo o seu exército uma ponte , 
pô-lo-has ahi á veia, como a quakjuer ladrão? 

Pl u T Ão. 
Porque mais á fresca gargantêes^ 

AsTRATE. 

Um galan de tal terneza, e tão. esperdiçado, man- 
das tu que o maltratem ? 



C 55a ) 

P L U T Ã o. 

Aguarda, nguarda ; que te vou amostrar a Raí- 
hlia. Ei-los já despidos todos. 

Meiicurio. 

E o Francez que comigo veio ? 

Fjiakcez. 

Eis-me aqui. Oue desejas de mim? 

Meucliiio. 

Vai-me conhecendo , um por um , toda essa corjdi 

FrANCEZí 

Se os eu conheço? São todos bairristas quasi, e 
vizinhos meus. Bons dias , Madama Lucrécia. Bons 
dias, Monsieur Bruto. Bons dias, Mademoisella 
Cléha , e Monsieur Horácio Cocles. 

P L UT Ã o. 

Verás como os eu amanho , e qúe nada lhes falte. 
Fustiguem-mos lindamente ; não m'os poupem ; e 
mergulhem-m'os bem no Léthes , cabeça abaixo , lá 
onde o Rio é mais profundo ; todos esses Heróes , 
seus escritinhos, cartas galantes , veVsos derretidos , 
matula de volumes , esperdiçado papel em que an- 
dão escriptas suas historias. Avante, Heróes por ai- 



cunha. Eis-vás no fim, ou por melhor dizer, no 
quinto acto da Comédia , que tão curta represen- 
tasteis. 

Coro de Ileròes despedidos a golpes de flagéllos com 
Rosêttas. 

M Ah! Calprenède! Ah! Scudéri! » 

P L x; T Ã o. 

k\\ \ que a tê-los eu... Mas não está ahi tudo. 
Vai-te , oh Minos , por todas as mais provincias dar- 
Ihes aos d' esse lote igual camarço : justiça nelles. 



(*) Pliébiis ( diz o Original ). 

Todos concordão, que nào temos na lingua portugueza 
termo , que signifique um discurso emniaranhado e con- 
fuso , que parece dizer alguma cousa , e do qual se não 
colhe nada. Os Francezes tem PhéÒKS que eu liaforar 
já ouvi por bôccas Lusitanas , daquellas ( digo ) i]ue 
alardeão coiiducta , massacre , affroso , etc. Dou por 
assentado , que é necessário que a lingua adopte os ter- 
mos de que ella carece , quando esses termos consentem 
quese lhe estampe sello portuguez , Signatum prceseule 
nota. Qual será porem , o descarado Pctit-maltre , por 
mais besuntos que tenha de rancez , que se arroje a 
manter a palavra Phébiis como capaz de cunho portu- 
guez ? 

Outro modo haveria de supprir esta falta de termos , 
que e forja los. Hoc opus hic labor. Alguns já de boa 



Deixas-os comigo. 



( 554 ) 

Miiíos. 

Mercúrio. 



^ és aqui os verdadeiros Herócs , que te querem 
falJar. Dir-lhesliei , que entrem ? 

Plutao- 
Folgarei muito de os ver. Mas tão cansado me 
sinto das asnidades que os usurpadores de seus 
nomes me dissérão , que levarás em bem , que 
eu vá dormir um somno. 

forja nos são vindos , e que hoje nos honrão o discurso: 
alguns nos a ouoniatopeia deo , como atroar, zunir 
etc. Também por allusãoe mofa acodirãoaos praguentos ^i^- 
gidce, senequice ; que ha no satyrico mais ampla. Jú Queve- 
do , motejando os Falperras do seu tempo inventou a pala- 
vra composta latini-parla. Conselho foi de Horácio : Dixeris 
egregie , notum si callida verbum reddidcrit junctui a no^'uni. 
Ora , que fosse o Gôngora quem a estrada abrio ao P/ié- 
biis . ou quem mais amplidão lhe conferio ; que fosse o 
Gòngora , quem mòr secjuilo de alumnos teve , tanto Hes- 
panhoes , como Portuguezes , em que lavrou o andaço 
do Gongorismo ; sciiicet o fallar inintelligivel , enlciado e 
camj)auudo ^ ponto é esse , de que ninguém , que teve a 
iufelicidadc de os ler, ou de os ouvir , duvidou nunca. 

Isto assim slabelccido , permittir-me hão os Vortugue- 
zcs eniciididos , c amadores da abundância, e pureza do 
seu nativo idioma , derivar eu de Gôugora , Poéla enos- 



C 555 ) 
inaranhado , e abstruso um termo tão motejador e enér- 
gico , como o Gongori-parla á imitação do Lafini-parla 
de Quevedo , paro evitar o contrabando do palavra PJié- 
hiis que os Tarèlos nos querem introduzir ? Humilde- 
mente lhes offereço o que a rainha pobreza me pôde 
deparar. 



M. ^'«/V^'X-^'^'^-Wt% ^^v%/X* 



O leitor que ler com attenção esta , assim como as mais 
traducções contidas neste tomo , achará algumas passa- 
gens obscuras , e até apenas intelligiveis. Isto procede 
como já disse , de não ter o autor revisto nenhum d'estes 
niamiscriptos. Nelles faltão palavras ; algumas daquellas , 
que o sentido indicava ,suppri eu; mas outras só cotejando 
a^ traducções com os origináes se podem restituir, 

O Revisor dm Obras 



( 5?G ) 



INDEX DO TOMO X. 



Successos de Madama de Sennelerre por cila 

referidos. Traducção do Fraucez. l. 

Ode á Senliora D. Maria Autonictta Matlievon 

de Curnieu, dedicando-lLe a dilta traducção. 3. 

Heroicidade do Amor e da Amizade. Noveíla 

traduzida do Francez. l46. 

Cartas d'uma Religiosa Portugueza. 4^^, 
Os Heróes da Novella; Apólogo Dialogai ; 

Traducção do Francez. 497» 

Nota do Revisor dos Obras. 535. 



ERRATUM. 

Pag. 543 lin. 9. Potéa léa-se Poeta 



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